Os Favoritos de Fortuna
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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
A batalha seguinte esperava-o a menos de cinco quilômetros daquela cidade. Carbão não perdera tempo e enviara já uma mensagem a Roma, advertindo para o perigo constituído pelo filho do Carniceiro e as suas três legiões de veteranos. Roma também não perdeu tempo e tratou de impedir a junção de Pompeu a Sila. Duas das legiões da Campânia, sob o comando de Caio Álbio Carrinas, foram enviadas para bloquear o avanço de Pompeu. Os dois exércitos encontraram-se em plena marcha. O confronto foi violento, feroz, e absolutamente decisivo; Carrinas ficou apenas o tempo necessário para ver que não tinha qualquer hipótese de vencer, lançando-se depois numa retirada apressada com os seus homens razoavelmente intactos — e com mais respeito pelo filho do Carniceiro.
Por esta altura, os soldados de Pompeu sentiam-se tão seguros e determinados que as suas caligae de grossas solas ferradas palmilhavam quilômetros e quilômetros como se esse fosse um esforço trivial; tinham ultrapassado os quatrocentos e cinqüenta quilômetros de marcha com um ou dois goles de vinho fraco para comemorar o acontecimento. Pouco depois chegavam a Sepino, uma cidade mais pequena que Larino, e Pompeu recebeu a notícia de que Sila já não estava longe. De facto, o seu acampamento encontrava-se instalado nos arredores de Benevento, na Via Ápia.
Antes, porém, Pompeu teria de travar outra batalha. Lúcio Júnio Bruto Damasipo, irmão do legado sénior e velho amigo de Pompeu Estrabão, tentou emboscar o filho deste numa pequena extensão de terreno escarpado, entre Sepino e Sirpio. A orgulhosa confiança de Pompeu nas suas capacidades parecia ter razão de ser; os seus batedores descobriram onde Bruto Damasipo e as suas duas legiões se tinham escondido e foi Pompeu que atacou Bruto Damasipo sem que este esperasse. Várias centenas de soldados de Bruto Damasipo morreram antes que ele conseguisse retirar de uma posição difícil e fugir na direcção de Boviano. No final de cada uma destas três batalhas, Pompeu não fizera qualquer tentativa para perseguir os seus inimigos. Mas as razões que o levavam a ter esse comportamento não eram as que Varrão e os três centuriões primus pilus pensavam. O facto de Pompeu desconhecer a geografia local, ou o facto de não saber se aqueles combates não passariam de diversões para o atrair aos braços de uma força mais poderosa, não pesavam especialmente nos seus pensamentos. Na realidade, a mente de Pompeu estava obcecada com uma única coisa: o seu próximo encontro com Lúcio Cornélio Sila.
Perante os seus olhos cegos e sonhadores, desfilavam visões desse encontro como se fossem quadros vivos — dois homens tão poderosos como os deuses, de cabelos resplandecentes e fisionomias simultaneamente fortes e belas, desciam das suas selas com a graça e o poder de gigantescos gatos e, com passos cadenciados, imponentes, encaminhavam-se na direcção um do outro, no meio de uma estrada vazia, enquanto, nas bermas, se aglomeravam todos os viajantes e habitantes da região. Atrás de cada um desses homens magníficos, havia um exército, e todos os olhos se fixavam neles. Zeus caminhando ao encontro de Júpiter. Ares caminhando ao encontro de Marte. Hércules caminhando ao encontro de Milão. Aquiles caminhando ao encontro de Heitor. Sim, aquele encontro seria celebrado ao longo dos séculos, e daria origem a tantos cânticos e poemas que Eneias e Turno, ao pé daqueles dois, se sentiriam apoucados! O primeiro encontro entre os dois colossos daquele mundo, os dois sóis do céu do mundo — e embora o Sol posto fosse ainda quente e forte, a verdade é que o seu percurso se estava a aproximar do fim. Ah! Mas o Sol nascente! Quente e forte já, e com toda a sublime abóbada à sua frente, a abóbada em que se tornaria cada vez mais quente, cada vez mais forte. O Sol de Sila está a pôr-se!, pensava, exultante, Pompeu. Ao passo que o meu, pensava ainda, acaba de espreitar no Oriente.
Pompeu mandou Varrão à frente, com a missão de apresentar cumprimentos a Sila e de lhe descrever os seus progressos a partir de Auximo, incluindo o cômputo das baixas que provocara e os nomes dos generais que derrotara. Varrão deveria ainda pedir a Sila que se fizesse à estrada a fim de se encontrar com o seu aliado, de forma a que toda a gente pudesse testemunhar que Pompeu vinha em paz oferecer os seus préstimos e as suas tropas ao maior homem da sua era. Pompeu não pediu a Varrão que acrescentasse ”ou de qualquer outra era” — isso é que ele não estava preparado para admitir, mesmo que numa saudação mais ornamentada. Pompeu tinha fantasiado vezes sem conta todos os pormenores deste encontro, incluindo aquilo que deveria ou não deveria vestir. Nas primeiras mil e uma fantasias, vira-se vestido de ouro dos pés à cabeça; depois, as dúvidas começaram a apoquentá-lo e acabou por decidir que uma armadura de ouro seria ostentação a mais, algo que os outros poderiam achar grosseiro. Por isso, nas mil e uma fantasias seguintes, viu-se vestido com uma simples toga branca, sem qualquer símbolo militar e com a estreita faixa púrpura de cavaleiro descendo do ombro direito da túnica; depois, as dúvidas voltaram a persegui-lo e começou a preocupar-se com o facto de que uma toga branca sobre um cavalo branco resultaria numa imagem algo amorfa. Nas últimas fantasias, Pompeu vestia a armadura de prata que o pai lhe oferecera após o cerco de Ásculo Picentino; as dúvidas não o apoquentavam agora e por isso, de todas as imagens que fantasiara para si, essa era a que mais lhe agradava.
No entanto, quando o palafreneiro o ajudou a subir para a sela do seu Cavalo Público, Cneu Pompeu (Magno) envergava a mais vulgar das armaduras de aço, as correias de couro do seu saiote não tinham nenhum ornamento e o capacete era igual, sem tirar nem pôr, ao dos seus soldados. O cavalo é que acabou por apresentar-se engalanado, já que Pompeu era um cavaleiro das dezoito centúrias originais da Primeira Classe e há muitas gerações que a sua família era premiada com o Cavalo Público. Por isso, o cavalo envergava todos os atavios e adornos que se pudesse imaginar: botões e medalhões de prata, arreios de couro escarlate com incrustações de prata, uma manta bordada sob uma sela cheia de ornamentações, uma miscelânea de berloques de prata que tilintavam a cada movimento do animal. Pompeu, enquanto avançava pelo meio da estrada vazia, com o exército em fila atrás dele, congratulou-se com a imagem que escolhera para si: parecia um soldado, um genuíno soldado, sério e compenetrado, um trabalhador, um profissional. O cavalo que proclamasse a glória do cavaleiro! Benevento ficava do outro lado do rio Calor, no local onde a Via Ápia se cruzava com a Via Minúcia, vindas das costas da Apúlia e da Calábria. O sol estava no pino quando Pompeu e as suas legiões chegaram ao cimo de um pequeno monte e avistaram o leito do Calor. E lá estava ele, Lúcio Cornélio Sila, na margem de cá do rio, esperando no meio da estrada, montado numa indescritível azêmola. Acompanhado apenas por Varrão. A populaça local! Onde é que estava a populaça? Onde é que estavam os legados de Sila, as suas tropas? Onde estavam os viajantes? Instintivamente, Pompeu virou a cabeça e gritou para o porta-estandarte da primeira legião que mandasse os soldados parar. Depois, horrivelmente só, desceu a encosta na direcção de Sila, o rosto transformado numa máscara tão sólida que parecia tê-lo mergulhado em gesso. Quando Pompeu estava a cerca de cem passos de Sila, este desequilibrou-se e quase caía redondo no chão. Conseguiu aguentar-se de pé porque lançou um braço em volta do pescoço da velha mula, enquanto que, com a outra mão, se agarrava à orelha suja de lama do animal. Depois de se endireitar, encaminhou-se na direcção de Pompeu, com um andar tão escancarado como o de qualquer marinheiro. Pompeu saltou do seu tilintante Cavalo Público, sem ter bem a certeza de que se agüentaria nas pernas; mas aguentou-se. Ao menos que um de nós faça isto decentemente, pensou, avançando para Sila.
Mesmo a alguma distância, tinha-se apercebido de que este Sila não tinha qualquer semelhança com o Sila de que se lembrava. Porém, à medida que se foi aproximando, Pompeu começou a discernir a devastação que o tempo e horrendas afecções tinham produzido em Sila. Não com compreensão ou compaixão, mas com horror e estupefacção, uma reacção física tão violenta que, por momentos, chegou a pensar que ia vomitar. Em primeiro lugar, Sila estava bêbedo. Isso, Pompeu poderia ter perdoado, caso aquele Sila fosse o Sila que permanecera na sua memória, o Sila que vira no dia da sua tomada de posse como cônsul. Porém, daquele homem belo e fascinante nada restava, nem mesmo a dignidade de uma cabeleira grisalha ou embranquecida pelo tempo. Este Sila usava uma peruca para cobrir o crânio calvo, uma horrenda peruca arruivada toda encaracolada, sob a qual espreitavam duas patilhas cor de prata. Já não tinha dentes, e a ausência de dentes alongara-lhe o queixo fendido por uma covinha e transformara a boca numa fresta franzida sob aquele inconfundível nariz com uma ligeira prega na ponta. A pele do rosto parecia esfolada: a maior parte era de um carmim-vivo, sangüíneo, embora alguns sítios exibissem ainda a brancura original. E ainda que agora estivesse quase esquelético, adivinhava-se que, num passado não muito distante, devia ter engordado de uma maneira descomunal, pois a carne do rosto caía-lhe enrugada e grandes papadas transformavam-lhe o pescoço numa espécie de papo de abutre. — Ah, mas como poderei eu brilhar ao lado deste destroço humano, deste resto estropiado? — chorava-se Pompeu, lutando para sufocar as sentidas lágrimas da decepção. Estavam já muito perto um do outro. Pompeu esticou o braço direito, os dedos estendidos, a palma da mão vertical.
— Imperador! — gritou.
Sila deixou escapar um risinho, mas, graças a um esforço imenso, fez também a saudação do general.
— Imperador! — gritou ele numa pressa. Depois, foi cair contra Pompeu, colando a armadura de couro húmida e suja, fedendo horrendamente a vinho e vomitado, ao corpo do outro.
Varrão, num ápice, correu para Sila; ele e Pompeu ajudaram-no a caminhar até à miserável mula e a subir para o dorso nu e sujo do animal, onde Sila se escarrapachou. — Ele insistiu em vir ter contigo tal e qual como tu lhe tinhas pedido — disse Varrão baixinho. — Nada do que eu pudesse dizer o deteria.
Montado no seu Cavalo Público, Pompeu virou-se e deu ordem de marcha às suas tropas. com Sila ao meio, ladeado por Pompeu e Varrão, seguiram os três para Benevento. — Não acredito! — exclamou Pompeu, em conversa com Varrão, depois de terem deixado um quase insensível Sila entregue aos cuidados dos seus criados. — Ele passou muito mal a noite — retorquiu Varrão, incapaz de avaliar a natureza das emoções de Pompeu porque nunca tivera acesso às fantasias dele. — Passou mal a noite? Que queres dizer?
— É por causa da pele, coitado do homem. Quando adoeceu gravemente, tão gravemente que os médicos chegaram a perder as esperanças, mandaram-no para Edepso, uma pequena cidade termal perto de Caleis Eubeia. Os físicos do templo são considerados os melhores de toda a Grécia. E salvaram-no, lá isso é verdade! Não tocava em fruta madura, mel, pão, bolos ou vinho. O pior foram os banhos termais. Ficou com a pele do rosto toda esfarelada. Logo nos primeiros dias começou a ter acessos de comichão, uma comichão terrível que nunca mais lhe passou. Por isso ficou com uma cara que mais parece um naco de carne crua e cheia de sangue. Continua a não comer fruta, nem mel, nem pão, nem bolos. Mas o vinho alivia-o da comichão e é por isso que ele bebe. — Varrão suspirou. — Ah, e o que ele bebe! — E porquê só o rosto? Porque é que a doença não lhe afectou os braços ou as pernas? — perguntou Pompeu, sem acreditar totalmente naquela história. — Porque se expôs demasiado ao sol e ficou com queimaduras. Não te lembras que ele usava um chapéu de palha sempre que estava ao sol? Porém, certo dia, houve uma cerimónia de boas-vindas num sítio qualquer e ele insistiu em não pôr o chapéu apesar da sua doença. Por mera vaidade, pôs um capacete. Julgo que as queimaduras solares contribuíram de forma decisiva para que a pele ficasse naquele estado — disse Varrão, que se sentia tão fascinado quanto Pompeu estava revoltado. — Aquela cabeça mais parece uma amora pintalgada de farinha! Extraordinário!
— Pareces tal e qual um daqueles melífluos físicos gregos — comentou Pompeu, sentindo que o seu rosto abandonava finalmente a máscara de gesso. — Onde é que estamos hospedados? É longe? E os meus homens?
— Creio que Metelo Pio conduziu já os teus homens ao acampamento. Quanto a nós, estamos hospedados numa bela casa não muito longe desta rua. Depois de comeres qualquer coisa, podíamos ir ter com os teus homens. — Varrão levou ternamente a sua mão ao braço forte e sardento de Pompeu, intrigado com o que se passaria na cabeça do amigo. Que não havia compaixão na natureza de Pompeu, isso já ele tinha compreendido; nesse caso, por que razão o desgosto o consumia agora?
Nessa noite, Sila ofereceu um banquete em honra dos dois recém-chegados, para que pudessem travar conhecimento com os outros legados. Espalhara-se já pelas cercanias de Benevento a notícia da chegada de Pompeu — e muito se falava da sua juventude, da sua beleza, das suas tropas, que o adoravam. E os legados de Sila estavam muito apagados, pensou Varrão, divertido, enquanto atentava nas suas expressões. Estavam com o aspecto de crianças a quem as amas-secas tivessem cruelmente arrancado um delicioso favo de mel prestes a ser lambido. E quando Sila conduziu Pompeu ao locus consularis do seu próprio divã e não pôs ninguém entre os dois, aquelas expressões tornaram-se assassinas. Não que Pompeu se preocupasse com isso! Pelo contrário: com um prazer despudorado, tratou de se instalar confortavelmente e começou a falar com Sila como se mais ninguém estivesse presente.
Sila estava sóbrio e, aparentemente, sem comichão. A pele do rosto tinha ganho alguma crosta desde a manhã, mostrava-se calmo e amável, e obviamente fascinado com Pompeu. Se Sila se sente fascinado, então é porque não estou enganado acerca de Pompeu, pensou Varrão. Considerando que era mais sensato manter o seu olhar concentrado nos vizinhos mais próximos, em vez de inspeccionar sucessivamente todos os presentes, Varrão sorriu para o seu companheiro de divã, Ápio Cláudio Fulcro. Um homem de que gostava e que estimava. — Sila ainda é capaz de nos chefiar? — perguntou.
— Continua tão brilhante como dantes — retorquiu Ápio Cláudio. — Se conseguirmos mantê-lo sóbrio, é garantido que dará cabo de Carbão, por muitos soldados que este consiga reunir. — Ápio Cláudio estremeceu e fez um esgar. — Varrão, não sentes vibrações más nesta sala? Emanações negativas?
— Absolutamente — respondeu Varrão, embora achasse que as emanações em que estava a pensar eram muito mais reais do que as de Ápio Cláudio. — Tenho estudado um pouco este assunto nos templos e cultos de Delfos — explicou Ápio Cláudio. — Há dedos poderosos à nossa volta, por todo o lado — invisíveis, é claro. A maior parte das pessoas não tem consciência disto, mas há homens como tu e eu, Varrão, que são hipersensíveis a emanações vindas de outras paragens.
— Que paragens? — perguntou Varrão, alarmado.
— Debaixo de nós. Por cima de nós. Enfim, por todo o lado — retorquiu Ápio Cláudio num tom sepulcral. — Dedos poderosos! Não sei de que outro modo poderei explicar-te o que quero dizer. Como pode uma pessoa descrever coisas invisíveis, coisas a que só os hipersensíveis podem ter acesso? Claro que não estou a falar dos deuses, nem do Olimpo, tão pouco dos numina...
Mas os outros homens presentes na sala acabaram por atrair as atenções de Varrão, levando-o a esquecer-se um pouco do pobre Ápio Cláudio, que, todo contente, continuou a debitar o seu discurso, enquanto Varrão avaliava os legados de Sila. Filipe e Cetego, os grandes tergiversadores. Sempre que a deusa Fortuna favorecia um novo grupo de homens, Filipe e Cetego mudavam de partido, desejosos de servir os novos senhores de Roma; há trinta anos que o faziam. Filipe era o menos desonesto dos dois. Fora cônsul depois de várias tentativas infrutíferas e chegara mesmo a censor, o zénite de uma carreira política, durante o consulado de Cina e Carbão. Ao passo que Cetego — um patrício Cornélio com uma remota relação de parentesco com Sila — permanecera nos bastidores, preferindo exercer o seu poder através da manipulação dos senadores com menor peso no Senado. Estavam os dois no mesmo divã, falando muito alto e ignorando todos os outros. Havia também um grupo de três jovens que ignorava todos os demais — mas que belo trio! Verres, Catilina e Ofela. Todos gente ruim, disso estava certo Varrão, ainda que Ofela se preocupasse mais com a sua dignitas do que com futuros proveitos. Quanto a Verres e Catilina, não podia haver a mínima dúvida; eram os proveitos futuros que comandavam todos os seus actos.
Num outro divã, encontravam-se três homens estimáveis e honrados — Mamerco, Metelo Pio e Varrão Lúculo (um Varrão adoptado, aliás irmão do mais leal adepto de Sila, Lúculo). Era evidente que não gostavam de Pompeu e não faziam qualquer tentativa para esconder o que sentiam.
Mamerco era genro de Sila, um homem tranqüilo e sério que salvara a fortuna de Sila e que conseguira levar a sua família para a Grécia em total segurança.
Metelo Pio, o Bacorinho, e o seu questor, Varrão Lúculo, tinham deixado a Ligúria, rumo a Putéolos, em meados de Abril, marchando em seguida através da Campânia, a fim de se juntarem a Sila, imediatamente antes de o Senado de Carbão ter mobilizado as tropas que poderiam tê-los detido. Antes do aparecimento de Pompeu, tinham gozado do sol radioso que era o grato beneplácito de Sila, pois haviam-lhe levado duas legiões constituídas por soldados endurecidos por muitas guerras. Contudo, a sua atitude em relação a Pompeu baseava-se essencialmente na pessoa deste e não no que ele representava ou mesmo nas razões que o tinham levado até ali. Um Pompeu do Norte do Piceno? Um novo-rico, um tipo que subiu de repente na vida. Um não romano. O pai, que tinha a alcunha de Carniceiro por causa da forma como conduzia as suas batalhas, podia ter chegado a cônsul e alcançado um forte poder político, mas nada, rigorosamente nada, podia aproximá-lo, ou ao seu filho, de Metelo Pio ou Varrão Lúculo. Nenhum romano genuíno, de família senatorial ou não, teria, com a idade de 22 anos, tomado a decisão — de forma absolutamente ilegal! — de levar um exército ao grande aristocrata patrício Lúcio Cornélio Sila e de lhe pedir, depois, que o aceitasse como seu parceiro na guerra. O exército que Metelo Pio e Varrão Lúculo trouxeram a Sila tornava-se automaticamente um exército de Sila, um exército que ele dirigiria como muito bem entendesse; se Sila tivesse aceite e agradecido as tropas e mandado embora depois Metelo Pio e Varrão Lúculo, estes teriam ficado provavelmente furiosos, mas ter-se-iam ido embora imediatamente. Rigoristas implacáveis, tanto um como o outro, pensou Varrão. Estavam os dois no mesmo divã, lançando ferozes olhares a Pompeu porque este usara as suas tropas para obter um comando que nem a sua idade, nem os seus antecedentes, permitiam. Sim, não havia dúvida: aquele Pompeu seqüestrara Sila e exigira um resgate.
De todos eles, contudo, aquele que mais intrigava Varrão era Marco Licínio Crasso. No Outono do ano anterior, tinha chegado à Grécia e oferecera a Sila dois mil e quinhentos bons soldados hispânicos, tendo recebido apenas como paga uma recepção quase tão fria como a que Metelo Pio lhe proporcionara, em África, durante o Verão. Esta fria recepção devera-se, em grande parte, ao dramático fracasso de um plano de enriquecimento rápido que ele e um seu amigo mais jovem, Tito Pompónio, tinham maquinado e proposto aos investidores da Roma de Cina. O caso sucedera no final do primeiro ano do consulado de Cina e Carbão, altura em que o dinheiro reapareceu, ainda que de forma muito tímida. Chegara a Roma a notícia de que a ameaça do rei Mitridates deixara de existir, pois Sila negociara com ele o Tratado de Dárdano. Aproveitando um súbito surto de optimismo, Crasso e Tito Pompónio ofereceram ao mercado acções num novo negócio especulativo na Província da Ásia. O desastre sobreveio quando se soube que Sila tinha reorganizado por completo as finanças da Província da Ásia e que, em conseqüência disso, a mina da colecta de impostos estava exaurida.
Em vez de ficarem em Roma, onde teriam de enfrentar hordas de irados credores, Crasso e Tito Pompónio puseram-se em fuga. Na realidade, tinham um único sítio para onde ir e um único homem para conquistar: Sila. Tito Pompónio apercebera-se disso imediatamente e fora para Atenas com a sua enorme fortuna intacta. Educado, urbano, com algo de diletante literário, pessoalmente encantador, com o único senão de ter uma inclinação excessiva para rapazinhos, Tito Pompónio depressa chegou a um entendimento com Sila; porém, como adorava a atmosfera e o estilo de vida de Atenas, optou por ficar nessa cidade, dando a si próprio o cognome de Ático — homem de Atenas.
Crasso não era um homem tão seguro de si mesmo e só se apercebeu de que Sila era a sua única alternativa muito mais tarde que Ático. Circunstâncias diversas tinham conspirado para que Marco Licínio Crasso ficasse à frente da sua família — e empobrecido. O único dinheiro que havia pertencia a Áxia, viúva não só do irmão mais velho de Crasso, mas também do irmão do meio. Um dote substancial não era o único factor que a tornava atraente; além disso, Áxia era uma mulher bonita, cheia de vida, bondosa, encantadora. Tal como a mãe de Crasso, Vinuleia, Áxia era uma sabina, nascida em Reate, e por isso mesmo dava-se bastante bem com a sogra. A riqueza de Áxia vinha da rosea rura, as melhores pastagens de toda a Itália, onde cresciam os fabulosos burros de cobrição que eram vendidos por somas avultadíssimas — sessenta mil sestércios não era um preço invulgar para esses animais, potenciais progenitores de robustas mulas destinadas ao exército.
Áxia viu-se viúva pela primeira vez — e grávida — quando o filho mais velho dos Crassos, Públio, foi morto nas cercanias de Grumento, durante a Guerra Italiana. Para aquela família modesta e muito unida, parecia haver uma única solução; no final dos dez meses de luto, Áxia casou-se com Lúcio, o segundo filho dos Crassos, de quem não teve filhos. Nova viuvez esperava Áxia. com efeito, Lúcio acabou por ser assassinado por Fímbria à porta da sua casa. Vinuleia também ficou viúva, pois o pai Crasso, vendo o filho esfaqueado até à morte e sabendo o que o destino lhe reservava, cometeu imediatamente suicídio. Na altura, Marco, o mais novo dos filhos dos Crassos, tinha 29 anos. Era ele que o pai (que fora cônsul e censor) tinha escolhido para salvaguardar o nome e a linhagem da família. Todos os bens dos Crassos, incluindo os bens pessoais de Vinuleia, foram confiscados. Mas a família de Áxia mantinha excelentes relações com Cina e, por isso, o seu dote não foi minimamente afectado. Quando o segundo luto de Áxia terminou, Marco Licínio Crasso casou com ela e adoptou o sobrinho, Públio. Sucessivamente casada com três irmãos, Áxia passou a ser conhecida, desde então, como Tertula — um diminutivo de tertia, ”terceira”. A mudança de nome resultará de uma sugestão sua; Áxia tinha um som demasiado áspero, sem nada de latino, ao passo que Tertula apresentava uma pronúncia de uma suavidade extrema. O glorioso plano que Crasso e Ático tinham maquinado — e que teria tido um êxito impressionante se por acaso Sila não tivesse feito o que ninguém esperava no domínio das finanças da Ásia — foi por água abaixo no preciso momento em que a riqueza da família Crasso começava de novo a aumentar. O fracasso do projecto levou-o a fugir com uma bagatela na bolsa e todas as esperanças destruídas. Em Roma, deixava duas mulheres sem nenhum homem a protegê-las: a mãe e a mulher. Tertula dava-lhe um filho, Marco, dois meses depois da sua partida.
Mas para onde ir? Para a Hispânia, decidiu Crasso. Na Hispânia, jazia uma relíquia da passada riqueza dos Crasso. Anos antes, o pai de Crasso viajara até às ilhas do Estanho, as Cassitérides, e negociara um contrato exclusivo tendo em vista o transporte do estanho desde as Cassitérides até aos portos do Mediterrâneo, passando pelo Norte da Hispânia. A guerra civil em Itália tinha destruído esse negócio, mas Crasso não tinha nada a perder; fugiu para a Hispânia Citerior, onde um cliente do pai, um tal Víbio Paciano, o escondeu numa gruta até Crasso ter a certeza de que as conseqüências das suas manobras fiscais não iam persegui-lo em paragens tão distantes. Retomou então a sua vida normal e tratou de reinstaurar o monopólio do estanho, após o que adquiriu algumas posições nas minas de chumbo e prata do Sul da Hispânia. Tudo corria muito bem, mas a verdade é que estas actividades só podiam prosperar se as instituições financeiras e comerciais de Roma lhe abrissem de novo as suas portas. O que significava que ele precisava de um aliado mais poderoso do que todas as pessoas que conhecia: precisava de Sila. Mas para convencer Sila (e como lhe faltavam o encanto e a erudição que sobravam a Tito Pompónio Ático), teria de oferecer-lhe um presente. E o único presente que lhe podia oferecer era um exército. Exército que formou recorrendo aos antigos clientes do pai: um total de apenas cinco coortes, mas cinco coortes bem treinadas e equipadas. A sua primeira escala, depois de ter deixado a Hispânia, foi em Útica, na Província de África, onde ficou a saber que Quinto Cecílio Metelo Pio, aquele a quem Caio Mário cognominara de o Bacorinho, lutava ainda para tentar manter a sua posição de governador. Avistou-se com o Bacorinho no princípio do Verão, mas Metelo Pio — um pilar de rectidão romana — não se mostrou nada divertido com as suas actividades comerciais. Deixando o Bacorinho a tratar da sua vida quando o governo de África caiu, Crasso seguiu para a Grécia, e Sila, depois de ter aceite a oferta de cinco coortes hispânicas, condenou-o a um tratamento muito pouco caloroso. E agora ali estava ele sentado, com os seus pequenos olhos cinzentos dolorosamente fixados em Sila, esperando por um sinal de aprovação, um sinal qualquer, e obviamente muito triste por ver Sila interessado unicamente em Pompeu. O cognome de Crasso existia na famosa família dos Licínios há muitas gerações, mas, pensou Varrão, os actuais Licínios continuavam a merecer tal epíteto; Crasso significava ”atarracado” (ainda que, no caso do primeiro Licínio, cognominado de Crasso, talvez significasse ”estúpido”). Mais alto do que parecia, Crasso tinha a constituição maciça de um touro e alguma da placidez impassível desse animal num rosto muito inexpressivo.
Varrão lançou um último olhar àquela assembleia e suspirou. Sim, havia de facto razões para dedicar quase todos os seus pensamentos a Crasso. Todos eles eram ambiciosos, quase todos eram, provavelmente, homens capazes, alguns deles eram tão cruéis como amorais, mas — deixando de fora Pompeu e Sila, evidentemente — Marco Crasso era o homem a ter em conta no futuro.
No regresso a casa, acompanhado por um Pompeu completamente sóbrio, Varrão verificou que estava muito satisfeito por ter cedido às exortações de Pompeu e se ter interessado desde logo por aquela campanha.
— De que falaram vocês, tu e Sila? — perguntou.
— De nada de muito importante — respondeu Pompeu.
— Mas olha que falaram muito baixo.
— Falámos, não falámos? — Varrão não viu o sorriso malicioso de Pompeu, mas sentiu-o. — Sila não é parvo nenhum, embora já não seja o mesmo homem de outros tempos. Se aquela assembleia de amuados não conseguiu ouvir o que nós dizíamos, como é que eles sabem que não falámos deles?
— Sila concordou ser teu parceiro nesta empresa?
— Eu mantive o comando das minhas legiões. Era tudo o que queria. Ele sabe que eu não lhe dei as legiões, nem mesmo de empréstimo.
— E isso foi discutido abertamente?
— Já te disse que o homem não é nenhum parvo — retorquiu laconicamente Pompeu. — Não dissemos nada de especial. Nada de muito importante. Dessa forma, não há nenhum acordo entre nós e ele assim não ficou obrigado a nada.
— E estás satisfeito com isso? — É claro que estou! É que ele também sabe que precisa de mim. — replicou Pompeu.
Sila estava a pé ao alvorecer e, uma hora depois, conduzia o seu exército em direcção a Cápua. Já estava habituado ao facto de os seus problemas de pele coincidirem com momentos de maior actividade, pois a sensação de comichão não era perpétua; pelo contrário, tendia a ser cíclica. Tendo acabado de passar por mais um surto e pela subsequente bebedeira, sabia que, durante uns dias, teria direito a alguma paz — desde que não fizesse nada que pudesse provocar um novo ciclo. Para tal, necessitava de policiar rigorosamente as suas mãos: estava proibido de mexer na cara fosse por que motivo fosse. Só depois de um homem se ver submetido a uma tal provação é que podia compreender quantas vezes mexia na cara sem intervenção da vontade, de uma forma absolutamente inconsciente. E ali estava ele agora, sentindo as húmidas vesículas endurecendo, lutando pela cicatrização, sentindo todos os pruridos, todos os formigueiros, todos os minúsculos movimentos da pele que o processo de cicatrização implicava. Era mais fácil no primeiro dia, ou seja, naquele dia, mas, à medida que os dias iam passando, ele tinha tendência a esquecer-se e acabava por levar a mão ao nariz ou ao queixo, para se coçar de uma comichão perfeitamente natural — e então, todo aquele horror podia recomeçar. Recomeçaria. Por isso, tinha-se disciplinado de forma a garantir o máximo possível de cicatrização, antes que surgisse o próximo surto, para o qual só encontraria um remédio, o vinho, a embriaguez que o deixava completamente insensível.
Ah, mas era difícil! Tanto que fazer, tanto que tinha de fazer, e não passava afinal de uma sombra do homem que fora. Nunca realizara nada sem ter de superar obstáculos gigantescos, mas desde que a doença se declarara, um ano antes, na Grécia, dava consigo a todo o momento a perguntar-se por que razão teimava em continuar. Como Pompeu tinha claramente reparado, Sila não era parvo nenhum; ele sabia que já não lhe restava muito tempo de vida. É claro que num dia como aquele, em que acabava de vencer mais um surto, Sila compreendia porque é que teimava em continuar: porque era o maior homem de um mundo que não queria admitir isso. O Nabopolassar tinha-o visto nas margens do rio Eufrates e nem mesmo os deuses podiam alterar as visões de um adivinho caldeu. Num dia como aquele, Sila compreendia perfeitamente que ser maior do que todos os outros homens implicava também um grau de sofrimento muito maior. Tentou não sorrir (um sorriso podia perturbar o processo de cicatrização), ao pensar no seu companheiro de divã da noite anterior; ora ali estava alguém que não tinha a mínima noção do que fazia a grandeza de um homem! Pompeu, o Grande. Claro que Sila já tinha descoberto por que nome Pompeu era conhecido entre o seu povo. Um jovem que pensava que a grandeza não exigia esforço, que a grandeza lhe tinha sido dada pelo nascimento e que o acompanharia por toda a vida. Desejo de todo o coração, Pompeu Magnus, pensou Sila, que possa viver o tempo suficiente para ver quem e o que te deitará por terra! No entanto, tratava-se de um indivíduo fascinante. Sem dúvida um prodígio. Não tinha as características que fazem um subordinado leal, de modo nenhum. Não, Pompeu, o Grande, era um rival. E via-se a si mesmo como um rival. Desde já. Aos 22 anos. Sila sabia como usar as tropas veteranas que Pompeu trouxera consigo; mas qual seria a melhor maneira de usar Pompeu, o Grande? Dar-lhe rédea solta, a rédea toda, sim, essa era a melhor maneira de o usar. Fazer com que não lhe dessem uma tarefa que não pudesse cumprir. Lisonjeá-lo, exaltá-lo, não beliscar nunca a sua monumental vaidade. Levá-lo a pensar que é ele quem usa, e nunca o deixar perceber que é ele que é usado. Morrerei muito antes de o derrubarem, porque, enquanto eu for vivo, obstarei a que o derrubem. Ele é demasiado útil. Demasiado... valioso. A mula em que Sila seguia relinchou e deu à cabeça como que aprovando os pensamentos do dono. Mas Sila não se esquecia dos cuidados que o seu rosto exigia e, por isso, não sorriu da sagacidade do animal. Sila esperava. Esperava por um frasco de unguento e por uma receita a partir da qual fosse possível encher mais e mais frascos de unguento. Há cerca de dez anos que tinha sentido pela primeira vez as manifestações daquela doença da pele. No regresso do Eufrates. Ah, sim, essa expedição, quão satisfatória ela fora! Nessa expedição, o filho estava com ele, o filho de Julila, que, na sua adolescência, se revelara o amigo e confidente que Sila nunca tinha tido. O participante perfeito numa relação perfeita. O que eles falavam! De tudo e de nada. O jovem fora capaz de perdoar ao pai tantas coisas que Sila nunca conseguira perdoar a si mesmo — ah, não, não os assassínios e outros actos práticos e necessários, isso eram coisas que a vida de um homem o obrigava a fazer. Mas os erros emocionais, fraquezas da mente ditadas por desejos e inclinações que a razão taxava de estúpidos e fúteis. com quanta gravidade o jovem Sila o escutara, com quanta clareza aquele jovem, pouco mais que um menino, o compreendera. E confortara. E inventara desculpas que, na altura, tinham até parecido lógicas, fundamentadas. E o tão estéril mundo de Sila tinha renascido, tinha-se expandido, tinha anunciado uma profundidade e uma dimensão que só o seu querido filho lhe podia dar. Então, na segurança do lar, depois da jornada para lá do Eufrates, para lá da mera e estreita vivência romana, o jovem Sila morreu. Sem mais nem menos. Em dois brevíssimos e insignificantes dias. Morria o amigo, morria o confidente. Morria o amado filho. As lágrimas ameaçavam, concentravam-se — não, isso não! Não podia chorar, não devia chorar! Bastava que uma gota lhe caísse pela face e logo o tormento recomeçaria. Unguento. Tinha de se concentrar na ideia do unguento. Morsimo tinha encontrado o unguento numa aldeia perdida, perto do rio Píramo, na Cilícia Pedia, o unguento que lhe aliviava as dores, que lhe cicatrizava a pele.
Seis meses antes, mandara uma mensagem a Morsimo, agora etnarcâ em Tarso, pedindo-lhe que encontrasse esse unguento, mesmo que, para isso, tivesse de revolver todas as aldeias da Cilícia Pedia. Se Morsimo voltasse a encontrá-lo — e, mais importante, se descobrisse a receita — a pele de Sila voltaria ao normal. Entretanto, esperava. Sofria. E, com o sofrimento, aumentava a sua grandeza. Cada vez mais. Ouviste, Pompeu, o Grande? Cada vez mais! Virou-se na sua sela e acenou para Metelo Pio, o Bacorinho, e Marco Crasso (Pompeu, o Grande, seguia na retaguarda, à frente das suas três legiões). — Estou com um problema — disse ele quando Metelo Pio e Crasso se juntaram a ele. — Quem? — perguntou o Bacorinho maliciosamente.
— Ah, muito bem perguntado! O nosso estimado Filipe — retorquiu Sila, sem que nenhuma expressão lhe perturbasse a placidez do rosto. — bom, mesmo que não tivéssemos Ápio Cláudio connosco, Lúcio Filipe já representaria, por si só, um problema — disse Crasso, fazendo um esforço para juntar os factos. — Mas não há dúvida que Ápio Cláudio torna as coisas ainda piores. Qualquer pessoa esperaria que o facto de Filipe ser sobrinho de Ápio Cláudio o teria influenciado no sentido de não expulsar o tio do Senado. Mas a verdade é que ele expulsou o tio.
— Provavelmente porque o sobrinho é mais velho que o tio — retorquiu Sila, divertido com aquela opinião.
— Mas o que é que tu pretendes fazer com o problema? — perguntou Metelo Pio, que não queria que os seus companheiros se perdessem nas complexidades das relações de parentesco da classe dominante romana.
— Eu sei o que gostaria de fazer, mas depende de ti, Crasso, que isso venha ou não a tornar-se possível — disse Sila.
Crasso pestanejou.
— E de que modo é que isso poderia afectar-me? Fazendo recuar um pouco o chapéu de palha, Sila fitou o seu legado com um olhar um pouco mais caloroso do que era costume; e Crasso, involuntariamente, respirou fundo de satisfação. Sila mostrava finalmente alguma simpatia por ele!
— Está muito bem que compremos cereais e outros alimentos aos agricultores locais ao longo da nossa marcha — principiou Sila, as palavras algo indistintas por causa da falta de dentes. — Porém, no final do Verão, vamos precisar de uma colheita que seja possível transportar a partir de determinado sítio. Não terá de ser uma colheita tão grande como a da Sicília ou a de África, mas terá de ser suficientemente grande para abastecer o meu exército de géneros básicos. E estou confiante em que o meu exército continue a crescer à medida que o tempo for avançando.
— com certeza que no Outono teremos todos os cereais de que precisamos — disse Metelo Pio cuidadosamente. — Mas serão os cereais da Sicília e de África. No Outono, já teremos conquistado Roma.
— Duvido.
— Porquê? Roma está podre por dentro!
Sila suspirou, fazendo tremer ligeiramente os lábios.
— Meu caro Bacorinho, se eu quero ajudar Roma a recuperar, terei de dar a Roma a oportunidade de se pôr do meu lado pacificamente. Ora isso não vai poder acontecer no Outono. Por isso, não posso mostrar-me demasiado ameaçador, não posso marchar a toda a pressa pela Via Latina acima e atacar Roma como Cina e Mário atacaram depois de eu ter partido para o Oriente. Quando marchei sobre Roma a primeira vez, tinha a surpresa a meu favor. Ninguém acreditava que eu fizesse isso. Por isso ninguém se opôs à minha arremetida, a não ser alguns escravos e mercenários pertencentes a Caio Mário. Mas desta feita é diferente. Toda a gente está à espera que eu marche sobre Roma. E se fizer isso demasiado depressa, não vencerei. Ah sim, Roma acabaria por cair! Mas todos os insurrectos, toda a oposição, teriam de enfrentar muitas provações. Se seguisse essa via para dominar a resistência, acabaria por morrer antes de alcançar os meus desígnios. Não tenho meios para agüentar tanto tempo, nem tanto esforço. Por isso, avançarei muito devagar na direcção de Roma.
Metelo Pio digeriu esta exposição e percebeu que, de facto, fazia sentido. De repente, viu-se-lhe a alegria estampada nos olhos glaciais. A inteligência não era qualidade que associasse aos nobres romanos; os nobres romanos tinham um pensamento demasiado político para poderem ser inteligentes. Tudo era decidido no momento, tudo era previsto a curto prazo. Mesmo Escauro Princeps Senatus, apesar de toda a sua experiência e vasta auctoritas, não fora um homem inteligente. Tal como o não fora o seu próprio pai, Metelo Numídico. Corajoso. Indómito. Determinado. Incorruptível fios princípios. Mas nunca inteligente. Era por isso que o Bacorinho sentia uma alegria imensa por seguir pela longa estrada que conduzia a Roma na companhia de um homem inteligente, já que ele era um Cecílio Metelo e tinha um pé em ambos os campos, apesar de, pessoalmente, haver escolhido Sila. Se havia algum aspecto daquela empresa que o fazia estremecer, esse era, sem dúvida, o conhecimento de que — por muito que tentasse ignorá-lo — acabaria inevitavelmente por arruinar uma boa parte dos seus familiares ou das suas relações maritais. Por isso, apreciava a inteligência de que Sila dava provas ao decidir avançar lentamente sobre Roma; alguns dos Cecílios Metelos que, naquela altura, ainda apoiavam Carbão, teriam ainda tempo para se aperceber de que as suas posições estavam erradas. Antes que fosse demasiado tarde.
Claro que Sila sabia com exactidão de que forma trabalhava a cabeça do Bacorinho e, por isso, deixou-o concluir em paz os seus pensamentos. Quanto aos seus próprios pensamentos, estavam concentrados na missão que tinha pela frente, enquanto os seus olhos fixavam o melancólico balouçar das orelhas da mula. Estou de regresso a Itália e em breve chegarei à Campânia, essa cornucópia de todas as coisas boas que há na terra — verde, suavemente montanhosa, abundante em água. E se excluir deliberadamente Roma do meu olhar interior, Roma apoquentar-me-á menos que esta comichão. Roma será minha. Mas, apesar de todos os meus crimes, que foram muitos, e da nenhuma contrição que demonstrei, nunca gostei muito da ideia de saque. Uma submissão voluntária de Roma será, de longe, preferível ao saque... — Deves ter reparado que, desde que desembarquei em Brindísio, tenho mandado cartas a todos os dirigentes dos velhos Aliados Italianos, prometendo-lhes que farei com que todos os italianos sejam devidamente registados como cidadãos de Roma, de acordo com as leis e os tratados negociados no final da Guerra Italiana. Farei mesmo com que sejam distribuídos por todo o leque das trinta e cinco tribos. Acredita no que te digo, Bacorinho: vergar-me-ei como um fio de teia de aranha se verga à força do vento, antes de atacar Roma! — Que têm os Italianos a ver com Roma? — perguntou Metelo Pio, que nunca fora a favor da concessão da cidadania romana aos Italianos e que, secretamente, aplaudira os censores Filipe e Perperna, porque eles tinham precisamente evitado o registo dos Italianos como cidadãos romanos.
— Pompeu e eu atravessámos já uma grande parte do território que lutou contra Roma e nenhum de nós encontrou qualquer resistência. Pelo contrário: encontrámos cerimónias de boas-vindas e talvez a esperança de que eu mudarei a situação em Roma no que respeita ao problema da cidadania. O apoio italiano ajudar-me-á a convencer Roma de que deve render-se pacificamente.
— Duvido — retorquiu o obstinado Metelo Pio. — Mas atrevo-me a dizer que tu sabes o que estás a fazer. Regressemos ao assunto chamado Filipe que, pelos vistos, é um problema. — Certamente! — disse Sila, os olhos de súbito numa roda viva. — Que tem Filipe a ver comigo? — perguntou Crasso, achando que já era tempo de se intrometer naquilo que se transformara num dueto. — Preciso de me ver livre dele, Marco Crasso. Mas da forma menos dolorosa possível, dado que ele conseguiu, não sei como, mas conseguiu, transformar-se numa venerável instituição romana.
— Isso foi porque ele se tornou o ideal de todos os contorcionistas políticos — comentou o Bacorinho com um sorriso malicioso.
— A descrição não está mal — disse Sila, acenando em vez de sorrir. — Pois bem, meu grande e ostensivamente plácido amigo Marco Crasso,vou fazer-te uma pergunta. Exijo uma resposta honesta. Tendo em conta a tua triste reputação, serás capaz de me dar uma resposta honesta?
Este chiste não pareceu perturbar minimamente a compostura taurina de Crasso. — Farei o meu melhor, Lúcio Cornélio.
— Tens uma ligação, digamos, apaixonada, pelas tuas tropas hispânicas? — Considerando que tu me manténs todo o tempo a tratar do abastecimento delas, a minha resposta só pode ser negativa — replicou Crasso.
— Óptimo! Serias capaz de te separares delas?
— Se achas que podemos passar sem elas, sim.
— Óptimo! Então, meu caro Marco, com o teu consentimento, expresso de um modo magnificamente fleumático, matarei vários coelhos com uma mesma cajadada. É minha intenção dar os teus hispânicos a Filipe — ele poderá apossar-se da Sardenha em meu nome. Quando as colheitas da Sardenha estiverem concluídas, ele poderá enviar-me todos os alimentos de que precisamos — disse Sila. Procurou o odre de vinho amargo e descorado que estava atado ao arção da sela, ergueu-o e, com destreza, esguichou algum líquido para dentro da boca desdentada; nem uma única gota se espalhou pela face.
— Filipe recusará ir para a Sardenha — atirou-lhe Metelo Pio. — Não, não recusará. Ele adorará a comissão — retorquiu Sila, tapando o gargalo bojudo do odre. — Ele será o senhor incontestado de todas aquelas terras e os bandidos sardos saudá-lo-ão como se saúda um irmão. Ao pé dele, todos os bandidos da Sardenha parecerão homens virtuosos.
As dúvidas começaram a apoquentar Crasso, que rosnava pigarreios mas não falava. — Estás a pensar no que irás fazer sem tropas para comandar? Não andas longe — respondeu Crasso, cautelosamente.
Podias ser-me muito útil — disse Sila, num tom descontraído. — De que forma?
A tua mãe e a tua esposa vêm de importantes famílias sabinas. Que me dizes se te propuser que vás a Reate recrutar soldados para as minhas tropas? Podias começar com os Sabinos e terminar com os Marsos. — Sila estendeu a mão e apertou o pulso forte de Crasso. — Acredita em mim, Marco Crasso. Na próxima Primavera, haverá muito trabalho militar para ti. E terás boas tropas para comandar — italianas, ou mesmo romanas. — Isso convém-me — disse Crasso. — Negócio feito.
— Ah, que bom que era se todas as coisas pudessem ser resolvidas tão facilmente e tão a contento de todos! — exclamou Sila, procurando uma vez mais o odre. Crasso e Metelo Pio trocaram um breve olhar, enquanto Sila baixava a cabeça, coberta com aquela absurda cabeleira encaracolada; ele podia dizer que bebia para aliviar a comichão, mas a verdade é que Sila já não conseguia passar muito tempo sem molhar o bico. No meio do pesadelo dos seus tormentos físicos, Sila abraçara o seu paliativo com um amor constante e duradouro. Mas teria ele consciência disso? Ou não?
Se Crasso e Metelo Pio tivessem tido a coragem de lho perguntar, Sila ter-lhes-ia respondido sem hesitação. Sim, ele tinha consciência do que se passava. E não se preocupava com o facto de os outros se aperceberem do seu vício ou saberem que aquele vinho de aspecto fraco era, afinal, muito alcoólico. Proibido o pão, o mel, a fruta e os bolos, havia, na sua dieta, poucas coisas de que gostasse verdadeiramente. Os físicos de Edepso tinham feito bem em retirar todas essas coisas saborosas do seu regime alimentar: disso não tinha ele a mínima dúvida. Quando fora ter com eles, sabia que estava a morrer. Primeiro, sentira um apetite insaciável por coisas doces e farináceos e engordara tanto que até mesmo a sua mula se queixava da carga que tinha de transportar; depois, começou a sentir um adormecimento e um formigueiro nos pés, e também dores e ardores à medida que o tempo foi passando, de tal modo que, quando se deitava na cama para dormir, os infortunados pés se recusavam a acalmar. As sensações subiam-lhe pelos tornozelos e pelas barrigas das pernas e o sono nunca mais vinha. Até que um dia, deu consigo a suar, e suava e suava, até ficar ofegante. A partir desse dia, começou a perder peso, e a um ritmo tal, que quase podia ver-se a si mesmo a desaparecer. Bebia rios de água e, mesmo assim, continuava com sede. Mas o mais aterrador daquilo tudo foi que os seus olhos começaram a falhar.
Quase todos estes problemas desapareceram, ou diminuíram muito de intensidade, depois de ter ido para Edepso. No seu rosto nem queria pensar, ele que fora tão belo na sua juventude, tão belo que enlouquecia os homens, e que fora tão belo depois de atingir a maturidade que poucas mulheres lhe resistiam. Mas uma coisa que não desaparecera fora a sua necessidade de beber. Rendendo-se ao inevitável, os físicos-sacerdotes de Edepso convenceram-no a trocar o vinho doce pelos vinhos mais amargos que houvesse no mercado e, muitos meses depois, Sila já preferia aquele vinho seco e áspero. Apesar disso, sempre que o bebia, não conseguia evitar uma careta. Quando o prurido não o afectava, conseguia controlar a quantidade que bebia e, por isso, não deixava que o vinho interferisse nos seus processos mentais. Bebia apenas o suficiente para os melhorar — pelo menos era o que dizia para si mesmo. —vou manter Ofela e Catilina comigo — disse ele a Crasso e Metelo Pio, arrolhando de novo o odre. — Contudo, Verres é aquilo que o seu nome indica — um varrão insaciável e sôfrego. Creio que ovou mandar de volta para Benevento, pelo menos para já. Poderá organizar abastecimentos e ficar de olho na nossa retaguarda.
O Bacorinho deu uma risadinha.
— O queridinho é capaz de gostar disso!
Crasso não pôde evitar um sorriso franco, ainda que breve. — E quanto ao longínquo Cetego? — perguntou, sentindo dores nas pernas, muito pesadas e sem qualquer ponto de apoio, e mudando um pouco de posição. —vou ficar com ele, por ora — retorquiu Sila. A sua mão agitou-se à procura do vinho mas, no último instante, recuou. — Cetego pode ficar a vigiar as coisas na Campânia. Pouco antes de o seu exército ter atravessado o rio Volturno, perto da cidade de Casilino, Sila enviou seis emissários para negociarem com Caio Norbano, o mais capaz dos dois cônsules que Carbão impusera. Norbano levara oito legiões e organizara-se para defender Cápua, mas, quando os emissários de Sila apareceram com a bandeira da paz, ordenou a sua prisão sem sequer os ouvir. Instalou então as suas legiões na planície capuana, no sopé do monte Tifata. Irritado com a forma muito pouco ética como Norbano tratara os seus emissários, Sila decidiu dar-lhe uma lição que ele nunca mais pudesse esquecer. Assim, subiu ao monte Tifata e, conduzindo as suas tropas a boa velocidade, desceu as encostas e apanhou Norbano desprevenido. Derrotado antes de a batalha ter efectivamente começado, Norbano retirou-se para Cápua, onde, depois de ter organizado os seus soldados, naturalmente em pânico, enviou duas legiões para defenderem o porto de Nápoles, e preparou-se para agüentar o cerco. Graças à perspicácia de um tribuno da plebe, Marco Júnio Bruto, Cápua fora levada a afeiçoar-se ao governo que então existia em Roma; no início desse ano, Bruto tinha promulgado uma lei dando a Cápua o estatuto de cidade romana. Uma tal medida, depois de séculos de insurreições e de subsequentes punições, agradara fortemente a Cápua. Norbano não precisava portanto de se preocupar, pois Cápua não se cansaria de lhe dar hospedagem a ele e ao seu exército. Cápua estava habituada a albergar legiões romanas. — Temos Putéolos, portanto não precisamos de Nápoles — disse Sila a Pompeu e a Metelo Pio, quando seguiam na direcção de Teano Sidicino. — E passamos bem sem Cápua porque controlamos Benevento. Devo ter tido um pressentimento quando mandei Caio Verres para Benevento. — Parou por um momento, pensou em qualquer coisa e fez um gesto como que para responder a esse pensamento. — Cetego pode vir a ter um novo trabalho. Legado encarregado de todas as minhas colunas de abastecimento. Isso vai pôr à prova a sua diplomacia! — Esta guerra — disse Pompeu, descontente — é uma guerra muito lenta. Por que razão não marchamos sobre Roma?
Sila, dadas as suas limitações expressivas, fitou-o com uma expressão simpática. — Paciência, Pompeu! No que toca às artes da guerra, não precisas de instrução nenhuma. Mas no que toca às artes da política, precisas de toda a instrução deste mundo. Se o