Os Favoritos de Fortuna

Colleen McCullough · Capítulo 11 de 15 · parte 2/2

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Os Favoritos de Fortuna

— Essas crianças são filhos do irmão…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

— Depois de ter sido resgatado, há alguma coisa que me impeça de voltar com uma frota e capturá-los a todos?

— Nunca encontrarás a enseada certa, senador. Há centenas de enseadas e são todas igualzinhas. Aquilo é um bocado como o velho labirinto de Cnossos, só que linear em vez de quadrado.

César chamou um dos seus criados pessoais e pediu calmamente a sua toga. O homem, aterrorizado, voltou num instante com a toga. César deixou então que ele o vestisse. Nesse momento, apareceu Burgundo.

— Combatemos, César?

— Não, claro que não. Uma coisa é combater quando a situação nos é remotamente favorável, outra é combater quando tudo indica que lutar eqüivale ao suicídio. Vamos portar-nos calmamente, Burgundo. Ouviste?

— Ouvi.

— Então diz a toda a gente que não quero heroísmos tontos. — César voltou-se para o capitão. — Portanto, em tua opinião nunca conseguirei localizar a enseada certa. — Nunca, senador. Muitos foram já os que tentaram, mas em vão. — Em Roma, levaram-nos a acreditar que Públio Servílio Vátia nos tinha libertado dos piratas quando conquistou a Isáuria. A sua campanha teria sido tão grandiosa que Vátia passou mesmo a chamar-se Vátia Isáurico.

— Os piratas são como as abelhas, César. Se fizeres fumo, elas desaparecem. Mas logo que o ar fica limpo, voltam todas.

— Estou a ver. Então, quando Vátia — ou melhor, Vátia Isáurico! — acabou com o reino de Zenicetes, o rei dos piratas, estava apenas a tirar a espuma da superfície. É isso, não é, capitão?

— Sim e não. O rei Zenicetes era apenas um dos chefes piratas. Quanto aos Isauros... — O capitão encolheu os ombros. — bom, quanto aos Isauros, os homens que viajam por estas águas nunca compreenderam por que razão um grande general romano lançou uma guerra contra uma tribo do interior, uma tribo constituída por selvagens da Pisídia, pensando que estava a desferir um rude golpe na pirataria! É possível que alguns netos dos Isauros se tenham juntado aos piratas, mas os Isauros estão demasiado longe do mar para se dedicarem à pirataria. Os dois navios de guerra estavam agora ao lado do cargueiro e os piratas começavam já a subir a bordo deste último.

— Ah! Aí vem o chefe — disse César, sempre imperturbável. Um homem jovem e muito alto, vestido com uma túnica feita com púrpura de Tiro e pesadamente adornada com bordados a ouro, abriu caminho entre as suas hostes e subiu a prancha até à popa do cargueiro. Não estava armado e o seu aspecto não era, de modo nenhum, marcial.

— Bons dias! — disse César.

— Estarei certo em pensar que tu és o senador romano Caio Júlio César, vencedor da Coroa Cívica?

— Absolutamente certo.

Os olhos verdes do chefe dos piratas estreitaram-se; depois, levou a mão, com as unhas muito bem tratadas, ao cabelo louro, elegantemente encaracolado. — Estás muito calmo, senador — disse o pirata; o sotaque do seu grego indicava que talvez fosse de uma das ilhas do arquipélago das Espóradas. — Não vejo qualquer razão para não estar calmo — retorquiu César, erguendo as sobrancelhas. — Presumo que me permitirás pagar o resgate pela minha pessoa e pelos meus homens. Por isso, é natural que esteja calmo.

— Tens razão. Mas mesmo assim os meus cativos costumam borrar-se todos de medo. — Não este cativo!

— bom, tu és um herói de guerra. — O que é que se vai passar agora... como é mesmo o teu nome?

— Polígono, — O pirata virou-se para espreitar os seus homens, que tinham reunido a tripulação do cargueiro num grupo e os vinte membros da comitiva de César noutro grupo. Tal como o chefe, os restantes piratas tinham um cuidado extremo com o seu aspecto; alguns usavam cabeleiras, outros tinham o cabelo em cachos, o que significava que usavam tenazes quentes para produzir tal efeito, outros ainda estavam tão maquilhados como rameiras; em contrapartida, havia alguns que preferiam usar o cabelo muito rente e exibir um ar másculo. Todos, porém, estavam extremamente bem vestidos.

— O que é que se vai passar agora? — repetiu César.

— A tua tripulação vai para o meu navio. Alguns dos meus homens irão remar para o teu navio e seguiremos todos para sul o mais depressa possível. Ao pôr do Sol já teremos passado Cnido,

mas não pararemos. Daqui a três dias estarás em total segurança na minha residência, onde ficarás como meu convidado até que o teu resgate seja pago. — Não seria mais fácil se permitisses que alguns dos meus criados deixassem o navio aqui? Uma pequena embarcação podia levá-los de volta a Mileto. Mileto é uma cidade muito rica: não deveria ser difícil levantar o meu resgate. A propósito: em quanto importa o meu resgate? O chefe ignorou a segunda questão; quanto à primeira, abanou a cabeça e disse: — Não, não pode ser. O nosso último resgate veio de Mileto e foi há pouco tempo. Nós preferimos distribuir a carga porque, por vezes, os homens resgatados demoram muito tempo a pagar às comunidades que aceitam emprestar-lhes o dinheiro necessário. Agora é a vez de Xanto e de Patara — na Lícia. Por isso, quando chegarmos a Patara, mandaremos os teus criados pedir o dinheiro. — Polígono agitou um nada a cabeça, fazendo flutuar os caracóis. — Quanto à soma — são vinte talentos de prata.

César recuou, horrorizado.

— Vinte talentos de prata? — exclamou, furioso. — Eu só valho isso? — É o preço corrente para senadores. Todos os piratas concordaram quanto a isso. E tu és demasiado novo para seres um magistrado.

— Mas eu sou Caio Júlio César! — replicou o cativo, altivamente. — Não estás a compreender! Eu não sou apenas um patrício, sou também um Júlio! E que significa ser um Júlio? Significa que eu descendo da deusa Afrodite, através do seu filho Eneias. A minha linhagem é consular e hei-de ser cônsul quando chegar a hora. Eu não sou um mero senador! Ganhei uma Coroa Cívica, intervenho no Senado, sento-me na bancada do meio do Senado e, quando entro no Senado, todos os homens — incluindo os consulares e os censores! — têm de se levantar para me aplaudir. Vinte talentos de prata? Eu valho cinqüenta talentos de prata! Polígono, fascinado, escutou-o com atenção; nunca tinha apanhado um cativo assim! Tão seguro de si mesmo, tão destemido e... tão arrogante! No entanto, havia algo naquele belo rosto de que Polígono gostava — seria o brilho dos olhos? Estaria aquele Caio Júlio César a troçar dele? Mas por que raio é que o cativo havia

de troçar dele, se, dessa forma, se veria obrigado a pagar mais do que o dobro do resgate proposto? Sim, ele estava a falar a sério — tinha de estar! No entanto... aquele brilhozinho nos olhos não enganava!

— De acordo, majestade! Cinqüenta talentos de prata! — disse Polígono, também com um brilho suspeito nos olhos.

— Ah, assim está melhor! — retorquiu César, e virou-lhe costas. Três dias depois — três dias em que não encontraram nenhuma frota, fosse ela de Rodes ou de qualquer outra cidade, patrulhando os mares —, a equipa de César desembarcou numa enseada defronte de Patara. Polígono tinha vindo na sua própria galera; César não mais o vira. Reapareceu, porém, quando foi preciso embarcar a comitiva de César num barco mais pequeno.

— Podes mandar apenas um membro da tua comitiva — disse o chefe dos piratas. — Um chega para levantar o resgate.

— Um criado não chega para um homem da minha importância — retorquiu César, impassível. — Ficarei apenas com três homens: o meu criado pessoal Demétrio e dois escribas. Se tiver de esperar muito tempo, precisarei de escribas para copiarem a minha poesia. Ou talvez venha a escrever uma peça. Uma comédia! Sim, devo ter imenso material para uma comédia. Ou talvez uma farsa.

— Quem é que conduz a tua gente?

— O meu liberto Caio Júlio Burgundo.

— O gigante? Um homenzarrão! Valia uma fortuna, se fosse escravo. — E valeu, quando era escravo. Ele vai ter de levar o seu cavalo de Neso — prosseguiu César, meticuloso. — E os outros também precisam das suas montadas. Faço questão que os meus homens cheguem a Patara em condições condignas.

— Podes fazer questão em relação ao que quiseres, majestade. Mas os cavalos são demasiado bons.vou ficar com eles.

— Isso é que não vais! — atirou-lhe César. — Como vais receber cinqüenta talentos de resgate, podes passar perfeitamente sem os cavalos. Eu ficarei apenas com o meu Dedos — a menos que as tuas estradas tenham pavimento... O Dedos não é um cavalo ferrado e, por isso, não pode viajar em estradas pavimentadas.

— Estás a falar a sério ou quê? — disse Polígono, espantado. — Desembarca os cavalos, Polígono — retorquiu César.

Os cavalos foram desembarcados. Burgundo ficou muito triste por deixar César nas mãos daqueles vilãos e com tão poucos criados, mas sabia que não valia a pena contestar as decisões do seu amo. A sua missão era encontrar o resgate. E a viagem prosseguiu rumo à Lícia Oriental, junto à costa mais solitária e desolada do mundo. Não havia estradas, nem aldeias, mas apenas as portentosas montanhas de Solima, com os seus cumes permanentemente cobertos de neve, caindo a pique sobre o mar. As enseadas surgiram sem que César contasse: minúsculos pedaços de areia no flanco de uma montanha, faixas de uma areia amarela-avermelhada subindo por um penhasco amarelo-avermelhado. Mas nem um só sinal de alguma colônia pirata! Que intrigante! César não abandonou a popa desde que o navio passara o rio em que ficavam Patara e Xanto, examinando atentamente a configuração daquela estranha costa.

Ao pôr do Sol, as duas galeras e o cargueiro viraram na direcção de uma das inúmeras (e todas idênticas) enseadas. Só quando chegou à praia é que César conseguiu ver o que ninguém poderia ver do mar; o penhasco escarpado que servia de pano de fundo à enseada eram afinal dois penhascos; o rebordo de um deles ocultava o espaço que havia entre os dois; e, por detrás dos dois penhascos, ficava uma bacia enorme de terra baixa. O covil dos piratas! — Estamos no Inverno e os cinqüenta talentos que vamos receber vão-nos permitir passar umas belas férias. Não precisaremos de nos fazer ao mar, quando surgirem as primeiras tempestades da Primavera — disse Polígono, juntando-se a César, que avançava já por entre o espaço entre os penhascos.

Os homens de Polígono estavam já a puxar para a praia as galeras e o cargueiro, usando roletes colocados sob a proa. Depois, enquanto César e Polígono assistiam ao longe às operações, os piratas puxaram os navios pela praia e por entre os penhascos; o seu destino, para já, era o vale oculto, onde ficariam assentes em esteios.

— Fazem sempre isto? — perguntou César.

— Só não fazemos quando prevemos para breve uma nova saída. Mas isso é muito raro. Normalmente, quando andamos à caça, não paramos a meio para vir a casa. — Vocês estão muito bem organizados — disse César, com sincera admiração na voz. A bacia de terra baixa teria cerca de dois quilômetros e meio de largura e à volta de um quilômetro e meio de comprido e possuía uma configuração mais ou menos oval. No ponto mais afastado para quem vinha da praia, uma pequena cascata caía das alturas para uma lagoa; a lagoa dava origem a um regato que serpenteava até chegar à enseada, embora, do mar, ninguém o pudesse ver. Os piratas tinham aberto um estreito canal para o regato, no fim da praia, sob os penhascos.

Uma cidade com boas construções e uma organização perfeita ocupava a maior parte do vale. Casas de pedra, com três e quatro pisos, ladeavam ruas de cascalho, vários silos e armazéns, de proporções muito razoáveis, surgiam defronte do local onde os navios eram arrumados, e uma praça com um templo constituía o centro da vida comunitária. — Quantas pessoas vivem aqui? — perguntou César.

— Incluindo esposas, amantes e crianças — e amantes masculinos para alguns dos homens! —, serão cerca de... mil... mil e quinhentos. E também há os escravos. — Quantos escravos?

— Dois mil, à volta disso. Nós não trabalhamos — disse Polígono, todo orgulhoso. — Surpreende-me o facto de não haver nenhuma revolta quando os homens estão ausentes. Ou será que as mulheres e os tais amantes masculinos são temíveis guerreiros? O chefe dos piratas riu-se desdenhosamente.

— Nós não somos parvos, senador! Os escravos estão sempre agrilhoados. E se não têm qualquer possibilidade de sair daqui, porque haveriam eles de se revoltar? — Isso não me impediria de tentar um levantamento — retorquiu César. — Serias apanhado quando regressássemos. Quando partimos para a caça, não deixamos nenhum navio em terra.

— Talvez fosse eu a apanhar-vos quando vocês regressassem. — Nesse caso, ainda bem que não saímos daqui enquanto o teu resgate não chegar! Não, senador, tu não vais conseguir nenhum levantamento.

— Oh! — disse César, com um ar desapontado. — Quer dizer que te vou pagar cinqüenta talentos e nem sequer me ofereces alguma

diversão feminina, enquanto espero? Eu com homens não me levanto, mas sou muito famoso com mulheres.

— Aposto que és, se essa é a tua preferência — disse Polígono, com um risinho. — Mas não temas a solidão! Se quiseres mulheres, tê-las-ás.

— Tens alguma biblioteca neste belo refúgio?

— Temos alguns livros, mas não somos propriamente eruditos. Os dois homens estavam a chegar a uma mansão.

— Esta é a minha casa. É aqui que vais ficar. Prefiro ser eu a vigiar-te. Terás os teus próprios aposentos, como é evidente.

— O que eu gostava era de umbom banho!

— Terás umbom banho, senador, porque, na minha casa, há todos os confortos do Palatino!

— Preferia que me tratasses por César.

— Assim farei, César.

Os aposentos do cativo eram suficientemente grandes para acomodarem também Demétrio e os dois escribas. César não teve de esperar muito tempo por um magnífico banho, à temperatura exacta, um pouco mais que lépido.

— Demétrio, vais ter de me barbear e de me depilar todos os dias, enquanto eu estiver aqui — disse César, penteando as suaves ondas do seu cabelo louro-claro. Depois, arrumou o espelho, feito de ouro e com incrustações de gemas. — Há uma fortuna nesta casa — disse ele, abanando a cabeça.

— Eles roubaram muitas fortunas — comentou Demétrio.

— E armazenaram muitas dessas fortunas nalguns destes edifícios. Alguns deles, de facto, não são habitados — retorquiu César, encaminhando-se para a sala de jantar, onde Polígono o esperava.

A comida era excelente e variada, e o vinho soberbo.

— Tens um óptimo cozinheiro — disse César.

— Reparei que pouco comes e que não bebes vinho — disse Polígono. — Não tenho qualquer paixão por iguarias ou bebidas. A minha única paixão é o meu trabalho.

— Então e as mulheres?

— As mulheres — retorquiu César, enquanto lavava as mãos — são trabalho. — Nunca ouvi chamar isso às mulheres! — disse Polígono, rindo. — És um excêntrico, César. Só um excêntrico concentra toda

a sua paixão no trabalho. — Polígono afagou a barriga e, com um ar deleitado, apreciou o odor do vinho que tinha na sua taça de cristal de rocha. — Quanto a mim, a única coisa de que gosto na pirataria é a vida deliciosa que me proporciona quando não estou no mar. Mas, acima de tudo, gosto de umbom vinho!

— Não desgosto do sabor do vinho — retorquiu César. — Mas detesto a sensação de perder o controlo das minhas faculdades mentais. E já reparei que meia taça de vinho misturado com água é o suficiente para me afectar.

— Mas quando uma pessoa acorda, sente-se tão bem que o dia não lhe pode correr mal! — exclamou Polígono.

César pôs um sorriso malicioso.

— Não necessariamente.

— Que queres dizer?

— Por exemplo, meu caro: euvou acordar completamente sóbrio e com a minha saúde em perfeito estado, na manhã do dia em que chegar aqui, à frente de uma frota, e conquistar esta cidade e levar-vos a todos sob minha custódia. Posso garantir-te que quando te vir agrilhoado, sentir-me-ei muito melhor do que quando acordar! Mas até isso é relativo. Porque no dia em que te crucificar, Polígono, sentir-me-ei melhor do que nunca!

Polígono desatou a rir incontrolavelmente.

— César, és o convidado mais divertido que já alguma vez tive nesta casa! Adoro o teu sentido de humor!

— É muito simpático da tua parte, teres essa opinião. Mas olha que não te vais rir tanto quando eu te crucificar.

— Isso não pode acontecer. Nunca.

— Pode, sim, e vai acontecer.

Polígono, um verdadeiro espectáculo de ouro e púrpura, com as mãos cheias de anéis e o peito cintilando de colares, recostou-se no seu divã e desatou de novo a rir. — Julgas que não te vi na popa do teu navio, observando a costa? Essa tua ideia é um disparate, César! Ninguém consegue voltar cá!

— Tu consegues.

— Mas isso é porque já fiz este caminho um milhar de vezes. Nas primeiras cem vezes, perdi-me sempre ou quase sempre.

— Acredito. O problema é que tu és muito -menos inteligente que eu.

Aquele comentário feriu tanto como uma punhalada. Polígono sentou-se muito direito e respondeu secamente:

— Sou suficientemente inteligente para capturar um senador romano e para lhe arrancar cinqüenta talentos!

— O teu ovo ainda não chocou.

— Se o ovo não chocar, vai ficar aqui até apodrecer! Pouco depois deste exaltado diálogo, Polígono deixou o seu prisioneiro sozinho. Ao regressar aos seus aposentos, César tinha uma bela rapariga à sua espera, um presente que ele muito apreciou — depois de a ter mandado a Demétrio para que este a lavasse a preceito.

Durante quarenta dias, César permaneceu no esconderijo pirata; ninguém limitava a sua liberdade de movimentos, ninguém o impedia de falar com quem quisesse. A sua fama espalhou-se num ápice pela cidade e, ao fim de pouco tempo, já toda a gente sabia que ele tencionava voltar e capturar e crucificar todos os habitantes do vale.

— Não, não, apenas os homens! — disse César, com um sorriso encantador, às mulheres que foram ter com ele para indagarem das suas intenções. — Como é que eu poderia crucificar mulheres tão belas?

— Nesse caso, que farás connosco? — perguntou a mulher que estava à frente do grupo, lançando-lhe um olhar convidativo.

— Vendo-vos. Quantas mulheres e crianças vivem aqui?

— Mil.

— Mil. Se o preço médio que derem por vocês no mercado de escravos for de mil e trezentos sestércios por cabeça, poderei pagar a dívida quevou contrair por causa do resgate e ainda terei dinheiro para distribuir um pequeno lucro pelos meus credores. Mas as mulheres e as crianças deste vale são muito mais bonitas do que é costume numa comunidade pequena, e, por isso, espero conseguir um preço médio de dois mil sestércios por cabeça. Ou seja: as pessoas que vão emprestar o dinheiro do meu resgate terão um lucro muito, mas mesmo muito razoável! As mulheres desataram aos risinhos; ah, que homem encantador aquele! De facto, toda a gente o adorava. Era tão simpático, tão jovial, tão bem-humorado! E nunca mostrava o mínimo sinal de medo ou

depressão. Brincava com toda a gente e eram tão freqüentes os seus apartes acerca do que faria com os homens, as mulheres e as crianças, quando voltasse, que esse tema de conversa quase se transformou num motivo de constante divertimento. Os olhos dele brilhavam, os lábios contraíam-se, quando falava disso — e divertia-se tanto como os seus interlocutores. A primeira rapariga que com ele dormiu tratou logo de falar das suas proezas como amante; daí que muitas das mulheres da cidade tentassem seduzi-lo. No entanto, os homens depressa descobriram que ele mostrava os maiores escrúpulos ao seleccionar as mulheres com quem dormia: nunca ia para a cama com uma mulher que tivesse uma ligação permanente com outro homem. — Os únicos homens que eu corneio são os meus pares — explicava ele, com um ar superior, um aristocrata dos pés à cabeça.

— Amigos? — perguntavam os homens, rindo à gargalhada. — Inimigos — retorquia César.

— E nós não somos teus inimigos?

— São. Mas não são meus pares: são escumalha, escumalha pura e simples! — respondia ele.

Ao ouvirem tal, os piratas riam a bandeiras despregadas, deliciados com aqueles insultos bem-humorados.

Até que, certa tarde, enquanto almoçava com Polígono, o chefe dos piratas, com um suspiro triste, anunciou:

K-vou ter saudades tuas, César.

— Ah! Já temos o resgate!

— O teu liberto trá-lo amanhã.

— E como é que ele vai dar com isto? com certeza que tens de guiá-lo até aqui. Foste tu que me disseste que ninguém conseguia encontrar este refúgio. — O teu liberto tem andado acompanhado por alguns dos meus homens. Quando o último talento foi depositado na última saca, mandaram-me uma mensagem. Chegam amanhã por volta do meio-dia.

— E depois posso ir-me embora?

— Podes.

— E o navio que aluguei?

— Também pode ir.

— E o capitão? E os marinheiros?

— Virão também com os meus homens. Partem à hora do crepúsculo, para oeste. — Então incluíste o aluguer do meu barco no teu preço.

— Claro que não! — retorquiu Polígono, espantado. — O capitão levantou dez talentos para pagar o aluguer do navio e os salários da tripulação.

— Ah! Mais uma dívida que eu tenho de pagar!

Como estava previsto, Burgundo chegou a meio do dia seguinte, o quadragésimo dia de cativeiro de César.

— Cardixa permitirá que eu continue a ser o pai dos seus filhos — disse Burgundo, limpando as lágrimas. — Estás com muitobom aspecto, César. — Eles são óptimos anfitriões, Burgundo. Quem é que pagou o resgate? — Patara pagou metade e Xanto outra metade. Não ficaram nada contentes, mas não se atreveram a recusar. Ainda estão recordados de Vátia.

— Hão-de receber o seu dinheiro de volta. E mais cedo do que pensam. Toda a cidade dos piratas se foi despedir de César. Algumas mulheres choravam. Polígono também.

— Nunca terei outro cativo como tu! — disse o chefe dos piratas, com um suspiro. — Nunca ouvi maior verdade — retorquiu César, com um sorriso. — A tua carreira como pirata acabou, meu amigo. Eu voltarei antes da Primavera. Como sempre, Polígono achou tal observação extremamente divertida. Enquanto observava as manobras do navio para rumar a oeste, lembrava-se do humor de César e não conseguia conter o riso. A luz era pouca, àquela hora.

— Não pares, capitão! — gritou o chefe dos piratas. — Se paras, apanhas logo com a minha escolta!

E, de facto, passado pouco tempo, surgia por detrás dos penhascos uma hemiolia, um navio tão rápido como os mais rápidos.

Porém, ao alvorecer, o navio pirata já não encontrou o navio de César e voltou para trás, pois estava mesmo em frente de Patara.

— bom, agora vamos ter de acalmar os receios daqueles que emprestaram o dinheiro — disse César. Olhou para o capitão e acrescentou: — A propósito, capitão, tens desde já a minha garantia

de que te pagarei os dez talentos que tiveste de arranjar para resgatar o navio e a tripulação.

O capitão, obviamente, não acreditava que César conseguisse alguma vez pagar-lhe. — Uma viagem infeliz! — lamentou-se.

— Prevejo que, quando esta viagem acabar e regressares a Bizâncio, serás o mais feliz dos homens — disse César. — Mas agora leva-me ao porto de Patara. A sua visita a Patara foi muito breve. César queria partir no dia seguinte, esperando apenas que todos os cavalos e mulas voltassem a bordo. E, no dia seguinte, César não esperou um segundo.

— Vamos, capitão, despacha-te!

— Para Rodes?

— Para Rodes, claro.

A viagem demorou três dias, com uma paragem em Telmesso na primeira noite e outra em Cauno, na segunda. César recusou-se a desembarcar os animais em qualquer dessas cidades. — Eu estou com muita pressa e eles não vão morrer por não saírem do navio — disse ele. — Ah, é certo que tenho sorte! A deusa Fortuna sempre me favoreceu! Graças à minha actividade como angariador de frotas, sei exactamente onde devo ir e com quem devo falar quando chegarmos a Rodes!

E tanto sabia que, menos de duas horas depois de ter aportado ”à ilha, estava já reunido com os homens com quem lhe interessava falar.

— Preciso de uma frota de dez trirremes e de cerca de quinhentos homens experientes — disse ele ao grupo de Rodenses reunidos nas instalações do capitão do porto. — Para quê? — perguntou o jovem almirante Lisandro.

— Para me acompanhar até ao quartel-general de Polígono, o chefe dos piratas. Quero capturar aquela gente.

— Polígono? Nunca encontrarás o esconderijo dele!

— Encontrarei, sim — replicou César. — Vamos, emprestem-me a frota! Rodes ficará com uns belos despojos!

O seu entusiasmo e confiança não chegariam para convencer os homens de Rodes a participar naquele perigoso plano; foi a autoridade de César que mais pesou na decisão de Rodes de lhe conceder os dez trirremes e quinhentos soldados. Os homens de Rodes conheciam-no de há muito e, por outro lado, César pôde

ainda beneficiar da fama que Vátia deixara na ilha. Apesar de o rei Zenicetes ter deitado fogo ao seu esconderijo no alto do monte Termesso quando Vátia chegou para o capturar, Rodes sentia o maior respeito por Vátia; mostrando-se imperturbável perante o que parecia ser a perda de um saque magnífico, Vátia limitou-se a esperar que as cinzas arrefecessem e, depois, joeirou os destroços, a fim de reunir os metais preciosos que, sob a acção do calor, se tinham fundido. Se Vátia fizera isso, então era muito natural que o seu legado César fizesse algo de semelhante. Daí que os homens de Rodes concluíssem que valeria a pena apostar naquele jovem senador romano. A frota descansou na foz do rio Patara, na última noite antes de começar a busca do esconderijo de Polígono; César foi até à cidade e ordenou a todos os navios mercantes vazios que seguissem na esteira da frota rodense. E, durante todo o dia seguinte, manteve-se na popa do seu navio alugado, examinando atentamente a costa recortada por minúsculas praias. — Antes de Polígono deixar Patara — disse ele ao capitão — eu já fazia ideia de como seria o aspecto da costa e das pequenas enseadas, pois ouvira os piratas falar sobre o assunto. Por isso, tratei de definir claramente a que reentrâncias chamaria enseadas. com essa definição na cabeça, limitei-me a contar todas as reentrâncias que considerava enseadas. — Quanto a mim, procurei pontos de referência: rochas no meio do mar, com esta ou aquela forma, montanhas de aspecto estranho, esse tipo de coisas — disse o capitão, suspirando. — Mas já me perdi!

— Os pontos de referência podem ser uma decepção, pois a memória dos homens falha muitas vezes quando segue esse processo. Os números são melhores — retorquiu César, sorridente.

— E se te enganaste na contagem?

— Não me enganei.

E, de facto, não se tinha enganado. A pequena praia em que os quinhentos soldados de Rodes desembarcaram era igual a todas as outras. A frota ancorara, durante toda a noite, a oeste da praia, sem que ninguém a detectasse. Polígono não espalhara sentinelas pelas proximidades. Tinha as suas quatro galeras de guerra no interior do esconderijo, prontas para qualquer eventualidade; por isso, considerava-se em segurança. Mas acabava o Sol de nascer e já ele e os seus homens estavam presos com as grilhetas com que, antes, agrilhoavam os escravos.

— Não podes dizer que não te avisei — disse César a Polígono. — Ainda não fui crucificado, romano!

— Mas serás. Serás!

— Como encontraste o nosso esconderijo?

— Aritmética. Contei todas as pequenas enseadas desde Patara até aqui. — César virou-se, acenando para o almirante Lisandro, de Rodes. — Vem, Lisandro, vamos ver que espécie de riquezas Polígono arrecadou.

Muitas e variadas riquezas, foi o que encontraram. Não só os celeiros estavam praticamente cheios, como também os outros armazéns de víveres tinham recheio suficiente para alimentar as cidades de Xanto e Patara durante o resto do Inverno e toda a Primavera. Um dos maiores edifícios da cidade estava a abarrotar de tecidos e púrpuras extremamente valiosos, de mesas de madeira de cidreira de veios raríssimos, de divas dourados, de cadeiras requintadas. Um outro edifício continha uma infinidade de baús cheios de moedas e jóias. Muitas das jóias eram de fabrico egípcio: luxuriosos trabalhos com faiança, berilo, cornalina, ónix, sardónica, lápis-lazúli e turquesa. Um pequeno baú, mal foi aberto, revelou vários milhares de pérolas do oceano, algumas das quais tão grandes como ovos de pomba e outras de cores muito raras. ”— Para dizer a verdade, não estou surpreendido — disse Lisandro. — Polígono assola estes mares há vinte anos e é um açambarcador famoso. Do que eu não sabia é que ele também costumava piratear os mares entre Chipre e o Egipto!

— Concluíste isso por causa das pérolas e das jóias?

— Claro. Pérolas e jóias destas não há noutro sítio.

— E os alexandrinos de Chipre tiveram o desplante de me dizer que os seus navios viajavam em total segurança!

— Eles não gostam que os estrangeiros saibam das suas fraquezas. — Não precisei de muito tempo para perceber isso — retorquiu César, com um suspiro de satisfação. — Pois muito bem, Lisandro: vamos repartir os despojos! — Para sermos rigorosos, César, nós somos apenas teus agentes. Desde que nos pagues o aluguer dos navios e os salários dos homens, os despojos são todos teus — retorquiu Lisandro. — Alguns serão, mas não todos, meu amigo. Não quero que, no Senado, me façam perguntas a que tenha de responder com mentiras ou meias-verdades. Por isso, levarei mil talentos em moedas para o Tesouro de Roma, quinhentos talentos em moedas para mim, e uma mancheia destas pérolas, se posso escolher as que mais me agradarem. Sugiro que as restantes moedas e todas as jóias vão para Rodes: é a parte que lhe é devida. Podes vender os móveis e os tecidos, mas gostaria que a soma realizada fosse empregue na construção de um templo em Rodes, em honra da minha antepassada Afrodite.

Lisandro pestanejou, surpreendido.

— Mas esse é um gesto extremamente generoso, César! Por que não ficas com as pérolas todas? Ficarias sem problemas de dinheiro para o resto da vida! — Não, Lisandro. Ficarei apenas com umas quantas. Gosto da riqueza como qualquer outro homem, mas a riqueza excessiva pode tornar-nos avarentos. — César debruçou-se sobre o baú das pérolas e escolheu as pérolas de que mais gostava: vinte com as cores escuras e iridescentes do lago Asfaltita, na Palestina; uma pérola com o tamanho, a cor e a forma de um morango; uma dúzia com a cor da lua cheia no tempo das colheitas; uma pérola gigante, com uma sombra de púrpura; e seis de um creme-prateado perfeito. — Pronto, já escolhi! Não as poderei vender. Se tentasse vendê-las, provocava a maior agitação em toda a cidade de Roma. Mas posso dá-las a certas mulheres, quando tiver necessidade disso.

— A tua fama de homem generoso vai espalhar-se num ápice. — Por favor, Lisandro, nem uma palavra sobre a minha generosidade! Estou a falar a sério! A minha continência nada tem a ver com generosidade. Tem a ver, muito simplesmente, com a minha reputação em Roma e com um voto que eu fiz de que nunca me exporia a acusações de extorsão ou de roubo dos bens de Roma.

— Encolhendo os ombros, acrescentou: — Além disso, quanto mais dinheiro tenho, mais gasto!

— E Patara e Xanto?

— Recebem as mulheres e as crianças para venderem como escravos e toda a comida que está aqui armazenada. A venda dos escravos render-lhes-á muito mais do que pagaram pelo meu resgate. A comida será um bônus. Mas, com a tua permissão, levarei mais dez talentos para pagar ao capitão do meu navio. Ele também

teve de pagar um resgate. — Pondo a mão no ombro de Lisandro, César conduziu-o até à rua. — Os navios de Xanto e Patara estarão aqui pelo crepúsculo. Posso sugerir que embarques a parte do despojo que reservámos para Rodes, antes que eles cheguem? De qualquer modo, mandarei os meus funcionários fazer um inventário de tudo. E o dinheiro de Roma terá de ir para o seu destino sob escolta.

— Que queres que se faça com os piratas?

— Embarca-os em navios de Patara ou Xantos e leva-mos para Pérgamo. Eu não sou um magistrado curul e, portanto, não tenho o poder de executar homens nas províncias. Isso significa que tenho de levar os piratas para Pérgamo e pedir ao governador autorização para fazer o que lhes prometi — crucificá-los.

— Nesse caso, embarcarei a parte do despojo destinada a Roma nas minhas galeras. É pequena carga. Logo que os mares estejam seguros — no início do Verão, talvez —, mandarei o dinheiro para Roma. — Lisandro lembrou-se, entretanto, de outra coisa. — Quatro dos meus navios escoltar-te-ão até Pérgamo. Acabas de dar tantas riquezas a Rodes que Rodes terá sempre o maior prazer em assistir-te em tudo.

— Basta que te lembres do que fiz! Quem sabe se um dia não precisarei de que me retribuas este favor! — retorquiu César.

Os piratas estavam a ser levados para a praia; Polígono, o último da infindável fila, saudou gravemente César.

— Mas que amantes do luxo, estes piratas! Nunca vi gente assim! — disse César, abanando a cabeça. — Sempre imaginei os piratas como gente suja, sem instrução, belicosa. Mas estes homens não eram nada disso. Pelo contrário, eram gente simpática. — É evidente — disse Lisandro. — Exagera-se muito quanto à sua suposta selvajaria. Quantas vezes precisam eles de combater para fazerem as suas pilhagens, César? Raramente. E quando combatem é sob o comando dos seus próprios almirantes, que são de facto notáveis. Os pequenos piratas, como Polígono, não atacam frotas. Limitam-se a atacar navios mercantes que viajam sem escolta. Os piratas que atacam em frotas encontram-se normalmente no mar de Creta. Mas quando se vive no esconderijo de Solima, como Polígono, tende-se a pensar que estamos permanentemente a salvo de qualquer ameaça. É que Solima e os outros esconderijos de piratas são, literalmente, reinos independentes.

— Rodes podia fazer mais do que faz para deter a ameaça dos piratas — disse César. Mas Lisando abanou a cabeça e riu-se.

— É Roma que deves censurar, quanto a esse ponto! Foi Roma que insistiu que devíamos reduzir a nossa frota, quando Roma tomou a seu cargo a vigilância da ponta oriental do nosso grande mar. Roma pensava que conseguiria policiar tudo e todos, incluindo as linhas de navegação. Mas Roma é demasiado parcimoniosa — e nunca gasta o dinheiro que é preciso. Rodes encontra-se actualmente sob o domínio de Roma. Por isso, fazemos o que nos mandam. Se lançássemos, isoladamente, uma guerra para erradicar os piratas, Roma pensaria que estava a chocar o seu próprio Mitridates.

E o que Lisandro dizia, reflectiu César, era a pura verdade. Marco Júnio Junco não se encontrava em Pérgamo quando César atingiu o rio Caico e aportou àquela cidade; o mês de Março estava a chegar ao fim, o que significava que o Inverno ainda não acabara, embora a viagem ao longo da costa tivesse decorrido sem qualquer incidente assinalável. A cidade de Pérgamo tinha um aspecto magnífico, empoleirada no cimo de um monte, mas, mesmo do rio, podiam ver-se resquícios de neve e gelo nos telhados dos templos e nos beirais dos palácios.

— Onde está o governador? Em Éfeso? — perguntou César quando encontrou o proquestor, Quinto Pompeu (mais próximo, pelo sangue, do ramo Rufo do que do ramo Pompeu).

— Não, ele está em Nicomédia — retorquiu Pompeu — E euvou para lá também. Aliás, tiveste sorte em encontrar-me porque eu estava de partida. Temos tido muito que fazer na Bitínia. Vim a Pérgamo buscar roupas mais leves para o governador. Nunca esperámos que fizesse mais calor em Nicomédia do que em Pérgamo.

— Ah, em Nicomédia faz sempre mais calor — disse César num tom grave, conseguindo abster-se de perguntar ao proquestor da Província da Ásia se não tinha coisas mais urgentes a fazer do que ir buscar roupas frescas para Junco. — Pois bem, Quinto Pompeu — prosseguiu ele, afável —, se quiseres, eu levo as roupas ao governador. Tenho um pequeno trabalho para ti antes de partires. Estás a ver aqueles navios?

— Sim — retorquiu Pompeu, francamente aborrecido por um homem mais novo lhe dizer o que devia ou não fazer.

— Há cerca de quinhentos piratas a bordo que vão ter de ficar encarcerados algures durante alguns dias. Eu tenho de ir à Bitínia pedir a Marco Júnio a autorização formal para os crucificar.

— Piratas? Crucificar?

— Isso mesmo. Capturei uma fortaleza pirata na Lícia — com a ajuda de dez navios da marinha rodense, devo acrescentar.

— Então podes ficar aqui e tratar dos teus miseráveis prisioneiros! — atirou-lhe Pompeu. — Eu peço ao governador a tua autorização formal! — Lamento imenso, Quinto Pompeu, mas não é assim que as coisas são feitas — replicou gentilmente César. — Eu sou um privatus e era um privatus quando capturei os homens. Por isso, terei de ver o governador pessoalmente. A Lícia é uma parte da sua província e por isso tenho de ser eu a explicar-lhe as circunstâncias da captura. É isto o que a lei manda. A discussão ainda durou um bocado, mas sabia-se de antemão quem ganharia. E César não tardou a partir para Nicomédia numa veloz galera rodense, deixando Pompeu a tratar dos prisioneiros.

Tudo está já tão mudado que eu quase não reconhecia o palácio, pensou César, enquanto esperava na antecâmara pelo atarefado Marco Júnio Junco. Os dourados ainda lá estavam, os frescos e outros objectos de arte que só poderiam ser removidos provocando danos óbvios também lá estavam, mas certas estátuas e pinturas que ele tão (bem conhecia e de que tanto gostava já tinham desaparecido de corredores e salas. A luz começava a esbater-se quando Junco irrompeu pela antecâmara dentro; era evidente que tinha feito uma pausa para o jantar, antes de atender um colega senador. — César! Que agradável voltar a ver-te! Que se passa? — perguntou o governador, estendendo a mão.

— Ave, Marco Júnio. Tens andado muito ocupado.

— Tenho, de facto. Tu conheces este palácio como a palma da tua mão, não é verdade? — As palavras eram suficientemente brandas, mas a insinuação era clara. — Como fui eu quem te anunciou a morte do rei Nicomedes, deves saber que assim é.

De facto, conheço muito bem este palácio.

— Mas não tiveste a gentileza de esperar por mim.

— Eu sou um privatus, Marco Júnio. Se esperasse por ti, acabaria apenas por te atrapalhar. E é melhor não atrapalhar um

governador, quando tem à sua frente uma tarefa tão importante como incorporar uma nova província nos domínios de Roma — disse César.

— Nesse caso, que vieste cá fazer agora? — Junco olhava para o seu visitante com nítido rancor, pois estava ainda bem lembrado dos seus confrontos no Tribunal de Homicídios — os quais, na sua maior parte, tinham sido vencidos por César. — Fui capturado por piratas ao largo de Farmacussa, há dois meses. — bom, isso acontece a muitos de nós. Presumo que conseguiste arranjar dinheiro para o resgate: caso contrário, não estarias hoje aqui. Mas eu nada posso fazer para te ajudar a recuperar o dinheiro do resgate, César. No entanto, se assim o desejares, pedirei à minha equipa que apresente uma queixa ao Senado.

— Isso posso eu fazer sozinho — retorquiu César, num tom simpático. — Eu não me vim queixar, Marco Júnio. Vim apenas pedir a tua autorização para crucificar quinhentos piratas. Junco ficou embasbacado.

— O quê?

— Como já percebeste, eu paguei o resgate pelos meus próprios meios. Depois, fui a Rodes, requisitei uma frota e alguns soldados, voltei à fortaleza dos piratas e capturei-a. — Tu não tinhas o direito de fazer uma coisa dessas! Eu é que sou o governador! Só eu tenho direito a fazer operações desse tipo! — atirou-lhe Junco. — Se eu mandasse uma mensagem para Pérgamo e se, de Pérgamo, te trouxessem essa mensagem até aqui, o Inverno teria passado e Polígono, o pirata, teria desaparecido da sua base para lançar de novo as suas acções. Eu posso ser um privatus, mas actuei como se espera que actuem todos os membros do Senado de Roma: fiz com que os inimigos de Roma tivessem o castigo merecido.

Esta rápida resposta obrigou Junco a fazer uma pausa; tinha de encontrar uma réplica adequada.

— Nesse caso, mereces louvor, César.

— É o que eu acho.

— E pedes-me autorização para crucificar quinhentos homens fortes e gozando de boa saúde? Não, não posso fazer isso! Os teus cativos são meus agora. Vendê-los-ei como escravos. — Dei-lhes a minha palavra de honra de que seriam crucificados — retorquiu César, com os lábios quase cerrados.

— Deste a tua palavra de honra àquela gente? — perguntou Junco, sinceramente surpreendido. — Mas eles não passam de bandidos e ladrões! — Mesmo que fossem bárbaros ou macacos, Marco Júnio! Jurei que havia de crucificá-los. Sou um romano e a palavra de um romano é sagrada. Tenho de cumprir o que prometi. — Não te competia a ti prometer fosse o que fosse! Como salientaste, tu és um privatus. Concordo que agiste correctamente ao castigar os inimigos de Roma. Mas cabe-me a mim dizer o que deve ou não acontecer aos prisioneiros que se encontram na minha esfera de auctoritas. Eles serão vendidos como escravos. E esta é a minha última palavra quanto a este assunto.

— Estou a ver — disse César, com os olhos vítreos. E levantou-se. — Um momento! — exclamou Junco. César virou-se para ele. — Sim?

— Presumo que houve despojos...!

— Houve.

— Onde estão? Em Pérgamo?

— Não.

— Não podes ficar com os despojos!

— Não fiquei. A maior parte do saque foi para Rodes, que forneceu os navios e os homens para a operação. Uma parte foi para os cidadãos de Xanto e Patara, que providenciaram os cinqüenta talentos para o meu resgate. Quanto à minha parte, doei-a a Afrodite, pedindo a Rodes que construísse um templo em honra da deusa. E a parte de Roma vai neste momento a caminho de Roma.

— E a minha parte?

— Não sabia que tinhas direito a uma parte, Marco Júnio.

— Eu sou o governador da província!

— O saque foi proveitoso, mas nada do outro mundo. Polígono não era tão rico como o rei Zenicetes.

— Quanto mandaste para Roma?

— Mil talentos em moedas.

— Então não foi assim tão mau!

— Para Roma, foi bom. Para ti, não — replicou César, mantendo um tom afável. — Como governador da província, competia-me a mim mandar a parte de Roma para o Tesouro!

— E quanto lhe tiravas?

— A parte que cabia ao governador!

— Nesse caso — replicou César, sorrindo —, sugiro-te que peças ao Tesouro a parte que te cabe dos despojos.

— É o que farei! Não penses que não faço!

— Nunca pensaria uma coisa dessas, Marco Júnio.

— E vou-me queixar ao Senado da tua arrogância, César! Porque, de moto próprio, assumiste as competências que cabem ao governador!

— É verdade — disse César, encaminhando-se para a saída. — Mas ainda bem que o fiz. Caso contrário, o Tesouro ficaria com menos mil talentos. César alugou um cavalo e seguiu por terra para Pérgamo, a tal velocidade que Burgundo e Demétrio dificilmente conseguiam acompanhá-lo. Nem uma pausa fez para descansar: a raiva era tanta que nem ligava à cabeça esgotada e aos músculos doridos. Apenas sete dias depois de ter deixado Pérgamo, César estava de volta — e dois dias antes da galera de Rodes, que atravessava ainda o Helesponto.

— Já está tudo tratado! — exclamou ele, com uma expressão jubilosa, para o proquestor Pompeu. — Espero que tenhas feito as cruzes! Não tenho tempo a perder! — As cruzes? — perguntou Pompeu, espantado. — Porque haveria eu de mandar fazer as cruzes, se Marco Júnio tenciona vender os piratas?

— Sim, essa era a sua primeira intenção — retorquiu César, num tom descontraído. — Mas depois de eu lhe ter explicado que dera a minha palavra de honra de que eles seriam crucificados, Marco Júnio compreendeu que tinha de mudar de ideias. Por isso, vamos tratar já das cruzes! Há dois meses que eu devia estar a estudar com Apolónio Molão. O tempo voa, Pompeu! Vá, vamos tratar das cruzes!

O perplexo proquestor viu-se de súbito numa azáfama que nunca conhecera sob o comando de Junco; no entanto, a sua pouca energia não deixava César satisfeito e César acabou por comprar madeira e por ordenar aos piratas que fizessem as suas próprias cruzes. — E façam-nas bem feitas, escumalha, porque vão ficar pendurados nelas! Não há pior sorte do que passar dias a fio numa cruz à espera da morte, só porque a cruz não está bem feita! — Porque é que o governador não nos quis vender como escravos? — perguntou Polígono, que era muito desajeitado em trabalhos braçais e que, por isso, sentia a maior dificuldade em construir a sua cruz. — Sempre pensei que seria essa a sua decisão. — Pois enganaste-te — retorquiu César, tirando-lhe as cavilhas da mão e começando a prender a cruzeta à viga principal. — Como é que conseguiste chegar onde chegaste como pirata, Polígono? És de uma incompetência total!

— Alguns homens — retorquiu Polígono, apoiando-se numa pá — têm carreiras gloriosas precisamente por serem incompetentes.

César levantou-se, pois já terminara a cruz.

— Não é o meu caso! — disse ele.

— Já me tinha apercebido disso — disse Polígono, com um suspiro triste. — Vá, começa a cavar!

— Para que é aquilo? — perguntou Polígono, deixando que César lhe tirasse a pá, enquanto apontava para uma pilha de calços de madeira.

— São calços! — retorquiu César, enquanto, com a pá, fazia voar a terra à sua volta. — Quando esta cova estiver suficientemente profunda para agüentar com o peso da cruz e do homem, a cruz será enterrada nela. Mas como a terra aqui é pouco firme para agüentar a cruz, fixaremos calços no chão à volta da base. Quando vocês estiverem mortos, a cruz sairá facilmente logo que tiremos os calços. Dessa forma, o governador poderá utilizar estes maravilhosos instrumentos de morte com o próximo grupo de piratas que eu capturar. — A falar e a trabalhar ao mesmo tempo, não ficas sem ar? — Tenho ar suficiente para trabalhar e falar ao mesmo tempo. Vá, Polígono, ajuda-me a enterrar a tua cruz na cova... Isso! — César recuou um pouco. — Agora, trata de aplicar os calços. Como vês, a cruz está inclinada. — Arrumou a pá e pegou num maço. — Não, não, do outro lado! Do lado onde a cruz está inclinada! Olha que de engenheiro não tens nada!

— Posso não ter nada de engenheiro — disse Polígono, com um sorriso franco —, mas não podes negar que sou esperto: até pus o meu carrasco a fazer-me a cruz! César riu-se.

— E achas que não me apercebi disso, amigo? No entanto, há um preço a pagar. Há sempre um preço a pagar, como qualquerbom pirata deve saber. A diversão tinha acabado. Polígono fitou fixamente César. — Um preço?

— Os outros terão as pernas partidas. Morrerão depressa. Mas tu, em contrapartida, terás um pequeno descanso para os pés, para que o corpo não te pese muito. O que quer dizer, Polígono, que vais demorar dias a morrer!

Quando a galera rodense que seguira César desde Nicomédia entrou no rio que conduzia ao porto de Pérgamo, os remadores ficaram estupefactos e intimidados com o que viram. Em Rodes também havia execuções, mas a justiça ao estilo romano não entrara nos costumes da ilha; Rodes era um amigo e aliado, mas não pertencia a nenhuma província romana. Por isso, para aqueles homens, a visão de quinhentas cruzes plantadas num baldio entre o porto e o mar era tão estranha como monstruosa. Um campo de homens mortos — todos excepto um, o chefe, cuja cabeça estava ironicamente adornada com um diadema. O chefe dos piratas ainda gritava e gemia.

Quinto Pompeu permanecera em Pérgamo, pois só queria deixar a cidade quando César também partisse. O que o impedia de partir era a visão daquelas cruzes, como que uma floresta construída por um homem, em que todas as árvores eram iguais. As crucificações não eram invulgares — era assim que os escravos eram executados. Invulgar, isso sim, era uma crucificação em massa. E, no entanto, ali estava uma crucificação em massa, com as cruzes dispostas em filas, com espaços uniformes entre si. E o homem que conseguira organizá-la e executá-la em tão pouco tempo não poderia ser ignorado. Tal como não poderia ficar com o controlo de Pérgamo, mesmo que não oficialmente. Por isso, Quinto Pompeu preferiu esperar até que a frota de César partisse para Rodes e Patara.

Quando chegou a Nicomédia, o proquestor encontrou o governador perfeitamente extasiado; Junco tinha descoberto um esconderijo nos subterrâneos do palácio, cheio de barras de ouro; obviamente, guardara logo o ouro nos seus baús, ignorando que César e Oradaltis o tinham colocado ali de propósito.

— Pois bem, Pompeu, tu trabalhaste muito duramente na incorporação da Bitínia na Província da Ásia — disse-lhe Junco, com um ar magnânimo. — Por isso, acederei ao teu pedido. A partir de agora, podes usar o cognome de Bitínico.

Como este anúncio deixou Pompeu (Bitínico) num êxtase quase idêntico ao do governador, os dois homens foram jantar com a melhor das disposições. Foi Junco quem primeiro falou de César, ainda que só no final do jantar. — É o mentula mais arrogante que alguma vez encontrei! — disse Junco. — Negou-me uma parte dos despojos e, depois, teve a ousadia de me pedir autorização para crucificar quinhentos homens saudáveis que pelo menos me renderão algum dinheiro quando os vender no mercado de escravos!

Pompeu fitou-o fixamente, de queixo caído.

— Vender?!

— Sim, vender! Qual é o problema?