Orpheu Nº 2: Revista Trimestral de Literatura
*Vi*
E toda esta paysagem de primavera é a lua sobre a feira, E toda a feira com ruidos e luzes é o chão d'este dia de sol…
De repente alguem sacode esta hora dupla como numa peneira E, misturado, o pó das duas realidades cahe Sobre as minhas mãos cheias de desenhos de portos Com grandes naus que se vão e não pensam em voltar… Pó de ouro branco e negro sobre os meus dedos… As minhas mãos são os passos d'aquella rapariga que abandona a feira,
Sósinha e contente como o dia de hoje…
*VI*
O maestro sacode a batuta,
E languida e triste a musica rompe…
Lembra-me a minha infancia, aquelle dia
Em que eu brincava ao pé d'um muro de quintal Atirando-lhe com uma bola que tinha d'um lado O deslisar d'um cão verde, e do outro lado Um cavallo azul a correr com um jockey amarello…
Prosegue a musica, e eis na minha infancia De repente entre mim e o maestro, muro branco, Vae e vem a bola, ora um cão verde,
Ora um cavallo azul com um jockey amarello…
Todo o theatro é o meu quintal, a minha infancia Está em todos os logares, e a bola vem a tocar musica Uma musica triste e vaga que passeia no meu quintal Vestida de cão verde tornando-se jockey amarello. (Tão rapida gira a bola entre mim e os musicos…)
Atiro-a de encontro á minha infancia e ella Atravessa o theatro todo que está aos meus pés A brincar com um jockey amarello e um cão verde E um cavallo azul que apparece por cima do muro Do meu quintal… E a musica atira com bolas Á minha infancia… E o muro do quintal é feito de gestos De batuta e rotações confusas de cães verdes E cavallos azues e jockeys amarellos…
Todo o theatro é um muro branco de musica Por onde um cão verde corre atraz da minha saudade Da minha infancia, cavallo azul com um jockey amarello…
E d'um lado para o outro, da direita para a esquerda, D'onde ha arvores e entre os ramos ao pé da copa Com orchestras a tocar musica,
Para onde ha filas de bolas na loja onde a comprei E o homem da loja sorri entre as memorias da minha infancia…
E a musica cessa como um muro que desaba, A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos, E do alto dum cavallo azul, o maestro, jockey amarello tornando-se preto,
Agradece, pousando a batuta em cima da fuga d'um muro, E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça, Bola branca que lhe desapparece pelas costas abaixo…