Os Trabalhadores do Mar
Capítulo X
Era força esperar até o dia seguinte. Aquellas seis horas perdidas faziam perder ao menos doze horas.
Era mesmo necessario não adiantar trabalho abrindo a entrada ao cachopo. O tapamento era preciso até a maré proxima.
Gilliatt devia repousar.
Cruzar os braços, era a unica cousa que elle não tinha feito desde que estava no escolho Douvres.
Irritou-o, indignou-o quasi, como se fosse culpa delle, aquelle descanso. Disse comsigo: Que pensaria de mim Deruchette se me visse aqui sem fazer nada?
Comtudo não lhe era inutil refazer as forças.
Estando a pança á sua disposição, Gilliatt resolveu passar a noite á bordo.
Foi buscar a pelle de carneiro no alto da grande Douvre, desceu, comeu algumas conchas e duas ou tres castanhas do mar, bebeu por ter muita sede os ultimos goles da agua doce do pichel quasi vasio, embrulhou-se na pelle cuja lã deu-lhe prazer ao corpo, deitou-se como um cão de guarda ao pé da machina, abaixou o chapéo sobre os olhos e adormeceu.
Dormio profundamente. Tem-se daquelles somnos depois das obras acabadas.
X
AS ADVERTENCIAS DO MAR
No meio da noite, bruscamente, e como por mola, Gilliatt acordou.
Abrio os olhos.
As Douvres, acima da cabeça delle, estavam illuminadas como pela reverberação de uma grande brasa branca. Havia em toda a fachada negra do escolho um reflexo de fogo.
D'onde vinha o fogo?
Da agua.
O mar estava extraordinario.
Parecia que a agua incendiava-se. Aonde os olhos alcançavam, no escolho e fora do escolho, flammejava o oceano. Não era uma flamma vermelha; não se parecia com a grande flamma viva das crateras e das fornalhas. Nenhuma crepitação, nenhum ardor, nenhum avermelhado, nenhum ruido. Rastilhos azulados imitavam n'agua as dobras de uma mortalha. Um grande clarão livido, estremecia n'agua. Não era incendio; era o espectro delle.
Era uma cousa semelhante ao abrazamento livido do interior de um sepulchro por uma chamma ideal.
Imaginai trevas accesas.
A noite, a vasta noite turva e diffusa, parecia ser um combustivel daquelle fogo gelado. Era uma claridade feita de cegueira. A sombra entrava como elemento naquella luz phantasma.
Os marinheiros da Mancha, conhecem todas essas indescriptiveis phosphorescencias, que advertem o navegante. Em parte alguma são mais surprehendentes, do que no Grande V, perto de Isigny.
Diante desta luz as cousas perdem a realidade. Uma penetração phantastica toma-as como que transparentes. Os rochedos são apenas lineamentos. Os cabos das ancoras parecem barras de ferro ardentes. As redes dos pescadores parecem um crivo de fogo debaixo d'agua. Metade do remo é de ebano, a outra metade debaixo d'agua é de prata. Os pingos d'agua que cahem dos remos fazem estrellas no mar. Todos os barcos arrastam um cometa. Os marinheiros molhados e luminosos parecem homens que ardem. Mergulha-se a mão no mar e sahe calçada de chamma: é uma chamma morta, não se sente. O braço parece um tição aceso. Vê-se as formas que estão no mar rolarem debaixo das vagas alumiadas. A espuma scintilla. Os peixes são linguas de fogo, e uns pedaços de relampago serpenteam n'aquella pallida profundidade. Gilliatt acordou porque o clarão atravessou-lhe as palpebras fechadas.
Acordou a tempo.
A maré tinha descido; começava a encher de novo.
O cano da machina, solto durante o somno de Gilliatt, ficou outra vez preso no casco do navio.
Subia lentamente.
Mais palmo e meio e o cano estaria dentro da Durande.
Para isso ainda havia meia hora. Gilliatt se quizesse aproveitar a occasião tinha essa meia hora diante de si.
Levantou-se sobresaltado.
Por mais urgente que fosse a situação, elle não pôde deixar de ficar alguns instantes de pé, contemplando a phosphorescencia e meditando.
Gilliatt conhecia o mar a fundo. Embora tivesse sido muito maltratado por elle, o mar era já de muito tempo companheiro de Gilliatt. Aquelle ente mysterioso que se chama oceano, não podia ter nenhuma idéa que Gilliatt não a adevinhasse. Gilliatt, á força de observação, de scisma e de solidão, tornára-se um vidente do tempo, aquillo que se chama em inglez um wheater wise.
Gilliatt correu ás amarras e guindou-as; depois já não estando retido pelas ancoras, travou do croque da pança, e apoiando-se nas rochas affastou-a para fóra algumas braças distante da Durande perto do tapamento de taboas. Havia rang, como dizem os maritimos de Guernesey. Em menos de dez minutos a pança estava fóra do casco. Já não havia receio de que o cano podesse ficar preso.
Entretanto Gilliatt, não se mostrava disposto a partir.
Contemplou ainda a phosphorescencia e levantou as ancoras; mas não era para navegar, era para ancorar de novo a pança, e muito solidamente; é verdade que o barco ficou junto da porta.