Os Favoritos de Fortuna
com um ar intrigado, Pompeu matutou naquelas…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Sentia que a resposta vogava nas labirínticas regiões da sua mente que ele se recusava a explorar. Mas, mesmo assim, não conseguia chegar a uma conclusão. Até que se resolveu a pôr de parte todos esses pensamentos. Havia coisas mais imediatas a fazer, como abrir a nova estrada que descobrira nos Alpes — abri-la, pavimentá-la, consolidá-la. Como se havia de chamar, essa estrada? Via Pompeia? Hum, soava-lhe bem! Mas quem é que queria morrer deixando como monumento à sua glória o nome de uma estrada? Não, era melhor morrer deixando apenas o nome. O nome, nada mais: Pompeu, o Grande. Sim, o nome bastava — porque no nome estava tudo.
MARCUS CRASSUS
César não via qualquer razão para se apressar a regressar a casa depois de ter concluído a sua missão junto de Públio Servílio Vátia; daí que o seu regresso se tivesse transformado numa verdadeira viagem de exploração, em particular das regiões da Província da Ásia e da Lícia que ainda não conhecia. Contudo, estava de regresso a Roma em fins de Setembro do ano em que Lépido e Catulo foram cônsules. E encontrou uma Roma profundamente apreensiva quanto à conduta de Lépido, que deixara a cidade para recrutar soldados na Etrúria, antes de fazer aquilo que devia — organizar as eleições curais. Havia uma atmosfera de guerra civil — ninguém falava de outra coisa.
Mas a guerra civil — real ou imaginária — não estava entre as grandes prioridades de César. Antes de tudo o mais, tinha questões pessoais a tratar. A mãe parecia não ter envelhecido rigorosamente nada. No entanto, havia nela alguma mudança: sentia-se que estava muito triste.
— Porque Sila morreu! — acusou o filho, com um tom de desafio na voz que fazia lembrar os tempos em que pensara que Sila era o amante da mãe. — Sim.
— E porquê? Tu não lhe deves nada!
— Devo-lhe a tua vida, César.
— A minha vida?! Mas se ele pôs em perigo a minha vida! — Tenho pena que ele tenha morrido — retorquiu Aurélia, secamente. — Pois eu não.
— Nesse caso, é melhor mudarmos de assunto.
com um suspiro, César recostou-se na sua cadeira, reconhecendo a sua derrota. Aurélia fitava-o de cabeça erguida e queixo
espetado: um sinal de que não cederia um palmo, ainda que os argumentos do filho fossem os mais brilhantes e incisivos.
— É tempo de consumar o meu casamento, Mater. Aurélia franziu o sobrolho. — Ela acaba de fazer dezasseis anos.
— Concordo que é demasiado jovem para se casar. Mas Cinila está casada há nove anos, o que torna a sua situação completamente diferente. Quando cheguei, percebi pelo seu olhar que ela está preparada para partilhar a minha cama.
— Sim, creio que tens razão, meu filho. Embora o teu avô, num caso destes, tivesse dito que a união de dois patrícios apresenta muitos perigos no que toca ao nascimento dos filhos. Eu preferia que ela crescesse um pouco mais antes de ter de enfrentar uma gravidez. — Cinila não terá problemas, mãe.
— Nesse caso, quando será?
— Esta noite.
— Mas acho que deverá haver primeiro uma espécie de reforço dos laços do matrimônio. Um jantar em família, por exemplo. As tuas duas irmãs estão em Roma. — Não vai haver jantar nenhum. Nem jantar, nem comentários, nem confusões.
E não houve, de facto. Aurélia não falou no assunto à nora, a qual, quando se encaminhava para o seu pequeno quarto, se viu detida por César. — Hoje, o caminho é outro, Cinila — disse César, pegando-lhe na mão e conduzindo-a na direcção do quarto dele.
Cinila ficou pálida.
— Ah! Mas eu não estou preparada!
— Para isto, nunca nenhuma rapariga está preparada. É uma boa razão para tratarmos disto rapidamente. Depois, poderemos conversar tudo o que quiseres. Fora uma boa ideia não lhe dar tempo para pensar, ainda que, durante aqueles quatro longos anos, ela não tivesse pensado noutra coisa. César ajudou-a a despir-se e, porque era doentiamente arrumado, dobrou cuidadosamente as vestes dela, desfrutando aqueles sinais de ocupação feminina de um quarto onde não entrara nenhuma mulher desde que Aurélia, após a morte do marido, o abandonara. Cinila sentou-se na beira da cama, vendo-o arrumar as suas roupas; porém, quando ele começou a despir-se, fechou os olhos. Depois de arrumar a sua própria roupa, César sentou-se ao lado dela e pegou-lhe nas mãos e levou-as até ao seu sexo.
— Sabes o que vai acontecer, Cinila?
— Sei — disse ela, com os olhos ainda fechados.
— Então olha para mim.
Os enormes olhos negros abriram-se, fitaram temerosamente o rosto dele, que estava sorridente e, pensou ela, cheio de amor.
— Que bonita que tu és e que bem feita! — disse ele, acariciando-lhe os seios, cheios e firmes, com uns mamilos que eram quase da cor da pele fulva. com um suspiro, Cinila ergueu as suas mãos para acariciar a mão dele.
Então César abraçou-a e beijou-a. Ah, que maravilha!, pensou ela, há quanto tempo sonhava com aquilo e, afinal, era muito melhor do que nos sonhos! Abriu os seus lábios para ele, beijou-o também, acariciou-o, deu consigo deitada ao lado dele na cama, o corpo estremecendo deliciado ao contacto com o corpo dele. A pele de César, reparou, era tão sedosa como a dela, e isso proporcionava-lhe um prazer muito intenso, uma sensação de volúpia. Embora Cinila soubesse na perfeição o que ia acontecer, a imaginação não poderia ser nunca um sucedâneo para a realidade. Amara-o durante tantos e tantos anos, transformara-o de tal forma no foco da sua vida, que ser sua esposa não só aos olhos da lei, mas também pela entrega dos corpos, era algo de glorioso. Tinha valido a pena esperar tanto tempo, aquela longa espera contribuíra ainda mais para a sua expectativa e exaltação. Sem pressas, César assegurou-se de que ela estava absolutamente preparada para o receber, e não lhe fez nenhuma daquelas coisas que pertenciam a reinos mais sofisticados do que os sonhos das rapariguinhas virgens. Magoou-a um pouco, mas não o bastante para esfriar a sua crescente excitação; senti-lo dentro dela era a melhor de todas as coisas e quis senti-lo dentro dela até que um espasmo mágico e absolutamente inesperado a invadiu dos pés à cabeça. Aí estava algo de que ninguém lhe tinha falado. O que era aquilo? Cinila encontrou depressa uma resposta — era o que prendia as mulheres ao casamento. Sim, aquele prazer.
Quando se levantaram, ao alvorecer, para comer pão acabado de sair do forno e beber água da cisterna, encontraram a sala de
jantar cheia de rosas e também uma garrafa de um vinho leve e doce numa mesinha. Nos candelabros, estavam penduradas pequenas bonecas de lã e espigas de trigo. Passado um bocado, surgiu Aurélia para os beijar e lhes desejar os melhores votos; e, logo a seguir, todos os criados, um a um, e Lúcio Decúmio e os filhos.
— Que bom que é estar finalmente e realmente casado! — disse César. — Estou completamente de acordo — retorquiu Cinila, que estava tão bela e tão alegre como qualquer noiva deveria estar após a noite de núpcias. Caio Macio, o último a chegar, achou a celebração profundamente comovente. Ninguém conhecia melhor do que ele a intensa actividade sexual de César; sim, César possuíra já muitas mulheres, mas aquela mulher era diferente, era a sua esposa. E era maravilhoso verificar que César não estava nada desapontado. Pondo-se no lugar de César, Caio Macio duvidava que alguma vez pudesse dar algum prazer a uma rapariga da idade de Cinila, depois de ter vivido com ela como irmã durante nove longos anos. Mas é claro que César era feito de uma matéria mais dura — tais pormenores não o afectavam.
Foi na primeira reunião do Senado a que César assistiu que Filipe conseguiu convencer os senadores a ordenar a Lépido que regressasse a Roma para organizar as eleições curais. E, na segunda reunião, ouviu a leitura da resposta negativa de Lépido, a que se seguiu a aprovação do decreto senatorial ordenando o regresso a Roma de Catulo. Porém, entre a segunda e a terceira reuniões, César recebeu a visita do seu cunhado, Lúcio Cornélio Cina.
— Vai haver guerra civil — disse o jovem Cina. — E eu gostaria que tu estivesses do lado dos vencedores.
— Do lado dos vencedores?
— Sim, do lado de Lépido.
— Lépido não vai vencer, Lúcio. Não pode vencer.
— com o apoio da Etrúria e da Úmbria, não pode perder!
— Não pode perder, não pode perder...! Ora, Lúcio, isso é mesmo o tipo de coisas que as pessoas sempre disseram desde o princípio do mundo. Eu só conheço uma pessoa que não pode perder.
— E quem é essa pessoa? — perguntou Cina, já aborrecido com aquela conversa. — Eu próprio.
Uma afirmação que Cina considerou extravagantemente divertida; desatou a rir incontrolavelmente.
— Mas que ave rara que tu me saíste, César! — disse ele, já recomposto. — Ave rara, ave rara, não serei. Quando muito um galináceo, que não tem nada de raro. Ou, quem sabe, talvez seja um costado de carneiro pendurado num gancho de talhante. — Nunca sei quando é que estás a brincar ou a falar a sério — retorquiu Cina, algo inseguro.
— Isso é porque eu raramente brinco.
— Francamente, César! Não me digas que estavas a falar a sério quando disseste que eras o único homem que não podia perder!
— Estava, sim, Lúcio. Estava a falar muito a sério.
— Não vais apoiar Lépido?
— Nem que ele estivesse já às portas de Roma, Lúcio.
— Pois bem, acho que fazes mal. Euvou apoiá-lo.
— Não te censuro. A Roma de Sila reduziu-te à miséria.
E o jovem Cina partiu imediatamente para Saturnia, onde se encontrava Lépido com as suas legiões. Assinada desta feita por Catulo, em nome do Senado, a segunda ordem foi enviada a Lépido e este recusou-se uma vez mais a regressar a Roma. Antes de Catulo partir para a Campânia e para as suas próprias legiões, César pediu-lhe uma entrevista. — Que queres? — perguntou friamente o filho de Catulo César; nunca gostara daquele jovem demasiado belo e demasiado dotado.
— Quero integrar a tua equipa, caso haja guerra.
— Eu não te quero na minha equipa.
A expressão de César alterou-se radicalmente nesse preciso instante: o seu olhar era agora idêntico ao feroz olhar que Roma só encontrara em Sila. — Para me usares, Quinto Lutácio, não precisas de gostar de mim. — E como haveria de te usar? Ou, para ser mais claro, em que medida é que me poderias ser útil? Já ouvi dizer que te tinhas aliado a Lépido. — É mentira!
— Não foi o que me disseram. O jovem Cina foi falar contigo antes de deixar Roma e, pelos vistos, chegaram a um acordo quanto ao apoio a Lépido. — O jovem Cina veio desejar-me os seus melhores votos, ou seja, veio cumprir o seu dever de cunhado depois de o casamento da irmã ter sido consumado. Catulo virou-lhe as costas.
— Podes ter convencido Sila da tua lealdade, César, mas nunca me hás-de convencer de que és outra coisa senão um indivíduo quezilento e conflituoso. Não te quero, porque não quero na minha equipa pessoas cuja lealdade seja suspeita.
— Pois muito bem, primo: quando — e se! — Lépido avançar, eu lutarei por Roma. Se não for como membro da tua equipa, então será noutra qualidade qualquer. Sou um patrício romano, pertenço à mesma família que tu, e não sou cliente, nem apoiante de ninguém. — A meio do caminho para a porta, César parou. — Será bom que metas na tua cabeça que eu sou um homem que há-de obedecer e respeitar sempre a Constituição de Roma. Serei cônsul quando tiver a idade necessária para tal — mas não porque um perdedor como Lépido resolveu tornar-se Ditador de Roma. Lépido não tem coragem, nem força, para tal. Nem tu, Catulo. E foi assim que César permaneceu em Roma enquanto toda a situação se encaminhava rapidamente para uma rebelião aberta. O senatus consultum de ré publica defendendo foi aprovado, Placo Princeps Senatus morreu, o segundo interrex realizou eleições e Lépido, finalmente, marchou sobre Roma. Juntamente com vários milhares de outros romanos dos mais diversos níveis sociais, César, equipado para a guerra, apresentou-se a Catulo, no Campo de Marte; foi integrado num grupo de várias centenas de militares que controlaria a Ponte de Madeira que ligava Transtiberim à cidade. Como Catulo não queria atribuir um comando àquele jovem que já obtivera uma Coroa Cívica, César cumpriu o seu dever como qualquer outro soldado. Não participou em nenhuma acção guerreira e, quando a batalha junto às Muralhas Sérvias terminou, foi pura e simplesmente para casa, sem se preocupar sequer em apresentar-se como voluntário para a perseguição a Lépido.
A arrogância e o desdém de Catulo não foram esquecidos. Mas Caio Júlio César era paciente nos seus ódios; a vez de Catulo
havia de chegar, um dia, o dia certo. Até lá, Catulo teria de esperar. Para grande pesar de César, quando regressou a Roma, depois da sua longa viagem, encontrou o jovem Dolabela já exilado e Caio Verres pavoneando-se pela cidade com o ar mais virtuoso e probo deste mundo. Verres estava agora casado com a filha de Metelo Caprário — e era muito popular junto dos cavaleiros eleitores, que consideravam o facto de ele ter testemunhado contra o jovem Dolabela como um grande cumprimento a uma Ordo Equester em vias de reabilitação — ali estava um senador que não tinha medo de acusar um dos seus colegas senadores!
No entanto, César fez saber, através de Lúcio Decúmio e de Caio Macio, que estaria disposto a defender em tribunal qualquer habitante do bairro de Subura; e, durante os meses que levaram à queda de Lépido e Bruto e à ascensão de Pompeu, trabalhou numa série de casos particularmente humildes, mas em que obteve um êxito a cem por cento. A sua reputação no mundo dos tribunais começou a afirmar-se e os entendidos em advocacia e retórica iam já assistir a todos os processos em que ele participava — na sua maior parte, processos julgados nos tribunais presididos pelo pretor urbano ou pelo pretor para as questões externas, mas ocasionalmente também processos envolvendo homicídios, julgados no tribunal destinado unicamente a esse efeito. Por muito que Catulo tentasse difamá-lo, a verdade é que as pessoas não o queriam ouvir; e isso porque gostavam do que César dizia — e da maneira como o dizia — em tribunal.
Quando algumas das cidades da Macedónia e da Grécia Central foram ter com ele, pedindo-lhe que processasse o velho Dolabela (o qual regressara do seu longo governo porque Ápio Cláudio Pulcro o fora finalmente substituir), César anuiu. Aquele seria o seu primeiro julgamento realmente importante, pois decorreria no quaestio de repetundae — o Tribunal de Extorsão — e envolveria um homem de boas famílias e com forte influência política. Pouco sabia sobre as circunstâncias que tinham caracterizado o governo do velho Dolabela; daí que tivesse decidido entrevistar todas as eventuais testemunhas e reunir provas de forma meticulosa. Os seus clientes, etnarcas de várias cidades, adoravam-no, pois César tinha com eles um trato aberto e agradável, além de nunca esquecer que aqueles
homens deviam ser tratados de acordo com a sua elevada posição social. Mas o que mais espantou os etnarcas foi a extraordinária memória de César — nunca se esquecia do que lhe diziam e, por vezes, fixava a sua atenção em afirmações aparentemente vulgares mas que, afinal, eram muito mais importantes do que os seus clientes pensavam. — Gostaria, no entanto, de lhes fazer desde já uma advertência — disse ele aos seus clientes, no dia em que o julgamento começou. — O júri é inteiramente formado por senadores e as simpatias do Senado vão todas para Dolabela. Ele foi considerado um bom governador porque conseguiu dominar os Escordiscos. Não creio que consigamos ganhar. E não ganharam. Apesar de as provas serem muito fortes, aquele júri senatorial acabaria forçosamente por ignorá-las — e por ignorar a soberba oratória de César. Daí que o veredicto fosse ABSOLVO. César não apresentou quaisquer desculpas aos seus clientes, nem estes se mostraram desapontados com o trabalho dele. Tanto a apresentação do caso como os discursos de César foram considerados como os melhores de toda uma geração e muitos foram aqueles que lhe pediram que publicasse as suas intervenções.
— As tuas intervenções hão-de tornar-se textos de estudo para os estudantes de retórica e leis — disse Marco Túlio Cícero, depois de lhe ter pedido cópias, — É claro que foste injustamente derrotado, mas estou muito contente por ter regressado a Roma a tempo de encontrar um advogado melhor que Hortênsio e Caio Cota. — Também estou muito contente, Cícero. Uma coisa é ser elogiado por Cetego, outra coisa é ouvir um advogado do meu nível pedir-me cópias do meu trabalho — retorquiu César, sinceramente satisfeito com o interesse de Cícero.
— Não podes ensinar-me nada no capítulo da oratória — disse Cícero, começando, inconscientemente, a afastar-se dos cumprimentos e louvores. — Mas podes ter a certeza de que estudarei com toda a atenção a forma como investigaste o teu caso e como apresentaste as provas. — Subiam os dois o Fórum, e Cícero não parava de falar. — O que mais me fascina é a forma como consegues projectar a tua voz. É que, na conversação normal, tu tens uma voz baixa! Mas quando falas para uma multidão, consegues colocá-la bem lá no alto e torná-la, ao mesmo tempo, perfeitamente clara! Quem é que te ensinou isso?
— Ninguém — retorquiu César, surpreendido. — Reparei apenas que os homens com vozes baixas tinham mais dificuldade em fazer-se ouvir. E, como eu gosto de ser ouvido, uso uma voz de tenor em tais circunstâncias.
— Apolónio Molão, com quem estudei nestes últimos dois anos, diz que o tipo de voz depende do comprimento do pescoço. Quanto mais alto for o pescoço, mais baixa e grave será a voz. E, realmente, tu tens um pescoço enorme! Felizmente — acrescentou ele, complacentemente — o meu pescoço tem o tamanho certo. — É pequeno — disse César.
— Médio — replicou Cícero.
— Estás com bom aspecto, Cícero. E engordaste. Bem precisavas de engordar um pouco.
— Sinto-me bem. E estou doido por voltar aos tribunais. No entanto — acrescentou Cícero, com um ar pensativo —, acho que será melhor não te defrontar. Há certos titãs que nunca deveriam confrontar-se. O que me apetece é lutar com gente como Hortênsio e Caio Cota. — Esperava melhor da parte deles — disse César. — Se o júri não tivesse tomado já uma decisão antes de o julgamento começar, Hortênsio e Caio Cota teriam perdido. Achei-os descuidados e inábeis.
— Totalmente de acordo. Caio Cota é teu tio, não é?
— É. Mas isso não tem importância. Nós gostamos de lutar um contra o outro. Pararam para comprar um pastel de carne a um vendedor, que há anos montara a sua tenda perto da residência do flamen Dialis.
— Creio — disse Cícero, engolindo o seu pastel (o célebre advogado adorava aquele tipo de iguarias) — que permanecem muitas dúvidas legais quanto ao teu flaminato. Não te sentes tentado a tirar proveito dessas dúvidas e a instalar-te naquela espaçosa e cômoda residência? — perguntou ele, apontando para a casa do flamen Dialis. — Disseram-me que vives num apartamento em Subura. Não é a melhor morada para um advogado com as tuas capacidades, César!
César estremeceu ao ouvir aquilo, atirou um resto do pastel para um pássaro, e declarou: — Nem que vivesse no mais mísero casebre do Esquilino, me sentiria tentado a voltar para aquela casa!
— Pois quanto a mim, estou muito contente por viver no Palatino — disse Cícero, atacando um segundo pastel. — O meu irmão, Quinto, tem a velha casa da família nas Carinas — acrescentou ele, com um ar importante, como se a sua família tivesse aquela casa há várias gerações, quando, na realidade, a comprara era ele um rapaz. — A propósito de absolvições: sabes o que é que Quinto Calídio disse depois de um júri o ter condenado no Tribunal de Extorsão?
— Creio que perdi esse julgamento. O que é que ele disse? — Disse que não tinha ficado surpreendido com o veredicto, porque, nos tempos que correm, subornar um júri custa trezentos mil sestércios, e ele não possuía esse dinheiro! — Nesse caso, será melhor afastar-me do Tribunal de Extorsão! — Sobretudo enquanto Lêntulo Sura for o chefe dos jurados. Como Públio Cornélio Lêntulo Sura fora o chefe do júri no caso do velho Dolabela, César ergueu muito as sobrancelhas. — Aí está uma coisa que me convinha saber, Cícero!
— Meu caro, eu sei de tudo o que se passa nos nossos tribunais! — disse Cícero, erguendo uma mão num gesto grandiloqüente. — Quando quiseres saber alguma coisa, vem ter comigo.
— Irei, sim! — retorquiu César. Depois, cumprimentou Cícero e encaminhou-se para o seu bairro, o desprezado bairro de Subura.
Quinto Hortênsio saiu de detrás de uma coluna e aproximou-se de Cícero, ao mesmo tempo que via César afastando-se rapidamente.
— Ele portou-se muito bem! — comentou Hortênsio. — com mais alguns anos de experiência, é muito capaz de disputar os nossos louros!
— Não é de experiência que ele precisa, meu caro Hortênsio. É de um júri honesto! Se o júri que absolveu Dolabela fosse honesto, os teus louros ter-se-iam transformado em pó, esta manhã!
— Antipático!
— Mas olha que a coisa não vai durar muito.
— Que coisa?
— Os júris compostos unicamente por senadores.
— Ora essa! O Senado voltou a controlar tudo e controlará tudo para sempre. — O que acabas de dizer é um verdadeiro disparate. Há um movimento nítido em Roma no sentido de serem devolvidos aos
tribunos da plebe os poderes que tinham noutros tempos. E quando isso acontecer, Quinto Hortênsio, os júris voltarão a ser constituídos por cavaleiros. Hortênsio encolheu os ombros.
— Isso não me afecta, Cícero. Sejam os jurados senadores ou cavaleiros, um suborno será sempre um suborno — quando necessário.
— Eu não suborno os meus júris — retorquiu gravemente Cícero. — Eu sei que não subornas. E César também não. Mas é um costume aceite, meu caro, é um costume aceite!
— Um costume que não pode deixar nenhum advogado satisfeito. Quando eu ganho um julgamento, gosto de saber que o ganhei devido aos meus méritos, e não graças ao dinheiro que o meu cliente me deu para repartir pelos jurados.
— Se é isso que pensas, então não passas de um tonto. E não te vais agüentar por muito tempo mais!
O rosto agradável, mas sem a clássica beleza romana, de Cícero, exibiu a mais pétrea das expressões. Os olhos castanhos encheram-se de um brilho feroz. — Aguentar-me-ei muito mais tempo que tu, Hortênsio! Muito mais tempo! Não duvides disso!
— Eu sou demasiado forte para que alguém possa deitar-me abaixo. — Isso foi o que Anteu disse antes de Hércules o ter erguido do chão. Ave, Quinto Hortênsio.
Em fins de Janeiro do ano seguinte, Cinila deu à luz uma menina, Júlia, uma bonequita delicada e muito branca deixou os pais encantados.
— Um rapaz representa uma grande despesa, minha querida esposa — disse César. — Ao passo que uma rapariga é um trunfo político de inigualável valor, sobretudo quando a sua linhagem é patrícia tanto do lado materno como paterno, e quando dispõe de um bom dote. É impossível saber o que um rapaz virá a fazer na vida. Mas quanto às raparigas, as coisas são diferentes. E, quanto a nossa Júlia, ela é perfeita. Vai ser como a avó Aurélia: vai ter um sem-número de pretendentes!
— Não vejo grandes perspectivas quanto ao dote — disse a mãe, que tinha tido um parto difícil, mas estava a recuperar bem.
— Não te preocupes, minha querida Cinila! Quando Júlia chegar à idade de casar, não terá de esperar pelo dote!
Aurélia estava no seu elemento: encarregada de tratar do bebê, apaixonara-se de imediato pela deliciosa criatura. Era o seu quinto neto: Lia tivera dois rapazes dos seus dois casamentos e Ju-Ju tivera um rapaz e uma rapariga. Mas nenhum desses netos vivia em sua casa. E, além disso, não eram filhos do seu filho, da luz da sua vida. — Ela vai ter olhos azuis, porque nasceu com eles muito pálidos — disse Aurélia, deliciada com o facto de Júlia se parecer com o pai. — E o cabelo não tem mais cor que o gelo! — Ainda bem que lhe encontras cabelo! — retorquiu César com um ar grave. — Para mim, ela é completamente careca. O que não é um bom sinal, pois todos os Césares têm cabeleira farta!
— Ora, que disparate! Claro que a menina tem cabelo! Espera que ela faça um ano e logo vais ver se não tem cabelo! Vai ser um cabelo mais parecido com a prata do que com o ouro. A minha queridinha!
— A mim, parece-me tão feia como a pobre Cnéia.
— César! Francamente! É um recém-nascido! E vai sair a ti! — Mas que sorte a minha! — replicou César, deixando a filha e a avó. César encaminhou-se para a mais afamada estalagem da cidade, na esquina do Fórum Romano com a Clivus Orbius; recebera uma mensagem segundo a qual os seus clientes do caso Dolabela estavam de novo em Roma e ansiosos por falar com ele. — Temos outro caso para ti — disse o chefe dos visitantes gregos, Ifícrates de
Tessalónica.
— Lisonjeiam-me — retorquiu César, com um ar intrigado. — Mas quem é que vocês querem processar? Ápio Cláudio Fulcro é governador há tão pouco tempo que, com toda a certeza, ainda não fez nada de ilegal...! E mesmo assim, seria extremamente difícil convencer o Senado a autorizar o julgamento de um governador ainda em funções. — Trata-se de um estranho caso, que nada tem a ver com governadores macedónios — retorquiu Ifícrates. — Nós queremos processar Caio António Híbrida, pelas atrocidades que cometeu quando era prefeito de cavalaria, no tempo de Sila, já lá vão dez anos. — Por todos os deuses! Querem processá-lo ao fim de tanto tempo?! — Não estamos à espera de ganhar, César. Não é esse o objectivo da nossa missão. Simplesmente, a nossa experiência com o mais velho dos Dolabelas levou-nos a concluir que alguns dos romanos que nos têm visitado são pouco melhores que animais. E creio que é tempo de Roma ter consciência disso. As petições não servem para nada. Ninguém se dá ao trabalho de lê-las. E muito menos o Senado. Os processos por traição ou extorsão são espectáculos para elites — só as classes altas de Roma se dão ao trabalho de lá ir. O que nós queremos é chamar a atenção dos cavaleiros e mesmo das classes baixas. Pensámos, por isso, que um julgamento no Tribunal de Homicídios seria o melhor para o efeito pretendido — trata-se de um local que todas as classes freqüentam. E quando nos reunimos para escolher o melhor dos casos, lembrámo-nos imediatamente de Caio António Híbrida.
— Que fez ele? — perguntou César.
— Híbrida era o prefeito de cavalaria encarregado dos distritos de Téspias, Elêusis e Orcomeno durante o tempo em que Sila ou parte do seu exército estiveram na Beócia. Mas a sua actividade militar foi muito reduzida. Em vez disso, deliciava-se com prazeres horrendos — tortura, mutilações, violações de mulheres, homens, rapazes, raparigas, e assassínios. — Híbrida?
— Sim, Híbrida.
— bom, eu sempre soube que ele era um António típico — mais tempo bêbedo que sóbrio, gastador inveterado, louco por excessos envolvendo mulheres ou comida. — No rosto de César, desenhou-se uma expressão de nojo. — Mas tortura? Mesmo num António, não é coisa usual. Os Aenobarbos é que são famosos por essas tendências!
— Dispomos de provas absolutamente incontestáveis, César. — Suponho que Híbrida foi buscar essa tendência ao lado da mãe. Ela não era romana, embora sempre tenha ouvido dizer que era uma mulher decente. Uma apuliana. Mas os Apulianos não são bárbaros e aquilo que vocês me contaram são actos perfeitamente bárbaros! Nem mesmo Caio Verres iria tão longe!
— As nossas provas são absolutamente incontestáveis — repetiu Ifícrates. A sua expressão deixou transparecer alguma malícia. —
Mas ouve o que te vou dizer, e talvez compreendas o nosso empenho. Nos mais altos círculos de Roma, só acreditarão em nós a partir do momento em que toda a cidade de Roma fale do caso. E para que isso aconteça, é preciso que toda a cidade de Roma veja, com os seus próprios olhos, as nossas provas.
— Têm testemunhas que foram vítimas de Híbrida?
— Dúzias delas, se necessário. Pessoas sem a mínima mancha na sua reputação. Pessoas de elevada posição social. Algumas sem olhos, outras sem orelhas, algumas sem línguas, outras sem mãos, ou pés, ou pernas, ou órgãos genitais, ou úteros, ou braços, ou pele, ou narizes — e, por vezes, sem vários destes órgãos. Aquele homem é um animal. Ele e os seus amigos, mas os seus amigos não nos interessam, porque eram de baixa extracção. César tinha um ar absolutamente enojado.
— Nesse caso, as vítimas sobreviveram.
— A maior parte sobreviveu, é verdade. António pensava que aquilo que fazia era uma arte. E a arte consistia em infligir todas as dores e mutilações possíveis sem que a vítima morresse. A maior alegria de António era passar por uma das suas cidades, alguns meses depois, e ver que as suas vítimas ainda estavam vivas.
— bom, vai ser um caso difícil para mim, mas não sinto a mínima hesitação quanto a aceitá-lo — retorquiu gravemente César.
— Difícil? Porquê?
— Porque o irmão mais velho de Híbrida, Marco, está casado com uma prima minha em segundo grau — Júlia, a filha de Lúcio César, que foi cônsul e que viria a ser assassinado por Caio Mário. Eles têm três filhos — sobrinhos de Híbrida e meus primos em terceiro grau. O problema, Ifícrates, é que um advogado em Roma fica mal visto se acusar membros da sua própria família.
— Mas a tua prima não está casada com Híbrida! Logo, a tua ligação com Híbrida é muito tênue.
— É verdade e é por esse motivo que eu aceito o caso. Mas haverá muita gente a criticar-me. Unicamente porque existe uma ligação de sangue entre mim e os três filhos de Júlia. Foi com Lúcio Decúmio que César preferiu falar: antes falar com Decúmio do que com Caio Macio ou outra pessoa qualquer, próxima do seu nível social. — Tu dás conta de tudo o que se passa, pai. Mas sabias de alguma história deste género? Dotado de um físico que o fizera parecer mais velho quando era novo e que, agora que era velho, o fazia parecer mais novo, os anos pareciam não passar por Lúcio Decúmio; César não sabia ao certo a sua idade: calculava que Decúmio devia andar à volta dos sessenta. — Sim, ouvi uns zunzuns, nada mais. Os escravos dele não duram mais de seis meses lá em casa, mas nunca ninguém os vê enterrados. Eu fico sempre desconfiado quando oiço histórias dessas. Desaparecem, mas não há enterros, nem nada. Normalmente, o que isso quer dizer é que os patrões praticam todo o tipo de maldades nos seus escravos. — Não há coisa mais desprezível do que a crueldade para com um escravo! — É natural que penses assim, César. Tiveste a melhor mãe do mundo, ela deu-te a melhor das educações.
— Mas estas coisas não devem ter nada a ver com a educação de uma pessoa! — retorquiu César, furioso. — Por certo têm a ver com a natureza de uma pessoa: é algo que nasce com elas. Sou capaz de entender tais atrocidades quando são praticadas por bárbaros — os seus costumes, tradições e deuses exigem deles coisas que nós, Romanos, banimos há já muitos séculos. Imaginar que um nobre romano — um António! — sente prazer em infligir tais sofrimentos... ah, por todos os deuses, pai, é difícil de acreditar! Mas Lúcio Decúmio deu-lhe uma resposta sensata.
— Basta olhares à tua volta, César. Sabes isso muito bem. Talvez não vejas coisas tão horríveis, é claro, mas isso é porque as pessoas têm medo de ser denunciadas. Pensa um pouco! Este António Híbrida é um nobre romano, como tu dizes. Os tribunais protegem-no. A sua própria classe protege-o. Por que raio é que ele há-de ter medo, a partir do momento em que começa a cometer tais actos? O que impede a maior parte das pessoas de começar é o medo de serem apanhadas. Porque, se forem apanhadas, é muito natural que sejam castigadas. E quando mais alto um homem sobe, maior será a sua queda. Só que, por vezes, há homens com poder e influência suficientes para fazer o que muito bem entende, para ser o que muito bem entende. É o caso de António Híbrida. Não há muitos como ele, seja onde for. Não há muitos! Mas há sempre alguns, César. Há sempre alguns.
— Sim, tens razão. Claro que tens razão. — As pálpebras cerraram-se, cansadas, enquanto César tentava alinhar os seus pensamentos. — O que tu me estás a dizer é que tais homens devem ser castigados. É isso, não é?
— Claro. A menos que queiras que haja muitos como Híbrida. Se permitires que um escape ao castigo, aparecem logo mais dois a fazer o mesmo. — Então não há dúvida: ele vai ter mesmo de prestar contas. E não vai ser nada fácil. — Pois não.
— Para além desses horríveis boatos sobre o desaparecimento dos escravos, que mais sabes acerca dele, pai?
— Não muito. Sei que é um homem odiado por muita, muita gente. Os comerciantes odeiam-no. Tal como o povo miúdo. Quando ele dá um beliscão numa rapariguinha que passa, belisca-a sempre com muita força, põe a rapariga a chorar. — E que faz a minha prima Júlia no meio de tudo isto?
— Pergunta à tua mãe, César, não a mim!
— Eu não posso perguntar isso à minha mãe, Lúcio Decúmio! Lúcio Decúmio pensou um pouco no caso e aquiesceu.
— Pois não, César, não podes perguntar. — Fez uma nova pausa para reflectir. — bom, uma coisa é certa: essa Júlia é uma mulher muito parva — não tem nada a ver com as outras Júlias da tua família, que eram e são todas inteligentes! O António que está casado com ela não é o melhor dos homens, não sei se me faço entender. Mas também não é cruel. É um tipo sem cabeça. E os miúdos dele deviam ter levado uns bons pontapés no rabo e nunca levaram! — Queres dizer que os filhos dele são mal-educados?
— São tão mal-educados como um urso da floresta.
— Deixa-me ver... Marco, Caio, Lúcio. Ah, quem me dera saber um pouco mais acerca da minha família! Não dou atenção às conversas das mulheres, esse é que é o problema. A minha mãe podia contar-me tudo num instante... Mas ela é demasiado inteligente, perguntava-me logo por que razão é que eu estou tão interessado e depois tentava convencer-me a não aceitar o caso. E, por fim, acabávamos a discutir. É preferível que ela saiba que eu aceitei o caso, quando tudo estiver já consumado. — Suspirou, parecia triste. — Mas conta-me mais coisas acerca dos sobrinhos de Híbrida.
Lúcio Decúmio fez um esforço para se lembrar, comprimiu os lábios. — Eu costumo vê-los aqui em Subura. Não deviam andar por aqui sem pedagogo nem criados, mas andam. Sozinhos, sem ninguém por perto. Roubam comida das lojas, mais para atormentar as pessoas do que por terem faltas em casa.
— Que idades têm eles?
— Não te posso dizer ao certo, mas Marco tem aspecto de ter doze anos. Mas de cabeça é como se tivesse cinco. Por isso, é capaz de ter uns sete ou oito. E os outros dois são mais pequenos.
— São todos umas bestas, os Antónios. Ouvi dizer que o pai dos miúdos não tem muito dinheiro.
— Está sempre à beira do abismo, César.
— Nesse caso, se eu processar Híbrida, será horrível para eles. — Pois será.
— Mas tenho de aceitar o caso, pai. — Eu sei, eu sei!
— Do que preciso é de algumas testemunhas. De preferência, libertos que queiram testemunhar. Ele aqui deve fazer as mesmas coisas que fez na Macedónia. E nem todas as suas vítimas serão escravos que desapareceram misteriosamente. — Euvou investigar, César.
Mal ele entrou, as mulheres da casa aperceberam-se de que havia problema; mas nem Aurélia nem Cinila fizeram qualquer tentativa para descobrir o que se passava com César. Em circunstâncias mais normais, Aurélia tê-lo-ia certamente feito; mas o bebê ocupava-a muito mais do que alguma vez admitira ser possível, e, por isso, não conseguiu decifrar a expressão do filho. E, ao mesmo tempo, perdeu uma oportunidade única para tentar dissuadi-lo de acusar Caio António Híbrida, cujos sobrinhos eram primos de César.
O Tribunal de Homicídios era o foro lógico, mas quanto mais pensava no caso, menos César gostava da ideia de um julgamento nesse tribunal. Em primeiro lugar, porque o presidente era o pretor Marco Júnio Junco, que detestara a sua nomeação para um tribunal que, em princípio, devia ser confiado a um ex-edil (mas nenhum ex-edil se apresentara como voluntário para presidir ao tribunal); César tivera já um desagradável confronto com Júnio Junco, num julgamento ocorrido em Janeiro. A outra grande dificuldade residia no facto de os litigantes não serem romanos. Era muito difícil conseguir um veredicto favorável, quando os queixosos eram estrangeiros e o réu era um romano de elevado nascimento e posição social. Os seus clientes bem podiam dizer que não se importavam de perder o caso. Só que César sabia que um juiz como Junco faria o possível para que um tal julgamento tivesse o mínimo de repercussões na sociedade — era mesmo capaz de reunir o tribunal num local afastado, de forma a evitar uma vasta audiência. E o pior de tudo era que o tribuno da plebe Cneu Sicínio andava a monopolizar as audiências do Fórum, reivindicando a restauração de todos os poderes que, em tempos, haviam pertencido aos tribunos da plebe. Não se falava de outra coisa, em especial desde que Sicínio se tinha saído com uma afirmação que não escapara a nenhum diletante literário que gostasse de coleccionar citações mais ou menos ridículas de políticos.
— Mas por que raio — perguntou-lhe o cônsul Caio Escribónio Curió, exasperado — é que tu nos importunas, a mim e ao meu colega Cneu Octávio, aos pretores, aos edis, aos teus camaradas tribunos da plebe, a Públio Cetego, a todos os nossos consulares e homens famosos, a banqueiros como Tito Ático? Nem os pobres questores escapam! E, no entanto, nunca dizes uma palavra contra Marco Licínio Crasso? Marco Crasso não será porventura digno do teu veneno? Ou será por acaso Marco Crasso quem está por detrás das luas diatribes? Vá lá, Sicínio, pára um momento com os teus latidos, e diz-me, sinceramente, por que raio é que só deixas Crasso em paz?
Sabedor de que Curió e Crasso estavam desavindos, Sicínio pôs um ar de quem estava a reflectir maduramente na questão, antes de dar uma resposta. — Porque Marco Crasso tem palha à volta dos seus dois cornos — respondeu ele, no tom mais sério deste mundo.
A vastíssima audiência desatou numa gargalhada pegada, apreciando todas as nuances da frase. Um touro com palha à volta de um chifre era algo bastante comum; a palha era um aviso de que o animal podia parecer manso, mas que, a todo o momento, podia correr para uma pessoa e escorneá-la com aquele mesmo chifre. Quanto aos touros com palha à volta dos dois cornos, as pessoas fugiam deles como de leprosos. Como Marco Crasso tinha um ar imperturbavelmente bovino e a constituição física de um touro,
aquela observação colava-se-lhe na perfeição; mas o que fizera rir as pessoas fora um outro sentido subjacente à frase: é que Marco Crasso era tão touro, em termos sexuais, que, em vez de um chifre, possuía dois.
Estando as coisas neste pé, como seria possível atrair muitos dos adeptos de Sicínio ao julgamento? Como seria possível dar ao julgamento a audiência que ele merecia? E enquanto César matutava nestas questões, os seus clientes regressaram à Boécia para reunir provas e testemunhas, de acordo com as instruções que César lhes dera; vários meses passaram entretanto, os clientes regressaram a Roma e César ainda não tinha levado o caso ao tribunal de Junco. — Não compreendo! — exclamou Ifícrates, decepcionado. — Se continuamos assim, acabará por não haver julgamento nenhum!
— Tenho o pressentimento de que encontraremos um processo melhor — disse César. — Tem paciência, Ifícrates, espera um pouco mais. Prometo-te que tu e os teus colegas não terão de esperar em Roma durante muito tempo. As testemunhas, estão bem escondidas? — O melhor possível. Tal e qual como tu ordenaste. Numa villa dos arredores de Cumas.
Até que, no princípio de Junho, surgiu a solução para todos os problemas. César tinha resolvido passar pelo tribunal do praetor peregrinus, Marco Terêncio Varrão Lúculo. O irmão mais novo do homem que a maior parte dos Romanos considerava ser o seu mais brilhante concidadão era muito parecido com Lúculo — e muito devotado a ele. Separados na infância pelas vicissitudes da sorte, o elo entre os dois irmãos não tinha enfraquecido; pelo contrário, tornara-se muito mais forte. Lúculo atrasara a sua subida ao longo do cursus honorum para que pudesse ser edil curul juntamente com Varrão Lúculo, e os dois tinham organizado jogos tão extraordinários que, passados alguns anos, Roma continuava a falar deles. Generalizara-se a ideia de que os dois Lúculos se tornariam cônsules num futuro próximo; além de aristocratas, eram extremamente populares entre os eleitores.
— Que tal te está a correr hoje o dia? — perguntou-lhe César, sorridente; César gostava do praetor peregrinus, em cujo tribunal defendera muitos pequenos casos com uma confiança e uma liberdade que poucos outros juizes permitiriam. Varrão Lúculo, além de ser uma sumidade em leis, era um homem de uma integridade extrema. — Verdadeiramente entediante — retorquiu Varrão Lúculo, retribuindo o sorriso. Por alguma razão desconhecida, a brilhante ideia de César nascera e amadurecera entre a sua pergunta e a resposta de Varrão Lúculo; isso era habitual nele — a repentina resolução de um problema difícil, ao fim de meses e meses de debates interiores. — Quando é que partes de Roma para os tribunais rurais?
— É costume o praetor peregrinus ir para o litoral da Campânia logo que o Verão começa a tornar-se insuportável em Roma — disse Varrão Lúculo, com um suspiro. — No entanto, desta vez, parece quevou ter de ficar em Roma pelo menos mais um mês. — Então fica, Varrão Lúculo! Demora-te em Roma o mais possível! — disse César. Varrão Lúculo pestanejou, surpreendido. Onde estava César, que já não o via? Sim, de facto aquele jovem que tanto admirava, e a quem reconhecia invulgares capacidades de advogado, tinha pura e simplesmente desaparecido.
— Já sei o quevou fazer! — dizia César, momentos depois, a Ifícrates, no salão privado de uma estalagem, alugado por este último.
— Que vais fazer? — perguntou aquela importante figura de Tessânica, impaciente. — Eu sabia que tinha razão em esperar, Ifícrates! Não vamos recorrer ao Tribunal de Homicídios! E não vamos acusar Caio António Híbrida de nenhum assassínio ou tentativa de assassínio!
— Não vamos?! — retorquiu Ifícrates, estupefacto. — Mas esse era o objectivo da nossa acção!
— Não, o objectivo da vossa acção é criar uma forte comoção em toda a cidade de Roma. E não conseguiremos fazer isso no tribunal de Junco. Aliás, o tribunal de Junco fugiria sempre ao público que Sicínio tem no Fórum. Junco acabaria por fechar-se no recanto menos arejado da Basílica Pórcia ou da Opimia, onde as pessoas desmaiariam por causa do calor. Só ficariam as pessoas que tinham mesmo de ficar. O júri odiar-nos-ia e Junco despacharia o julgamento num instante, pressionado por jurados e por advogados. — Mas qual é alternativa?
César inclinou-se um pouco para o seu interlocutor.
—vou apresentar este caso ao praetor peregrinus. Ou seja, será uma acção cível e não uma acção criminal — disse ele. — Em vez de acusar Híbrida de homicídio, processá-lo-ei pelos danos decorrentes da sua conduta, enquanto foi prefeito de cavalaria na Grécia, há dez anos atrás. E tu depositaras um sponsio enorme nas mãos do praetor peregrinus — uma soma muito maior que toda a fortuna de Híbrida. Poderás arranjar dois mil talentos? E estarás preparado para os perder, caso alguma coisa corra mal?
Ifícrates respirou fundo.
— Sim, de facto é uma soma enorme. Mas nós estamos preparados para gastar o que for preciso. O importante é que Roma perceba que tem de deixar de nos atormentar com homens como Híbrida — ou como o velho Dolabela. Sim, César, nós arranjaremos os dois mil talentos. Teremos de fazer um esforço, mas conseguiremos arranjá-los aqui em Roma. — Muito bem. Depois, depositaremos os dois mil talentos em sponsio, a fim de movermos a acção cível contra Caio António Híbrida. Só isso já chegará para causar uma forte sensação. E demonstrará a toda a cidade de Roma que estamos seriamente empenhados no caso. — Híbrida não conseguirá arranjar um quarto dessa soma. — Tens toda a razão, Ifícrates. Mas o praetor peregrinus pode dispensar o depósito do sponsio se considerar que há razões suficientes para reunir um tribunal. E Varrão Lúculo é um homem justo. Estou certo de que prescindirá do sponsio de Híbrida. — Mas se nós ganharmos e Híbrida não tiver depositado os seus dois mil talentos, o que é que acontece?
— Acontece que terá de arranjar o dinheiro! Porque terá de pagar precisamente essa soma! É assim que se processa uma acção cível, de acordo com as leis romanas. — Ah, já estou a perceber! — Ifícrates recostou-se na sua cadeira e juntou os braços à volta dos joelhos. Sorridente, acrescentou: — Se ele perder, ficará tão pobre como um mendigo. E terá de deixar Roma completamente falido. E nunca mais terá dinheiro para voltar. É isso, não é?
— Precisamente. Nunca mais poderá voltar a Roma.
— Em contrapartida, se nós perdermos, ele fica com os nossos dois mil talentos, não é? — Isso mesmo.
— Achas que vamos perder, César?
— Acho que vamos ganhar.
— Então porque é que me disseste que alguma coisa podia correr mal? Porque é que disseste que tínhamos de estar preparados para a perda de tão elevada soma? com a testa muito franzida, César tentou explicar àquele grego de Tessalónica aquilo que ele, um romano dos quatro costados, tinha aprendido desde a infância. — Porque a lei romana não é tão perfeita como parece. Muitas coisas dependem do juiz e, de acordo com as leis de Sila, o juiz, neste caso, não poderá ser Varrão Lúculo. Mas eu confio inteiramente na integridade de Varrão Lúculo e espero que ele escolha um juiz capaz de estudar o caso de uma forma desapaixonada. Mas há um outro risco. Por vezes, um advogado brilhante consegue encontrar, nesta ou naquela lei, um buraco capaz de deixar entrar um oceano inteiro — e Híbrida será defendido pelos melhores advogados de Roma. — Uma tensão muito forte percorria todo o corpo de César; as suas mãos nervosas, enquanto procurava explicar aquelas questões ao seu cliente, quase ganhavam o aspecto de garras. — Se eu tive inspiração para encontrar uma solução para o nosso problema, é muito natural que outros tenham inspiração suficiente para encontrar uma solução para o problema de Híbrida! É por isso que homens como eu gostam tanto da actividade legal, quando os juizes e os processos são imunes à corrupção e aos preconceitos! Apesar de acharmos que temos toda a razão, apesar de considerarmos que preparámos exemplarmente o nosso caso, temos sempre de levar em conta que o nosso adversário pode ser brilhante. Imagina que Cícero seria o advogado de defesa! Aí tens um magnífico advogado de defesa! Claro que ele recusará um caso destes, quando souber o seu conteúdo. Mas Hortênsio não levantará problemas. Finalmente, não te esqueças de que um dos lados tem de perder. Nós estamos a lutar por um princípio e essa é a mais perigosa de todas as motivações para quem disputa um processo.
—vou consultar os meus colegas e amanhã dar-te-ei uma resposta — disse Ifícrates. A resposta era a esperada — César devia pedir ao praetor peregrinus que reunisse o tribunal para estudar uma acção cível
contra Caio António Híbrida. Acompanhado dos seus clientes, César deslocou-se então ao tribunal de Varrão Lúculo, onde depositou o sponsio de dois mil talentos, a soma que era exigida a Híbrida como indemnização pelos danos causados.
Varrão Lúculo ficou petrificado ao ouvir o que César tinha para lhe dizer; depois, abanou a cabeça, estupefacto, e tratou de examinar o documento passado pelo banco. — Não há dúvida — disse ele para César. — Isto é mesmo a sério. — Absolutamente, praetor peregrinus.
— Porque não pensaste no Tribunal de Extorsão?
— Porque a acção não envolve nenhuma extorsão. Envolve assassínio — mas mais do que assassínio! Envolve torturas, violações e mutilações. Passados tantos anos, os meus clientes não pretendem uma acção criminal. O que querem é uma indemnização em nome dos cidadãos de Téspias, Elêusis e Orcomeno a quem Caio António Híbrida causou danos irreparáveis. Essas pessoas ficaram incapacitadas para o trabalho, para ganharem a sua vida, para se casarem ou terem filhos. Os outros cidadãos de Téspias, Elêusis e Orcomeno, viram-se na obrigação de sustentar essas pessoas — e isso tem-lhes custado uma fortuna que, segundo eles, deverá ser Caio António Híbrida a pagar. Esta é uma acção cível, praetor peregrinus, destinada a obter uma indemnização pelos prejuízos causados.
— Nesse caso, deverás apresentar as tuas provas por carta, para que eu possa decidir se há motivos para reunir o tribunal.
— Apresentarei perante o tribunal e o juiz que escolheres os testemunhos de oito vítimas ou testemunhas das atrocidades. Seis dessas pessoas são habitantes de Téspias, Elêusis e Orcomeno. As outras duas vivem em Roma: uma é um cidadão liberto, a outra é um cidadão sírio.
— Por que razão convocas testemunhas romanas, advogado? — Porque quero mostrar ao tribunal que Caio António Híbrida continua a dedicar-se às suas horrendas práticas, praetor peregrinus.
Duas horas depois, Varrão Lúculo aceitava a acção e depositava o sponsio. Caio António Híbrida foi imediatamente convocado para comparecer no tribunal no dia seguinte. Depois, Varrão Lúculo nomeou o seu juiz. Públio Cornélio Cetego. César ficou exultante, mas a sua expressão não denunciou os seus sentimentos.
Magnífico! O juiz era um homem tão rico que baseava todo o seu poder no facto de que ninguém poderia comprá-lo, um homem tão cultivado e refinado que chorava quando um peixe de estimação ou um cachorro morriam, um homem que cobria a cabeça com a toga para não ver matar uma galinha no mercado. E um homem que não gostava nada dos Antónios, Acharia Cetego que um seu colega senador devia ser protegido, fosse qual fosse o crime? Ou a acção cível? Não! Cetego não era desses! No fim de contas, não havia, naquele julgamento, a possibilidade de o réu perder a cidadania romana ou ser condenado ao exílio. Aquele era um mero litígio civil: o que estava em causa era o dinheiro da indemnização. A notícia espalhou-se num ápice pelo Fórum Romano; uma multidão começou a formar-se, momentos depois de César ter aparecido no tribunal do praetor peregrinas. César aproveitou a oportunidade para estimular o interesse das pessoas, discorrendo sobre as atrocidades que Híbrida praticara; a multidão foi crescendo cada vez mais, ansiando já pelo início do julgamento. Seria possível que houvesse homens capazes de tais atrocidades? Capazes de esfolarem outros homens, capazes de dilacerarem os órgãos genitais de uma mulher, de tal forma que esta nunca mais conseguira urinar normalmente?
Mas as notícias também chegaram rapidamente à casa de César. Ele apercebeu-se disso mal viu a mãe.
— Será verdade o que me contaram, César? — perguntou ela, irada. — Vais processar Caio António Híbrida? Não é possível! Há um laço de sangue entre vocês! — Não há qualquer laço de sangue entre mim e Híbrida.
— Os sobrinhos dele são teus primos!