Os Trabalhadores do Mar

Victor Hugo · Capítulo 68 de 103

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Os Trabalhadores do Mar

Livro Segundo

De subito, alguns palmos abaixo delle, na transparencia encantadora daquella agua, que eram pedras preciosas dissolvidas, Gilliatt vio alguma cousa inexprimivel. Uma especie de longo andrajo movia-se na oscillação das vagas. Esse andrajo não fluctuava, vogava; tinha a fórma de um sceptro de truão com pontas; essas pontas tinham reflexos; parecia que uma poeira impossivel de molhar-se cobria aquelle todo. Era mais que horrivel, era nojento. Tinha um quê de chimerico; era um ente, a menos que não fosse uma apparencia. Parecia dirigir-se para o obscuro da cava e mergulhava-se alli. As espessuras da agua tornaram-se sombrias sobre aquella cousa que resvalou e desappareceu, sinistra.

 

LIVRO SEGUNDO

 

O trabalho

 

I

 

OS RECURSOS DAQUELLE QUE NÃO TEM RECURSOS

 

A cava não soltava facilmente quem lá ia. A entrada era pouco commoda, a sahida foi ainda peior. Gilliatt entretanto safou-se, mas não voltou lá. Nada encontrou do que procurava, e não tinha tempo para ser curioso.

Poz immediatamente a forja em actividade. Faltava ferramenta, Gilliatt fabricou-a.

Tinha por combustivel os destroços, a agua por motor, o vento por folles, uma pedra por bigorna, por arte o instincto, por força a vontade.

Gilliatt entrou ardentemente nesse trabalho sombrio.

O tempo mostrava-se complacente. Continuava bello, e o menos equinoxial possivel. Chegára o mez de Março, mas tranquillamente. Os dias tornavam-se compridos. O azul do céo, a vasta doçura dos movimentos da extensão, a serenidade do meio dia, pareciam excluir qualquer intensão má. Alegrava-se o mar debaixo do sol. Um affago previo tempera as traições. A agoa marinha não é avara desses affagos. Com aquella mulher é preciso desconfiar do sorriso.

Havia pouco vento; a hydraulica soprava bem. O excesso do vento tolheria em vez de ajudar.

Gilliatt tinha uma serra; fabricou uma lima; com a serra attacou a madeira, com a lima, o metal; depois ajuntou as duas mãos do ferreiro, uma tenaz e uma pinça: a tenaz agarra, a pinça maneja; uma trabalha como a mão, a outra como o dedo. A ferramenta é um organismo. A pouco e pouco Gilliatt arranjava auxiliares, e construia as suas armaduras. Com um pedaço de ferro em folha fez uma anteparo na forja.

Um dos seus primeiros cuidados foi a separação e a reparação das roldanas. Concertou as caixas e as rodas das polés. Cortou a exfoliação de todos os barrotes quebrados e aplainou as extremidades; como dissemos, tinha para as necessidades da carpintaria, grande cópia de peças de madeira armazenadas, e apparelhadas, segundo as formas, as dimensões e as essencias, o carvalho de um lado, o pinheiro do outro, as peças curvas, como as porcas, separadas das peças direitas, como as que ligam as escotilhas. Era uma reserva de pontos de apoio e alavancas, de que podia precisar em um momento dado.

Quem quer construir um guindaste deve munir-se de traves e polés mas não basta isso, é preciso corda. Gilliatt restaurou os cabos e as cordas. Estendeu as vellas rasgadas, e conseguio extrahir excellente fio com que compoz uma sarja, e cirzio o cordoame. Mas essas costuras eram sujeitas a apodrecer, era preciso empregar as cordas e os cabos, Gilliatt apenas pôde fazer o massame sem ter alcatrão.

Concertou as cordas, concertou as correntes.

Pôde, graças á ponta lateral da bigorna, fazer aneis grosseiros, mas solidos; com esses aneis, prendeu uns aos outros os pedaços de corrente quebrados, e fez correntes compridas.

Forjar só, e sem auxilio, é mais do que incommodo. Comtudo Gilliatt conseguio fazêl-o. É certo que só teve de trabalhar na forja, peças de pequeno volume; podia meneal-as com uma mão, e martellar com a outra.

Cortou em pedaços as barras de ferro redondas do lugar do commando; forjou nas duas extremidades de cada pedaço, de um lado uma ponta, do outro uma larga cabeça chata, e desse modo fez grandes prégos de palmo e meio. Esses prégos, muito usados em trabalhos maritimos, são uteis para fixar os páos nas pedras.

Porque motivo Gilliatt tomava todo este trabalho? Vêr-se-ha.

Teve de refazer muitas vezes o fio da machadinha e os dentes da serra. Para a serra fabricou uma lima triangular.

Servia-se tambem do cabrestante da Durande. Quebrou-se a fateixa da corrente. Gilliat fez outra.

Com ajuda da pinça e da tenaz, e servindo-se da faca como de um virador emprehendeu desmontar as duas rodas do navio; conseguio. É preciso não esquecer que isso era exequivel; essa era a particularidade da construcção das rodas. As caixas que as tinham coberto, serviram-lhes de capas; com as taboas das caixas, Gilliatt arranjou dous caixotes onde metteu peça por peça, as duas rodas cuidadosamente numeradas.

O pedaço de giz servio-lhe para essa numeração.

Arranjou os dous caixotes na parte mais solida do convez da Durande.

Terminados estes preliminares, Gilliatt achou-se diante da difficuldade suprema. Surgio a questão da machina.

Desmontar as rodas foi possivel; desmontar a machina, não.

Primeiramente, Gilliatt conhecia mal aquelle mecanismo. Trabalhando ao acaso, podia produzir algum desconcerto irreparavel. Depois, mesmo para tentar desmontal-a peça por peça, se tivesse esta imprudencia, eram-lhe precisas outras ferramentas do que as que elle podia fazer n'uma caverna por officina, com o vento por folles, e uma pedra por bigorna. Tentando desmontar a machina arriscava-se a despedaçal-a.