Orpheu Nº 2: Revista Trimestral de Literatura
Manucure
Na sensação de estar polindo as minhas unhas, Subita sensação inexplicavel de ternura,
Todo me incluo em Mim—piedosamente. Emtanto eis-me sózinho no Café:
De manhã, como sempre, em bocejos amarelos. De volta, as mesas apenas—ingratas
E duras, esquinadas na sua desgraciosidade Boçal, quadrangular e livre-pensadora…
Fóra: dia de Maio em luz
E sol—dia brutal, provinciano e democrático Que os meus olhos delicados, refinados, esguios e citadinos Não podem tolerar—e apenas forçados
Suportam em nauseas. Toda a minha sensibilidade Se ofende com este dia que ha de ter cantores Entre os amigos com quem ando ás vezes— Trigueiros, naturais, de bigodes fartos—
Que escrevem, mas têem partido politico E assistem a congressos republicanos,
Vão ás mulheres, gostam de vinho tinto,
De peros ou de sardinhas fritas…
E eu sempre na sensação de polir as minhas unhas E de as pintar com um verniz parisiense,
Vou-me mais e mais enternecendo
Até chorar por Mim…
Mil côres no Ar, mil vibrações latejantes,
Brumosos planos desviados
Abatendo flexas, listas volúveis, discos flexiveis, Chegam tenuemente a perfilar-me
Toda a ternura que eu pudera ter vivido,
Toda a grandeza que eu pudera ter sentido, Todos os scenarios que entretanto Fui…
Eis como, pouco a pouco, se me fóca
A obsessão débil dum sorriso
Que espelhos vagos reflectiram…
Leve inflexão a sinusar…
Fino arrepio cristalisado…
Inatingivel deslocamento…
Veloz faúlha atmosférica…
E tudo, tudo assim me é conduzido no espaço Por innumeras intersecções de planos
Multiplos, livres, resvalantes.
É lá, no grande Espelho de fantasmas
Que ondula e se entregolfa todo o meu passado, Se desmorona o meu presente,
E o meu futuro é já poeira…
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Deponho então as minhas limas,
As minhas tesouras, os meus godets de verniz, Os polidores da minha sensação—
E solto meus olhos a enlouquecerem de Ar! Oh! poder exaurir tudo quanto nêle se incrusta, Varar a sua Beleza—sem suporte, emfim!— Cantar o que êle revolve, e amolda, impregna, Alastra e expande em vibrações:
Subtilisado, sucessivo—perpétuo ao Infinito!… Que calótes suspensas entre ogivas de ruínas, Que triangulos sólidos pelas naves partidos! Que hélices atrás dum vôo vertical!
Que esferas graciosas sucedendo a uma bola de ténnis!— Que loiras oscilações se ri a bôca da jogadora… Que grinaldas vermelhas, que léques, se a dançarina russa, Meia-nua, agita as mãos pintadas da Salomé Num grande palco a Ouro!
—Que rendas outros bailados!
Ah! mas que inflexões de precipicio, estridentes, cegantes, Que vertices brutais a divergir, a ranger,
Se facas de apache se entrecruzam
Altas madrugadas frias…
E pelas estações e cais de embarque,
Os grandes caixotes acumulados,
As malas, os fardos—pêle-mêle…
Tudo inserto em Ar,
Afeiçoado por êle, separado por êle
Em multiplos intersticios
Por onde eu sinto a minh'Alma a divagar!…
—Ó beleza futurista das mercadorias!
—Sarapilheira dos fardos,
Como eu quisera togar-me de Ti!
—Madeira dos caixotes,
Como eu anseara cravar os dentes em Ti! E os pregos, as cordas, os aros…—
Mas, acima de tudo, como bailam faiscantes A meus olhos audazes de beleza,
As inscrições de todos esses fardos—
Negras, vermelhas, azuis ou verdes—
Gritos de actual e Comercio & Industria
Em transito cosmopolita:
*FRAGIL! FRAGIL!*
*843—AG LISBON* *492—WR MADRID*
Ávido, em sucessão da nova Beleza atmosferica, O meu olhar coleia sempre em frenesis de absorvê-la Á minha volta. E a que mágicas, em verdade, tudo baldeado Pelo grande fluido insidioso,
Se volve, de grotesco—célere,
Imponderável, esbelto, leviano…
—Olha as mesas… Eia! Eia!
Lá vão todas no Ar ás cabriolas,
Em séries instantaneas de quadrados
Ali—mas já, mais longe, em lozangos desviados… E entregolfam-se as filas indestrinçavelmente, E misturam-se ás mesas as insinuações berrantes Das bancadas de veludo vermelho
Que, ladeando-o, correm todo o Café…
E, mais alto, em planos obliquos, Simbolismos aereos de heraldicas ténues Deslumbram os xadrezes dos fundos de palhinha Das cadeiras que, estremunhadas em seu sôno horisontal, Vá lá, se erguem tambem na sarabanda…
Meus olhos ungidos de Novo,
Sim!—meus olhos futuristas, meus olhos cubistas, meus olhos interseccionistas,
Não param de fremir, de sorver e faiscar
Toda a beleza espectral, transferida, sucedânea, Toda essa Beleza-sem-Suporte,
Desconjuntada, emersa, variavel sempre E livre—em mutações continuas,
Em insondáveis divergencias…
—Quanto á minha chávena banal de porcelana?
Ah, essa esgota-se em curvas gregas de anfora, Ascende num vértice de espiras
Que o seu rebordo frisado a ouro emite…
É no ar que ondeia tudo! É lá que tudo existe!…
… Dos longos vidros polidos que deitam sôbre a rua, Agora, chegam teorias de vértices hialinos A latejar cristalisações nevoadas e difusas. Como um raio de sol atravessa a vitrine maior, Bailam no espaço a tingi-lo em fantasias, Laços, grifos, setas, azes—na poeira multicolor—.
*APOTEOSE.*
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Junto de mim ressoa um timbre:
Laivos sonoros!
Era o que faltava na paisagem…
As ondas acusticas ainda mais a subtilisam: Lá vão! Lá vão! Lá correm ágeis,
Lá se esgueiram gentis, franzinas côrsas d'Alma…
Pede uma voz um numero ao telefone:
Norte—2, 0, 5, 7…
E no Ar eis que se cravam moldes de algarismos:
ASSUNÇÃO DA BELEZA NUMÉRICA!
[Nota do Transcritor: Aqui surge a composição com números.]
Mais longe um criado deixa cair uma bandeja… Não tem fim a maravilha!
Um novo turbilhão de ondas prateadas
Se alarga em écos circulares, rútilos, farfalhantes Como água fria a salpicar e a refrescar o ambiente…
—Meus olhos extenuaram de Beleza!
Inefavel devaneio penumbroso—
Descem-me as palpebras vislumbradamente…
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
… Começam-me a lembrar aneis de jade De certas mãos que um dia possuí—
E ei-los, de sortílégio, já enroscando o Ar…
Lembram-me beijos—e sobem
Marchetações a carmim…
Divergem hélices lantejoulares…
Abrem-se cristas, fendem-se gumes…
Pequenos timbres d'ouro se enclavinham… Alçam-se espiras, travam-se cruzetas…
Quebram-se estrelas, sossobram plumas…
Dorido, para roubar meus olhos á riqueza, Fincadamente os cerro…
Embalde! Não ha defesa:
Zurzem-se planos a meus ouvidos, em catadupas, Durante a escuridão—
Planos, intervalos, quebras, saltos, declives…
—Ó mágica teatral da atmosfera,
—Ó mágica contemporanea—pois só nós, Os de Hoje, te dobrámos e fremimos!
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Eia! Eia!
Singra o tropel das vibrações
Como nunca a exgotar-se em ritmos iriados! Eu proprio sinto-me ir transmitido pelo ar, aos novelos! Eia! Eia! Eia!…
(Como tudo é diferente
Irrealisado a gás:
De livres pensadoras, as mesas fluidicas, Diluidas,
São já como eu catolicas, e são como eu monarquicas!…)
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Sereno.
Em minha face assenta-se um estrangeiro Que desdobra o «Matin».
Meus olhos, já tranquilos de espaço,
Ei-los que, ao entrever de longe os caracteres, Começam a vibrar
Toda a nova sensibilidade tipografica.
Eh-lá! grosso normando das manchettes em sensação! Itálico afilado das crónicas diarias!
Corpo-12 romano, instalado, burguez e confortavel! Góticos, cursivos, rondas, inglesas, capitais! Tipo miudinho dos pequenos anuncios!
Meu elzevir de curvas pederastas!…
E os ornamentos tipograficos, as vinhetas, As grossas tarjas negras,
Os «puzzle» frivolos da pontuação,
Os asteriscos—e as aspas… os acentos… Eh-lá! Eh-lá! Eh-lá!…
[Nota do Transcritor: Aqui surge uma composição com caracteres.]
—Abecedarios antigos e modernos,
Gregos, góticos,
Slavos, arabes, latinos—,
Eia-hô! Eia-hô! Eia-hô!…
(Hip! Hip-lá! nova simpatia onomotopaica, Rescendente da beleza alfabetica pura:
Uu-um… kess-kresss… vliiim… tlin… blong… flong… flak… Pâ-am-pam! Pam… pam… pum… pum… Hurrah!)
Mas o estrangeiro vira a página,
Lê os telegramas da Ultima-Hora,
Tão leve como a folha do jornal,
Num rodopio de letras,
Todo o mundo repousa em suas mãos!
—Hurrah! por vós, industria tipografica!
—Hurrah! por vós, empresas jornalisticas!
*MARINONI* *LINOTYPE* *O SECULO* *BERLINER TAGEBLATT* *LE JOURNAL* *LA PRENSA* *CORRIERE DELLA SERA* *THE TIMES* *NOVOÏE VREMIÁ*
Por ultimo desdobra-se a folha dos anuncios… —Ó emotividade zebrante do Reclamo,
Ó estética futurista—up-to-date das marcas comerciais, Das firmas e das taboletas!…
*LE BOUILLON KUB*
*VIN DÉSILES* *PASTILLES VALDA*
*BELLE JARDINIÈRE*
*FONSECAS, SANTOS & VIANNA* HUNTLEY & PALMERS *"RODDY"*
*Joseph Paquin, Bertholle & C.^ie*
*LES PARFUMS DE* *COTY* *SOCIÉTÉ GÉNÉRALE*
*CRÉDIT LYONNAIS*
*BOOTH LINE* *NORDDEUTSCHER LLOYD* *COMPAGNE INTERNATIONAL DES WAGONS LITS ET DES GRANDS EXPRESS EUROPÉENS*
E a esbelta singeleza das firmas, LIMITADA.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Tudo isto, porêm, tudo isto, de novo eu refiro ao Ar Pois toda esta Beleza ondeia lá tambem: Numeros e letras, firmas e cartazes—
Altos-relêvos, ornamentação!…—
Palavras em liberdade, sons sem-fio,
MARINETTI + PICASSO = PARIS < *SANTA RITA PIN- TOR + FERNANDO PESSOA
ALVARO DE CAMPOS
!!!*
Antes de me erguer lembra-me ainda,
A maravilha parisiense dos balcões de zinco, Nos bares… não sei porquê…
—Un vermouth cassis… Un Pernod à l'eau… Un amer-citron… une grenadine…
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Levanto-me…
—Derrota!
Ao fundo, em maior excesso, ha espelhos que reflectem Tudo quanto oscila pelo Ar:
Mais belo através dêles,
A mais subtil destaque…
—Ó sonho desprendido, ó luar errado,
Nunca em meus versos poderei cantar,
Como anseara, até ao espasmo e ao Oiro, Toda essa Beleza inatingivel,
Essa Beleza pura!
Rólo de mim por uma escada abaixo…
Minhas mãos aperreio,
Esqueço-me de todo da ideia de que as pintava… E os dentes a ranger, os olhos desviados, Sem chapéu, como um possesso:
Decido-me!
Corro então para a rua aos pinotes e aos gritos:
—Hilá! Hilá! Hilá-hô! Eh! Eh!…
Tum… tum… tum… tum tum tum tum…
*VLIIIMIIIIM…*
*BRÁ-ÔH… BRÁ-ÔH… BRÁ-ÔH!…*
*FUTSCH! FUTSCH!…*
*ZING-TANG… ZING-TANG…* *TANG… TANG… TANG…*
*PRÁ Á K K!…*
Lisboa—Maio de 1915.
Á