Os Favoritos de Fortuna
— Pois eles que tentem! — retorquiu…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
latifúndio Vastas extensões de terras públicas arrendadas por uma pessoa e dirigidas como uma unidade, à maneira de um rancho moderno. As actividades tinham mais a ver com a pastorícia do que com a agricultura. Os latifúndios eram normalmente cultivados por escravos agrilhoados que, à noite, recolhiam a barracas, denominadas ergastula. lectus funebrís O imponente divã em que era colocado o cadáver de um homem ou mulher pertencente a uma família suficientemente rica para se dar ao luxo de pagar um funeral decente, depois de os agentes funerários terem vestido e melhorado o aspecto do falecido. Possuía pernas, era pintado de preto ou construído com madeira de ébano, ornado a ouro e coberto com colchas e almofadas pretas.
legado Legatus. Os membros mais séniores do pessoal militar do general romano eram os seus legados. Para ser classificado como um legatus, tinha de se possuir o estatuto senatorial, e freqüentemente eram de categoria consular (parece que estes estadistas mais idosos ocasionalmente ansiavam por uma temporada de vida militar e ofereciam os seus serviços como voluntários a um general no comando de uma campanha que os interessasse). Os legados só prestavam contas ao general e eram superiores a todos os tipos de tribunos militares. legião A mais pequena unidade militar romana capaz de travar uma guerra por si só (embora raramente fosse chamada a fazê-lo); isto é, era completa em termos de efectivos militares, equipamento e funções. Na época de Caio Mário, um exército romano empenhado em qualquer campanha importante consistia em pelo menos quatro legiões — embora raramente tivesse mais de seis legiões. As legiões singulares sem perspectivas de reforço ocupavam funções de guarnição em lugares como as Hispânias, onde as rebeliões tribais eram pequenas, apesar de aguerridas. Uma legião era composta por cerca de cinco mil soldados divididos em dez coortes com seis centúrias cada; também incluía cerca de mil homens com o estatuto de não combatentes e geralmente tinha uma modesta arma de cavalaria adjunta. Cada legião transportava a sua própria artilharia e material; se fosse a legião de um dos cônsules, podia ter no seu comando até seis tribunos eleitos dos soldados; se pertencia a um general que não fosse cônsul na altura, era comandada por um legado, ou então pelo próprio general. Os seus oficiais de carreira eram os centuriões, que eram em número de cerca de sessenta e seis. Embora as tropas de uma legião ficassem no mesmo acampamento, não partilhavam o rancho nem viviam em conjunto; em vez disso, eram divididas em unidades de oito homens (a centúria continha apenas oitenta soldados e os restantes vinte eram não combatentes).
lei sumptuária (lex sumptuaria) Estas leis procuravam regular a quantidade de mercadorias e/ou alimentos considerados de luxo (ou seja, caros) que um Romano podia comprar ou ter em sua casa, por muito rico que fosse. Presumivelmente, os bens em questão eram importados. Durante a República, foram aprovadas muitas leis sumptuárias visando as mulheres, proibindo-as de usar mais do que um determinado número de jóias, ou de passear em liteiras ou carruagens dentro das Muralhas Sérvias; como vários magistrados puderam comprovar, as mulheres que eram objecto destas leis tinham tendência a contestá-las, transformando-se numa força que não podia ser ignorada. lex, leges Uma lei. A palavra ”lex” veio também a ser aplicada ao plebiscitam (plebiscito), que era uma lei aprovada pela Assembleia da Plebe. Uma lex só era considerada válida depois de ter sido gravada em bronze ou pedra e depositada nos subterrâneos do templo de Saturno. No entanto, seria lógico que a .permanência das tábuas no templo de Saturno fosse breve, pois os subterrâneos não podiam conter todas as tábuas com as leis romanas existentes nos tempos de Mário e Sila — tanto mais que o Tesouro também tinha a sua sede nos mesmos subterrâneos. Imagino que, depois de passarem pelos subterrâneos do templo de Saturno, as tábuas das leis eram armazenadas permanentemente noutro local. lex Caecilia Didia Há duas destas leis, mas só uma interessa a este volume. Aprovada pelos cônsules de 98 a.C., esta lei estipulava que tinham de passar três nundinae ou dias de mercado entre a primeira contio a discutir uma lei em qualquer uma das Assembleias e o dia da sua ratificação pelo voto da Assembleia. Há alguma discussão quanto ao facto de o período em questão ser de vinte e quatro ou dezassees dias; optei pelos dezassete dias. lex Domitia de sacerdotiis Promulgada em 104 a.C. por Cneu Domício Aenobardo, mais tarde Pontifex Maximus. Exigia que os futuros membros do Colégio dos Pontífices e do Colégio dos Augures fossem eleitos por uma Assembleia Tribal especial, compreendendo dezassete tribos escolhidas por sorteio.
lex frumentaría Termo genérico para as leis relativas aos cereais. Houve muitas destas leis: a primeira foi a de Caio Graco. Todas as leis dos cereais tinham a ver com o abastecimento público dos mesmos — ou seja, com os cereais comprados pelo Estado e distribuídos pelos edis. A maior parte destas leis previa o fornecimento de cereais baratos, mas, com algumas delas, aconteceu precisamente o contrário.
lex Genucia Promulgada em 342 a.C. pelo tribuno da plebe Lúcio Genúcio. Estipulava que devia decorrer um período de dez anos para que um homem voltasse a desempenhar o mesmo cargo. Houve mais duas leges Genuciae, não referidas neste livro. lex Minícia de liberis Promulgada cerca de 91 a.C. Há algumas dúvidas quanto ao nome do seu autor: Minício ou Minúcio. Estipulava que os filhos de um casamento entre um romano e uma não romana, ou entre um não romano e uma romana, deviam assumir o estatuto do progenitor não romano.
lex Plautia Papiria Aprovada na Assembleia da Plebe em 89 a.C. Dava a cidadania integral a qualquer Italiano que tivesse o seu nome num registo municipal italiano (se se tratasse de um insurrecto, era-lhe exigido que renunciasse a todo e qualquer acto hostil a Roma), desde que o interessado apresentasse o seu caso ao pretor urbano (em Roma, naturalmente) no prazo de sessenta dias após a data da promulgação da lei.
lex rogata Uma lei promulgada numa Assembleia através da cooperação directa entre o magistrado presidente e os membros da Assembleia. Por outras palavras: o texto da lei não era apresentado à Assembleia no seu estado definitivo, mas discutido e alterado nas reuniões da Assembleia.
lex Villia annalis Promulgada em 180 a.C. pelo tribuno da plebe Lúcio Vílio. Estipulava determinadas idades mínimas para que um homem assumisse uma magistratura curul (presumivelmente, trinta e nove anos para os pretores e quarenta e dois anos para os cônsules).
Ao que parece, também estipulava que um pretor teria de esperar dois anos para poder ser cônsul.
LIBERO Veredicto de absolvição num julgamento conduzido numa das Assembleias votantes.
Liber Pater O primeiro deus da fertilidade italiano, que velava pela qualidade do esperma e pelas boas colheitas. Veio a ser identificado com o vinho e a festa, ao lado de Baco e Dioniso, mas não parece ter sido encarado levianamente pelos seus crentes. Os Aliados Italianos adoptaram-no como deus tutelar durante a guerra contra Roma. liberto Um escravo emancipado. Embora teoricamente fosse um homem livre (e, se o seu dono anterior fosse um cidadão romano, ele mesmo seria um cidadão romano), o liberto permanecia sob o patrocínio do dono anterior, que podia dispor do seu tempo e dos seus serviços. Tinha poucas hipóteses de exercer o seu voto em qualquer das duas Assembleias tribais, já que, invariavelmente, era integrado numa das duas vastas tribos urbanas — Suburana ou Esquilina. Contudo, alguns libertos, por terem capacidades invulgares ou por serem invulgarmente desumanos, conseguiam obter grande fortuna e poder e chegar, por isso, a votar na Assembleia Centurial; tais libertos conseguiam normalmente ser transferidos para tribos rurais, exercendo assim, na prática, todos os seus direitos.
lictor Um dos funcionários públicos genuínos ao serviço do Senado e Povo de Roma. Havia um Colégio de Lictores — o número de membros é incerto, mas certamente seriam em número suficiente para prover a tradicional escolta em fila única para todos os detentores de imperium, tanto dentro como fora de Roma, e executar outros deveres. Não é improvável que fossem duzentos ou trezentos homens. Um lictor tinha de ser um pleno cidadão romano, mas era certo que pertencia a uma classe humilde, pois pensa-se que o vencimento oficial era muito reduzido; o lictor via-se obrigado a contar em grande medida com as gratificações daqueles que escoltava. Dentro do colégio, os lictores dividiam-se em grupos de dez (decúrias), cada um dirigido por um prefeito, e havia vários presidentes do colégio com um estatuto sénior em relação aos prefeitos. Dentro de Roma, o lictor usava uma simples toga branca; fora de Roma usava uma túnica de cor carmesim com um cinto negro e largo ornamentado com latão; nos funerais usava uma túnica negra. Por conveniência, localizei o Colégio de Lictores atrás do templo dos Lares Praestites, no lado oriental do Fórum Romano, mas não há provas de que assim fosse. liteira Cubículo coberto, equipado com pernas em que assentava guando o baixavam. Possuía varas horizontais em cada um dos seus cantos; os quatro ou oito homens que a transportavam pegavam precisamente nessas varas. A liteira era uma forma lenta de transporte, mas a mais confortável do mundo antigo. Imagino que devia ser muito mais confortável do que os transportes modernos!
Livros Sibilinos O Estado romano possuía uma série de profecias escritas em grego e denominadas Livros Sibilinos. Segundo a lenda, a famosa Sibila de Cumas tinha proposto a venda dos livros ao rei Tarquínio Prisco de Roma, mas que este recusara. Por isso, a Sibila queimou um dos livros (que estavam escritos em folhas de palmeira). O rei voltou a recusar e ela queimou mais um livro. Até que o rei acabou por comprar os livros que restavam, os quais passaram a ser guardados por um colégio especial de sacerdotes menores. Só eram consultados quando o Senado ou o Povo o ordenavam, normalmente porque se avizinhava uma crise grave. Sila aumentou o número de sacerdotes deste colégio de dez para quinze; a partir daí, passaram a ser conhecidos como os quindecimviri sacris faciundis. Contudo, a 6 de Julho de 83 a.C., todos os livros se perderam no incêndio que destruiu o templo de Júpiter. Sila ordenou que se fizesse uma busca junto de todas as Sibilas do mundo e que os livros fossem reescritos. O que acabou por ser feito.
ludi Os jogos. Ver essa entrada.
Lusitanos Povo do extremo oeste e noroeste da Hispânia. Menos exposto às culturas helénica e romana do que os Celtiberos, os Lusitanos eram provavelmente menos célticos do que iberos do ponto de vista racial, embora houvesse neles uma mistura dessas duas estirpes. A sua organização era tribal e, ao que se crê, dedicavam-se à agricultura e à pastorícia. macaco tingitano Símio da Berbéria, um macaco pequeno sem cauda. Os símios e os primatas não eram comuns na região mediterrânica, mas o macaco que ainda hoje encontramos em Gibraltar já abundava então no Norte de África.
macellum Um mercado.
magistrados Os executivos eleitos do Senado e Povo de Roma. Em meados do período da República, todos os homens que detinham magistraturas eram membros do Senado (os questores eleitos eram normalmente aprovados como senadores pelos censores seguintes); isto concedia ao Senado uma vantagem notável em relação ao Povo, até o Povo (na pessoa da Plebe) ter tomado a seu cargo a feitura das leis.
Os magistrados representavam o braço executivo do governo. Em termos de senioridade, o magistrado mais júnior de todos era o tribuno dos soldados, que não tinha a idade necessária para ser admitido no Senado mas não deixava de ser um magistrado. A seguir, vinha o questor; seguiam-se-lhe o tribuno da plebe e o edil da plebe; o edil curai era o mais júnior magistrado detentor de imperium; depois, vinha o pretor; e o cônsul aparecia no topo. O censor ocupava uma posição especial, pois apesar de a sua magistratura não possuir imperium, não podia ser ocupada por nenhum homem que não tivesse sido cônsul. Em tempos de emergência, o Senado adquiria o poder de criar uma magistratura extraordinária, o ditador, que exercia o seu cargo apenas durante seis meses e não precisava de responder pelos seus actos ditatoriais após o termo do seu mandato. O ditador nomeava um comandante militar e seu lugar-tenente, que era o chefe dos cavaleiros.
a maioria dos escravos considerava a cidadania uma coisa bastante desejável, não tanto para si próprios como para os seus descendentes. Um escravo depois de ser manumitido era considerado um homem libertado e durante o resto da sua vida devia usar um barrete ligeiramente cónico que lhe cobria a nuca; era chamado o Barrete da Liberdade (barrete frígio). mar Euxino O actual mar Negro. Foi muito explorado pelos Gregos durante os séculos VIII e VI a.C., e várias colônias de comerciantes gregos estabeleceram-se no seu litoral. Por causa dos muitos rios que nele desaguam, sempre foi menos salgado que os outros mares, e a corrente que atravessava o Bósforo Trácio e o Helesponto sempre fluiu do Euxino para o Egeu. O ponto era, de longe, a nação mais poderosa entre as que eram banhadas pelo Euxino; o litoral do Euxino foi conquistado pelo rei Mitridates VI do Ponto. Contudo, a Bitínia controlava o Bósforo Trácio, a Propôntide e o Helesponto, e obtinha elevados rendimentos com as taxas que cobrava aos navios que atravessavam essas extensões de água. O facto de a Bitínia dominar a entrada do Euxino contribuía sem dúvida para a profunda hostilidade entre a Bitínia e o Ponto. Marsos Um dos mais importantes povos italianos. Os Marsos viviam à volta das margens do lago Fúcino, que lhes pertencia; o seu território estendia-se até aos Altos Apeninos. A sua história indica-nos que foram sempre fiéis a Roma até ao momento em que foi desencadeada a chamada Guerra Mársica. Era um povo rico, bélico e numeroso, e tinha adoptado o latim como sua língua desde muito cedo. A principal cidade dos Marsos era Marrúvio; Alba Fucência, uma cidade mais vasta e mais importante, era uma colônia dos Direitos Latinos implantada em território marso por Roma. Os Marsos adoravam as cobras e eram famosos como encantadores de cobras.
medidas e pesos A maior parte das unidades de medida tinha origem em partes do corpo: daí o pé, a mão, o passo. O pé romano eqüivalia a 296 milímetros e 5 pés valiam um passo. A milha romana continha 1000 passos. Vinte milhas romanas eqüivaliam a 19 milhas inglesas.
A área era expressa em iugera (ver esta entrada).
Para os cereais, tínhamos medidas de capacidade, e não de peso. As medidas de capacidade para os cereais eram o medimnus e o modius (ver estas entradas). O recipiente para cargas era a amphora, que tinha uma capacidade de 25 litros e correspondia ao volume de um pé cúbico romano. As cargas dos navios eram sempre expressas em amphorae.
A libra romana pesava cerca de 7/10 de uma libra inglesa, eqüivalendo a 327 gramas. Dividia-se em 12 onças (unciae). Os grandes pesos eram expressos em talentos (ver esta entrada). medimnus Medida de capacidade para cereais e outros sólidos semelhantes. Continha 5 modii e ocupava um volume de 10 galões americanos e pesava cerca de 65 libras romanas (47,5 libras inglesas). Um medimnus de cereal era o suficiente para fazer dois pães com uma libra romana de peso por dia, durante cerca de 30 dias. O romano médio que vivia numa casa de uma ínsula com uma ou duas divisões normalmente não moía farinha, nem fazia pão em casa; mantinha um acordo com o padeiro local (tal como se fez em muitas partes da Europa até há relativamente pouco tempo), cujo preço era uma parte da ração de cereais. mentula Obscenidade latina para pénis.
miles gloriosas Miles significava ”soldado” e gloriosas, à primeira vista, parece significar ”glorioso”. Mas este termo também significava ”vaidoso” ou ”presunçoso” e foi nesse sentido que o dramaturgo o utilizou.
minim Um corante vermelho muito vivo feito com cinábrio (sulfureto de mercúrio), com o qual o general triunfante pintava o rosto, aparentemente para ficar parecido com o rosto de terracota da estátua de Júpiter Optimus Maximus do templo do Capitólio. modius A medida mais usada para os cereais. Um modius eqüivalia a 2 galões americanos ou 8 litros e pesava cerca de 13 libras (presumivelmente romanas). Os cereais públicos eram distribuídos em rações de cinco modii (ou seja, um medimnus) por cabeça. mos maiorum A ordem estabelecida. Talvez a melhor definição consista em dizer que a mos maiorum era a Constituição não escrita de Roma. Mos significava costumes; maiores significava antepassados; neste contexto. Mos maiorum era a forma como as coisas tinham sempre sido feitas.
mundus Um poço com a configuração de uma colmeia, dividido em duas partes e mantido habitualmente tapado. Para o que servia exactamente, é um mistério; parece, porém, que, no período final da República, se acreditava que aquele poço era a entrada para o Mundo dos Mortos. A tampa era removida três vezes por
ano, em dies religiosi, para que os espectros pudessem passear pela cidade. Muralhas Sérvias Murus Servii Tullii. Os Romanos da República acreditavam que as magníficas muralhas em torno da cidade de Roma tinham sido construídas no tempo do rei Sérvio Túlio. No entanto, tudo aponta para que tenham sido construídas depois de Roma ter sido saqueada pelos Gauleses, no ano 390 a.C. Até à época de César, o Ditador, estas muralhas foram escrupulosamente preservadas.
navio com fileiras de dezasseis remadores com este navio, entramos no mundo dos grandes navios de guerra antigos, das supergaleras. Crê-se agora que não era possível haver mais do que três níveis ou fileiras de remos. Sendo assim, dois arranjos eram possíveis: um birreme com dois níveis e oito homens em cada remo; ou um trirreme de três níveis, com seis homens em cada um dos níveis superiores e quatro no nível inferior. Um único nível de remos ou quatro níveis eram soluções impossíveis, porque o movimento e o ângulo do remo obsta a que ele seja empunhado por mais de oito homens. Se o remo fosse manobrado por oito homens, teria de ter de comprimento cerca de 57 pés; se fosse manobrado por seis homens, mediria cerca de 45 pés de comprimento. com um comprimento que se aproximava dos 200 pés, a maior largura do navio era provavelmente de 25 a 28 pés, o que permitia que o convés acomodasse um vasto corpo de marinheiros e várias peças de artilharia, bem como várias torres. Parece haver indicações de que este navio possuía menos remos do que uma galera pequena, pois o menor número de remos era compensado pelo maior número de remadores. Estes seriam provavelmente entre 500 e 800. O navio com fileiras de dezasseis remadores teria provavelmente capacidade para 400 marinheiros. A supergalera não servia para a guerra naval propriamente dita; dado o seu tamanho e as dificuldades de manobra, era usada apenas para abordagens ou para o disparo de mísseis, isto apesar de mesmo as maiores galeras se encontrarem equipadas com aríetes. navio mercante Navio de carga. Muito mais pequeno em comprimento e mais largo de través do que uma galera de guerra (numa proporção de 4 para 1), era construído com madeira de abeto e recorria mais à vela do que aos remos, embora estivesse sempre equipado com remos, os quais eram usados quando não havia vento ou quando os piratas perseguiam o barco. A vela era disposta transversalmente;
por vezes, havia uma vela mais pequena, disposta à frente da vela principal, num mastro de proa. A orientação do navio era normalmente assegurada por dois grandes remos de leme, um de cada lado da popa. A popa tinha uma cobertura que protegia a carga e normalmente havia uma cabina a meia-nau e outra à ré. A carga era guardada em amphorae, se se tratava de cereais ou vinho; estes enormes recipientes de barro, com fundos pontiagudos, eram armazenados no porão, e envolvidos em serradura de modo a que não sofressem qualquer dano em mares tempestuosos. O navio mercante médio, ao que se crê, podia transportar cerca de cem toneladas de carga. Embora pudesse permanecer no mar de dia e de noite — e, se comandado por umbom capitão, era capaz de se fazer ao mar alto —, o navio mercante, sempre que possível, seguia junto à costa; por outro lado, o seu capitão preferia habitualmente acostar durante a noite. Os únicos navios mercantes que se mantinham regularmente no mar e que cruzavam o mar alto eram talvez os navios das grandes frotas de transporte de cereais. Estes navios eram também utilizados muitas vezes para o transporte de tropas.
nefas Sacrilégio; um acto ímpio ou sacrílego.
nobre Nobilis. Um homem e os seus descendentes eram considerados nobres depois de esse homem ter sido cônsul. Tratava-se de uma aristocracia artificial inventada pelos plebeus, que assim pretendiam reduzir o peso indiscutível dos patrícios nobres; quando terminou o primeiro século da República, tinha havido já mais plebeus cônsules do que patrícios. A nobreza de um indivíduo tinha uma importância extrema.
nomen O nome da família, do clã, ou gentílico — o nome da gens. Cornélio, Júlio, Domício, Lívio, Mário, Márcio, Júnio, Sulpício, etc., são todos nomina (plural), nomes gentílicos. nome secreto de Roma Roma, presumivelmente sob a forma da deusa Roma, tinha um nome secreto. Este nome secreto, ao que parece, era guardado por uma deusa especial, divã Angerona, cuja estátua (no altar do santuário de Volúpia) tinha uma faixa a tapar-lhe a boca. Havia certos rituais misteriosos em que o nome secreto era proferido; no entanto, tratava-se de um tabu rigidamente observado, e todas as pessoas, mesmo as mais sofisticadas, acreditavam que era extremamente perigoso pronunciar esse nome. Ao que se crê, a maior parte pensava que o nome secreto era Amor, ou seja, Roma ao contrário.
Nonas O segundo dos três dias nomeados do mês que representavam os pontos fixos do mês. Os dias eram contados de trás para a frente a partir de cada um desses pontos — Calendas, Nonas, Idos. As Nonas ocorriam no sétimo dia dos meses longos (Março, Maio, Julho e Outubro) e no quinto dia dos outros meses. As Nonas eram consagradas a Juno. non pró consule, sed pró consulíbus A famosa frase de Lúcio Márcio Filipe quando propôs ao Senado que desse a Pompeu o comando da guerra contra Quinto Sertório, na Hispânia Citerior. Brilhante formulação de uma distinção muito subtil, esta frase levou muitos dos senadores que se opunham tenazmente a dar um comando proconsular a um homem exterior ao Senado, a aceitar a nomeação de Pompeu. Significava, mais ou menos, ”não como um homem após o seu consulado, mas como um homem agindo em nome dos cônsules do ano”. numen, numina Deuses que eram apenas espíritos ou forças, ou seja, que não tinham corpos, rostos, sexo, ou mitologia.
nundinum O intervalo entre um dia de mercado e o dia de mercado seguinte; a semana romana de oito dias. Exceptuando as Calendas, as Nonas e os Idos, os dias do calendário romano não tinham um nome; nos calendários propriamente ditos, esses dias são designados pelas letras do alfabeto que vão de A a H, sendo A presumivelmente o dia de mercado. Quando as Calendas de Janeiro coincidiam com o dia de mercado, pensava-se que todo esse ano seria um ano infeliz; tal coincidência, porém, não ocorria muitas vezes, por causa das intercalações, por um lado, e também porque a série de oito letras era mantida sem interrupção entre o último dia do ano velho e o primeiro dia (as Calendas) do ano novo.
nundinus, nundinae O dia do mercado, que ocorria de oito em oito dias; o singular, nundinus, era menos usado do que o plural, nundinae. Em circunstâncias normais, os tribunais funcionavam nos nundinae, ao contrário das Assembleias.
Olímpia O famoso templo de Zeus não ficava no monte Olimpo, na Tessália, mas sim junto ao rio Alfeu, na região de Élis, no Peloponeso Ocidental. oscano A língua falada pelos Samnitas, Campanianos, Lucanianos, Ápulos, Brútios e outros povos italianos da parte mais setentrional da península italiana; era a língua dominante da Itália Central mesmo durante as últimas décadas da República. Era indo-europeia, mas muito diversa do latim; alguns dos povos que falavam oscano usavam o alfabeto latino para transcrever a sua língua, mas a maior parte (incluindo o maior grupo de falantes do oscano, os Samnitas) recorria a um alfabeto derivado do alfabeto etrusco. Muitos romanos falavam e entendiam o oscano. Por vezes, em Roma, os mimos atelanos (da cidade de Ateia, no território dos Oscos) eram representados nesta língua.
panteão Termo usado actualmente e que abarca todo o conjunto dos deuses de um sistema religioso politeísta.
Parvus Demasiado pequeno para ser levado em conta.
paterfamilias O chefe da unidade familiar. A lei protegia rigidamente o seu direito de fazer o que muito bem entendesse com todos os membros da família. Pais Conscritos Quando foi criado pelos reis de Roma (segundo a tradição, por Numa Pompílio), o Senado consistia de uma centena de patrícios denominados patres — ”pais”. Nos primeiros anos da República, quando foram acrescentados senadores plebeus, dizia-se que os senadores eram conscripti — ”nomeados sem haver uma eleição”. Os membros patrícios e plebeus do Senado eram patres et conscripti, gradualmente, os dois termos foram-se unindo e todos os membros do Senado acabaram por ser designados por Patres Conscripti. patrício, patriciato O patriciato era a primitiva aristocracia romana. Para um povo como o romano, que reverenciava os antepassados e dava uma extrema importância ao nascimento de uma pessoa, o facto de se possuir estirpe patrícia não podia ser subestimado. As mais antigas das famílias patrícias eram aristocratas já antes dos reis de Roma; as mais novas (os Cláudios, por exemplo) parecem ter emergido aquando do início da República. Durante toda a República, essas famílias mantiveram o título, bem como um prestígio que nenhum plebeu podia atingir — e isto apesar da nobreza, a ”nova aristocracia”, ou seja, as famílias que subiram na escala social graças ao facto de terem tido cônsules. Contudo, no último século da República, um patrício pouco mais tinha do que a distinção que o sangue lhe conferia; a riqueza e a energia das grandes famílias plebéias tinham levado à erosão dos direitos que, originalmente, pertenciam aos patrícios. Sila, que era patrício, parece ter feito algumas tênues tentativas para elevar os patrícios acima dos plebeus, mas a verdade é que não se atreveu a legislar privilégios significativos para a aristocracia de sangue.
No último século da República, havia ainda várias famílias patrícias que davam senadores, pretores e cônsules a Roma — é o caso das famílias Emília, Cláudia, Cornélia, Fábia (mas apenas através de adopções), Júlia, Mânlia, Pinaria, Postúmia, Sérgia, Servília, Sulpícia e Valéria.
patronato A sociedade romana republicana encontrava-se organizada segundo um sistema de patronato e clientela. Embora os mais pequenos comerciantes e os trabalhadores mais humildes nem sempre participassem no sistema, este, no entanto, prevalecia a todos os níveis da sociedade, e nem todos os patronos pertenciam às camadas mais elevadas da sociedade. O patrono comprometia-se a oferecer protecção e favores àqueles que se propunham ser seus clientes. Os escravos libertos tinham por patronos os seus ex-senhores. As mulheres não podiam ser patronos. Muitos patronos eram clientes de patronos mais poderosos, o que, na prática, transformava os seus clientes em clientes desses patronos mais poderosos. Embora este sistema não se encontrasse reconhecido na lei, havia nele um princípio de honra muito forte, e era raro um cliente ignorar ou ludibriar o seu patrono. O patrono podia não fazer nada durante anos para obter o apoio de um cliente, mas um dia viria em que o cliente seria chamado a prestar favores ao seu patrono — votar nele, mover influências, realizar alguma tarefa especial. Era costume o patrono receber os seus clientes de manhã cedo, nos dias que o calendário previa para os ”negócios”; durante essas manhãs, os clientes pediam ajuda ou favores, ou apareciam unicamente para mostrar o seu respeito ou oferecer os seus préstimos. O patrono, caso fosse rico ou generoso, fazia freqüentes ofertas em dinheiro aos seus clientes. Se um homem se tornasse cliente de outro homem a quem odiara implacavelmente noutros tempos, passaria, a partir desse instante, a servi-lo com absoluta lealdade, ainda que isso implicasse a sua própria morte. Pavo Um pavão.
pedarius Um senador dos bancos de trás.
perduellio Alta traição. Antes de Saturnino, primeiro, e de Sila, posteriormente, terem definido traição e promulgado novas leis sobre tal crime, a perduellio era a única forma de traição que a lei romana conhecia, tão antiga que vinha mencionada nas Do/e Tábuas. Implicava o julgamento na Assembleia Centurial. O traidor era condenado à pena capital: crucificação numa árvore mal agourada (ou seja, uma árvore que nunca tivesse dado frutos). peristilo Jardim ou pátio interior, rodeado por uma colunata, e que correspondia à única zona ao ar livre de uma casa.
phalerae Discos de prata ou ouro cinzelados e ornamentados, com um diâmetro de 75 a 100 milímetros. Originalmente, eram usados como insígnias pelos cavaleiros romanos e também faziam parte dos ornatos de um cavalo de um cavaleiro. Gradualmente, foram-se tornando condecorações militares, concedidas por actos de excepcional bravura no campo de batalha. Eram normalmente concedidas em grupos de nove (três filas de três phalerae) e usadas sobre uma couraça de couro decorada, a qual devia ser vestida por cima da cota de malha ou da couraça propriamente dita.
Piceno Região do leste da península italiana que podemos identificar grosseiramente com o músculo da barriga da perna italiana. A sua fronteira ocidental estendia-se ao longo dos cumes dos Apeninos; a norte, ficava a Úmbria, e a sul, o Sâmnio. Como era sua uma boa parte da costa adriática, possuía vários portos de mar, os mais importantes dos quais eram Ancona e Firmo Picentino. A principal cidade do interior, e capital, era Ásculo Picentino. Os primeiros habitantes do Piceno eram de origem italiota e ilíria, mas quando o rei Breno invadiu a Itália muitos dos seus Celtas instalaram-se no Piceno e, através de casamentos, acabaram por fundir-se com o povo local. Segundo uma outra versão tradicional, os Sabinos, vivendo do outro lado dos Apeninos, teriam migrado para a região e fundado o Piceno. Os seus habitantes chamavam-se Picentinos. A região dividia-se em duas partes — o Norte, muito ligado à Úmbria, era dominado pela grande família dos Pompeus, ao passo que o Sul estava mais ligado ao Sâmnio e às tradições espirituais dos Samnitas.
pilum, pila A lança da infantaria romana, em particular depois de Caio Mário ter introduzido nela algumas modificações. Tinha uma ponta de ferro muito pequena e horrivelmente farpada e um fuste de ferro; o cabo, de madeira, adaptava-se bem à mão. Mário modificou-a, tornando mais fraca a junção entre as secções de ferro e madeira do fuste; quando o pilum se alojava no corpo ou no escudo de um inimigo, partia-se, e por isso não podia ser utilizado pelos soldados inimigos. As legiões romanas, no entanto, possuíam artífices que, depois da batalha, reparavam rapidamente os pila.
pitagórico Seguidor do sistema filosófico criado por Pitágoras. Na Roma do período final da República, os pitagóricos eram considerados demasiado excêntricos, de tal modo que muita gente os
achava algo doidos. O filósofo pitagórico ensinava que a alma transmigrava eternamente de um organismo para outro (até mesmo para plantas) — a menos que, em determinada altura dessa transmigração, se fixasse num homem que seguisse um modo de vida destinado a libertá-la: para tal, esse homem deveria conformar-se a determinadas regras de silêncio, castidade, contemplação, vegetarianismo, etc. Esta corrente recebia de braços abertos tanto os homens como as mulheres. O culto neopitagórico seguido em Roma afastara-se do verdadeiro pitagoricismo, mas a preocupação com os números e com a defesa de um certo modo de vida era ainda grande. Infortunadamente, uma dos alimentos cujo consumo os pitagóricos defendiam era o feijão: o resultado era uma forte percentagem de metano no ar sempre que aparecia um pitagórico. Daí que os apaniguados desta escola fossem freqüentemente alvo de chistes muito pouco agradáveis. Um médico meu amigo defende que um consumo excessivo de favas durante a gravidez pode ser causa de um excesso hemorrágico durante o parto. plebeu, plebe Todos os cidadãos romanos que não eram patrícios eram plebeus — isto é, pertenciam à plebe. Nos primórdios da República, nenhum plebeu podia ser sacerdote, magistrado curul ou mesmo senador. Esta situação durou pouco tempo; uma a uma, as instituições patrícias foram-se desmoronando antes do assalto da plebe, até que, na época de Caio Mário, já só um pequeno número de lugares políticos importantes estava reservado aos patrícios. No entanto, a plebe criou uma nova nobreza para distinguir as suas figuras mais proeminentes, designando por nobilis (nobre) um homem que tivesse alcançado o consulado, e estipulando que os seus descendentes também seriam nobres.
podex Obscenidade que designava, não o ânus, mas o buraco do ânus. pomerium O limite sagrado da cidade de Roma. Era marcado por pedras chamadas cippi e dizia-se que fora inaugurado pelo rei Sérvio Tulo e permanecera exactamente no mesmo lugar até ao tempo de Sila, o Ditador. O pomerium não seguia exactamente as Muralhas Sérvias, umbom motivo para se duvidar que as Muralhas Sérvias tenham sido construídas por Sérvio Tulo — que teria certamente feito as muralhas seguir o mesmo curso que o pomerium. Toda a antiga cidade de Rómulo, no Palatino, era cercada pelo pomerium, mas o mesmo não acontecia com o Aventino e o Capitólio. Reza a tradição que o pomerium só podia ser alargado por um homem que aumentasse
significativamente o território romano. Em termos religiosos, a própria Roma apenas existia dentro do pomerium; tudo o que existia fora deste era considerado meramente como território romano.
Ponte de Madeira Nome que foi sempre dado à Pons Sublicius, a mais velha das pontes que atravessam o Tibre na cidade de Roma.
pontifex Muitos etimologistas latinos pensam que, em tempos muito remotos, o pontifex era um construtor de pontes (pons = ponte) e que a construção de pontes era considerada uma arte mística que punha o construtor em estreito contacto com os deuses. Seja isto ou não verdade, o certo é que, no tempo da República, o pontifex era um sacerdote. Integrado num colégio especial, era um conselheiro dos magistrados e das assembleias de Roma para todos os assuntos religiosos — e, inevitavelmente, viria a tornar-se um magistrado. De início, todos os pontífices tinham de ser patrícios, mas uma lex Ogulnia, de 300 a.C., estipulava que metade dos membros do Colégio dos Pontífices tinham de ser plebeus. Durante os períodos em que os pontífices (e os augures) eram cooptados para o colégio por outros membros, os novos elementos tinham freqüentemente uma idade inferior à necessária para se entrar no Senado; era comum haver pontífices com vinte e poucos anos. Por isso, a nomeação de César, aos 27 anos de idade, não tinha nada de invulgar.
Pontifex Maximus O chefe da religião estatal e o sacerdote mais sénior de todos. O cargo parece ter sido criado durante o início da República, num modo tipicamente romano de contornar os obstáculos sem ofender susceptibilidades; porque o Rex Sacrorum (título usado pelos reis de Roma) já havia sido o chefe sacerdotal. Em vez de perturbar a populaça abolindo o Rex Sacrorum, os novos governantes de Roma na pessoa do Senado criaram muito simplesmente um novo pontifex cujo cargo e estatuto eram superiores aos do Rex Sacrorum — o Pontifex Maximus, que era eleito e não cooptado, para reforçar a sua posição de estadista. No início, era provável que tivesse de ser um patrício, mas em meados do período da República era mais provável que pudesse ser também um plebeu. Era ele que orientava todos os membros dos colégios sacerdotais — pontífices, augures, feciais e outros sacerdotes menores e as Vestais. Nos tempos da República era ele que ocupava o Domus Publicus (ou casa estatal) mais importante, mas partilhava-o com as Vestais. A sua morada oficial (tinha o estatuto de templo) era a pequena Regia antiga, no Fórum Romano.
popa Funcionário público ligado aos serviços religiosos. A sua única tarefa, aparentemente, consistia em desferir com o maço no animal sacrificado; já não era ele quem cortava a garganta do animal: esse era o domínio do cultarius. população de Roma Uma questão muito controversa que já fez gastar rios de tinta aos eruditos dos nossos dias. Creio que há uma tendência para subavaliar o número de pessoas que viviam dentro dos limites de Roma, pois poucos são os especialistas que admitem um número tão elevado como um milhão de habitantes. Parece haver um consenso geral em torno do número de meio milhão. Contudo, conhecemos as dimensões da cidade republicana, no interior das Muralhas Sérvias: em largura, mais de um quilômetro; em comprimento, mais de dois quilômetros. Então como agora, Roma era uma cidade de apartamentos e essa deverá ser uma chave importante para determinar o verdadeiro número de habitantes. Os cidadãos romanos — ou seja, indivíduos do sexo masculino inscritos no censo — seriam talvez um quarto de milhão; depois, temos as suas mulheres e os filhos; e finalmente os escravos. Só as casas muito, muito pobres, não tinham pelo menos um escravo ao seu serviço; ao que parece, até os capite censi possuíam escravos. Por outro lado, havia também em Roma os não cidadãos, hordas de não cidadãos: judeus, sírios, gregos, gauleses, e muitos outros povos. com mulheres, filhos e escravos. Roma fervilhava de gente e possuía um sem-número de ínsula”. Os não cidadãos, com as suas mulheres, os filhos e os escravos, talvez fizessem subir o quarto de milhão referido acima do milhão. De outro modo, metade das ínsulas estariam vazias e a cidade teria uma imensidão de parques. Julgo que o número de dois milhões de habitantes deverá ser o mais próximo da realidade.
Porta Capena Uma das duas principais portas das Muralhas Sérvias, do ponto de vista estratégico (a outra era a Porta Colina). Ficava a sul do Circus Maximus; à saída da Porta Capena, encontrávamos a estrada comum que dava origem à Via Ápia e à Via Latina (estas distavam cerca de um quilómetra da Porta).
porticus Não se trata de um pórtico, mas sim de um edifício incorporando uma espécie de vasto pátio central, maior em comprimento do que em largura e construído segundo o princípio da colunata. O Porticus Margaritaria, no alto Fórum Romano, era uma versão mais quadrada do porticus, e albergava as lojas mais caras de Roma. O Porticus Emília, no porto de Roma, era um edifício particularmente
longo, que albergava as firmas e os agentes que negociavam com transportes marítimos, importações e exportações.
Povo de Roma Este termo abarcava todos os Romanos que não eram membros do Senado; aplicava-se tanto a patrícios como a plebeus, e tanto aos capite censi como à Primeira Classe.
praefectus fabrum ”Aquele que supervisiona o fabrico.” Um dos homens mais importantes num exército romano republicano, tecnicamente não estava sequer integrado nele; era um civil nomeado para o posto em questão pelo general. O praefectus fabrum era responsável pelo equipamento e abastecimento do exército a todos os níveis, desde as ferragens para os animais à comida para os homens. Como firmava contratos com comerciantes e manufactureiros tendo em vista o equipamento e os abastecimentos do exército, o praefectus fabrum era uma figura muito poderosa — e encontrava-se numa óptima posição para enriquecer à custa do seu cargo, a menos que fosse um homem de rara integridade.
praenomen O primeiro nome de um homem romano. Eram muito poucos — talvez vinte no tempo de Mário e Sila, e metade desses vinte não eram comuns, ou estavam confinados aos homens de uma gens particular, como sucedia com Mamerco, dos Emílios Lépidos. Cada gens ou clã favorecia apenas certos praenomina, o que contribuía ainda mais para reduzir a variedade. Um estudioso moderno do assunto poderá muitas vezes, a partir do praenomen de um homem, deduzir se esse homem era ou não um genuíno membro da gens; os Júlios, por exemplo, escolhiam apenas Sexto, Caio e Lúcio, pelo que um homem chamado Marco Júlio não era um verdadeiro Júlio da gens patrícia; os Licínios preferiam Públio, Marco e Lúcio; os Pompeus só gostavam de Cneu, Sexto e Quinto; os Cornélios optavam por Públio, Lúcio e Cneu; os Servílios da gens patrícia escolhiam apenas Quinto e Cneu. Ápio só pertencia aos Cláudios. Um dos grandes enigmas para os eruditos modernos é o de Lúcio Cláudio, que foi Rex Sacrorum durante o final da República; Lúcio não é um praenomen dos Cláudios, mas como por certo era um patrício, Lúcio Cláudio, o Rex Sacrorum, só pode ter sido um Cláudio genuíno. Tenho defendido que havia um ramo da gens Cláudia com o praenomen Lúcio que tradicionalmente ocupava o cargo de Rex Sacrorum.
praetor peregrinus Optei por apresentar o praetor peregrinus como o pretor para as relações exteriores, pois lidava apenas com
assuntos legais e litígios envolvendo uma ou mais partes que não eram cidadãos romanos. Na época de Mário e Sila, os deveres deste pretor limitavam-se à aplicação da justiça; viajava por toda a Itália e por vezes para fora da Itália. Decidia também em relação aos casos envolvendo não cidadãos dentro da cidade de Roma.
praetor urbanas Pretor urbano. No tempo de Mário e Sila, os seus deveres limitavam-se quase exclusivamente às questões judiciais; era responsável pela administração da justiça e dos tribunais dentro da cidade de Roma. A sua autoridade não se estendia para lá do quinto marco miliário a partir de Roma, e não podia deixar Roma durante mais de dez dias seguidos. Se os dois cônsules estavam ausentes, o pretor urbano passava a ser o magistrado sénior, tendo, por isso, poderes para convocar o Senado, tomar decisões relativas à execução das políticas governamentais, e mesmo para organizar as defesas da cidade em caso de ameaça ou ataque. Cabia-lhe a ele decidir se duas partes em litígio deveriam comparecer em tribunal ou a uma audição formal; na maior parte dos casos, era ele quem decidia acerca do litígio, sem recorrer a uma audição ou a um julgamento.
pretor A pretura era o segundo degrau mais sénior do cursus honorum para os magistrados (excluindo o cargo de censor, que constituía um caso especial). Nos primeiros tempos da República, as duas magistraturas mais altas eram as dos pretores. Mas no fim do séc. IV a.C., usava-se a palavra ”cônsul” para designar estas magistraturas mais importantes. Durante muitas décadas a partir dessa data, houve apenas um pretor; era o praetor urbanus, pois as suas funções estavam limitadas à cidade de Roma (libertando assim os cônsules, que podiam dedicar-se à guerra). Em 242 a.C., foi criado um segundo pretor; era o praetor peregrinus. Seguiu-se a aquisição de colônias ultramarinas que necessitavam de ser governadas, e por isso, em 227 a.C., foram criados mais dois lugares de pretores para tomar conta da Sicília e da Sardenha. Em 197 a.C., o seu número aumentou de quatro para seis, para tratar da governação das duas Hispânias. Contudo, depois disso não foram criados mais lugares de pretores; na época de Caio Mário, o número de pretores era ainda de seis. Devo acrescentar que há um grande debate acadêmico acerca deste assunto. Existem duas vertentes, uma das quais defende que foi Sila, o Ditador, que aumentou o número de pretores para oito, e outra segundo a qual esse número foi aumentado de seis para oito durante
o tempo dos irmãos Gracos. Preferi manter o número de pretores em seis. Princeps Senatus O Presidente do Senado. Era escolhido pelos censores, de acordo com as normas da mos maiorum: tinha de ser um patrício, chefe da sua decúria, interrex mais vezes do que qualquer outro senador, um homem de moral e integridade sem mácula e com uma alta auctoritas e dignitas. O título de Princeps Senatus não era vitalício: pelo contrário, era revisto por cada novo par de censores. Sila retirou ao Presidente do Senado grande parte da sua auctoritas, mas o cargo continuou a ser muito prestigiado.
privatus Cidadão privado. Uso este termo para descrever um homem que era membro do Senado mas que não tinha funções de magistrado.
procônsul Alguém que tinha o estatuto de cônsul. Este imperium era geralmente atribuído a um homem que tivesse acabado o seu mandato como cônsul e continuasse a deter o estatuto de cônsul (isto é, de procônsul) para governar uma província ou comandar um exército em nome do Senado e Povo de Roma. O mandato de um procônsul durava habitualmente um ano mas costumava ser prorrogado, caso o seu detentor estivesse empenhado numa campanha contra um inimigo que ainda não tinha sido vencido. Se um consular não estivesse disponível para governar uma província suficientemente tormentosa para garantir a designação de um procônsul em vez de um propretor, eram os pretores desse ano que iriam governá-la, dotados do imperium de um procônsul. O imperium do procônsul limitava-se à área da sua província ou tarefa, e era-lhe retirado no momento em que atravessava o pomerium, ao entrar na cidade de Roma.
Procustes Criatura da mitologia grega com gostos muito duvidosos. Na sua fortaleza algures na Ática (ao que parece, na estrada que conduzia ao istmo de Corinto), possuía duas camas, uma demasiado pequena para um homem de estatura média, e a outra demasiado grande. Depois de atrair o viajante à sua residência, despojava-o de tudo e atirava-o para a cama que menos se adequasse ao seu tamanho. Se a vítima era demasiado pequena, Procustes prendia-a à cama maior e esticava-a até que tivesse o tamanho da cama; se a vítima era demasiado grande, Procustes prendia-a à cama mais pequena e cortava-lhe as extremidades até que o seu tamanho igualasse o da cama. Foi morto por Teseu, que lhe aplicou o mesmo suplício. proletaríi ver capite censi.
promagistrado Alguém que servia o Estado com funções de magistrado mas sem ser de facto um magistrado. Os cargos de questor, pretor e cônsul (as três magistraturas do cursus honorum) eram as únicas que na realidade contavam.
propretor Alguém que servia o Estado com o imperium de pretor mas sem o cargo. O imperium propretoriano era normalmente concedido a um homem que terminara o seu ano como pretor e que ia governar uma província propraetore. A propretura era habitualmente concedida por um ano, mas podia ser prorrogada.
proquestor Alguém que servia o Estado com as funções de questor, mas sem ser de facto questor. Este cargo não possuía imperium, mas, em circunstâncias normais, um homem eleito questor — se um governador que ficava mais do que um ano na sua província lho pedisse pessoalmente — permaneceria nessa província como proquestor até que o seu superior regressasse a Roma.
província Originalmente, a palavra significava a esfera de deveres de um magistrado ou promagistrado com autoridade equivalente, e aplicava-se por isso, tanto a cônsules e pretores em funções em Roma como àqueles que se encontravam no campo de batalha. Mais tarde, a palavra passou a significar o local onde o imperium era exercido pelo seu detentor; finalmente, foi aplicada a esses locais, mas significando apenas que eles pertenciam a Roma. Na época de Mário e Sila, todas as províncias de Roma ficavam situadas fora de Itália e da Gália Italiana. pteryges As tiras de couro que caíam da cintura até aos joelhos, formando uma espécie de saia, e dos ombros até aos antebraços como mangas; por vezes, eram franjadas nas extremidades e ornamentadas com tachas metálicas ou com diversos padrões executados no couro. As pteryges constituíam a marca tradicional dos oficiais séniores e dos generais de um exército romano; não eram usadas pelos outros membros do exército. publicam Colectores de impostos contratados pelo Estado romano. Tais contratos eram firmados pelos censores aproximadamente de cinco em cinco anos; Sila terá acabado com isto ao suspender o cargo de censor. Mas, como é óbvio, deverá ter encontrado um outro processo tendo em vista a celebração de tais contratos.
Pulex Uma pulga.
Púnico Adjectivo aplicado a Cartago e ao seu povo, mas sobretudo às três guerras entre Cartago e Roma. A palavra deriva do nome da pátria original dos Cartagineses — a Fenícia. quaestio Tribunal ou comissão de investigação judicial.
questor O degrau mais baixo do cursus honorum senatorial. O questor era sempre eleito, mas antes de Sila ter determinado, durante a Ditadura, que de futuro um homem só poderia entrar no Senado depois de ter sido questor, não era necessário ser-se questor antes de se ser senador. Sila aumentou o número de questores de doze para vinte e decidiu que um homem não poderia ser questor antes dos trinta anos. Os principais deveres de um questor eram fiscais. Consoante os resultados dos sorteios, podia ser escolhido para trabalhar no Tesouro, ou para cobrar taxas e rendas num local qualquer de Itália, ou para administrar as finanças de um governador provincial. Um homem que ia governar uma província tinha capacidade para nomear o seu questor. O questor tomava posse no quinto dia de Dezembro. Quinctilis Originalmente, quando o Ano Novo romano começava em Março, era o quinto mês do ano. Manteve este nome, depois de o Ano Novo romano ter sido mudado para Janeiro — então, Quinctilis passou a ser o sétimo mês. Chamamos-lhe Julho — tal como os Romanos lhe chamaram, após a morte do grande Júlio.
quinquerreme Tipo muito comum e popular da antiga galera de guerra: conhecido também pelo nome de ”cinco”. Tal como o birreme e o trirreme, era muito mais longo do que largo e o seu único objectivo era a guerra naval. Pensava-se que o quinquerreme tinha cinco níveis de remos, mas agora é opinião quase geral que nenhuma galera tinha mais de três níveis de remos, sendo mesmo mais comum ter apenas dois níveis. É provável que lhe chamassem ”cinco” por ter cinco homens para cada remo; ou então, se tivesse dois níveis de remos, ficariam três remadores no nível superior e dois remadores no nível inferior. Se houvesse cinco homens para cada remo, apenas o homem da ponta do remo tinha de ser altamente qualificado; era ele quem guiava o remo e que fazia realmente o trabalho duro, ao passo que os outros pouco mais faziam do que contribuir com a sua força muscular. Contudo, cinco homens para um remo significava que, no início do movimento, os remadores tinham de estar de pé, caindo sobre o assento ao darem o impulso. Um ”cinco” cujos remadores pudessem permanecer sentados teria necessitado de três níveis de remos como o trirreme, dois homens em cada um dos dois níveis superiores e um homem no nível inferior. Parece que estes três tipos de quinquerremes eram usados, consoante as preferências das comunidades
ou nações. Quanto ao mais, o quinquerreme era coberto, os remos superiores ficavam numa projecção do costado, e um mastro e uma vela também não faltavam, ainda que não fossem usados quando se avizinhava uma batalha. O total de remadores andava à volta dos 270, os marinheiros seriam talvez 30; e se o almirante preferia a abordagem a abrir brechas no outro navio com o aríete, o quinquerreme podia chegar a transportar 120 marinheiros, torres de combate e catapultas. Tal como acontecia com as galeras mais pequenas, os remadores do ”cinco” eram profissionais e não escravos.
Quirites Cidadãos romanos de estatuto civil.
quod erat demonstrandum ”O que era preciso demonstrar.” Regia Antigo edifício do Fórum Romano, pequeno, com uma estranha configuração e orientado para norte, que servia de sede para o Pontifex Maximus e para o Colégio dos Pontífices. Era um templo consagrado e continha altares ou santuários de algumas das mais antigas divindades romanas — Opsiconsiva, Vesta, Marte dos escudos e lanças sagrados. Era neste edifício que o Pontifex Maximus mantinha os seus arquivos. Mas nunca foi a sua residência. Rei cliente Um monarca estrangeiro que se comprometia como cliente tendo Roma por patrono, ou por vezes tendo por patrono um cidadão romano. O título ”Amigo e Aliado do Povo Romano” era uma declaração de clientela.
República Originalmente, a palavra era constituída por duas — re publica —, ou seja, a coisa que representa o povo como um todo: isto é, o governo. retórica A arte da oratória, que os Gregos e os Romanos transformaram em algo que se aparentava a uma ciência. Umbom orador falava de acordo com regras e convenções cuidadosamente definidas e que não se limitavam às palavras; de facto, a linguagem do corpo e os movimentos tinham também as suas normas. Até meio do período republicano, os professores de retórica grega eram desprezados, sendo mesmo por vezes expulsos de Roma; Catão, o Censor, era um inimigo confesso da retórica grega. No entanto, a grecofilia dos tempos de Cipião Emiliano acabou com muita desta oposição latina, de tal modo que na época dos irmãos Gracos a maior parte dos jovens nobres romanos tinham por professores retóricos gregos. Isso levou a que os retóricos latinos caíssem em desgraça! Havia diferentes estilos de retórica — Lúcio Licínio Crasso Orador preferia o estilo asiático, mais floreado e dramático do que o estilo ático. Não esqueçamos que o público que se reunia para ouvir um orador — falasse ele de política ou de assuntos judiciais num tribunal — era formado por especialistas em retórica. A audiência escutava o orador com um espírito extremamente crítico; conhecia todas as regras e técnicas e não era fácil agradar-lhe.
Rex Sacrorum Durante a República, era o número dois do Colégio dos Pontífices. Relíquia dos tempos dos reis de Roma, o Rex Sacrorum tinha de ser patrício e era afectado por tantos tabus como o flamen Dialis.
Ria Plutarco (escrevendo em grego, cerca de duzentos anos mais tarde) dá à mãe de Quinto Sertório o nome de Reia; mas Reia não é um gentílico latino. Contudo, ainda hoje ”Ria” é um diminutivo comum na Europa para ”Maria”. Só ao fim de alguns anos descobri que a minha governanta holandesa, Ria, se chamava afinal Maria. Maria seria nome de um membro da família dos Mários, ou seja, da gens de Caio Mário.
Foi a dedicação de Quinto Sertório a Caio Mário, desde os primeiros tempos de Sertório como militar até ao fim da vida de Mário (altura em que mesmo os seus mais leais adeptos recuaram horrorizados perante as suas atrocidades), que me levou a reflectir acerca deste nome, Reia. Sertório, diz-nos ainda Plutarco, era muito devotado à mãe. Assim sendo, por que razão não poderia a mãe de Sertório ser uma Maria, e parente próxima de Caio Mário? Muitas questões ficariam esclarecidas, se a mãe de Sertório fosse de facto parente próxima de Caio Mário. Dadas as liberdades inerentes ao trabalho do romancista, escolhi considerar que a mãe de Sertório era parente consanguínea de Mário. Contudo, trata-se de pura especulação, apesar de dispor de alguns dados para defender os meus argumentos. Nesta série romana, limitei severamente a minha imaginação de romancista e não lhe permiti que se opusesse ou negasse a história. Rocha Tarpeia A sua localização exacta continua a suscitar acesos debates, mas sabemos que era possível vê-la bastante bem do baixo Fórum Romano. Presumivelmente, era um rochedo que se salientava por sobre os penhascos do Capitólio. Como a distância da Rocha Tarpeia até ao fundo da encosta não era muito superior aos vinte e quatro metros, é de crer que a rocha devia ficar precisamente por cima de um terreno acidentado — não temos nenhuma indicação de que alguém tivesse sobrevivido à queda. Era o local tradicional de execução para cidadãos romanos condenados por traição ou assassínio,