Orpheu Nº 2: Revista Trimestral de Literatura
*Chuva Oblíqua*
POEMAS INTERSECCIONISTAS
DE
FERNANDO PESSOA
*Chuva obliqua*
*I*
Atravessa esta paysagem o meu sonho d'um porto infinito E a côr das flôres é transparente de as velas de grandes navios Que largam do caes arrastando nas aguas por sombra Os vultos ao sol d'aquellas arvores antigas…
O porto que sonho é sombrio e pallido
E esta paysagem é cheia de sol d'este lado… Mas no meu espirito o sol d'este dia é porto sombrio E os navios que sahem do porto são estas arvores ao sol…
Liberto em duplo, abandonei-me da paysagem abaixo… O vulto do caes é a estrada nitida e calma Que se levanta e se ergue como um muro, E os navios passam por dentro dos troncos das arvores Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cahir amarras na agua pelas folhas uma a uma dentro…