Os Trabalhadores do Mar

Victor Hugo · Capítulo 50 de 103

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Os Trabalhadores do Mar

Capítulo VII

Quanto ao fucturo, Clubin não tinha plano. Possuia os bilhetes do banco na boceta de ferro atada á cintura; bastava-lhe esta certeza. Mudaria de nome. Ha paizes onde sessenta mil francos valem seiscentos mil. Não seria má solução ir para um desses lugares viver honestamente com o dinheiro apanhado ao ladrão Rantaine. Especular, entrar em um grande negocio, engrossar o capital, tornar-se seriamente millionario, também não era máo.

Por exemplo, em Costa Rica, como era o começo do grande commercio do café, podia ganhar toneis de ouro. Veria isso.

Demais, pouco importava. Clubin tinha tempo de pensar nessas cousas. O mais difficil estava feito. Despojar Rantaine, desaparecer com a Durande era o mais importante. Estava feito. O resto era simples. Não havia obstaculo possivel. Nada de temer. Não podia acontecer nada. Nadaria para a costa, abordaria a Plainmont, de noite, galgaria as rochas da praia, iria á casa mal assombrada, entraria facilmente por meio da corda de nós escondida de antemão no buraco do rochedo; acharia na casa a mala contendo roupa e viveres, dentro de oito dias lá estavam os contrabandistas de Hespanha, Blasquito provavelmente; por alguns guineos, far-se-hia transportar, não a Tor Bay, como disse a Blasco para illudir, mas a Pasages ou a Bilbáo. Dahi iria a Vera-Cruz ou a Nova-Orleans. Já era tempo de atirar-se ao mar, a chalupa estava longe, uma hora a nado era cousa nenhuma para Clubin, só uma milha o separava de terra, pois que estava no Hanois.

Neste ponto dos seus calculos, rasgou-se uma fresta do nevoeiro. O formidavel rochedo Douvres surgio aos seus olhos.

 

VII

 

INTERVEM O INESPERADO

 

Clubin olhou espantado.

Era o medonho escolho isolado.

Não era possivel a illusão a respeito daquella configuração disforme. As duas Douvres gemeas campeavam horriveis deixando ver entre si, como uma armadilha, a garganta de que fallámos. Dissera-se um quebra-costas do oceano.

Estavam perto delle as rochas Douvres; o nevoeiro, como cumplice, escondera-as.

Clubin errara o caminho por causa do nevoeiro. Apezar de toda a attenção, aconteceu-lhe o mesmo que a dous grandes navegadores, a Gonzalez que descobrio o Cabo Branco, e a Fernandez que descobrio o Cabo Verde. A bruma desencaminhou-o. Pareceu-lhe excellente para a execução do projecto, mas tinha os seus perigos. Clubin desviou-se para o oeste e enganou-se. O passageiro guernesiano, acreditando ver o Hanois, determinou o movimento do leme final; Clubin cuidou que se atirava ao Hanois.

A Durande arrombada por um dos bancos do escolho, estava separada das duas Douvres apenas por algumas centenas de braças.

A duzentas braças mais longe via-se um massiço cubo de granito. Descobria-se nas faces escarpadas desta rocha algumas estrias e relevos apropriados para galgal-a.

Os cantos rectilinios dessas rudes muralhas de angulo recto faziam presentir no cume uma planura.

Era o Homem.

A rocha Homem era mais alta ainda que as Douvres. A sua plataforma dominava as pontas inacessiveis das duas rochas. Essa plataforma, abatendo-se pelas bordas, tinha uma cimalha e mostrava uma certa regularidade architectural. Não se podia imaginar nada mais triste e funesto. As vagas iam dobrar as suas tranquillas toalhas, nas faces quadradas daquelle enorme rochedo negro, especie de pedestal para os espectros immensos do mar e da noite.

Tudo aquillo estava mudo e morto. Havia apenas um sopro no ar e uma ruga nas ondas. Debaixo daquella superficie muda da agua advinhava-se a vasta vida afogada das profundezas.

Clubin vira muitas vezes de longe o escolho Douvres.

Convenceu-se bem que era ali as Douvres.

Não podia duvidar.

 

Subita e terrivel mudança. As Douvres em vez dos Hanois. Em vez de uma milha, cinco leguas do mar! o impossivel. A rocha Douvres, para o naufrago solitario, é a presença, visivel e palpavel dos ultimos momentos. É impossivel chegar á terra.

Clubin estremeceu. Tinha se mettido no goela da sombra. Não havia outro refugio além do rochedo Homem. Era provavel que a tempestade sobreviesse de noite, e que a chalupa de Durande sobrecarregada sossobrasse. Nenhum aviso do naufragio chegaria a terra. Não se saberia mesmo que Clubin ficara no rochedo Douvres. Não havia outra perspectiva senão a morte por frio e fome. Os seus setenta e cinco mil francos nem mesmo lhe davam um bocado de pão. Tudo quanto elle construira deu em resultado aquella cilada; foi elle proprio o architecto laborioso de sua emboscada. Nenhum recurso. Nenhuma solução possivel. O triumpho fazia-se precipicio. Em vez da liberdade, a captura. Em vez de um futuro prospero e longo, a agonia. De um relance esboroou-se-lhe o edificio. O paraizo sonhado por aquelle demonio retomou a sua verdadeira figura; o sepulchro.

Entretanto soprava o vento. O nevoeiro, saccudido, furado, repuxado, desfazia-se no horisonte em grandes lanhos informes. Reappareceu o mar.

Os bois cada vez mais invadidos pela agua, continuavam a berrar no porão.

Approximava-se a noite; provavelmente a tempestade.

A Durande a pouco e pouco levantada pelo mar, oscilava da direita para a esquerda, degois da esquerda para a direita, e começava a girar sobre o escolho como sobre um eixo.

Podia-se pressentir o momento em que uma vaga arrancaria o navio, e o levaria agua abaixo.

Havia menos obscuridade do que no momento do naufragio. Apezar da hora ser já avançada, estava mais claro. O nevoeiro levou comsigo uma parte da escuridão. O oeste limpou-se de nuvens. O crepusculo é um vasto céo branco. Essa vasta claridade allumiava o mar.

A Durande naufragara em plano inclinado de pôpa a prôa. Clubin trepou á prôa que estava quasi fóra da agua. Fitou no horisonte os olhos.

É proprio da hypocrisia ater-se á esperança. O hypocrita é o homem que espera. A hypocrisia é uma esperança horrivel: o fundo dessa mentira é feito desta virtude, tornada vicio.

Cousa estranha de dizer, ha confiança na hypocrisia. O hypocrita confia-se a certa indifferença do desconhecido, que consente no mal.

Clubin olhava para a extensão.

A situação era desesperada: aquella alma sinistra não desesperou.

Dizia comsigo que depois daquelle longo nevoeiro os navios conservados na bruma, á capa ou ancorados; iam continuar viagem, e algum passaria no horisonte.

E com effeito appareceu uma véla.

Vinha de leste e ia para oeste.

Appoximando-se desenhava-se o navio; tinha apenas um mastro, e estava armado em goleta. O gurupés era quasi horisontal.

 

Antes de meia hora devia passar por perto do escolho Douvres.

Clubiu disse comsigo: estou salvo.

Em momentos semelhantes, pensa-se primeiro na vida.

O cuter era quasi estrangeiro. Quem sabe se não era um dos contrabandistas que iam a Plainmont? Quem sabe se não era Blasquito? Nesse caso, não sómente salvava a vida como a fortuna; e o encontro do rochedo Douvres, appressando a conclusão, supprimindo a espera na casa mal assombrada, dando desfecho á aventura em pleno mar, seria um incidente feliz.

Toda a certeza do bom exito entrou freneticamente naquelle espirito sombrio.

Extranha cousa é ver com que facilidade os tratantes acreditam que devem ser bem succedidos.

Cumpria fazer apenas uma cousa.

A Durande, mettida nos rochedos, misturava a sua configuração á delles; confundia-se com os seus recortes, sobre os quaes parecia apenas um lineamento, ficava indistincta e perdida, e não bastava, com o pouco dia que havia, para attrahir a attenção da embarcação que ia passar.