Orpheu Nº 2: Revista Trimestral de Literatura
*Ii*
Não sei quem me sonho…
Súbito toda a agua do mar do porto é transparente E vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse desdobrada,
Esta paysagem toda, renque de arvores, estrada a arder em aquelle porto,
E a sombra d'uma náu mais antiga que o porto que passa Entre o meu sonho do porto e o meu vêr esta paysagem E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro, E passa para o outro lado da minha alma…
*II*
Illumina-se a egreja por dentro da chuva d'este dia, E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça…
Alegra-me ouvir a chuva porque ella é o templo estar acceso, E as vidraças da egreja vistas de fóra são o som da chuva ouvido por dentro…
O esplendôr do altar-mór é o eu não poder quasi vêr os montes Atravez da chuva que é ouro tão solemne na toalha do altar… Sôa o canto do côro, latino e vento a sacudir-me a vidraça E sente-se chiar a agua no facto de haver côro…
A missa é um automovel que passa
Atravez dos fieis que se ajoelham em hoje ser um dia triste… Subito vento sacode em esplendôr maior A festa da cathedral e o ruido da chuva absorve tudo Até só se ouvir a voz do padre agua perder-se ao longe Com o som de rodas de automovel…