Orpheu Nº 2: Revista Trimestral de Literatura
*Iii*
E apagam-se as luzes da egreja
Na chuva que cessa…
*III*
A Grande Esphynge do Egypto sonha por este papel dentro… Escrevo—e ella apparece-me atravez da minha mão transparente E ao canto do papel erguem-se as pyramides…
Escrevo—perturbo-me de vêr o bico da minha penna Ser o perfil do rei Cheops…
De repente paro…
Escureceu tudo… Caio por um abysmo feito de tempo… Estou soterrado sob as pyramides a escrever versos á luz clara d'este candieiro
E todo o Egypto me esmaga de alto atravez dos traços que faço com a penna…
Ouço a Esphynge rir por dentro
O som da minha penna a correr no papel… Atravessa o eu não poder vel-a uma mão enorme, Varre tudo para o canto do tecto que fica por detraz de mim, E sobre o papel onde escrevo, entre elle e a penna que escreve Jaz o cadaver do rei Cheops, olhando-me com olhos muito abertos, E entre os nossos olhares que se cruzam corre o Nilo E uma alegria de barcos embandeirados erra Numa diagonal diffusa
Entre mim e o que eu penso…
Funeraes do rei Cheops em ouro velho e Mim!…