Os Trabalhadores do Mar

Victor Hugo · Capítulo 97 de 103

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Os Trabalhadores do Mar

Capítulo II

Lethierry contemplava-o.

—É o meu verdadeiro genro. Como se bateu com o mar! está em frangalhos! Que hombros! que pés! Como és bello!

Graça correu a Deruchette, amparou-lhe a cabeça. Deruchette tinha desmaiado.

 

II

 

A MALA DE COURO

 

Desde madrugada Saint-Sampson estava de pé e Saint-Pierre Port começava a chegar. A ressurreição de Durande fazia na ilha um rumor comparavel ao que fez no meio dia da França a Salette. Havia multidão no caes para contemplar o cano que sabia da pança. Tinham vontade de ver e tocar na machina, mas Lethierry, depois de repetir, e á luz do dia, a inspecção triumphante da mecanica, tinha posto na pança dous marinheiros encarregados de impedir que ninguem se approximasse. O cano, porém, bastava á contemplação. A multidão pasmava. Só se fallava de Gilliatt. Commentava-se e acceitava-se a alcunha de engenhoso, a admiração acabava sempre por esta phrase: «Nem sempre é agradavel ter na ilha gente capaz de fazer cousas destas.»

De fóra via-se mess Lethierry assentado á mesa diante da janella e escrevendo, com um olho no papel, e outro na machina. Estava de tal modo absorto que apenas uma vez interrompeu-se para gritar: Doce! e para pedir noticias de Deruchette. Doce respondeu: «A menina levantou-se e sahio.» Mess Lethierry disse: «Faz bem em tomar ar. Esteve incommodada de noite por causa do calor. Havia muita gente na sala. E depois a sorpreza, a alegria e as janellas fechadas. Vai ter um marido soberbo!» E tornou a escrever. Já tinha escripto e fechado duas cartas dirigidas aos mais notaveis constructores de Bremen. Acabava de fechar a terceira.

O rumor de uma roda no caes fez-lhe levantar a cabeça. Inclinou-se á janella, e vio desembocar do atalho que ia ter á casa de Gilliatt um rapaz empurrando um carrinho de mão. O rapaz dirigia-se para o lado de Saint-Pierre Port. Havia no carrinho uma mala de couro amarella com pregos de cobre e estanho.

Mess Lethierry fallou ao rapaz.

—Onde vás?

O rapaz parou, e respondeu:

—Ao Cashmere.

—Para que?

—Levar esta mala.

—Pois bem, levarás tambem estas tres cartas.

Mess Lethierry abrio a gaveta da mesa, e pegou num pedaço de barbante, enlaçou as tres cartas que acabava de escrever, e atirou o embrulho ao rapaz que o recebeu no ar entre as duas mãos.

—Dirás ao capitão do Cashmere que sou eu quem escrevo, e que elle tenha cuidado com ellas. É para a Allemanha. Bremen via London.

—Nào fallarei ao capitão, mess Lethierry.

—Porque?

—O Cashmere não está no cáes.

—Ah!

—Está na barra.

—É justo, por causa do mar.

—Só posso fallar ao patrão do escaler.

—Recommenda-lhe as minhas cartas.

—Sim, mess Lethierry.

—A que horas parte o Cashmere?