Os Trabalhadores do Mar

Victor Hugo · Capítulo 40 de 103

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Os Trabalhadores do Mar

Capítulo VII

Tal era a loja. Aquelle sortimento era a curiosidade. A loja communicava por uma porta do fundo com o páteo onde estava o poço. Tinha uma mesa e um escabello. A mulher do perna de páo era a moça do balcão.

 

VII

 

COMPRADORES NOCTURNOS E VENDEDOR TENEBROSO

 

Clubin não foi á pousada João, nem na noite de terça-feira, nem na noite de quarta-feira.

Nesta noite, ao escurecer, dous homens entraram pela viella Coutanchez; pararam diante da Jacressarde. Um delles bateu na vidraça. Abrio-se a porta da loja. Entraram ambos. A mulher da perna de páo deu-lhes o sorriso reservado aos burguezes. Havia uma vela sobre uma mesa.

Os dous homens eram effectivamente burguezes.

O homem que tinha batido na vidraça disse:

—Boa noite, mulher. Venho por aquillo.

A mulher da perna de páo sorrio segunda vez e sahio pela porta que dava para o páteo. Minutos depois abrio-se de novo a porta, e appareceu um homem pela fresta, trazendo bonet e blusa, debaixo da qual havia um objecto volumoso. Tinha uns fios de palha nas dobras da blusa e pelos olhos via-se que acabava de acordar.

O homem avançou. Olharam-se todos. O homem da blusa tinha um ar turvado e esperto.

—O senhor é o armeiro? disse elle.

O homem que tinha batido respondeu.

—Sim. O senhor é o Parisiense?

—Chamado Peaurouge. Sim.

—Deixe vêr.

—Aqui está.

O homem tirou debaixo da blusa um instrumento; muito raro na Europa naquella época, um revolver.

O revolver era novo e brilhante. Os dous burguezes examinaram-no. O que pareceu conhecer a casa e a quem o homem da blusa chamou armeiro, fez mover o mecanismo. Entregou depois a arma ao outro burguez, que parecia não ser morador na cidade, e que se conservava com as costas voltadas para a luz.

O armeiro perguntou:

—Quanto custa?

O homem da blusa respondeu.

—Venho da America. Ha pessoas que trazem macacos, papagaios, animaes, como se os francezes fossem selvagens. Eu trouxe isto. É uma invenção util.

—Quanto custa? perguntou de novo o armeiro.

—É uma pistola que faz molinete.

—Quanto custa?

—Paf. Primeiro tiro. Paf. Segundo tiro. Paf... é uma saraivada! Isto faz obra.

—Quanto custa?

—Tem seis canos.

—Mas quanto custa?

—Seis canos são seis luizes.

—Quer cinco luizes?

—Impossivel. Um luiz por cada bala. É o preço.

—Quer fazer negocio, seja razoavel.

—Já disse o preço. Examine-me esta obra, Sr. arcabuzeiro.

—Já examinei.

—O molinete anda de roda como o Sr. Talleyrand. Podiam pôr este molinete no diccionario das ventoinhas. É uma joia.

—Já vi.

—Os canos são de fabrica hespanhola.

—Já reparei.

—São lavrados. A cousa arranja-se assim. Deita-se na forja uma alcofa de ferros velhos, cravos, ferraduras quebradas...

—E velhas laminas de fouces.

—Ia dizel-o, Sr. armeiro. Depois deita-se em cima uma boa porção de fogo, e sahe disto tudo um magnifico instrumento de ferro.

—Sim, mas póde ter gretas e buraquinhos; póde sahir esconço.

—Sim. Mas tudo se arranja.

—O senhor é do officio?

—Tenho todos os officios.

—Os canos são brancos.

—É belleza, Sr. armeiro. Faz-se isto com borra de antimonio.

—Diziamos nós que isto custa cinco luizes...

—Tomo a liberdade de observar que eu tive a honra de dizer seis luizes.

O armeiro abaixou a voz.

—Ouça, Parisiense. Aproveite a occasião. Desfaça-se disto. Isto para vocês não vale nada. Chama a attenção.

—Na verdade, disse Parisiense, é um tanto vistoso. É melhor para um burguez.

—Quer cinco luizes?

—Não, seis. Um por cada buraco.

—Pois bem, seis napoleões.

—Quero seis luizes.

—Não é bonapartista. Prefere um luiz a um napoleão?

Parisiense sorrio.

—Napoleão é melhor, disse elle, mas luiz vale mais.

—Seis napoleões.

—Seis luizes. É para mim uma differença de oitenta francos.

—Então não fazemos nada.

—Pois sim. Guardo o revolver.

—Guarde.

—Abater o preço! pois não! não se dirá que eu me desfiz sem mais nem menos de uma invenção destas!

—Então, boa noite.

—É um progresso sobre a pistola, que os indios chesapoakes chamam Nortay-u-Hoh.

—Cinco luizes á vista, é ouro.

—Nortay-u-Hoh, quer dizer espingarda pequena. Muitas pessoas ignoram isto.

—Quer cinco luizes e mais um escudo?

—Eu já disse que custa seis.