Os Favoritos de Fortuna
Era extraordinário! Ali estavam eles, o Ésis…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Nenhum daqueles homens era imune àquele terror inominável: nem mesmo Flaco Princeps Senatus, nem mesmo Metelo Pio, nem mesmo os favoritos militares de Sila, como Ofela, ou os intriguistas como Filipe e Cetego. E no entanto, quando apareceu, Sila tinha um aspecto tão inofensivo! Uma figura patética! A única excepção consistia no facto sem precedentes de ser acompanhado por vinte e quatro lictores, duas vezes mais do que um cônsul poderia ter ou do que qualquer outro ditador tivera.
— É tempo de vos comunicar as minhas intenções — disse Sila do seu assento de marfim, sem se levantar; a sala estava tão fria que as suas palavras eram acompanhadas por jactos de vapor branco. — Eu sou legalmente Ditador, e Lúcio Valério, o Chefe da Casa, é o meu Senhor do Cavalo. De acordo com as cláusulas da lei das Centúrias que me atribuiu este cargo, não sou obrigado a aceitar outros magistrados eleitos, se assim o desejar. Contudo, Roma sempre ligou a passagem dos anos aos nomes dos cônsules de cada ano e eu nada farei para que essa tradição seja anulada. Nem gostaria que as pessoas chamassem a este ano ”O Ano da Ditadura de Lúcio Cornélio Sila”. Por isso, decretarei que sejam eleitos dois cônsules, oito pretores, dois edis curuis e dofe edis plebeus, dez tribunos da plebe e doze questores. E a fim de dar experiência magisterial a homens demasiado jovens para serem admitidos no Senado, determinarei que sejam eleitos vinte e quatro tribunos dos soldados e nomearei três homens como moedeiros e outros três para tratarem das celas e prisões romanas.
Catulo e Hortênsio estavam de tal forma aterrorizados que tinham de apertar com toda a força os esfíncteres anais, não fossem deixar nos bancos algumas marcas da diarréia que lhes atormentava os intestinos; tremiam, mas escondiam as mãos para que os outros não vissem. Incrédulos, ouviam o Ditador dizer que iria realizar eleições para todos os magistrados! Tinham pensado que iriam ser alvejados com telhas ou postos em fila e decapitados, ou então que os mandariam para o exílio e lhes confiscariam todos os bens — estavam à espera de tudo menos daquilo! Estaria Sila inocente? Quem sabe, talvez não soubesse o que se passava em Roma! E, se não sabia, quem era então o responsável pelos desaparecimentos e assassínios? — Percebem com certeza — prosseguiu o Ditador, com aquela dicção irritantemente indistinta que a falta de dentes provocava — que, quando falo em eleições, não estou a pensar em candidatos. Dir-vos-ei — tal como direi aos vários Comícios — que homens devem eleger. A liberdade de escolha não é possível nestes tempos que vivemos. Eu preciso de homens que me ajudem a realizar o meu trabalho e esses homens têm de ser aqueles que eu quero e não os homens que os eleitores eventualmente quisessem impingir-me. Encontro-me portanto em condições de vos anunciar quais serão os homens que ocuparão todos estes cargos no próximo ano. Escriba, a minha lista! — Recebeu a folha de papel de um funcionário do Senado cuja única função parecia ser guardar a folha, enquanto outro secretário ergueu os olhos do seu trabalho, que consistia em escrever nas tábuas de cera, com um estilete, tudo o que Sila dizia. — Ora bem. Os cônsules serão Marco Túlio Decula, cônsul sénior, e Cneu Cornélio Dolabela, cônsul júnior.
Não prosseguiu: uma voz ergueu-se para o interromper. Era Quinto Lucrécio Ofela. — Não! Não! Vais dar o nosso precioso consulado a Decula? Não! Quem é Decula? Uma nulidade que ficou em Roma, longe de todos os perigos, enquanto os melhores homens de Roma lutaram por ti, Sila! Que fez Decula para se distinguir entre todos nós? Tanto quanto eu sei, ele nem sequer teve a oportunidade de limpar o teu podex com a esponja dele! Nunca vi manobra mais miserável, maliciosa e injusta! Quanto a Dolabela, posso entender — todos os teus legados conhecem o contrato que fizeste com ele, Sila! Mas quem é esse Decula? Que fez esse Decula para obter o consulado sénior? Não! Não pode ser! Ofela parou para respirar. Sila falou então.
— O homem que escolhi para cônsul sénior é Marco Túlio Decula. E assim será. — Nesse caso, não podes ser autorizado a escolher ninguém, Sila! Teremos candidatos e uma eleição como deve ser. E eu serei candidato!
— Não serás tal — disse calmamente o Ditador.
— Então tenta impedir-me! — gritou-lhe Ofela, abandonando a sala a toda a pressa. Na rua, tinha-se juntado uma multidão, ansiosa por saber os resultados daquela primeira reunião do Senado desde que Sila era Ditador. Essa multidão não era formada por homens que criam ter algo a temer de Sila — esses, tinham ficado em casa. Era uma pequena multidão, mas apesar de tudo uma multidão. Abrindo furiosamente caminho entre aquela gente, Ofela desceu à pressa os degraus do Senado a caminho do anfiteatro dos Comícios.
— Concidadãos romanos! — gritou. — Juntem-se à minha volta e oiçam o que eu tenho a dizer sobre este monarca inconstitucional que, voluntariamente, nomeámos nosso senhor! Ele diz que quer cônsules eleitos. Mas não há candidatos — apenas homens escolhidos por ele! Dois idiotas, dois indivíduos ineficientes e incompetentes — e um deles, Marco Túlio Decula, nem sequer é de família nobre! O primeiro da sua família a sentar-se no Senado, um senador dos bancos de trás que chegou a pretor sob o traiçoeiro regime de Cina e Carbão! E no entanto é ele o cônsul sénior, enquanto homens como eu não são recompensados! Sila tinha-se levantado e encaminhara-se lentamente até ao pórtico, onde, pestanejando por causa da luz muito forte, seguiu com algum interesse o comportamento de Ofela. Sem chamarem a atenção para as suas pessoas, cerca de quinze homens de aspecto absolutamente normal começaram a juntar-se ao fundo dos degraus do Senado, mesmo em frente dos olhos de Sila.
E, lentamente, os Senadores começaram a sair da Cúria para ver e ouvir o que podiam, fascinados com a calma de Sila, e encorajados também por essa calma — afinal Sila não era o monstro que eles imaginavam, não era, nem podia ser!
— Pois bem, concidadãos romanos! — prosseguiu Ofela, com mais força na voz à medida que avançava no seu discurso. — Eu sou aquele que não se submete a estes insultos! Tenho mais direito a ser cônsul do que uma nulidade chamada Decula! E penso que os eleitores de Roma, se tiverem oportunidade de eleger alguém, acabarão por me preferir aos dois homens de Sila! Tal como haveria outros homens que os eleitores prefeririam se por acaso fizessem como eu, se tivessem a coragem de se apresentar como candidatos! Os olhos de Sila encontraram-se com os olhos do chefe do grupo de homens vulgares; acentou, suspirou, encostou o seu corpo cansado contra um pilar próximo. Os homens de aspecto normal avançaram calmamente por entre a escassa multidão, aproximaram-se dos rostra, subiram e agarraram em Ofela. A sua afabilidade era apenas aparente; Ofela lutou desesperadamente, mas isso de nada lhe serviu. Inexoravelmente, dobraram-no até ele cair de joelhos. Depois, um deles pegou numa mancheia do cabelo de Ofela, recuou bastante e puxou até deixar a cabeça e o pescoço perfeitamente expostos. Então, uma espada golpeou os ares. O homem que segurava no cabelo vacilou um pouco, apesar de ter os pés bem assentes, no momento em que a cabeça se separou do corpo de Ofela. Depois, ergueu a cabeça bem alto para que todos pudessem vê-la. Segundos depois, já o Fórum estava vazio de gente, à excepção dos senadores.
— Ponham a cabeça nos rostra — disse Sila, após o que regressou à sala. Como autômatos, os senadores foram atrás dele.
— Muito bem, onde é que eu ia? — perguntou Sila ao seu secretário que, debruçado sobre as tábuas, murmurou o que tinha escrito. — Ah sim, ia aí! Obrigado! Tinha falado dos cônsules e ia começar com os pretores. Funcionário, a lista! — Sila estendeu a mão, pegou na lista e prosseguiu. — Obrigado! Avancemos... Mamerco Emílio Lépido Liviano. Marco Emílio Lépido. Caio Cláudio Nero. Cneu Cornélio Dolabela o Jovem. Lúcio Fufídio. Quinto Lutácio Catulo. Marco Minúcio Termo. Sexto Nónio Sufenate. Caio Papírio Carbão. Nomeio o jovem Dolabela praetor urbanus e Mamerco pretor peregrinus.
Uma lista verdadeiramente extraordinária! Era evidente que Lépido e Catulo, que, numa eleição normal, poderiam muito bem surgir nos primeiros lugares, não poderiam ser os preferidos, perante dois homens que tinham lutado activamente a favor de Sila. Mas a verdade é que Lépido e Catulo faziam parte da lista dos pretores, quando vários adeptos leais de Sila, com um alto estatuto senatorial e a idade certa, tinham sido preteridos! Fufídio era praticamente um desconhecido. E Nónio Sufenate era o filho mais novo da irmã de Sila. Nero era um Cláudio sem importância. Termo era um bom soldado, mas tão mau orador que se tornara o alvo preferido das piadas do Fórum. E só para irritar todos os partidos, o último lugar da lista dos pretores fora concedido a um membro da família Carbão que apoiara Sila mas que não se distinguira por nenhum feito! — Pois bem, tu estás na lista — segredou Hortênsio ao ouvido de Catulo. — Só espero que eu faça parte da lista do ano que vem. Ou do ano seguinte. Por todos os deuses, que farsa esta! Como é possível que o suportemos?
— Os pretores não têm importância — murmurou Catulo. — Vão fazer tudo para brilhar! Sila não é parvo, não vai dar o lugar errado ao homem errado. Quem me interessa, no meio disto tudo, é Decula. Um burocrata! Foi por isso que Sila o escolheu. Tinha mesmo de escolhê-lo, pois Dolabela fez chantagem com ele! A política do nosso Ditador será meticulosamente executada e Decula adorará todas as particularidades, todos os momentos, dessa execução.
A reunião prosseguiu na maior monotonia. Um a um, os nomes dos magistrados eram lidos por Sila e nenhuma voz se erguia para protestar. Concluída a lista, Sila devolveu o papel ao funcionário do Senado e assentou as mãos nos joelhos. — Disse tudo o que queria dizer neste momento. Só me faltou dizer que tomei devida nota da escassez de sacerdotes e augures e que em breve legislarei para resolver o problema. Mas agora escutem-me com atenção! — rugiu ele, repentinamente, provocando um sobressalto geral. — Não haverá mais Religiosos eleitos! É o máximo da irreligiosidade fazer votações para determinar quem servirá os deuses! Transforma algo de solene e formal num circo político e permite a nomeação de homens que não têm qualquer tradição ou gosto pelos deveres sacerdotais. Se os seus deuses não forem adequadamente servidos, Roma não poderá prosperar. — Sila levantou-se então. Uma voz ergueu-se. com um ar ligeiramente trocista, Sila deixou-se cair na sua cadeira de marfim.
— Queres falar, caro Bacorinho? — perguntou, usando a velha alcunha que Metelo Pio herdara do pai, pois este era chamado de Suíno.
Metelo Pio enrubesceu, mas ergueu-se com um ar muito determinado. Desde que chegara a Roma no quinto dia de Novembro, a sua gaguez — que quase não se fizera sentir nos últimos anos — não cessara de piorar. E ele sabia porquê. A razão era Sila. Que amava, mas temia. Contudo, Metelo Pio continuava a ser o filho de Metelo Pio Numídico, o Suíno, que por duas vezes preferira levar tremendas sovas no Fórum a renegar os seus princípios e que acabara por ir para o exílio para defender esses mesmos princípios. Cumpria-lhe, por isso, seguir as pisadas do pai e manter a honra da família. E a sua própria dignitas. — Lú-Lú-Lúcio Cornélio, po-po-podes responder a uma per-per-pergunta? — Estás a gaguejar! — exclamou Sila, quase cantando.
— É ver-ver-verdade. La-la-la-lamento.vou tentar — disse ele com os dentes cerrados. — Tens conhecimento, Lú-Lú-Lúcio Cornélio, de que, em toda a Itália, tal como em Roma, têm sido mortos muitos homens, cujos bens e propriedades têm sido confiscados? Todo o Senado escutava com a respiração suspensa, aguardando a resposta de Sila: saberia ele do que se passava? era ele o responsável por tudo aquilo? — Sim, tenho conhecimento — retorquiu Sila.
Um suspiro colectivo, e todos se mexeram e remexeram nos bancos; o Senado sabia já do pior.
Metelo Pio, tenazmente, prosseguiu.
— Eu com-com-com-compreendo que seja necessário castigar os culpados, mas a ninguém foi concedido julga-julgamento. Poderias escla-escla-esclarecer a situação? Poderias, por exemplo, di-di-di-dizer-me que limites vais definir? Ou seja: há alguns homens a quem vai ser concedido julgamento? E quem diz se esses homens cometeram ou não traição, caso não se-se-sejam julgados num tribunal adequado?
— A minha ordem é para que esses homens morram, meu caro Bacorinho — disse o Ditador com voz firme. — Nãovou desperdiçar o dinheiro e o tempo do Estado com julgamentos de homens que são clara e inequivocamente culpados. O Bacorinho voltou à carga.
— Então po-po-podes dar-me uma ideia de quem tencionas poupar? — Receio bem que não — disse o Ditador.
— Então, se não sa-sa-sa-sabes quem vai ser poupado, poderás dizer-me quem tencionas punir?
— Sim, meu caro Bacorinho, isso já posso fazer.
— Nesse caso, Lú-Lú-Lúcio Cornélio, serias capaz de partilhar essa informação connosco? — concluiu Metelo Pio, profundamente aliviado por ter acabado. — Hoje não — disse Sila. — Voltaremos a reunir-nos amanhã. Toda a gente regressou aos primeiros raios de sol do dia seguinte, mas poucos pareciam ter dormido em condições. Sila estava à espera dos senadores, sentado na sua cadeira curul. Um escriba estava sentado a uma mesa com o estilete e as tábuas de cera, o outro segurava num rolo de papel. Logo que a reunião foi confirmada pelo sacrifício e pelos augúrios, Sila pediu o rolo. Olhou directamente para o pobre Metelo Pio, desfigurado pela inquietação. — Esta — disse Sila — é uma lista de homens que ou já morreram como traidores ou morrerão em breve pela mesma razão. Os seus bens e propriedades pertencem agora ao Estado e serão vendidos em hasta pública. E qualquer homem ou mulher que encontre um dos homens que tem o nome nesta lista será protegido contra toda e qualquer retaliação se ele ou ela executar o indivíduo em questão. — O rolo de papel foi então entregue ao chefe dos lictores de Sila. — Afixa este rolo nas paredes dos rostra — disse Sila. — Então todos os homens ficarão a saber a resposta à questão que só o meu querido Bacorinho teve a coragem de levantar, — Nesse caso, se eu vir um dos homens dessa lista, posso matá-lo? — perguntou ansioso Catilina; embora ainda não fosse senador, Sila tinha-lhe permitido assistir às reuniões do Senado. — Claro que podes, meu querido lambe-pratos! E ganhas dois talentos de prata se o fizeres! — disse Sila. — Legislarei ainda um programa de proscrições — como é evidente, não farei nada que não tenha a força da lei! A recompensa será incorporada na legislação e todas essas transacções serão inscritas nos livros, a fim de que a Posteridade venha a saber quem é que, nos nossos dias, lucrou. Aquilo fora dito gravemente, mas homens como Metelo Pio não tiveram a mínima dificuldade em discernir a malícia de Sila naquelas palavras; como seria de esperar, homens como Lúcio Sérgio Catilina (se é que alguma vez conseguiam aperceber-se da malícia de Sila) não viram mais do que o óbvio.
”Catilina” significava precisamente ”aquele que lambia os pratos”. (N. do T.) A primeira lista de homens prescritos incluía quarenta senadores e sessenta e cinco cavaleiros. Os nomes de Caio Norbano e de Cipião Asiágeno vinham à frente, com Carbão e o jovem Mário imediatamente a seguir. Carrinas, Censorino e Bruto Damasipo faziam parte da lista, mas isso já não sucedia com o velho Bruto. A maior parte dos senadores estavam já mortos. No entanto, o grande objectivo das listas era informar Roma acerca das confiscações; elas não referiam quem estava já morto ou quem vivia ainda. A segunda lista foi afixada nos rostra no dia seguinte e incluía duzentos cavaleiros. E uma terceira lista surgiu um dia depois, com duzentos e quinze nomes de cavaleiros. Pelos vistos, Sila tinha saldado as suas contas com o Senado; o seu verdadeiro alvo era a Ordo Equester.
A sua leges Corneliae acerca dos regulamentos e das actividades relacionadas com a prescrição era exaustiva. Contudo, o grosso dessas medidas surgiu por um período de apenas dois dias, no princípio de Dezembro, e, pelas Nonas desse mês, já estavam todas integradas numa directiva de Deculo, tal como Catulo tinha profetizado. Não havia contingência que não tivesse sido levada em conta. Todos os bens da família de um homem proscrito eram agora propriedade do Estado e não poderiam ser transferidos para o nome de um qualquer herdeiro inocente de transgressão; o testamento de um proscrito não podia ser válido e os herdeiros nele nomeados não podiam herdar; o proscrito podia ser legalmente executado por qualquer homem ou mulher que o visse, fosse esse homem ou mulher livre, liberto, ou escravo; a recompensa pelo assassínio ou detenção de um proscrito era de dois talentos de prata, e o Tesouro pagá-la-ia com o dinheiro obtido com as confiscações e assiná-la-ia nos livros da contabilidade pública; um escravo com direito a tal recompensa seria libertado, e um homem liberto nessas condições seria integrado numa tribo rural; todos os homens — civis ou militares — que, depois de Cipião Asiágeno ter rompido a sua trégua, haviam apoiado Carbão ou o jovem Mário eram declarados inimigos públicos; qualquer homem que oferecesse apoio ou amizade a um proscrito era declarado inimigo público; os filhos e os netos dos proscritos eram impedidos de assumir um cargo curul e proibidos de comprar propriedades confiscadas ou de chegar à sua posse através de quaisquer outros meios; os filhos e os netos daqueles que já estavam mortos teriam o mesmo castigo que os filhos e os netos dos que, fazendo parte da lista, ainda se encontravam vivos. A última lei deste love, promulgada no quinto dia de Dezembro, declarava que o processo de proscrição cessaria no primeiro dia do mês de Junho seguinte. Seis meses depois. Deste modo impôs Sila a sua ditadura, mostrando que era não só o senhor de Roma, mas também um mestre do terror e do suspense. Os muitos dias de agonia causados pela terrível doença de pele não tinham sido inteiramente consumidos pelos tormentos ou pelo estupor causado pela bebida; Sila tinha tido tempo para pensar em muitas e muitas coisas. Tinha tido tempo para pensar na melhor maneira de se tornar o senhor de Roma; no melhor procedimento a seguir logo que se tornasse senhor de Roma; na melhor maneira de criar uma atitude mental em todos os homens, mulheres e crianças que lhe permitisse fazer o que havia a fazer sem oposição, sem revolta. Não seria com soldados patrulhando as ruas que conseguiria os seus intentos, mas sim com sombras que penetrassem nos espíritos, com medos que conduziam à esperança tanto como ao desespero. Os seus apoiantes seriam gente anônima. Aqueles que, sorrateiramente, espreitavam o vizinho ou o amigo, aqueles que apressadamente se escondiam nas sombras da rua, mal o vizinho ou o amigo se virava para trás. Sila tencionava criar um clima, e não um tempo. com o tempo podiam os homens bem. Mas com os climas? Ah, os climas podiam revelar-Se insuportáveis.
E, enquanto coçava a pele da cara e a reduzia a farrapos de carne viva, tinha tido tempo para pensar na sua imagem futura: a de um homem velho, feio e decepcionado com a vida, a quem haviam dado o mais belo brinquedo do mundo: Roma. A quem haviam dado os homens e mulheres de Roma, os cães e os gatos, os escravos e os libertos, a gente de baixa extracção e os cavaleiros e os nobres. No meio de tanta dor, Sila tinha tido tempo para atentar meticulosamente em todos os seus vivos ressentimentos, em todos os seus sombrios rancores. E para alcançar um intenso alívio através da congeminação, muito precisa, da sua vingança. Agora, o Ditador já estava em Roma.
Agora, o Ditador já tinha nas suas mãos, nas suas jubilosas mãos, o seu novo brinquedo. LUCIUS CoRNELLIUs SILLA
Tudo estava a correr muito bem, concluiu Lúcio Cornélio Sila no princípio de Dezembro. A maioria dos homens continuava hesitante perante a ideia de matar um proscrito, mas havia uns quantos, como Catilina, que não se coibiam em dar o exemplo. Por outro lado, o total em dinheiro e bens confiscados não parava de crescer. Evidentemente, eram o dinheiro, os bens e as propriedades que tinham levado Sila a escolher aquele caminho particular; de facto, as vastas somas de que Roma precisava para recuperar a solvência financeira teriam de vir de algum lado. Em circunstâncias mais normais, teriam vindo dos cofres das províncias, mas, devido às acções de Mitridates no Oriente e ao facto de Quinto Sertório ter conseguido restringir os rendimentos vindos das Espanhas, não seria possível retirar somas adicionais das províncias durante algum tempo. Portanto, Roma e a Itália teriam de ser as fontes únicas do dinheiro — com a ressalva de que a carga não poderia ser suportada pelo povo comum, nem por aqueles que tinham demonstrado inequivocamente a sua lealdade à causa de Sila. Sila nunca gostara da Ordo Equester — as noventa e uma Centúrias da Primeira Classe que integravam os cavaleiros-homens de negócios, e especialmente as dezoito Centúrias de cavaleiros séniores que tinham direito ao Cavalo Público. Entre estes cavaleiros, havia muitos que tinham prosperado imenso sob as administrações de Mário, Cina e Carbão; e Sila decidiu que seriam precisamente estes homens quem haveria de pagar a conta da recuperação econômica de Roma. Uma solução perfeita!, pensou o Ditador, exultante de satisfação. com uma só cajadada matava dois coelhos: o Tesouro ficava cheio; os seus inimigos, pura e simplesmente, eram eliminados.
Além disso, tinha tempo para se dedicar a um dos seus outros ódios de estimação — o Sâmnio. Decidindo que o caso do Sâmnio teria de ser tratado da forma mais dura possível, enviou para essa infeliz região os mais cruéis dos seus homens: Cetego e Verres. E quatro legiões de bons soldados.
— Não deixem nada de pé — disse ele. — Quero ver o Sâmnio completamente destroçado, de tal modo que mais ninguém queira viver nessas paragens, nem mesmo o mais velho e o mais patriota dos Samnitas. Deitem abaixo árvores, destruam campos, pomares e cidades. — Sila pôs um sorriso aterrador e acrescentou: — E cortem as cabeças a todas as papoilas mais viçosas...
Isso mesmo! Seria uma boa lição para o Sâmnio! E, ao mesmo tempo, Sila ficava livre de dois homens que, no ano seguinte, poderiam ser muito incômodos para ele. Cetego e Verres não voltariam tão depressa! É que, no Sâmnio, poderiam ganhar muito mais dinheiro do que aquele que mandariam para o Tesouro.
Talvez tivesse sido bom para outras regiões de Itália que a família de Sila tivesse chegado a Roma nesse instante, devolvendo-lhe uma normalidade de cuja necessidade ou falta ele não se apercebera. Em primeiro lugar, porque nunca pensara que, ao rever Dalmática, se sentisse tão fortemente perturbado; sentiu os joelhos a ceder e teve de sentar-se imediatamente, ficando a olhar para ela embasbacado, como se fosse um rapaz imberbe surpreendido com o aparecimento da mulher desejada e inatingível.
Muito bela — mas isso ele sempre soubera —, com os seus grandes olhos cinzentos e a pele morena, da mesma cor do cabelo, e aquela expressão amorosa que nunca parecia mudar ou esbater-se, por muito velho e feio que ele estivesse. E de súbito ali estava ela, sentada no colo dele, com os braços à volta daquele pescoço balofo, os seios encostados à cara dele, acariciando a cabeça cheia de marcas de crostas e beijando-a, sim, beijando-lhe a cabeça como se ele ainda tivesse o seu belo e glorioso cabelo ruivo, de que tanto se orgulhava em jovem — ah, a sua peruca, onde estava a sua peruca? Mas nesse momento já ela lhe puxava a cabeça para trás e beijava-o na boca e aquela doce e bela boca conseguia devolver a vida aos lábios velhos e franzidos de Sila... E a juventude voltava aos braços dele e, ao mesmo tempo que se levantava, erguia-a também e levava-a em triunfo para o seu quarto... Chegados ao quarto, Dalmática transformou-se, aos seus olhos, em algo mais que um triunfo. Talvez afinal eu seja capaz de amar, pensou ele, mergulhando no corpo dela.
— Ah, tive tantas saudades tuas! — disse ele.
— E eu tenho-te tanto amor — disse ela... — Dois anos... Foram dois anos.
— Mais do que dois mil anos.
. Porém, passado o primeiro fervor do reencontro, Dalmática transformou-se na esposa e examinou-o com um prazer imenso. — A tua pele está muito melhor! — Consegui o unguento de Morsimo.
— E já não faz comichão?
— Não, já não faz.
Depois, Dalmática tornou-se a mãe e não descansou enquanto ele não acedeu a acompanhá-la ao quarto das crianças para falar aos gémeos: Fausto e Fausta. — Não estão muito mais crescidos desde o momento em que nos separámos — disse ele, soltando um suspiro. — Parecem-se com Metelo Numídico. Ela deu um risinho.
— Eu sei... Pobrezinhos!
E o risinho de Dalmática selou aquele que fora um dos dias mais felizes de toda a vida de Sila: ela ria-se com ele!
Sem saberem por que razão a mamã e aquele velho engraçado se agarravam um ao outro de tanto rirem, os gémeos puseram-se a olhar para eles com um sorriso incerto até que, de tanto os verem rir, não resistiram e juntaram-se ao coro de gargalhadas. E embora não se pudesse dizer que Sila chegava a amá-los no meio daquela explosão de risos, pelo menos decidiu que os dois pequeninos eram criaturas simpáticas — apesar de serem parecidos com o tio-avô, Quinto Cecílio Metelo Numídico, o Suíno. Que o pai deles tinha assassinado. Que ironia!, pensou o pai de Fausto e Fausta: será uma espécie de castigo que os deuses me infligiram? Mas só os Gregos acreditam nisso, e eu não sou grego, sou romano. Além do mais, já estarei morto há muito tempo quando estes dois tiverem idade suficiente para castigar alguém. Os restantes recém-chegados também estavam bem, designadamente a filha de Sila, Cornélia Sila, já viúva, e os seus dois filhos.
Pompeia, a menina, tinha agora oito anos e era uma criança completamente absorvida pela sua beleza, da qual tinha consciência plena. Aos seis anos de idade, o rapaz, Quinto Pompeu Rufo, prometia justificar totalmente o seu último nome, pois era vermelho em tudo: cabelo, pele, olhos, temperamento.
— E como está o meu convidado que não pode atravessar o pomerium e entrar em Roma? — perguntou Sila ao seu chefe dos criados, Crisógono, que tivera a missão de cuidar do bem-estar da família.
Um pouco mais magro agora (não era uma tarefa fácil cuidar de tantas pessoas tão diferentes entre si, reflectiu Sila), o chefe dos criados ergueu os seus expressivos olhos negros para o tecto e encolheu os ombros.
— Temo, Lúcio Cornélio, que ele se recuse a permanecer fora do pomerium, a menos que tu o visites pessoalmente e lhe expliques as razões exactas. Eu bem tentei! Mas ele considera-me um lacaio, incapaz de merecer o seu desprezo, quanto mais a sua confiança! Aquela era uma reacção típica de Ptolemeu Alexandre, pensou Sila enquanto saía da cidade a caminho da estalagem da Via Ápia, perto do primeiro marco miliário, onde Crisógono alojara o altivo e hipersensível príncipe do Egipto, o qual, apesar de se encontrar há três anos sob a custódia de Sila, só agora começava a tornar-se um pesado fardo. ”Afirmando ser um refugiado da corte do Ponto, o jovem príncipe aparecera em Pérgamo, pedindo a Sila que lhe concedesse asilo; Sila ficara fascinado. É que aquele jovem era nem mais nem menos do que Ptolemeu Alexandre, o Jovem, único filho legítimo do Faraó, o qual morrera tentando recuperar o trono no mesmo ano em que Mitridates capturara o filho, que vivia em Cos com os seus dois primos bastardos. Os três príncipes do Egipto tinham sido mandados para o Ponto e o Egipto caíra em poder do irmão mais velho do falecido Faraó, Ptolemeu Soter, por alcunha Latiro (que significava ”grão-de-bico”), o qual se atribuíra o título de Faraó.
Logo que vira Ptolemeu Alexandre, o Jovem, Sila compreendera por que razão o Egipto preferira ser governado pelo velho Latiro, o Grão-de-Bico. Ptolemeu Alexandre, o Jovem, era tão efeminado que chegava ao extremo de se vestir como uma reincarnação de ísis, com vaporosos tecidos atados e moldados à maneira das deusas helenizadas do Egipto, com uma coroa dourada sobre a sua cabeleira de caracóis dourados, e uma elaborada maquilhagem. Andava com requebros, lançava olhares amorosos aos homens, falava num tom afectado e ciciado, todo ele era uma vibração, um alvoroço feminino; e no entanto, pensava Sila com alguma perspicácia, sob aquela fachada efeminada vivia uma alma de aço.
Ptolemeu descrevera a Sila os três anos horríveis em que fora prisioneiro da corte daquele que era o mais militante de todos os heterossexuais, Mitridates; o rei do Ponto, que acreditava sinceramente que os homens efeminados podiam ser ”curados”, sujeitara o jovem Ptolemeu Alexandre a uma infindável série de humilhações e degradações, com o intuito de libertar o pobre rapaz das suas inclinações. Mas a obra de Mitridates saldara-se por um rotundo fracasso. Obrigado a ir para a cama com cortesãs do Ponto e mesmo com vulgares prostitutas, Ptolemeu Alexandre não fora capaz de fazer nada com elas, a não ser baixar a cabeça e vomitar para o chão. Obrigado a usar armadura e a fazer marchas com uma centena de soldados que o escarneciam, caíra desmaiado depois de muito chorar; finalmente, bateram-lhe e açoitaram-no, mas, para sua grande surpresa, os soldados que o castigavam verificaram que um tal tratamento o excitava; levado a um tribunal na praça do mercado de Amiso, vestido com o que tinha de melhor e maquilhado a preceito, foi condenado a apanhar com uma chuva de fruta, ovos e legumes podres, e mesmo de pedras, mas a tudo resistiu sem mostrar arrependimento. A sua grande oportunidade surgiu quando Mitridates começou a vacilar perante Sila e a corte se desintegrou. O jovem Ptolemeu Alexandre tinha fugido. — Os meus primos bastardos preferiram ficar em Amiso, é claro — disse ele a Sila, no seu tom ciciado. — A atmosfera dessa corte abominável está mesmo bem para eles! Estavam doidos por se casar e casaram mesmo, com as filhas de Mitridates e de Antíoca, a esposa dele que é meio parta, meio selêucida. Pois bem, eles que fiquem com Ponto e com todas as filhas do rei! Ah, o que eu odeio aquela terra!
— E que queres de mim? — perguntara Sila.
— Asilo. Abrigo em Roma quando lá voltares. E, quando Latiro morrer, o trono egípcio. Ele tem uma filha, Berenice, que reina ao lado dele como rainha. Mas, como é evidente, ele não pode casar-se com ela — só poderia casar-se com uma tia, uma prima, ou uma irmã, e tias, primas e irmãs é coisa que ele não tem. Pela ordem natural das coisas, a rainha Berenice sobreviverá ao pai. O trono egípcio é matrilinear, o que significa que um rei só pode ser rei através do casamento com a rainha ou com a mais velha das princesas da linhagem. Eu sou o único Ptolemeu legítimo vivo. Os Alexandrinos — que são os únicos que têm voto na matéria, pois os Ptolemeus da Macedónia estabeleceram a sua capital aí e não em Mênfis — querem que eu suceda a Latiro e consentirão que eu me case com a rainha Berenice. Por isso, quando Latiro morrer, quero que me mandes para Alexandria, a fim de eu reclamar o trono — com a benção de Roma.
Sila reflectiu sobre o assunto por um momento, olhando divertido para Ptolemeu Alexandre. Depois, perguntou-lhe:
— Pode ser que cases com a rainha, mas serás capaz de lhe fazer filhos? — Provavelmente, não — retorquiu o príncipe sem perder a compostura. — Nesse caso, que sentido faz casares com ela? — perguntou Sila. Ptolemeu Alexandre, pelos vistos, não enxergava sentido nenhum no casamento. — Eu quero ser Faraó do Egipto, Lúcio Cornélio — disse ele solenemente. — O trono, por direito, é meu. O que possa acontecer ao trono depois da minha morte é irrelevante. — E quais são os outros candidatos ao trono?
— Apenas os meus primos bastardos. Que agora são amigos de Mitridates e Tigranes. Eu consegui fugir quando um mensageiro de Mitridates nos veio dizer que tínhamos de ir os três para a corte de Tigranes, o qual está a alargar o seu reino conquistando a Síria. Suponho que o objectivo desta manobra era impedir que ficássemos sob protecção romana caso o Ponto caísse. — Nesse caso, os teus primos bastardos podem não estar em Amiso. — Estavam em Amiso quando eu fugi. Quanto ao que se passou depois, nada sei. Sila pôs a sua pena de lado e fitou com um olhar frio e sombrio aquela carrancuda e arrebicada criatura.
— Muito bem, príncipe Alexandre, eu concedo-te asilo. Quando regressar a Roma, poderás acompanhar-me. Quanto à tua eventual conquista da Dupla Coroa do Egipto — bom, talvez seja melhor discutir o caso quando chegar o momento certo. Mas o momento certo ainda não chegara e Sila antevia já que Ptolemeu Alexandre, o Jovem, lhe ia levantar certos problemas. Era evidente que Sila tinha um plano em mente; caso contrário, teria mandado imediatamente o jovem para Alexandria e para o tio Latiro e lavado daí as suas mãos. Mas ocorrera-lhe esse plano logo no primeiro encontro com o príncipe e agora só podia esperar dispor de suficiente tempo de vida para testemunhar os resultados do seu projecto; Latiro era muito mais velho que Sila e, no entanto, parecia gozar da melhor das saúdes. Alexandria tinha um clima saudável, era o que se dizia.
— No entanto, príncipe Alexandre — disse Sila depois de se ter instalado no melhor salão da estalagem —, eu não poderei hospedar-te a expensas de Roma enquanto o teu tio estiver vivo, e pode ser que viva muitos anos ainda. Nem mesmo num sítio como este.
Nos olhos negros do jovem surgiu uma chispa de fúria; Ptolemeu Alexandre ergueu-se como uma serpente pronta a atacar.
— Num sítio como este? Eu preferia voltar a Amiso do que ficar num sítio como este! — Em Atenas — disse calmamente Sila — ficaste regiamente hospedado, a expensas dos Atenienses, mas isso deveu-se unicamente ao facto de o teu tio ter presenteado Atenas com imensas ofertas, depois de eu ter sido obrigado a saquear uma parte da cidade. bom, mas isso era com Atenas, unicamente. Tu não me custaste nada. O problema é que, aqui, podes custar uma fortuna, uma fortuna que Roma não conseguirá suportar. Por isso, ofereço-te duas hipóteses. Podes embarcar para Alexandria, a expensas de Roma, e fazer as pazes com o teu tio Latiro. Ou então negoceias um empréstimo com um dos banqueiros desta cidade, alugas uma casa e criados no Pinciano ou noutro local aceitável fora do pomerium e permaneces aqui até o teu tio morrer. Era difícil dizer se Ptolemeu Alexandre estava pálido, tão pesada era a sua maquilhagem; mas Sila imaginou que sim, pois o jovem parecia ter perdido o ardor inicial. — Eu não posso ir para Alexandria! O meu tio matava-me! — Então negoceia um empréstimo.
— Está bem, eu faço isso! Mas diz-me como!
-— Eu mando-te Crisógono, ele dar-te-á todas as informações necessárias. É um campo que ele conhece muito bem. — Sila não se tinha sentado e encaminhava-se já para a porta. — A propósito, príncipe Alexandre: não poderás, em circunstância alguma, atravessar os limites sagrados de Roma.
— Morrerei de tédio!
Sila exibiu o seu famoso sorriso trocista.
— Duvido que morras de tédio, quando se souber que tens dinheiro e uma bela casa. A água dos rios encontra sempre o seu caminho para o mar. Alexandria fica muito longe de Roma e eu devo partir do princípio de que serás o rei legítimo depois de Latiro morrer. E a notícia da morte de Latiro ainda demorará algum tempo a chegar a Roma. Portanto, como Roma não tolera nenhum soberano reinante dentro dos seus limites, tu terás de permanecer no exterior desses limites. Não poderás infringir essa regra. Se a infringires, não precisarás de ir a Alexandria para ter uma morte prematura.
Ptolemeu Alexandre desatou num choro.
— És uma pessoa horrenda, uma pessoa odiosa!
Sila saiu nesse instante e encaminhou-se para a Porta Capena; enquanto caminhava, pensava naquela cena e, de quando em quando, soltava um risinho. Que pessoa horrenda e odiosa, aquele Ptolemeu Alexandre! Mas que útil que ele seria se Latiro fizesse o favor e tivesse o bom senso de morrer enquanto Sila fosse Ditador! Sila não se pode impedir de dar um saltinho de prazer ao pensar no que ia fazer quando o trono do Egipto ficasse vago. Sila não se dava conta, enquanto caminhava, de que os seus risinhos e o seu pulo e a sua própria maneira de andar eram sinais de terror para todos os homens ou mulheres que por acaso o vissem passar. Nem podia dar-se conta: a sua mente estava em Alexandria, na lendária Alexandria.
No entanto, a questão que mais ocupava a mente de Sila era a religião. Como a maior parte dos Romanos, também ele não pensava no nome de um deus, fechava os olhos e visualizava imediatamente uma criatura humana — não, isso era o que os Gregos faziam, isso era ser-se grego. Naqueles tempos, era sinal de cultura e sofisticação mostrar Belona como uma deusa armada, Ceres como uma bela matrona levando um feixe de trigo, Mercúrio com um capacete com asas e sandálias igualmente com asas, porque uma sociedade helenizada era uma sociedade superior, porque uma sociedade helenizada desprezava uma visão dos deuses, por assim dizer, mais ”divina”, considerando que uma tal visão tornava os deuses primitivos, destituídos de uma aura intelectual, incapazes de comportamentos tão complexos como o comportamento humano. Para os Gregos, os deuses eram essencialmente seres humanos dotados de poderes sobre-humanos; os Gregos não conseguiam conceber um ser mais complexo que o homem. Assim, Zeus, que era o rei do panteão grego, funcionava como um censor romano — poderoso mas não omnipotente — e atribuía tarefas aos outros deuses, os quais se deleitavam em enganá-lo, em fazer chantagem com ele, enfim, em comportar-se de certo modo como tribunos da plebe.
Mas Sila, um romano, sabia que os deuses eram muito menos tangíveis do que os Gregos criam: não eram humanóides e não tinham olhos nas cabeças, nem mantinham conversas, nem possuíam poderes sobre-humanos, nem experimentavam a integração e a diferenciação dos processos de pensamento específicos de um homem. Sila, um romano, sabia que os deuses eram forças específicas que desencadeavam eventos específicos ou controlavam outras forças inferiores a eles. Nutriam-se das forças vitais e por isso gostavam que lhes fossem sacrificadas criaturas vivas; necessitavam da ordem e do método no mundo vivo tanto como no seu próprio mundo, porque a ordem e o método no mundo vivo contribuíam para manter a ordem e o método nesse mundo de forças.
Havia forças que impregnavam despensas, armazéns, silos e celeiros e que gostavam de vê-los cheios — eram os Penates. Havia forças que permitiam que os navios navegassem e que velavam pelas encruzilhadas e que davam um sentido aos objectos inanimados — eram os Lares. Havia forças que velavam para que as árvores se desenvolvessem naturalmente, que as obrigavam a crescer com os ramos e as folhas elevando-se nos ares, enquanto as suas raízes se enterravam na terra. Havia forças que faziam com que a água doce e os rios descessem das alturas até ao mar. Havia uma força que a uns quantos homens dava sorte, a outros sorte nenhuma e à maior parte um pequeno quinhão de sorte — e essa força chamava-se fortuna. E a força chamada Júpiter Optimus Maximus era a soma de todas as outras forças, o tecido que as ligava a todas de uma forma que era lógica para essas forças, ainda que misteriosa para os homens. Aos olhos de Sila, era evidente que Roma estava a perder o contacto com os seus deuses, com as suas forças. Senão, por que razão ardera o Grande Templo? Porque teriam ardido os seus precisos arquivos? Os livros proféticos? Os homens estavam a esquecer-se das coisas secretas, das fórmulas e dos padrões rigorosos que atraíam as forças divinas. A eleição de sacerdotes e augures perturbava o equilíbrio dos colégios sacerdotais, impedia os pequenos ajustamentos que só eram possíveis quando as mesmas famílias ocupavam as mesmas posições religiosas desde há muito, muito tempo, e para toda a eternidade. Por isso, antes de canalizar as suas energias para uma restauração das débeis instituições e leis de Roma, deveria, em primeiro lugar, purificar o aether de Roma, estabilizar as suas forças divinas, permitir-lhes que exercessem a sua acção sem entraves. Como poderia Roma ter a sorte do seu lado se um dos seus filhos chegara ao ponto de cometer a enormidade de gritar o seu nome secreto? Como poderia Roma aspirar à prosperidade quando os homens saqueavam os seus templos e assassinavam os seus sacerdotes? Claro que Sila não se lembrava de que ele próprio desejara, em tempos, saquear os templos de Roma; lembrava-se apenas de que não o tinha feito, embora fosse combater um verdadeiro inimigo. Também não se lembrava do que sentia em relação aos deuses antes de a doença e o vinho o terem arruinado fisicamente.
No incêndio do Grande Templo havia uma mensagem implícita, disso estava ele certo. E tinha-lhe cabido a ele deter o caos, anular a tendência para a mais completa desordem. Se assim não fosse, as portas que deveriam estar fechadas abrir-se-iam de par em par e as portas que deveriam estar abertas cerrar-se-iam.
Sila decidiu então chamar os sacerdotes e os augures à sua presença, no mais antigo dos templos de Roma, o templo de Júpiter Ferétrio, no Capitólio. Tão antigo que fora dedicado por Rómulo e construído com blocos de tufo, sem estuque nem decorações; tinha apenas duas colunas quadradas para suportar o pórtico e não continha nenhuma imagem. Sobre um simples pedestal quadrado, tão antigo como o templo, encontravam-se um vulgar bastão de prata e ouro tão longo como meio braço de um homem e uma quantidade de objectos de sílica, negros e vítreos. A única luz admitida no seu interior era a que penetrava pela porta e o templo cheirava a séculos e séculos de vida — a excrementos de rato, a bolor, a humidade, a pó. A sua única sala não tinha mais do que três por dois metros e por isso Sila ficou contente com o facto de o Colégio dos Pontífices e o Colégio dos Augures se encontrarem muito desfalcados. O próprio Sila era augure. Também o eram Marco António, o jovem Dolabela e Catilina. Quanto aos sacerdotes, Caio Aurélio Cota era o que estava há mais tempo no seu Colégio; Metelo Pio vinha logo atrás, tal como Flaco, o Senhor do Cavalo e Princeps Senatus, e que era também o flamen Martialis. Catulo, Mamerco, o Rex Sacrorum Lúcio Cláudio, do único ramo dos Cláudios cujo nome próprio era Lúcio — e um pontífice que se sentia muito pouco à vontade, Bruto, o filho do velho Bruto, que não pensava noutra coisa senão na sua eventual proscrição.
— Não temos Pontifex Maximus — começou Sila. — Por outro lado, somos poucos. Podia ter escolhido um sítio mais confortável para nos reunirmos, mas suspeito que um pouco de desconforto não desagradará aos nossos deuses! Durante algum tempo, considerámo-nos superiores aos nossos deuses e, por isso, os nossos deuses estão infelizes. Consagrado no mesmo ano em que a nossa República nasceu, o nosso templo de Júpiter Optimus Maximus não foi devorado pelo fogo por mero acidente. Estou certo de que isso sucedeu porque Júpiter Optimus Maximus sente que o Senado e o Povo romanos o defraudaram, não lhe dando o que ele merecia. Não somos imaturos e crédulos ao ponto de aderirmos às crenças bárbaras na ira divina. O raio que mata uma pessoa ou o pilar que nos esmaga não passam de fenómenos naturais, limitando-se a indicar a pouca sorte da pessoa atingida. Mas os fenómenos estranhos ou contrários às leis da natureza, os portenti, constituem uma indicação de que os deuses se sentem infelizes e o incêndio do Grande Templo é um terrível portentum. Se tivéssemos conservado os Livros Sibilinos, poderíamos descobrir mais coisas acerca do assunto. Mas os Livros Sibilinos foram também consumidos pelo fogo, tal como os nossos fasti dos cônsules, as Doze Tábuas originais e muito mais coisas.
Havia quinze homens presentes e o espaço era pouco para que orador e audiência se dispusessem adequadamente; por isso, Sila limitou-se a permanecer no meio deles e a falar num tom de voz normal.
— Como Ditador, a minha tarefa consiste em fazer regressar a religião de Roma à sua velha forma, e em fazer com que todos vocês trabalhem para a realização desse objectivo. Ora, eu posso promulgar as leis, mas cabe a vocês executá-las. Há um ponto em que não transijo, porque tenho tido sonhos, porque sou um augure e sei que estou certo. Para ser mais claro: invalidarei a lex Domitia de sacerdotiis, que o nosso Pontifex Maximus de há uns anos atrás, Cneu Domício Aenobarbo, teve tanto prazer em nos impor. E por que razão o fez? Porque sentiu que a sua família fora insultada e que ele próprio fora desprezado. Estas são razões baseadas no orgulho pessoal e não num espírito verdadeiramente religioso. Acredito que Aenobarbo Pontifex Maximus indispôs os deuses, e em especial Júpiter Optimus Maximus. Sendo assim, não haverá mais eleições de sacerdotes. Nem mesmo para o cargo de Pontifex Maximus. — Mas o Pontifex Maximus sempre foi eleito! — exclamou Lúcio Cláudio, o Rex Sacrorum, surpreendido. — Ele é o Sacerdote Máximo da República! A sua nomeação tem de ser democrática!
— Pois eu respondo que não. A partir de agora, também ele será escolhido pelos seus colegas do Colégio dos Pontífices — disse Sila num tom que não admitia contestação. — E tenho toda a razão para tomar esta medida.