Os Trabalhadores do Mar
Capítulo IX
Estava prompto.
Gilliatt olhou attonito.
A pobre creatura não tinha tido muitas alegrias em sua vida. Sentio o alquebramento de uma immensa felicidade. Dobravam-se-lhe os membros; e diante do seu triumpho, elle que não se perturbara até então, começou a tremer.
Contemplou a pança debaixo do navio e a machina dentro da pança. Parecia não acreditar. Dissera-se que elle não contava com aquillo. Sahira-lhe um prodigio das mãos, e elle contemplava-o com espanto.
Mas esse espanto durou pouco.
Gilliatt teve o movimento de um homem que desperta, travou da serra, cortou os oito cabos, depois, separado agora da pança apenas uns dez pés, deu um salto, cahio dentro, pegou em um rolo de fio, fez quatro cabos, passou-os nas argolas preparadas de antemão, e prendeu por ambos os lados da pança, as quatro correntes do cano que uma hora antes ainda estavam presas na amurada da Durande.
Amarrado o cano, Gilliatt desembaraçou a parte superior da machina. Um pedaço do tombadilho da Durande ainda alli estava preso. Gilliatt, despregou-o e limpou a pança daquella porção de taboas e vergas que atirou sobre os rochedos. Util allivio.
Demais, como é de prever a pança sustentou com firmeza a carga da machina. Mergulhou muito pouca cousa. A machina da Durande, embora massiça, era menos pesada que o montão de pedras e o canhão trazidos outrora de Herm pela pança.
Tudo estava acabado. Só restava ir-se embora.
IX
INTERROMPE-SE O EXITO
Nem tudo estava acabado.
Abrir a entrada das Douvres, fechada pelo pedaço da amurada da Durande, e levar immediatamente a pança para fóra do escolho, nada mais claro do que isto.
No mar todos os minutos são urgentes. Pouco vento, apenas uma ruga ao longe; a bella tarde promettia uma bella noite. O mar era de rosas, mas o reflux começava; excellente momento para partir. Gilliatt teria a vasanto para sahir das Douvres, e a enchente para entrar era Guernesey. Podia estar em Saint-Sampson de madrugada.
Mas apresentou-se um obstaculo inesperado, Houve uma lacuna na providencia de Gilliatt.
A machina estava livre, o cano estava preso.
A maré approximando a pança da Durande, tinha diminuido os perigos da descida; mas essa diminuição de intervallo deixou a parte superior do cano mettida na especie de quadro que apresentava o bojo aberto da Durande. O cano estava preso como entre quatro paredes.
O serviço prestado pelo mar complicava-se com esta dissimulação. Parece que o mar, obrigado a obedecer, teve uma segunda tenção.
É verdade que aquillo que a enchente fizera, ia desfazel-o a vasante.
O cano, tendo mais de tres toezas de altura, tinha uns oito pés mettidos na Durande; o nivel d'agua abi baixaria doze pés; o cano descendo com a pança, teria quatro pés de espaço acima de si, e poderia sahir.
Mas quanto tempo era preciso para isto? Seis horas.
D'ahi a seis horas seria meia-noite. Que meio tentaria Gilliatt para sahir áquella hora, que canal tomaria atravez daquelles cachopos, já tão inextrincaveis de dia, e como arriscar-se no meio da noite em semelhante emboscada de bancos de pedras?