Os Favoritos de Fortuna

Colleen McCullough · Capítulo 12 de 15 · parte 3/4

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Os Favoritos de Fortuna

— Marco Júnio! Tu ordenaste que os…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Larino continuava ainda a falar da perfídia de Opiânico quando os gladiadores se deslocaram à cidade para participar, quase um ano depois, em mais um torneio — é que, durante muitos anos, tinha havido demasiados jogos fúnebres em Larino. Por isso, enquanto comiam, acorrentados a uma mesa, no pátio de uma estalagem local, os gladiadores escutaram com o maior interesse as conversas dos quatro arqueiros que os vigiavam. Embora não estivessem autorizados a falar uns com os outros, era evidente que falavam. O tempo e a muita prática permitiam-lhes manter breves conversas entrecortadas por longos silêncios; por outro lado, um tema como aquele — assassínios em massa entre as classes altas de Larino — constituía uma oportunidade rara para falarem entre si, pois os seus vigilantes estavam tão entusiasmados com a conversa que nem reparavam nos gladiadores. Apesar dos tremendos obstáculos levantados pela meticulosidade obsessiva de Baciato, Espártaco — um veterano já, pois estava há mais de um ano na Villa Baciato — ia lentamente reunindo todas as peças necessárias para lançar uma evasão de todos os gladiadores — e o assassínio de todos aqueles que os oprimiam. Já conhecia toda a gente e aprendera a comunicar com pessoas que não podia ver diariamente — ou mesmo mensalmente. Se Baciato criara uma complicada teia que impedia as suas prostitutas e os seus gladiadores de se conhecerem bem, Espártaco construíra uma teia igualmente complicada, que permitia que as prostitutas e os gladiadores passassem entre si ideias, informações e comentários, favoráveis ou críticos. De facto, o sistema de Baciato permitira que Espártaco fizesse um uso positivo destes contactos forçosamente indirectos; um uso positivo, porque as diversas personalidades envolvidas, com tão poucos contactos, dificilmente entrariam em choque, e porque, num tal contexto, ninguém pensaria em suplantar Espártaco como chefe da anunciada revolta. Espártaco começara a apalpar o terreno no início do Verão e agora, no fim do Verão, os seus planos estavam já claramente definidos. Todos os gladiadores, sem excepção, tinham concordado em participar na insurreição, caso Espártaco conseguisse arquitectar uma evasão em massa; quanto às prostitutas — uma parte vital do plano de Espártaco —, não podiam estar mais de acordo.

Havia dois desertores romanos que compreendiam tão bem como Espártaco a disciplina e os métodos militares. Através da sua rede de informações, Espártaco nomeara-os seus legados no processo de evasão. Eram lutadores gauleses e tinham adoptado os nomes de Crixo e Enómao, porque o público detestava que os gladiadores usassem nomes latinos — isso fazia lembrar às pessoas que a maior parte dos heróis da arena eram desertores romanos. Por um acaso, Crixo e Enómao encontravam-se com Espártaco em Larino, uma dádiva para este último, já que assim pudera adiar por uns dias a data da sua projectada insurreição. A revolta seria lançada oito dias depois do regresso de Larino, fosse qual fosse o número de gladiadores presentes na Villa Baciato. Como esse era o dia depois das nundinae, era natural que tal número fosse alto, já que Baciato tinha o hábito de reduzir os seus contratos durante o mês de Setembro, a fim de tirar férias e visitar Filipe. A sacerdotisa trácia, Aluso, tornara-se a mais fervorosa aliada de Espártaco; certa noite, já depois de todos terem concordado com a conjura, os homens que estavam na mesma cela que Espártaco conseguiram, com a ajuda das outras mulheres, que Espártaco e Aluso passassem toda a noite juntos. com vozes sumidas, o gladiador e a prostituta discutiram os inúmeros factores envolvidos e Aluso jurou que, através da acção das suas mulheres, manteria todos os gladiadores num estado de febril entusiasmo. Desde o princípio do Verão que Aluso vinha roubando, para Espártaco, os mais diversos utensílios de cozinha. E com tal astúcia o fez que, quando se deu pela falta desses utensílios, foi um dos cozinheiros que foi considerado responsável. Nunca ninguém suspeitaria de uma revolta dos gladiadores. Um cutelo de açougueiro, uma pequena faca de trinchar, um rolo de cordel forte, um jarro de vidro desfeito em bocados, um gancho de pendurar carne. Eram armas modestas — mas chegavam bem para oito homens. Armas que as mulheres guardavam nos seus aposentos, que elas próprias limpavam. Porém, na noite anterior à revolta, as mulheres escolhidas para visitar a cela de Espártaco levavam tais utensílios escondidos sob as escassas roupas; Aluso não se encontrava entre elas. A madrugada começava a dar lugar ao alvorecer. Os oito homens iam deixar a sua cela, supostamente para comerem a primeira refeição do dia. Vestindo apenas tangas, os gladiadores não podiam trazer nenhuma arma escondida; no entanto, dentro das tangas escarlates, cada homem trazia um cordel com cerca de um metro de comprimento. O arqueiro, um doctor e dois ex-gladiadores que agora trabalhavam como jardineiros foram estrangulados tão rapidamente que a porta de ferro da cela nem chegou a fechar-se; Espártaco e os seus sete companheiros foram então buscar as armas às suas camas e espalharam-se num ápice pelas outras celas, abrindo-as com as chaves roubadas ao arqueiro. Cada grupo de gladiadores tinha-se demorado a levantar-se da cama e, por isso, nenhum deles tinha ainda saído das celas antes de os oito colegas, no mais total silêncio, lá chegarem. com algumas cutiladas e facadas — ou mesmo com um bocado de vidro retalhando uma garganta —, os oito gladiadores foram avançando e distribuindo as oito porções de cordel.

Tudo foi feito sem uma palavra, um grito, uma advertência; Espártaco e os outros gladiadores controlavam já todas as celas e todos os pátios. Alguns dos homens mortos tinham chaves. com essas chaves, foram sendo abertas mais e mais portas naquele longo labirinto; os setenta homens que estavam encarcerados na Villa Baciato não paravam de avançar, sempre em silêncio. Havia um abrigo onde eram guardados machados e ferramentas; um golpe rápido e silencioso e os revoltosos puderam apoderar-se de tudo o que estava guardado nesse abrigo. A fortaleza de Baciato tinha afinal um defeito terrível: as paredes interiores, muito altas, impediam que a revolta transpirasse para outras secções — só se apercebiam dela os homens que estavam por perto, e esses eram logo mortos. Baciato deveria ter erigido torres de vigilância e posto lá os seus arqueiros.

O alarme foi dado quando os homens chegaram às cozinhas. Mas já era demasiado tarde. Armados com todos os instrumentos pontiagudos que havia nas cozinhas, os gladiadores usavam ainda tampas de panelas para se protegerem das setas. E não poupavam ninguém que desse sinais de vida. Incluindo Baciato, que pensara partir para férias no dia anterior, mas que afinal ficara porque encontrara um erro na sua contabilidade. Os homens mantiveram-no vivo até ele libertar as mulheres; mas então é que foi o fim de Baciato — as mulheres avançaram para ele e todas elas, sob a meticulosa direcção de Aluso, desferiram um golpe no homem que durante tanto tempo as oprimira; Aluso, rejubilando, trespassou-lhe por fim o coração. Nascia o Sol e Espártaco e os seus sessenta e nove companheiros tinham já conquistado a Villa Baciato. Apossaram-se então de todas as armas existentes e jungiram bois ou mulas a todas as carroças. Os alimentos das cozinhas e todas as armas que não podiam empunhar foram guardados nas carroças, os portões principais foram abertos e a pequena expedição avançou corajosamente para a liberdade.

Conhecendo bem a Campânia, Espártaco não limitara o seu plano à conquista da Villa Baciato. Esta ficava perto da estrada entre

Cápua e Nola, a cerca de dez quilômetros da primeira dessas cidades; Espártaco afastou-se de Cápua e rumou na direcção de Nola. Passado algum tempo, encontraram um outro comboio de carroças e atacaram-no, unicamente porque não queriam que houvesse testemunhos vivos da sua passagem. Para deleite de todos, as carroças estavam cheias de armas e armaduras que iam para outra escola gladiatorial. Havia agora muito mais armas que guerreiros. Algum tempo depois, deixaram a estrada principal e seguiram por um caminho que levava até ao monte Vesúvio.

Vestindo a jaqueta, coberta de escamas metálicas, de um arqueiro, e empunhando um sabre trácio, Aluso foi juntar-se a Espártaco à frente da coluna. Limpara o sangue do seu sabre, mas continuava a recordar com o maior prazer a morte horrenda que infligira a Baciato. — Pareces Minerva — disse-lhe Espártaco, sorrindo; o gladiador não encontrara nenhuma razão para criticar a forma como Aluso executara Baciato. — Pela primeira vez em dez anos, posso dizer que me sinto bem. — E, dizendo isto, agitou a enorme saca de couro que trazia à cintura; na saca, vinha a cabeça de Baciato, que ela tencionava escarificar, transformando depois a caveira na sua taça, como era costume entre a sua tribo.

— Se estiveres de acordo, serás a minha mulher. Só minha. — Estarei de acordo, se me deixares participar nos teus conselhos de guerra. Falavam em grego, pois Aluso não sabia latim. E falavam com o à-vontade de duas pessoas que tinham desfrutado do corpo uma da outra sem qualquer envolvimento emocional, com o prazer novo da liberdade, com o prazer novo de se verem sem grilhetas e sem olhos ameaçadores a vigiá-los.

O Vesúvio era marcadamente diferente de todos os outros picos. Ficava situado, num soberbo isolamento, no meio das suaves e ricas planícies da Campânia, não muito longe das praias da baía de Cráter, e, ao longo dos primeiros novecentos metros de altitude, as encostas enchiam-se de vinhedos, pomares, campos de trigo ou legumes; havia água com fartura e o solo erabom para o cultivo. Porém, acima dessas encostas, erguia-se uma torre rochosa e retalhada, onde medravam apenas escassas árvores, aquelas que tinham força para implantar as raízes em gretas secas; até ao cume, não havia sinal de cultivo ou habitação.

Espártaco conhecia a montanha como a palma da sua mão. A quinta do pai ficava no flanco oeste e ele e o irmão mais velho tinham brincado durante anos nos penhascos que conduziam ao pico. Por isso, encaminhou o seu novo povo para essas fragas, até que chegou a uma concavidade situada entre os rochedos do lado norte da montanha. As paredes dessa concavidade eram abruptas e era difícil fazer descer as carroças; porém, lá no fundo, a erva crescia muito viçosa e havia espaço para toda aquela gente e muito mais. Manchas amarelas de enxofre espalhavam-se pelas ravinas escarpadas e, de um pequeno monte situado no meio da concavidade, vinha um cheiro fétido; no entanto, isso significava que aqueles pastos nunca tinham dado de comer aos animais e que os pastores nunca levavam para lá os seus rebanhos. Acreditava-se que aquele local estava assombrado — mas Espártaco nada disse aos seus seguidores.

Durante várias horas, tratou de organizar o acampamento, de construir abrigos com as pranchas das carroças; às mulheres, mandou-as preparar comida, aos homens distribuiu tarefas variadas. Mas quando o Sol deixou de iluminar o esconderijo, reuniu toda a sua gente. — Crixo e Enómao, venham para o meu lado — disse ele. — Aluso, vem sentar-te aos meus pés, pois és a chefe das mulheres, a nossa sacerdotisa e a minha mulher. Os outros ficam onde estão.

Subindo a uma rocha, para ficar mais alto que Crixo e Enómao, Espártaco deu início ao seu discurso.

— Por ora estamos livres. Mas não devemos esquecer que, de acordo com a lei, somos escravos. Matámos os vigilantes e o nosso amo e, quando as autoridades descobrirem, seremos perseguidos. Nunca tivemos oportunidade de estar reunidos assim, como se fôssemos um povo, e de discutir os nossos objectivos, o nosso destino, o nosso futuro. Respirou fundo e prosseguiu:

— Em primeiro lugar, não manterei aqui nenhum homem ou mulher contra sua vontade. Aqueles que desejarem seguir o seu próprio caminho poderão ir-se embora quando quiserem. Não peço votos nem juramentos, não quero cerimónias de juramento de fidelidade. Nós fomos prisioneiros, sentimos durante muito tempo o peso das grilhetas, não tivemos os privilégios que são concedidos aos homens livres, e as mulheres foram obrigadas a prostituir-se. Por isso, não farei nada para vos prender. Este é um abrigo temporário. Mais tarde ou mais cedo teremos de deixá-lo. Viram-nos a subir a montanha e a notícia da nossa proeza em breve se espalhará.

Um gladiador que estava na fila da frente, agachado, ergueu a mão para falar. Espártaco não sabia o seu nome.

— Eu sei que seremos perseguidos — disse o homem, de sobrolho franzido. — Por isso, não seria melhor dispersarmos? Se nos espalhássemos por muitas direcções, podia ser que pelo menos alguns conseguissem escapar. Se nos mantivermos juntos, seremos capturados em bloco.

Espártaco aquiesceu.

— É verdade o que dizes. No entanto, não defendo essa posição. E porquê? Principalmente, porque não temos dinheiro, não temos outras roupas senão as que Baciato nos deu — e quem nos vir com estas roupas, identificar-nos-á imediatamente —, e a única ajuda de que dispomos está nas armas que possuímos. E essas armas, se nós dispersarmos, serão perigosas. Baciato não tinha dinheiro na fortaleza. Nem um único sestércio. Mas o dinheiro é uma necessidade vital, e creio que temos de permanecer juntos até termos dinheiro. — E como vamos fazer isso? — perguntou o mesmo homem. Espártaco sorriu para ele com um sorriso que era simultaneamente triste e encantador. — Não faço a mínima ideia! — retorquiu ele, com a maior franqueza. — Se estivéssemos em Roma, podíamos roubar alguém. Mas estamos na Campânia, uma região de agricultores que guardam todo o seu dinheiro em bancos ou que o enterram em sítios inimagináveis. — Abriu muito as suas mãos, num apelo, e acrescentou: —vou dizer-lhes o que acho que devíamos fazer. Terão um dia para pensar. Amanhã, a esta mesma hora, reuniremos e votaremos.

Tão confusos como todos os outros, Crixo e Enómao aquiesceram vigorosamente. — Diz-nos o que pensas, Espártaco — pediu Crixo.

A luz do dia ia desfalecendo lentamente, mas Espártaco, em cima do seu rochedo, parecia concentrar os últimos raios do sol à

sua volta. Quem olhasse para ele, naquele instante, não teria dúvidas: sim, aquele era de facto um chefe, um homem determinado, seguro, forte, alguém em quem todo um povo podia confiar.

— Todos conhecem o nome de Quinto Sertório — disse ele. — Um romano em revolta contra o sistema que produz homens como Baciato. Quinto Sertório tem a Hispânia nas mãos e, em breve, marchará sobre Roma, onde será o Ditador e definirá um novo tipo de República. Sabemos disso porque, em todos os locais onde disputámos torneios, toda a gente falava de Sertório. E ficámos também a saber que há muita gente em Itália que quer Quinto Sertório à frente de Roma. Especialmente os Samnitas.

Fez uma pausa, molhou os lábios e logo prosseguiu:

— Eu sei o quevou fazer!vou para a Hispânia juntar-me a Quinto Sertório. Mas, se for possível, levar-lhe-ei mais um exército — um exército que já combateu contra a Roma de Sila e dos seus herdeiros.vou recrutar soldados entre os Samnitas, os Lucanianos e todos os outros povos de Itália que preferem ver uma nova Roma a ver a sua herança reduzir-se a nada. Recrutarei também soldados entre os escravos da Campânia e oferecer-lhes-ei a cidadania romana na Roma de Quinto Sertório. Temos mais armas do que homens — a menos que recrutemos mais homens. E quando Roma mandar tropas para nos combater, derrotá-las-emos e apossar-nos-emos das suas armas!

Espártaco encolheu os ombros.

— Não tenho nada a perder a não ser a vida e jurei que nunca mais me submeteria à vida a que Baciato me obrigou. Um homem — até mesmo um escravo! — deve ter direito a associar-se livremente com os seus companheiros, deve ter direito a mover-se livremente no mundo. A prisão é pior do que a morte. E eu nunca mais voltarei para a prisão! Para nenhuma prisão!

Emocionado, Espártaco começou a chorar, mas tratou logo de limpar as lágrimas. — Eu sou um homem e deixarei a minha marca neste mundo! Mas todos vós deviam estar a dizer isto mesmo, neste momento! Se nos mantivermos juntos e formarmos o núcleo de um exército, teremos hipóteses de nos defendermos a nós mesmos e de deixarmos uma grande marca neste mundo. Se dispersarmos, teremos de fugir, de fugir sempre. E porque havemos de fugir como veados, se podemos marchar como homens? Porque não havemos de lutar por um lugar na Roma de Quinto Sertório, abrindo-lhe as portas da Itália e indo ter com ele quando ele avançar para a nossa península? Nós sabemos que Roma tem poucas tropas em Itália. Quem não ouviu os Capuanos queixar-se de que os seus proveitos baixaram muito desde que os acampamentos dos legionários se esvaziaram? Quem poderá deter-nos? Eu fui em tempos tribuno militar. Crixo, Enómao e muitos outros pertenceram às legiões romanas. Será que eu, ou Crixo, ou Enómao, ou qualquer um de vós, sabe menos da condução de um exército do que um Lúculo ou um Pompeu Magno? Não é assim tão difícil dirigir um exército! Por isso, por que razão não havemos nós de formar um exército? As vitórias serão fáceis! Não há legiões veteranas em Itália, apenas coortes de soldados inexperientes. Nós é que atrairemos os soldados experientes, os Samnitas e os Lucanianos que lutaram para se libertar de Roma. E treinaremos os homens inexperientes que se juntarem a nós — será que um escravo é, necessariamente, um homem sem capacidades marciais ou coragem? Por várias vezes, exércitos de escravos quase derrotaram Roma; e só não derrotaram porque não eram chefiados por homens que entendiam a forma como Roma luta. Porque não eram chefiados por romanos! Os seus poderosos braços erguiam-se acima da cabeça; Espártaco cerrou então os punhos e brandiu-os.

— Eu conduzirei o nosso exército! E eu levá-lo-ei à vitória! E fá-lo-ei chegar a Quinto Sertório premiado com os louros da vitória e com Roma e a Itália completamente dominadas! — Espártaco baixou os braços e disse, por fim: — Pensei no que vos disse e não me perguntem mais nada.

A pequena multidão de gladiadores e mulheres nada disse quando Espártaco desceu da rocha; mas todos os olhares o seguiam com admiração e Aluso sorriu para ele cheia de orgulho. — Eles vão votar a teu favor — disse ela.

— Sim, creio que vão.

— Então vem comigo até à nascente. Ela precisa de ser purificada, se queremos que dê de beber a muita gente.

Espártaco não percebia se Aluso compreendia inteiramente o que estava a fazer. Mas foi com assombro que descobriu que, depois dela ter murmurado as suas rezas e escavado com a mão que cortara a Baciato nas paredes da fonte quente e fétida que jorrava de uma fissura, uma segunda nascente surgiu — uma nascente de água fresca, saborosa, capaz de saciar toda aquela gente.

— É umbom augúrio — disse Espártaco.

Em vinte dias, mil voluntários tinham-se juntado naquela concavidade perto do cume do Vesúvio. Para Espártaco, o facto de a notícia se ter espalhado tão rapidamente constituía um mistério insolúvel, pois não mandara mensageiros, nem equipas de recrutamento, às regiões vizinhas. Um décimo desses voluntários seriam talvez escravos que haviam fugido aos seus amos; mas a grande maioria era constituída por homens livres de nacionalidade samnita. Nola não ficava longe e Nola odiava Roma. Tal como Pompeios, Nápoles e todas as outras cidades italianas que tinham lutado até à morte contra Sila, primeiro na Guerra Italiana e, posteriormente, nas hostes de Pôncio Telesino. Roma podia abandonar a ideia de que tinha esmagado o Sâmnio; Roma só esmagaria o Sâmnio, pensava Espártaco enquanto registava na sua lista de recrutamento uma série infindável de nomes samnitas, quando morresse o último samnita. Muitos deles traziam já armadura e armas, muitos deles eram veteranos que cuspiam ao ouvir o nome de Sila ou que faziam um gesto para afastar o mau-olhado quando ouviam os nomes de Cetego e de Verres, os dois homens que tinham reduzido a cinzas as terras samnitas. — Há uma coisa que te quero mostrar — disse Crixo a Espártaco, com alguma impaciência na voz, na manhã do último dia de Setembro.

Espártaco, que estava a treinar uma centúria de escravos, chamou outro gladiador para o substituir e afastou-se com Crixo, que lhe puxava ansiosamente pelo braço. — Que se passa? — perguntou.

— É melhor seres tu a ver — disse Crixo, conduzindo Espártaco até uma fenda na parede da cratera, de onde se podia abarcar as encostas norte do Vesúvio. Duas sentinelas samnitas viraram-se, com um ar excitado, para o chefe. — Olha! — disse um dos vigilantes.

Espártaco olhou. Imediatamente aos seus pés, o aspecto selvagem e muito pouco hospitaleiro das fragas e fendas daquela zona da montanha; mais abaixo, os campos cultivados. E, ao longo dos

trigais, serpenteava uma coluna de soldados romanos, conduzidos por quatro homens, montando cavalos e usando capacetes áticos e armaduras de oficiais superiores; um desses homens vinha isolado e usava a faixa escarlate do império, ritualmente atada, à volta do peito cintilante.

— Ora muito bem! Mandaram um pretor combater-nos! — disse Espártaco, com um risinho.

— Quantas legiões? — perguntou Crixo, preocupado. Espártaco olhou para Crixo, surpreendido.

— Legiões?! Tu foste legionário, Crixo, devias saber!

— O problema é esse! Eu fui legionário. Quando se é legionário, nunca se sabe que aspecto tem uma legião.

Espártaco sorriu e, com um gesto afectuoso, despenteou o amigo. — Tem calma, ali em baixo vem apenas meia legião: cinco coortes de recrutas inexperientes. Os mais inexperientes que já vi. Repara como eles estão mal formados: não conseguem manter uma distância uniforme entre si, nem seguir em linha recta! Mas o mais importante é que o seu chefe é tão inexperiente como eles! Estás a vê-lo atrás dos seus três legados? É um sinal mais que seguro! Um general confiante vai sempre à frente do seu exército. — Cinco coortes? Isso dá pelo menos dois mil e quinhentos homens. — Cinco coortes que nunca pertenceram a uma legião, Crixo. —vou mandar tocar a reunir.

— Não, fica aqui comigo. Deixa-os pensar que nós não os vimos. Se eles ouvem cornetins e gritos, param e acampam na zona mais verdejante da encosta. Mas se pensarem que nós não demos por eles, o idiota que os comanda só parará quando chegar aos rochedos e perceber que não poderá acampar aí. Mas nessa altura já será demasiado tarde para voltar a formar e descer a montanha — terão de dormir aos grupinhos, espalhados pelas covas entre os rochedos! Imbecis! Se tivessem vindo pelo lado sul, poderiam ter encontrado o caminho que conduz à nossa cova.

Ao cair da noite, Espártaco tinha já concluído, sem a mínima dúvida, que a expedição punitiva era constituída por recrutas inexperientes e que o general era um pretor chamado Caio Cláudio Glabro; o Senado ordenara-lhe que levasse cinco coortes de Cápua — e que marchasse até encontrar os rebeldes; então, deveria expulsá-los do seu esconderijo vesuviano.

Ao alvorecer, a expedição punitiva já não existia. Ao longo da noite, Espártaco enviara pequenos grupos de guerrilha até às fragas, alguns mesmo recorrendo ao uso de cordas, para que matassem rapidamente e sem barulho. Tão inexperientes eram os recrutas romanos que tinham arrumado armaduras e armas antes de se deitarem junto às fogueiras; e as fogueiras indicavam ao inimigo o local exacto onde dormiam. E tão inexperiente era Caio Cláudio Glabro que pensou que aquelas fragas escarpadas ofereciam mais protecção que um acampamento em condições. Já para o fim da madrugada, alguns dos soldados mais despertos começaram a perceber o que se passava e deram o alarme. E foi então que começou a debandada. Espártaco atacou-os em força, recorrendo às mulheres para iluminarem o caminho com archotes. Metade dos soldados de Glabro morreram, a outra metade fugiu — deixando armas e armaduras. Entre os fugitivos, encontravam-se Glabro e os seus três legados. Para o esconderijo seguiram dois mil e oitocentos equipamentos de infantaria; Espártaco mandou que os seus homens despissem os trajes de gladiador e vestissem os trajes de legionários; por outro lado, juntou o comboio de bagagens de Glabro aos seus animais e carroças. Os voluntários não paravam de chegar e a maior parte eram soldados treinados; quando o total dos seus soldados chegou aos cinco mil, Espártaco decidiu que a cova do Vesúvio já não servia e que teria de mudar de esconderijo.

E Espártaco sabia perfeitamente para onde devia ir.

Assim, quando os pretores Públio Varínio e Lúcio Cossínio saíram com duas legiões do quartel de Cápua e meteram pela estrada de Nola, não demoraram muito tempo a encontrar uma fortificação romana extremamente bem construída, não muito longe da devastada Villa Baciato. Varínio, o comandante máximo, era um homem experiente nas coisas da guerra. Tal como Cossínio, o segundo comandante. Tinha-lhes bastado olhar para os seus soldados para ficarem horrorizados: aqueles homens não tinham a mínima experiência guerreira, já que só agora tinham começado o treino básico! Para tornar a missão dos pretores ainda mais difícil, o tempo estava frio, húmido e ventoso; e, pior ainda, uma virulenta infecção respiratória tinha-se propagado entre as suas hostes. Quando Varínio viu aquela magnífica fortificação perto da estrada de Nola, concluiu imediatamente que pertencia aos rebeldes — mas concluiu também que os seus soldados não seriam capazes de atacá-la. Daí que tenha instalado as duas legiões num acampamento, perto dos rebeldes.

Aos ouvidos de Roma não tinha ainda chegado o nome do chefe dos rebeldes, nem quaisquer outros pormenores; Roma sabia apenas que os amotinados tinham arrasado a escola de gladiadores de Cneu Cornélio Lêntulo Baciato (que, nos livros, aparecia como seu proprietário), que se tinham refugiado depois no monte Vesúvio e que tinham engrossado as suas hostes com alguns milhares de samnitas e lucanianos descontentes, e também com escravos. O infeliz Glabro tinha vindo com a notícia de que os rebeldes tinham ficado com todos os seus equipamentos e que teriam forçosamente de ter umbom chefe, pois haviam dizimado as suas cinco coortes com a maior facilidade.

No entanto, recorrendo ao trabalho de cuidadosos e experimentados batedores, Varínio e Cossínio puderam concluir que a força rebelde não ultrapassava os cinco mil homens e que, no acampamento, havia também algumas mulheres. Na manhã seguinte, sentindo-se mais animado, Varínio ordenou às duas legiões que formassem para batalha. Mesmo com soldados doentes, tinha muito mais homens que o inimigo — a vitória não seria difícil. Entretanto, continuava a chover impiedosamente.

Quando a batalha terminou, Varínio não sabia a que atribuir a sua derrota — se ao profundo terror que a visão dos rebeldes tinha causado aos seus homens, se à doença que levara muitos dos seus legionários a recusar-se a combater, queixando-se de que, pura e simplesmente, não podiam combater. O pior de todos os golpes foi que Cossínio morrera ao tentar reunir um grupo de soldados que procuravam desertar — sem esquecer o facto de que os rebeldes tinham levado do acampamento romano muito equipamento bélico. Não valia a pena perseguir os rebeldes, os quais, mal se asseguraram da vitória, recolheram à sua fortificação. Varínio reuniu a sua enlameada e desmoralizada coluna e regressou a Cápua, onde escreveu ao Senado com a maior das franquezas, sem poupar críticas à sua própria pessoa — mas também sem poupar críticas ao Senado. Em Itália, afirmava, não havia tropas com experiência de guerra. Ou melhor, as únicas que a tinham eram as tropas rebeldes.

E Varínio tinha um nome para ilustrar o seu relatório: Espártaco, um gladiador trácio. Ao longo de seis intervalos entre mercados, Varínio concentrou-se no treino dos seus miseráveis soldados; muitos tinham sobrevivido à batalha, embora parecesse menos provável que sobrevivessem à infecção respiratória que continuava a assolá-los. Requisitou os serviços de alguns dos centuriões veteranos de Sila para o ajudarem nos treinos, embora não conseguisse convencê-los a alistar-se. O Senado achou prudente começar a recrutar mais quatro legiões e garantiu a Varínio que podia contar com o seu apoio relativamente a todas as medidas que decidisse tomar. Um quarto pretor do grupo de oito pretores desse ano foi enviado por Roma com o cargo de legado sénior de Varínio: Públio Valério. Um pretor fugira, outro morrera, outro fora vencido; o quarto não se sentia propriamente feliz.

Em fins de Novembro, Varínio considerou que os seus homens já tinham preparação suficiente para iniciar as operações e conduziu-os na direcção da fortificação de Espártaco. A qual estava totalmente deserta. Espártaco tinha-se escapulido: mais uma indicação de que era um militar e de que conhecia os processos bélicos romanos. A doença continuava a perseguir as hostes do pobre Varínio. Enquanto conduzia as suas duas legiões para Sul, várias coortes viram-se obrigadas a abandonar a marcha. Os centuriões podiam apenas prometer que apanhariam o grosso da coluna logo que os seus homens se sentissem melhor. Perto de Picência, do outro lado do rio Sílaro, deu finalmente com os rebeldes: mas logo descobriu, horrorizado, que a legião de Espártaco se havia transformado num verdadeiro exército. Há menos de dois meses, eram apenas cinco mil — agora eram vinte e cinco mil! Não se atrevendo a atacar, Varínio não pôde fazer outra coisa senão seguir com o olhar os movimentos daquele portentoso exército. Depois de ter atravessado o Sílaro, Espártaco rumou à Lucânia, usando a Via Popília. Quando as coortes doentes regressaram ao grosso da coluna e os homens começaram a dar sinais de uma efectiva recuperação, Varínio e Valério discutiram a estratégia a seguir. Deveriam seguir os rebeldes até à Lucânia ou regressar a Cápua, onde passariam o Inverno treinando um exército maior?

— Aquilo que tu queres dizer — disse Valério — é se devemos enfrentá-los agora, apesar de eles serem muitos mais, ou se

devemos obter mais homens durante o Inverno e adiar o confronto para a Primavera, o que, tendo em conta os números, seria mais sensato.

— Creio que não temos alternativa — retorquiu Varínio. — Temos de segui-los agora. Na Primavera, já devem ter duplicado e todos os homens que atraírem entretanto às suas hostes serão, pela certa, veteranos lucanianos.

Varínio e Valéria seguiram efectivamente os rebeldes, mesmo quando tudo indicava que Espártaco tinha deixado a Via Popília e penetrado nas agrestes montanhas da Lucânia. Durante oito dias seguiram os rebeldes, montando um acampamento seguro todas as noites — essa era a alternativa mais prudente, ainda que significasse um duro trabalho para os soldados.

Ao fim do nono dia, começaram também a montar um acampamento, apesar das queixas dos homens que, dada a sua pouca experiência, não entendiam a necessidade ou as vantagens de um acampamento seguro. E, enquanto uma parte dos soldados de Varínio construía muralhas com a terra escavada pelos outros, Espártaco atacou. Dispondo de muito menos soldados e apanhado de surpresa, Varínio não teve outra hipótese senão retirar; para trás, deixava o seu Cavalo Público, primorosamente ajaezado, e a maior parte dos seus soldados. Das dezoito coortes com que partira de Cápua, apenas cinco regressaram da Lucânia; depois de atravessar de novo o Sílaro, mas desta feita na direcção da Campânia, Varínio e Valério deixaram estas cinco coortes de vigia ao rio, sob o comando de um questor, Caio Torânio. Os dois pretores deslocaram-se então a Roma, a fim de exortarem o Senado a treinar mais homens e o mais rapidamente possível. A situação estava a tornar-se cada vez mais grave, mas, encontrando-se Lúculo e Marco Cota no Oriente e Pompeu na Hispânia, muitos dos senadores achavam que o processo de recrutamento era uma pura perda de tempo. O poço italiano estava seco. Até que, em Janeiro, chegou a Roma a notícia de que Espártaco deixara a Lucânia com quarenta mil homens, organizados em oito eficientes legiões. Os rebeldes tinham destroçado as tropas de Caio Torânio — todos os homens tinham morrido nas margens do Silário. A Campânia ficava assim à mercê de Espártaco, o qual, segundo o relatório de Varínio, procurava agora convencer as cidades com populações maioritariamente samnitas a aliar-se à sua revolta e a declarar guerra por uma Itália livre.

Os tribunos do Tesouro foram aconselhados a deixar-se de queixas e a reunir rapidamente o dinheiro necessário para atrair os veteranos retirados às hostes romanas. O pretor Quinto Arrio (que fora nomeado para substituir Caio Verres no governo da Sicília) recebeu instruções para se deslocar imediatamente a Cápua e para começar a organizar um verdadeiro exército consular, constituído por quatro legiões e fortalecido, tanto quanto possível, por elementos veteranos. Os novos cônsules, Lúcio Gélio Poplicola e Cneu Cornélio Lêntulo Clodiano, receberam formalmente o comando da guerra contra Espártaco. Espártaco foi gradualmente sabendo destas novidades desde o momento em que regressou à Campânia. Como o seu exército continuava a crescer, aprendera a consolidá-lo durante as marchas, formando e treinando novas coortes à medida que ia avançando. Sofrerá uma baixa importante: Enómao fora morto durante o bem sucedido ataque ao acampamento de Varínio e Valério. No entanto, Crixo continuava vivo e havia já uma boa fornada de novos legados. O Cavalo Público que pertencera a Varínio fazia uma bela montada para um comandante supremo! Um verdadeiro espectáculo! Todas as manhãs, Espártaco beijava-lhe o focinho e acariciava-lhe a crina cor de prata; chamava-lhe Baciato. Seguro de que cidades como Nola e Nucéria se aliariam à sua causa, enviara embaixadores para conferenciarem com os seus magistrados, explicando-lhes que era sua intenção ajudar Quinto Sertório a fundar uma nova República Italiana e pedindo donativos em dinheiro, equipamentos e homens. Mas a resposta daquelas cidades foi clara — nenhuma cidade da Campânia ou de qualquer outra região de Itália apoiaria a causa de Quinto Sertório, nem tão-pouco a causa de Espártaco, o general gladiador.

— Nós não gostamos dos Romanos — retorquiram os magistrados de Nola. — E temos orgulho no facto de termos sido a cidade que mais tempo resistiu a Roma. Mas não queremos mais guerras. Nunca mais. A nossa prosperidade desapareceu, os nossos jovens morreram. Não vos apoiaremos contra Roma.

Quando soube a resposta de Nucéria — idêntica à de Nola —, Espártaco reuniu com Crixo e Aluso.

— Saqueia essas cidades — disse a sacerdotisa trácia. — Ensina-lhes que é mais sensato apoiarem-nos.

— Eu concordo — disse Crixo —, mas por outras razões. Nós temos quarenta mil homens, equipamentos que bastem para todos eles e comida em fartura. Mas não temos mais nada, Espártaco. Está muito certo que prometamos às nossas tropas distinções e riquezas sob o governo de Quinto Sertório, mas talvez fosse melhor dar-lhes alguma dessa riqueza imediatamente. Se saquearmos uma só das cidades que se recusam a apoiar-nos, deixaremos todas as outras cidades cheias de medo — e as nossas legiões ficarão contentes! Mulheres, pilhagens — não há um soldado só que não goste de saquear cidades!

Espicaçado por tais comentários, que entendia como uma rejeição, Espártaco decidiu-se mais rapidamente do que o velho Espártaco dos tempos pré-gladiatoriais teria feito; mas essa fora uma vida diferente e ele um outro homem.

— Muito bem. Atacaremos Nucéria e Nola. Diz aos soldados que ataquem sem mercê. E os soldados assim fizeram. Examinando os resultados, Espártaco decidiu que saquear cidades era uma boa coisa. Nucéria e Nola tinham-lhe dado vários tesouros, bem como dinheiro, comida e mulheres; se continuasse a saquear cidades, poderia ofertar a Quinto Sertório uma fortuna imensa, para além de um exército! E, se assim fizesse, era mais que provável que Quinto Sertório, o Ditador de Roma, o nomeasse seu Senhor do Cavalo. Portanto, essa imensa fortuna teria de ser obtida antes que deixasse a Itália. Ao seu exército continuavam a afluir multidões ansiosas por combater ao seu lado; e muitos desses homens traziam boas notícias, pois conheciam regiões ricas da Lucânia, do Brútio e da Campânia que não tinham sido afectadas pela Guerra Italiana e que, portanto, proporcionariam óptimos saques. Assim, os rebeldes deixaram a Campânia e seguiram para Sul, onde saquearam Consência, no Brútio, e Túrio e Metaponto, no golfo de Tarento. Para grande deleite de Espártaco, estas três cidades possuíam riquezas impressionantes.

Quando Aluso concluíra a escarificação da caveira de Baciato, Espártaco dera-lhe uma folha de prata para a forrar; porém, depois do saque de Consência, Túrio e Metaponto, disse-lhe que deitasse fora a prata e que a substituísse por ouro. E havia uma certa sedução em tudo isto — tal como a omnipresente sedução de Aluso, que pensava como uma bárbara mas possuía uma magia

tremenda e acabara por ser como que um talismã para o chefe rebelde. Enquanto tivesse Aluso a seu lado, seria um dos favoritos de Fortuna. Sim, ela era uma mulher maravilhosa. Descobria nascentes, pressentia o perigo, dava-lhe sempre os conselhos certos. Agora que ela estava grávida, e que a sua boca carnuda e muito vermelha contrastava, mais do que nunca, com o cabelo cor de linho e os olhos tão pálidos e selvagens como os de um lobo, Espártaco achava-a perfeita. Era apenas por isso que a achava perfeita e não por ela ser trácia e por ele se ter tornado trácio. Pertenciam um ao outro; ela era a personificação daquela nova e estranha vida do antigo gladiador. Em princípios de Abril, penetrou no Sâmnio Oriental, seguro de que pelo menos aí as cidades o apoiariam. Mas Asérnia, Boviano, Benevento e Sepino rejeitaram as suas propostas — não aderimos à tua causa, não te queremos, vai-te embora! E, ainda por cima, eram cidades pobres, não valia a pena saqueá-las. Verres e Cetego não tinham deixado nada. No entanto, o seu exército continuava a receber samnitas. De tal modo que conta já com um total de noventa mil homens.

E Espártaco começava a perceber que era difícil controlar e organizar tanta gente. Embora as tropas se encontrassem distribuídas por legiões à maneira romana e estivessem armadas ao estilo romano, o seu chefe não encontrava legados e tribunos capazes de manter uma mão de ferro perante a indisciplina dos soldados, os efeitos do vinho, ou as lutas terríveis que as mulheres que acompanhavam o acampamento sempre provocavam. Era tempo — decidiu então — de marcharem para a Gália Italiana, para a Gália Transalpina, e, finalmente, para a Hispânia Citerior e Quinto Sertório. Não seguiria na direcção dos Apeninos Ocidentais — não tinha o mínimo desejo de se aventurar por regiões próximas de Roma. Subiria o litoral adriático, através de regiões que tinham combatido duramente o poder de Roma — as regiões onde viviam os Marrucinos, os Vestinos, os Frentanos, os Picentinos do Sul. Muitos dos membros destes povos juntar-se-iam ao seu exército!

Mas Crixo não queria ir para a Hispânia Citerior. Tal como os trinta mil homens da sua divisão do exército.

— Por que raio havemos de ir para tão longe? — perguntou. — Se é verdade o que dizes sobre Quinto Sertório, então mais

tarde ou mais cedo ele acabará por chegar à Itália. É preferível que eles nos encontre ainda em Itália, com o nosso pé sobre o pescoço romano. A distância daqui a Hispânia é quase de mil quilômetros e teremos de passar por tribos de bárbaros, para quem nós não seremos mais do que outro exército romano. Os meus homens e eu opomo-nos à ideia de deixarmos a Itália. — Se tu e os teus homens se opõem a essa ideia — retorquiu Espártaco, furioso —, então têmbom remédio: fiquem em Itália! Para que me hei-de preocupar? Tenho cerca de cem mil homens a meu cargo, e esse é, sem dúvida, um número mais do que excessivo! Por isso, fica, Crixo — quanto mais longe, melhor! Fica em Itália, com os teus trinta mil idiotas! Por isso, quando Espártaco e setenta mil soldados — juntamente com um vasto comboio de carroças de carga e quarenta mil mulheres, isto para não referir as crianças — rumaram a Norte, para atravessar o rio Tiferno, Crixo e os seus trinta mil homens viraram para sul, na direcção de Brindísio. O mês de Abril chegava ao seu termo. Mais ou menos por essa altura, os cônsules Gélio e Clodiano deixaram Roma na direcção de Cápua, onde iriam recolher as suas tropas. Quinto Árrio, o ex-pretor, comunicara ao Senado que fizera já tudo o que era humanamente possível das quatro legiões de novos soldados reunidas em Cápua; não podia garantir que aqueles homens fossem grandes combatentes, mas esperava sinceramente que se comportassem condignamente no campo de batalha. Quando os cônsules chegaram a Cápua, foram informados da dissidência entre Espártaco e Crixo e do novo rumo que Espártaco tomara. Foi então elaborado um plano; Quinto Árrio levaria uma legião para Sul, a fim de travar imediatamente Crixo, e Gélio levaria a segunda legião e seguiria Espártaco até que Árrio pudesse ir ter com ele, enquanto Clodiano conduziria rapidamente as duas outras legiões pela Via Valéria, a fim de emergir na costa adriática, bastante a norte da eventual posição de Espártaco. Este ficaria então no meio dos dois cônsules, os quais poderiam apertar facilmente a sua presa entre os extremos da sua tenaz. Alguns dias depois, chegaram magníficas notícias de Quinto Árrio. Embora a sua legião tivesse cinco vezes menos homens

que as tropas de Crixo, Árrio conseguira montar uma emboscada no monte Gargano, na Apúlia, e caíra de surpresa sobre as indisciplinadas hostes rebeldes. Crixo e todos os seus soldados foram mortos: aqueles que escaparam à emboscada foram executados pouco depois; Quinto Árrio não tinha a mínima intenção de deixar inimigos vivos na sua esteira. Gélio não foi tão feliz. O que Árrio fizera a Crixo, fê-lo Espártaco às suas tropas. Os soldados de Gélio, tomados de pânico, dispersaram no momento em que viram uma imensa mole armada correndo na sua direcção — e fizeram bem em dispersar porque aqueles que ficaram foram dizimados. Fugiram, porém, sem abandonar as armas ou as armaduras; por isso, quando Árrio e Gélio conseguiram voltar a reuni-los, possuíam ainda o equipamento inicial e poderiam (pelo menos teoricamente) retomar o combate sem precisarem de regressar a Cápua. O rumo que Árrio e Gélio traçaram após a sua derrota não importava minimamente a Espártaco; de facto, o chefe rebelde marchou imediatamente para Norte, a fim de enfrentar Clodiano, de cujo estratagema fora informado por um tribuno romano capturado. Em Hádria, no litoral adriático, os dois exércitos encontraram-se e Clodiano teve praticamente a mesma sorte que Gélio. As tropas de Clodiano dispersaram em pânico. Vencedor em ambos os campos de batalha, Espártaco avançou para Norte sem qualquer oposição. Sem desanimar, Gélio, Clodiano e Árrio juntaram os seus homens e voltaram a tentar em Firmo Piceno. De novo foram derrotados. Espártaco penetrava já no Ager Gálico. Atravessou o Rubicão e entrou na Gália Italiana em fins de Sextilis. Depois, conduziu as suas tropas pela Via Emília, na direcção de Placência e dos Alpes Ocidentais. A meta era só uma: Quinto Sertório!

O luxuriante vale do Pó possuía alimentos com fartura e os celeiros das suas cidades estavam a abarrotar de cereais. Como agora saqueava sistematicamente as cidades mais ricas, Espártaco e os seus soldados depressa suscitaram o ódio dos cidadãos da Gália Italiana. Em Mutina, já não muito longe dos Alpes, o vasto exército rebelde deparou com o governador da Gália Italiana, Caio Cássio Longino, que tentou corajosamente bloquear o seu avanço com uma única legião. Ainda que extremamente corajosa, tal acção estava condenada ao fracasso; o legado de Cássio, Cneu Mânlio, apareceu dois dias depois com a outra legião da Gália Italiana e teve a mesma sorte. Em ambas as batalhas, as tropas romanas tinham resistido — o que significava que Espártaco levara do campo de batalha mais de dez mil novos equipamentos bélicos.

O último romano com que Espártaco falara, fora o tribuno capturado durante a primeira derrota de Gélio, alguns meses antes. Em Hádria e Firmo Piceno, vira Gélio, Clodiano e Árrio a alguma distância, mas não falara com nenhum deles. Em Mutina, porém, tinha dois prisioneiros romanos particularmente importantes: Caio Cássio e Cneu Mânlio. E ficou entusiasmado com a ideia de falar com eles: era tempo de pelo menos dois membros do Senado ficarem a conhecer o homem de quem toda a Itália e a Gália Italiana falavam! Era tempo de deixar que o Senado soubesse quem ele era. É que Espártaco não tencionava matar ou deter Cássio e Mânlio; queria que eles regressassem a Roma e contassem tudo o que haviam visto. No entanto, mandara agrilhoar os seus prisioneiros e, quando os chamou à sua presença, tratou de se sentar num pódio e de vestir uma toga branca. Cássio e Mânlio fitaram-no com um olhar penetrante, mas foi quando Espártaco lhes falou embom latim, ainda que com algum sotaque campaniano, que se aperceberam de que aquele não era um homem qualquer. — És italiano! — disse Cássio.

— Sou um romano — corrigiu Espártaco.

Os Cássios não eram cobardes; tratava-se de um clã guerreiro e muito violento, e se era certo que alguns Cássios tinham cometido os seus erros militares, também era verdade que nunca nenhum Cássio tinha fugido. E este Cássio provou ser um digno membro da sua família ao erguer um braço agrilhoado e ao brandir o seu punho para aquele homem corpulento que estava sentado no pódio.

— Liberta-me desta indignidade e em breve serás um romano morto! — rosnou Cássio. — Desertor das legiões, não é? Foste atirado para as arenas como lutador trácio! Espártaco ficou vermelho.

— Não sou desertor — retorquiu ele, com um ar grave. — Sou um tribuno militar que foi injustamente acusado de um motim na Ilíria. Acham que essas grilhetas são uma indignidade? Pois bem: que pensam que eu senti quando me mandaram para a escola de um verme como Baciato? com essas grilhetas, procônsul Cássio, estás a pagar por tudo aquilo que sofri! — Mata-nos e acaba com isto! — disse Cássio.

— Matar-vos? Não, não tenho intenção de vos matar — replicou Espártaco, com um sorriso. —vou libertar-vos agora que já sentiram a indignidade das grilhetas. Voltarão a Roma e dirão ao Senado quem eu sou e para ondevou e que tenciono fazer quando lá chegar — e o que eu serei quando regressar.

Mânlio parecia ter vontade de responder; Cássio olhou-o furibundo e Mânlio não abriu boca.

— Quem tu és: um insurrecto. Para onde vais — para a tua perdição. Que vais fazer quando lá chegares — apodrecer. O que serás quando regressares — um fantasma esquecido — atirou-lhe Cássio, com os dentes cerrados. — Terei todo o prazer em dar estas informações ao Senado!

—vou deixar-te viver para que digas ao Senado aquilo que te vou dizer! — atirou-lhe Espártaco, levantando-se de súbito e rasgando a imaculada toga; deixando-a cair no chão, calcou-a com os pés com o mesmo prazer com que um cão raspa a terra depois de defecar e, por fim, com um pontapé, atirou-a para longe do pódio. — Tenho comigo oitenta mil homens, todos eles armados e treinados para lutarem como romanos. A maior parte são samnitas e lucanianos, mas até mesmo os escravos que se alistaram no meu exército são homens corajosos. Tenho milhares de talentos resultantes de muitos saques. Vou para a Hispânia Citerior, onde me juntarei a Quinto Sertório. Juntos, infligiremos uma derrota total aos exércitos de Roma que se encontram em ambas as Hispânias e depois regressaremos a Itália. A tua Roma não tem qualquer hipótese de sobrevivência, procônsul! Antes do fim do próximo ano, Quinto Sertório será o Ditador de Roma e eu serei o seu Senhor do Cavalo!

Cássio e Mânlio escutaram aquelas palavras com uma série de expressões sucessivas — furor, assombro, raiva, perplexidade, espanto — e, por fim, quando tiveram a certeza de que Espártaco terminara, fitaram-no com a expressão mais divertida deste mundo! Ambos desataram a rir como loucos, enquanto Espártaco sentia as faces lentamente enrubescendo. Que teria ele dito de divertido? Rir-se-iam da sua temeridade? Achá-lo-iam louco? — Idiota! — exclamou Cássio com os olhos e as faces molhadas de tanto rir. — Labrego! Pateta! Não tens por acaso uma rede de espionagem? Claro que não tens! Não vales o cu de um comandante romano! Que diferença existe entre esta horda que comandas e uma horda de bárbaros? Nenhuma! Essa é que é essa! Não posso crer que não soubesses! Francamente, é inacreditável!

Continuar: parte 4 de 4