Orpheu Nº 2: Revista Trimestral de Literatura

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Orpheu Nº 2: Revista Trimestral de Literatura

Elegia

 

 

Minha presença de setim,

Toda bordada a côr de rosa,

Que fôste sempre um adeus em mim

Por uma tarde silenciosa…

Ó dedos longos que toquei,

Mas se os toquei, desapareceram…

Ó minhas bôcas que esperei,

E nunca mais se me estenderam…

Meus Boulevards d'Europa e beijos

Onde fui só um espectador…

—Que sôno lasso, o meu amor;

—Que poeira d'ouro, os meus desejos…

Ha mãos pendidas de amuradas

No meu anseio a divagar…

Em mim findou todo o luar

Da lua dum conto de fadas…

Eu fui alguem que se enganou

E achou mais belo ter errado…

Mantenho o trôno mascarado

Aonde me sagrei Pierrot.

Minhas tristezas de cristal,

Meus débeis arrependimentos

São hoje os velhos paramentos

Duma pesada Catedral.

Pobres enleios de carmim

Que reservara pra algum dia…

A sombra loira, fugidia,

Jámais se abeirará de mim…

—Ó minhas cartas nunca escritas,

E os meus retratos que rasguei…

As orações que não rezei…

Madeixas falsas, flôres e fitas…

O «petit-bleu» que não chegou…

As horas vagas do jardim…

O anel de beijos e marfim

Que os seus dedos nunca anelou…

Convalescença afectuosa

Num hospital branco de paz…

A dôr magoada e duvidosa

Dum outro tempo mais lilaz…

Um braço que nos acalenta…

Livros de côr á cabeceira…

Minha ternura friorenta—

Ter amas pela vida inteira…

Ó grande Hotel universal

Dos meus frenéticos enganos,

Com aquecimento-central,

Escrocs, cocottes, tziganos…

Ó meus Cafés de grande vida

Com dançarinas multicolôres…

—Ai, não são mais as minhas dôres

Que a sua dança interrompida…

 

Lisboa—março de 1915.