Patriarcas e Profetas
Satanás foi "homicida desde o princípio" (João…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
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Deus e demorar-se na luz da Sua glória, não se lisonjeiem eles de que podem depois pecar impunemente; de que, visto terem sido de tal maneira honrados, Deus não será rigoroso no castigo de sua iniqüidade. Isto é erro fatal. A grande luz e privilégios concedidos exigem uma retribuição de virtude e santidade correspondente à luz outorgada. Nada menos que isto poderá Deus aceitar. Grandes bênçãos e privilégios nunca devem embalar-nos em segurança ou despreocupação. Nunca devem dar liberdade ao pecado, nem fazer com que os que os recebem entendam que Deus não será exigente com eles. Todas as vantagens que Deus tem dado, são os Seus meios para lançar fervor no espírito, zelo no esforço e vigor no executar Sua santa vontade. Nadabe e Abiú não haviam sido em sua juventude ensinados nos hábitos de domínio próprio. A disposição transigente do pai, sua falta de firmeza pelo que é reto, haviam-no levado a negligenciar a disciplina dos filhos. Havia-lhes permitido seguirem suas próprias inclinações. Hábitos de condescendência própria, durante muito tempo acalentados, alcançaram sobre eles um domínio que mesmo a responsabilidade do mais sagrado mister não teve poder para quebrar. Não haviam sido ensinados a respeitar a autoridade do pai, nem se compenetravam da necessidade de estrita obediência aos mandos de Deus. A mal-entendida indulgência de Arão com os filhos preparou-os para se tornarem objetos dos juízos divinos.
O propósito de Deus era ensinar ao povo que devem dEle aproximar-se com reverência e temor, e da maneira indicada por Ele mesmo. Não pode Ele aceitar uma obediência parcial. Não era bastante que nesta hora solene de culto quase tudo tivesse sido feito conforme Ele determinara. Deus pronunciou uma maldição sobre aqueles que se afastam de Seus mandamentos e não fazem diferença entre as coisas comuns e as coisas santas. Declara pelo profeta: "Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal; que fazem da escuridade luz, e da luz escuridade. ... Ai dos que são sábios aos seus próprios olhos, e prudentes diante de si mesmos!... Dos que justificam o ímpio por presentes, e ao justo negam justiça!... Rejeitaram a lei do Senhor dos exércitos, e desprezaram a Palavra do Santo de Israel." Isa. 5:20-24. Ninguém se engane com a crença de que uma parte dos mandamentos de Deus não é essencial, ou que Ele aceitará uma substituição daquilo que exigiu. Disse o profeta Jeremias: "Quem é aquele que diz, e assim acontece, quando o Senhor o não mande?" Lam. 3:37. Pág. 361
Deus não pôs em Sua Palavra ordem alguma a que os homens possam obedecer ou desobedecer à vontade e não sofrer as conseqüências. Se os homens escolhem qualquer outro caminho que não o da estrita obediência, acharão que "o fim dele são os caminhos da morte". Prov. 14:12. "Moisés disse a Arão e a seus filhos Eleazar e Itamar: Não descobrireis as vossas cabeças, nem rasgareis vossos vestidos, para que não morrais; porque está sobre vós o azeite da unção do Senhor." Lev. 10:6 e 7. O grande líder lembrou a seu irmão as palavras de Deus: "Serei santificado naqueles que se cheguem a Mim, e serei glorificado diante de todo o povo." Lev. 10:3. Arão ficou em silêncio. A morte de seus filhos, extirpados sem aviso em tão terrível pecado - pecado que ele via agora ser o resultado de sua própria negligência ao dever - contorcia de angústia o coração do pai; ele, porém, não deu expansão a seus sentimentos. Por manifestação alguma de pesar devia ele parecer simpatizar com o pecado. A congregação não devia ser levada a murmurar contra Deus. O Senhor queria ensinar Seu povo a reconhecer a justiça de Seus corretivos, a fim de que outros viessem a temer. Havia em Israel aqueles a quem o aviso deste terrível juízo preservaria de contarem tanto com a paciência divina que por sua vez selassem enfim o próprio destino. A reprovação divina vem contra aquela falsa simpatia pelo pecador, a qual se esforça por lhe desculpar o pecado. O efeito do pecado é o amortecimento das percepções morais, de modo que o malfeitor não se compenetra da enormidade da transgressão; e sem o poder convincente do Espírito Santo fica em cegueira parcial em relação ao seu pecado. Têm os servos de Cristo o dever de mostrar aos que assim erram, o seu perigo. Aqueles que destroem o efeito da advertência, cegando os olhos aos pecadores ante o caráter e resultados verdadeiros do pecado, muitas vezes se gabam de que assim dão provas de caridade; estão, porém, agindo diretamente no sentido de opor-se ao Espírito Santo de Deus e estorvar-Lhe a obra; estão acalentando o pecador para que descanse à beira da destruição; estão-se fazendo participantes de sua culpa, e incorrendo em terrível responsabilidade pela sua impenitência. Muitos, muitos, têm descido à ruína como resultado desta falsa e enganosa simpatia. Nadabe e Abiú nunca teriam cometido aquele pecado fatal, se não se houvessem primeiramente em parte intoxicado pelo livre uso do vinho. Compreendiam que o mais cuidadoso e solene Pág. 362
preparo era necessário antes de se apresentarem no santuário, onde era manifestada a presença divina; pela intemperança, porém, perderam a idoneidade para o seu santo ofício. A mente se lhes tornou confusa e embotadas as percepções morais, de modo que não podiam discernir a diferença entre o sagrado e o comum. A Arão e a seus filhos sobreviventes foi feito este aviso: "Vinho nem bebida forte, tu e teus filhos contigo não bebereis, quando entrardes na tenda da congregação, para que não morrais; estatuto perpétuo será este entre as vossas gerações; e para fazer diferença entre o santo e o profano e entre o imundo e o limpo, e para ensinar aos filhos de Israel todos os estatutos que o Senhor lhes tem falado." Lev. 10:9-11. O uso de bebidas alcoólicas tem o efeito de enfraquecer o corpo, confundir a mente e rebaixar a moral. Impede aos homens de se compenetrarem do caráter sagrado das coisas santas ou da vigência das ordens de Deus. Todos os que ocupavam posições de responsabilidade sagrada, deviam ser homens de estrita temperança, para terem mente clara, a fim de discernirem entre o reto e o que o não é, para terem firmeza de princípios, e sabedoria para administrar justiça e mostrar misericórdia.
A mesma obrigação repousa sobre todo seguidor de Cristo. O apóstolo Pedro declara: "Vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido." I Ped. 2:9. É-nos exigido por Deus que preservemos toda faculdade na melhor condição possível, a fim de que prestemos serviço aceitável a nosso Criador. Quando se usam bebidas embriagantes, seguir-se-ão os mesmos resultados do caso daqueles sacerdotes de Israel. A consciência perderá sua sensibilidade ao pecado e uma operação de endurecimento para a iniqüidade certissimamente ocorrerá, até que o comum e o sagrado percam toda a diferença de significação. Como podemos então atingir a norma dos requisitos divinos? "Acaso não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que está em vós, o qual tendes recebido de Deus, e que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por preço; glorificai pois a Deus no vosso corpo, e no vosso espírito, os quais são de Deus." I Cor. 6:19 e 20. "Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para a glória de Deus." I Cor. 10:31. À igreja de Cristo em todos os tempos é dirigido este aviso solene e terrível: "Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá; porque o templo de Deus, que sois vós, é santo." I Cor. 3:17. 32
A Lei e os Concertos
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Adão e Eva, ao serem criados, tinham conhecimento da lei de Deus; estavam familiarizados com os reclamos da mesma relativamente a si; seus preceitos estavam escritos em seu coração. Quando o homem caiu pela transgressão, a lei não foi mudada, mas estabelecido um plano que remediasse a situação trazendo novamente o homem à obediência. Foi feita a promessa de um Salvador e prescritas ofertas sacrificais que apontavam ao futuro, para a morte de Cristo como a grande oferta pelo pecado. Mas, se a lei de Deus nunca houvesse sido transgredida, não teria havido morte, tampouco haveria necessidade de um Salvador; conseqüentemente não teria havido necessidade de sacrifícios. Adão ensinou a seus descendentes a lei de Deus, e esta foi transmitida de pai a filho através de gerações sucessivas. Mas apesar das graciosas providências para a redenção do homem, poucos houve que as aceitaram e lhes prestaram obediência. Pela transgressão o mundo se envileceu tanto que foi necessário, pelo dilúvio, limpá-lo de suas corrupções. A lei foi preservada por Noé e sua família, e Noé ensinou a seus descendentes os Dez Mandamentos. Como os homens de novo se afastassem de Deus, o Senhor escolheu Abraão, a respeito de quem declarou: "Abraão obedeceu à Minha voz, e guardou o Meu mandamento, os Meus preceitos, os Meus estatutos, e as Minhas leis." Gên. 26:5. A ele foi dado o rito da circuncisão, que era um sinal de que os que o recebiam eram dedicados ao serviço de Deus - garantia de que permaneceriam separados da idolatria e obedeceriam à lei de Deus. O fracasso dos descendentes de Abraão para manterem este compromisso, conforme se revela em sua disposição para formar alianças com os gentios e adotar-lhes os costumes, foi a causa de sua peregrinação e cativeiro no Egito. Mas, em seu intercâmbio com os idólatras e forçada submissão aos egípcios, os preceitos divinos tornaram-se ainda mais corrompidos com os ensinos vis Pág. 364
e cruéis do paganismo. Portanto, quando o Senhor os tirou do Egito, desceu sobre o Sinai, cercado de glória e rodeado de Seus anjos, e com terrível majestade proferiu Sua lei aos ouvidos de todo o povo. Mesmo então não confiou Seus preceitos à memória de um povo tão propenso a esquecer os Seus mandos, mas escreveu-os em tábuas de pedra. Queria remover de Israel toda a possibilidade de misturar tradições gentílicas com Seus santos preceitos, ou de confundir Seus mandos com ordenações e costumes humanos. Mas não Se limitou a dar-lhes os preceitos do Decálogo. O povo mostrara deixar-se transviar tão facilmente, que Ele não deixaria indefesa nenhuma entrada para a tentação. Ordenou-se a Moisés escrever, conforme Deus lhe mandasse, juízos e leis que davam minuciosas instruções quanto ao que era requerido. Estas instruções relativas ao dever do povo para com Deus, de uns para com outros e para com o estrangeiro, eram apenas os princípios dos Dez Mandamentos, ampliados e dados de maneira específica, para que ninguém estivesse no caso de errar. Destinavam-se a resguardar a santidade dos dez preceitos gravados nas tábuas de pedra. Se o homem houvesse guardado a lei de Deus conforme fora dada a Adão depois de sua queda, preservada por Noé e observada por Abraão; não teria havido necessidade de se ordenar a circuncisão. E, se os descendentes de Abraão houvessem guardado o concerto, do qual a circuncisão era um sinal, nunca teriam sido induzidos à idolatria; tampouco lhes teria sido necessário sofrer vida de cativeiro no Egito; teriam conservado na mente a lei de Deus, e não teria havido necessidade de que ela fosse proclamada no Sinai, nem gravada em tábuas de pedra. E, se o povo houvesse praticado os princípios dos Dez Mandamentos, não teria havido necessidade das instruções adicionais dadas a Moisés. O sistema sacrifical, entregue a Adão, foi também pervertido por seus descendentes. Superstição, idolatria, crueldade e licenciosidade, corrompiam o culto simples e significativo que Deus instituíra. Mediante o prolongado trato com os idólatras, o povo de Israel misturara com seu culto muitos costumes gentílicos; portanto o Senhor lhes deu no Sinai instruções definidas com relação aos sacrifícios. Depois de completar-se o tabernáculo, Ele Se comunicou com Moisés da nuvem de glória em cima do propiciatório, e deu-lhe instruções completas a respeito do sistema das ofertas e das formas de culto a serem mantidas no
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santuário. A lei cerimonial foi assim dada a Moisés, e por ele escrita em um livro. Mas a lei dos Dez Mandamentos, proferida do Sinai, foi escrita pelo próprio Deus em tábuas de pedra, e sagradamente conservada na arca.
Muitos há que procuram confundir estes dois sistemas, usando os textos que falam da lei cerimonial para provar que a lei moral foi abolida; mas isto é perversão das Escrituras. Ampla e clara é a distinção entre os dois sistemas. O cerimonial era constituído de símbolos que apontavam para Cristo, para o Seu sacrifício e sacerdócio. A lei ritual, com seus sacrifícios e ordenanças, devia ser cumprida pelos hebreus até que o tipo encontrasse o antítipo, na morte de Cristo, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Então cessariam todas as ofertas sacrificais. Foi esta a lei que Cristo "tirou do meio de nós, cravando-a na cruz". Col. 2:14. Mas, com referência à lei dos Dez Mandamentos, declara o salmista: "Para sempre, ó Senhor, a Tua palavra permanece no Céu." Sal. 119:89. E Cristo mesmo diz: "Não cuideis que vim destruir a lei. ... Em verdade vos digo" - tornando a asserção tão expressiva quanto possível - "que até que o céu e a Terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei, sem que tudo seja cumprido." Mat. 5:17 e 18. Ele ensina aqui, não simplesmente o que os reclamos da lei tinham sido, e eram então, mas que tais reclamos se manterão enquanto durarem os céus e a Terra. A lei de Deus é tão imutável quanto o Seu trono. Ela manterá suas reivindicações em relação à humanidade, em todos os tempos.
Com referência à lei proclamada no Sinai, diz Neemias: "Sobre o monte de Sinai desceste, e falaste com eles desde os Céus; e destes-lhes juízos retos, e leis verdadeiras, estatutos e mandamentos bons." Nee. 9:13. E Paulo, "apóstolo dos gentios", declara: "A lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom." Rom. 7:12. Essa lei não pode ser outra senão o decálogo; pois é a que diz: "Não cobiçarás." Êxo. 20:17. Conquanto a morte do Salvador pusesse termo à lei dos tipos e sombras, não diminuiu no mínimo a obrigação imposta pela lei moral. Ao contrário, o próprio fato de que foi necessário Cristo morrer a fim de expiar a transgressão daquela lei, prova ser ela imutável. Aqueles que pretendem ter Cristo vindo a fim de anular a lei de Deus e abolir o Antigo Testamento, falam da era judaica
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como sendo era de trevas, e representam a religião dos hebreus como que consistindo em meras formas e cerimônias. Mas isto é erro. Através de todas as páginas da história sagrada, nas quais o trato de Deus com Seu povo escolhido se acha registrado, há indícios frisantes do grande EU SOU. Nunca deu Ele aos filhos dos homens manifestações mais claras de Seu poder e glória do que quando foi reconhecido como o único governador de Israel, e deu a lei a Seu povo. Ali estava um cetro empunhado por mão não humana; e as majestosas saídas do Rei invisível de Israel eram indescritivelmente grandiosas e terríveis.
Em todas estas revelações da presença divina, a glória de Deus se manifestava por meio de Cristo. Não somente por ocasião do advento do Salvador, mas através de todos os séculos após a queda e promessa de redenção, "Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo". II Cor. 5:19. Cristo era o fundamento e centro do sistema sacrifical, tanto da era patriarcal como da judaica. Desde o pecado de nossos primeiros pais, não tem havido comunicação direta entre Deus e o homem. O Pai entregou o mundo nas mãos de Cristo, para que por Sua obra mediadora remisse o homem, e reivindicasse a autoridade e santidade da lei de Deus. Toda a comunhão entre o Céu e a raça decaída tem sido por meio de Cristo. Foi o Filho de Deus que fez a nossos primeiros pais a promessa de redenção. Foi Ele que Se revelou aos patriarcas. Adão, Noé, Abraão, Isaque, Jacó e Moisés compreenderam o evangelho. Esperavam a salvação por meio do Substituto e Fiador do homem. Esses santos homens da antiguidade entretinham comunhão com o Salvador que viria ao nosso mundo em carne humana; e alguns falaram com Cristo e os anjos celestiais, face a face. Cristo não somente foi o guia dos hebreus no deserto - o Anjo em quem estava o nome de Jeová, e que, velado na coluna de nuvem, ia diante das hostes - mas foi também Ele que deu a Israel a lei. Por entre a tremenda glória do Sinai, Cristo declarou aos ouvidos de todo o povo os dez preceitos da lei de Seu Pai. Foi Ele que deu a Moisés a lei gravada em tábuas de pedra. Ainda mais: Cristo é chamado o Verbo de Deus. João 1:1-3. É assim chamado porque Deus deu Suas revelações ao homem em todos os tempos por meio de Cristo. Foi o Seu Espírito que inspirou os profetas. I Ped. 1:10 e 11. Ele lhes foi revelado como o Anjo de Jeová, o Capitão do exército do Senhor, o Arcanjo Miguel. Foi Cristo que falou a Seu povo por intermédio dos profetas. Escrevendo à igreja cristã, diz o apóstolo Pedro que os profetas
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"profetizaram da graça que vos foi dada, indagando que tempo ou que ocasião de tempo o Espírito de Cristo, que estava neles, indicava, anteriormente testificando os sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a glória que se lhes havia de seguir". I Ped. 1:10 e 11. É a voz de Cristo que nos fala através do Antigo Testamento. "O testemunho de Jesus é o Espírito de Profecia." Apoc. 19:10. Em Seus ensinos, enquanto Se achava pessoalmente entre os homens, Jesus encaminhava a mente do povo para o Antigo Testamento. Disse Ele aos judeus: "Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de Mim testificam." João 5:39. Nesse tempo os livros do Antigo Testamento eram a única parte da Bíblia que existia. Outra vez declarou o Filho de Deus: "Têm Moisés e os profetas; ouçam-nos." E acrescentou: "Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco acreditarão, ainda que algum dos mortos ressuscite." Luc. 16:29 e 31.
A lei cerimonial foi dada por Cristo. Mesmo depois que ela não mais devia ser observada, Paulo apresentou-a aos judeus em sua verdadeira posição e valor, mostrando o seu lugar no plano da redenção e sua relação para com a obra de Cristo; e o grande apóstolo declara gloriosa esta lei, digna de seu divino Originador. O serviço solene do santuário tipificava as grandiosas verdades que seriam reveladas durante gerações sucessivas. A nuvem de incenso que ascendia com as orações de Israel, representa a Sua justiça que unicamente pode tornar aceitável a Deus a oração do pecador; a vítima sangrenta sobre o altar do sacrifício, dava testemunho de um Redentor vindouro; e do santo dos santos resplandecia o sinal visível da presença divina. Assim, através de séculos e séculos de trevas e apostasia, a fé se conservou viva no coração dos homens até chegar o tempo para o advento do Messias prometido.
Jesus era a luz de Seu povo - a luz do mundo - antes que viesse à Terra sob a forma humana. O primeiro raio de luz a penetrar a sombra em que o pecado envolveu o mundo, veio de Cristo. E dEle tem vindo todo raio da luz celestial que tem incidido sobre os habitantes da Terra. No plano da redenção, Cristo é o Alfa e o Ômega - o Primeiro e o Derradeiro.
Desde que o Salvador verteu Seu sangue para a remissão dos pecados, e subiu ao Céu para "comparecer por nós perante a face
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de Deus" (Heb. 9:24), tem estado a fluir luz da cruz do Calvário e dos lugares santos do santuário celestial. Mas a luz mais clara que nos é concedida não nos deve levar a desprezar a que nos primeiros tempos foi recebida mediante os tipos que indicavam o Salvador vindouro. O evangelho de Cristo esparge luz sobre a economia judaica, e dá significação à lei cerimonial. Sendo reveladas novas verdades, e sendo a que fora conhecida desde o princípio trazida para uma luz mais clara, tornam-se manifestos o caráter e propósitos de Deus em Seu trato com o povo escolhido. Cada novo raio de luz que recebemos nos dá compreensão mais clara do plano da redenção, que é a operação da vontade divina na salvação do homem. Vemos nova beleza e força na Palavra inspirada, e com interesse mais profundo e absorvente estudamos suas páginas.
Muitos têm a opinião de que Deus colocou um muro de separação entre os hebreus e o mundo exterior; de que Seu cuidado e amor, retirados em grande parte do resto da humanidade, centralizaram-se em Israel. Mas não era intuito de Deus que Seu povo levantasse uma parede separatória entre si e seus semelhantes. O coração do Amor infinito expandia-se a todos os habitantes da Terra. Posto que O houvessem rejeitado, estava Ele constantemente procurando revelar-Se-lhes, e fazê-los participantes de Seu amor e graça. Sua bênção foi concedida ao povo escolhido, a fim de que pudessem abençoar a outros.
Deus chamou Abraão, fê-lo prosperar e o honrou; e a fidelidade do patriarca foi uma luz para o povo em todos os países de sua peregrinação. Abraão não se excluiu do povo em redor de si. Manteve relações amistosas com os reis das nações circunvizinhas, por alguns dos quais ele era tratado com grande respeito; e sua integridade e abnegação, seu valor e benevolência, estavam a representar o caráter de Deus. Na Mesopotâmia, em Canaã, no Egito, e mesmo aos habitantes de Sodoma, o Deus do Céu foi revelado por meio de Seu representante.
Assim, ao povo do Egito e de todas as nações ligadas com aquele poderoso reino, Deus Se manifestou por meio de José. Por que razão quis o Senhor exaltar a José tão grandemente entre os egípcios? Ele poderia ter provido outro meio para o cumprimento de Seus propósitos em relação aos filhos de Jacó; mas desejou fazer de José uma luz, e colocou-o no palácio do rei, a fim de que a Pág. 369
iluminação celeste pudesse estender-se longe e perto. Por sua sabedoria e justiça, pela pureza e benevolência de sua vida diária, pela sua dedicação aos interesses do povo - e aquele povo era uma nação de idólatras - José foi um representante de Cristo. Em seu benfeitor, para quem todo o Egito se voltava com gratidão e louvor, deveria aquele povo gentio ver o amor do Criador e Redentor deles. Assim também, na pessoa de Moisés, Deus pôs uma luz ao lado do trono do maior reino da Terra, a fim de que todos que o quisessem pudessem aprender acerca do Deus verdadeiro e vivo. E toda essa luz foi dada aos egípcios antes que sobre eles se estendesse a mão de Deus em juízos. No livramento de Israel, do Egito, espalhou-se amplamente o conhecimento do poder de Deus. Tremeu o povo belicoso da fortaleza de Jericó. "Ouvindo isto", disse Raabe, "desmaiou o nosso coração, e em ninguém mais há ânimo algum, por causa da vossa presença; porque o Senhor vosso Deus é Deus em cima nos Céus, e embaixo na Terra." Jos. 2:11. Séculos após o êxodo, os sacerdotes dos filisteus lembravam ao seu povo as pragas do Egito, e os advertiam a não resistirem ao Deus de Israel.
Deus chamou Israel, e o abençoou e exaltou, não para que pela obediência à Sua lei recebessem eles, unicamente, o Seu favor, e se tornassem os exclusivos recipientes de Suas bênçãos, mas a fim de revelar-Se por meio deles a todos os habitantes da Terra. Foi para a realização deste mesmo propósito que Ele os mandou conservar-se distintos das nações idólatras em redor deles. A idolatria e todos os pecados que seguem em seu cortejo, são aborrecíveis a Deus, e Ele ordenou a Seu povo que se não misturasse com outras nações, para fazerem "conforme às suas obras" (Êxo. 23:24), e se esquecerem de Deus. Proibiu-lhes casamento com idólatras, para que não acontecesse ser seu coração desviado dEle. Era perfeitamente tão necessário naquele tempo, como o é hoje, que o povo de Deus fosse puro, incontaminado do mundo. Deviam conservar-se livres de seu espírito, porque é ele oposto à verdade e à justiça. Mas não era intuito de Deus que Seu povo, em seu exclusivismo de justiça própria, se subtraísse do mundo, de modo que nenhuma influência tivesse sobre ele. Como seu Mestre, os seguidores de Cristo deveriam em todo o tempo ser a luz do mundo. Disse o Salvador: "Não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte. Nem se acende a Pág. 370
candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos os que estão na casa" - isto é, o mundo. E acrescenta: "Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos Céus." Mat. 5:14-16. Isto foi precisamente o que Enoque, Noé, Abraão, José e Moisés fizeram. É precisamente o que era intuito de Deus que Seu povo Israel fizesse.
Foi o seu coração mau, incrédulo, dirigido por Satanás, que os levou a ocultar sua luz, em vez de espargi-la sobre os povos vizinhos; foi esse mesmo espírito de fanatismo que fez com que ou seguissem as práticas iníquas dos gentios, ou se encerrassem em um orgulhoso exclusivismo, como se o amor e cuidado de Deus estivessem somente sobre eles. Assim como a Bíblia apresenta duas leis, uma imutável e eterna, e outra provisória e temporária, assim há dois concertos. O concerto da graça foi feito primeiramente com o homem no Éden, quando, depois da queda, foi feita uma promessa divina de que a semente da mulher feriria a cabeça da serpente. A todos os homens este concerto oferecia perdão, e a graça auxiliadora de Deus para a futura obediência mediante a fé em Cristo. Prometia-lhes também vida eterna sob condição de fidelidade para com a lei de Deus. Assim receberam os patriarcas a esperança da salvação. Este mesmo concerto foi renovado a Abraão, na promessa: "Em tua semente serão benditas todas as nações da Terra." Gên. 22:18. Esta promessa apontava para Cristo. Assim Abraão a compreendeu (Gál. 3:8 e 16), e confiou em Cristo para o perdão dos pecados. Foi esta fé que lhe foi atribuída como justiça. O concerto com Abraão mantinha também a autoridade da lei de Deus. O Senhor apareceu a Abraão e disse: "Eu sou o Deus todo-poderoso, anda em Minha presença e sê perfeito." Gên. 17:1. O testemunho de Deus concernente a Seu fiel servo foi: "Abraão obedeceu à Minha voz, e guardou o Meu mandado, os Meus preceitos, os Meus estatutos, e as Minhas leis." Gên. 26:5. E o Senhor lhe declarou: "Estabelecerei o Meu concerto entre Mim e ti e a tua semente depois de ti em suas gerações, por concerto perpétuo, para te ser a ti por Deus, e à tua semente depois de ti." Gên. 17:7. Se bem que este concerto houvesse sido feito com Adão e renovado a Abraão, não poderia ser ratificado antes da morte de Cristo. Existira pela promessa de Deus desde que se fez a Pág. 371
primeira indicação de redenção; fora aceito pela fé; contudo, ao ser ratificado por Cristo, é chamado um novo concerto. A lei de Deus foi a base deste concerto, que era simplesmente uma disposição destinada a levar os homens de novo à harmonia com a vontade divina, colocando-os onde poderiam obedecer à lei de Deus.
Outro pacto, chamado nas Escrituras o "velho" concerto, foi formado entre Deus e Israel no Sinai, e foi então ratificado pelo sangue de um sacrifício. O concerto abraâmico foi ratificado pelo sangue de Cristo, e é chamado o "segundo", ou o "novo" concerto, porque o sangue pelo qual foi selado foi vertido depois do sangue do primeiro concerto. Que o novo concerto era válido nos dias de Abraão, evidencia-se do fato de que foi então confirmado tanto pela promessa como pelo juramento de Deus, "duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta". Heb. 6:18. Mas, se o concerto abraâmico continha a promessa da redenção, por que se formou outro concerto no Sinai? - Em seu cativeiro, o povo em grande parte perdera o conhecimento de Deus e os princípios do concerto abraâmico. Libertando-os do Egito, Deus procurou revelar-lhes Seu poder e misericórdia, a fim de que fossem levados a amá-Lo e confiar nEle. Trouxe-os ao Mar Vermelho - onde, perseguidos pelos egípcios, parecia impossível escaparem - a fim de que se compenetrassem de seu completo desamparo, e da necessidade de auxílio divino; e então lhes operou o livramento. Assim eles se encheram de amor e gratidão para com Deus, e de confiança em Seu poder para os ajudar. Ele os ligara a Si na qualidade de seu Libertador do cativeiro temporal. Havia, porém, uma verdade ainda maior a ser-lhes gravada na mente. Vivendo em meio de idolatria e corrupção, não tinham uma concepção verdadeira da santidade de Deus, da excessiva pecaminosidade de seu próprio coração, de sua completa incapacidade para, por si mesmos, prestar obediência à lei de Deus, e de sua necessidade de um Salvador. Tudo isto deveria ser-lhes ensinado. Deus os levou ao Sinai; manifestou Sua glória; deu-lhes Sua lei, com promessa de grandes bênçãos sob condição de obediência: "Se diligentemente ouvirdes a Minha voz, e guardardes o Meu concerto, então... Me sereis um reino sacerdotal e o povo santo." Êxo. 19:5 e 6. O povo não compreendia a pecaminosidade
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de seus corações, e que sem Cristo lhes era impossível guardar a lei de Deus; e prontamente entraram em concerto com Deus. Entendendo que eram capazes de estabelecer sua própria justiça, declararam: "Tudo o que o Senhor tem falado faremos, e obedeceremos." Êxo. 24:7. Haviam testemunhado a proclamação da lei, com terrível majestade, e tremeram aterrorizados diante do monte; e no entanto apenas algumas semanas se passaram antes que violassem seu concerto com Deus e se curvassem para adorar uma imagem esculpida. Não poderiam esperar o favor de Deus mediante um concerto que tinham violado; e agora, vendo sua índole pecaminosa e necessidade de perdão, foram levados a sentir que necessitavam do Salvador revelado no concerto abraâmico e prefigurado nas ofertas sacrificais. Agora, pela fé e amor, uniram-se a Deus como seu Libertador do cativeiro do pecado. Estavam então, preparados para apreciar as bênçãos do novo concerto. As condições do "velho concerto" eram: Obedece e vive - "cumprindo-os [estatutos e juízos] o homem, viverá por eles" (Ezeq. 20:11; Lev. 18:5); mas "maldito aquele que não confirmar as palavras desta lei". Deut. 27:26. O "novo concerto" foi estabelecido com melhores promessas: promessas do perdão dos pecados, e da graça de Deus para renovar o coração, e levá-lo à harmonia com os princípios da lei de Deus. "Este é o concerto que farei com a casa de Israel depois daqueles dias, diz o Senhor: Porei a Minha lei no seu interior, e a escreverei no seu coração. ... Porque lhes perdoarei a sua maldade, e nunca mais Me lembrarei dos seus pecados." Jer. 31:33 e 34. A mesma lei que fora gravada em tábuas de pedra, é escrita pelo Espírito Santo nas tábuas do coração. Em vez de cuidarmos em estabelecer nossa própria justiça, aceitamos a justiça de Cristo. Seu sangue expia os nossos pecados. Sua obediência é aceita em nosso favor. Então o coração renovado pelo Espírito Santo produzirá os "frutos do Espírito". Mediante a graça de Cristo viveremos em obediência à lei de Deus, escrita em nosso coração. Tendo o Espírito de Cristo, andaremos como Ele andou. Pelo profeta Ele declarou a respeito de Si mesmo: "Deleito-Me em fazer a Tua vontade, ó Deus Meu; sim, a tua lei está dentro do Meu coração." Sal. 40:8. E, quando esteve entre os homens, disse: "O Pai não Me tem deixado só, porque Eu faço sempre o que Lhe agrada." João 8:29. Pág. 373
O apóstolo Paulo apresenta claramente a relação entre a fé e a lei, no novo concerto. Diz ele: "Sendo pois justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo." Rom. 5:1. "Anulamos, pois, a lei pela fé? De maneira nenhuma, antes estabelecemos a lei." Rom. 3:31. "Porquanto o que era impossível à lei, visto como estava enferma pela carne" - ou seja, ela não podia justificar o homem, porque em sua natureza pecaminosa este não a poderia guardar - "Deus, enviando o Seu Filho em semelhança da carne do pecado, pelo pecado condenou o pecado na carne; para que a justiça da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito." Rom. 8:3 e 4. A obra de Deus é a mesma em todos os tempos, embora haja graus diversos de desenvolvimento e diferentes manifestações de Seu poder, para satisfazerem as necessidades dos homens nas várias épocas. Começando com a primeira promessa evangélica, e vindo através da era patriarcal e judaica, e mesmo até ao presente, tem havido um desenvolvimento gradual dos propósitos de Deus no plano da redenção. O Salvador tipificado nos ritos e cerimônias da lei judaica, é precisamente o mesmo que se revela no evangelho. As nuvens que envolviam Sua divina pessoa foram removidas; o nevoeiro e as sombras desapareceram; e Jesus, o Redentor do mundo, Se acha revelado. Aquele que do Sinai proclamou a lei e entregou a Moisés os preceitos da lei ritual, é o mesmo que proferiu o sermão do monte. Os grandes princípios de amor a Deus, que estabeleceu como fundamento da lei e dos profetas, são apenas uma repetição do que Ele dissera por meio de Moisés ao povo hebreu: "Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu poder." Deut. 6:4 e 5. "Amarás o teu próximo como a ti mesmo." Lev. 19:18. O ensinador é o mesmo em ambas as dispensações. As reivindicações de Deus são as mesmas. Os mesmos são os princípios de Seu governo. Pois tudo procede dAquele "em quem não há mudança nem sombra de variação". Tia. 1:17.
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Do Sinai a Cades
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A construção do tabernáculo não se iniciou senão algum tempo depois que Israel chegou ao Sinai; e tal edificação sagrada foi pela primeira vez erguida no início do segundo ano a partir do êxodo. A isto se seguiram a consagração dos sacerdotes, a celebração da Páscoa, o recenseamento do povo e a conclusão de vários arranjos essenciais à sua organização civil ou religiosa, de modo que passaram quase um ano no acampamento junto ao Sinai. Ali o seu culto tomara forma mais definida, foram dadas as leis para o governo da nação, e levara-se a efeito uma organização mais eficaz como preparo para a sua entrada na terra de Canaã.
O governo de Israel caracterizou-se pela organização mais completa, maravilhosa tanto pelo seu acabamento como pela sua simplicidade. A ordem, tão admiravelmente ostentada na perfeição e arranjo de todas as obras criadas por Deus, era manifesta na economia hebréia. Deus era o centro da autoridade e do governo, o Soberano de Israel. Moisés desempenhava o papel de seu chefe visível, em virtude de indicação divina, a fim de administrar as leis em Seu nome. Dos anciãos das tribos foi mais tarde escolhido um concílio de setenta, para auxiliar a Moisés nos negócios gerais da nação. Vinham em seguida os sacerdotes, que consultavam o Senhor no santuário. Chefes ou príncipes governavam as tribos. Abaixo destes estavam os capitães de milhares, capitães de cem, capitães de cinqüenta, e capitães de dez; e, por último, oficiais que poderiam ser empregados no desempenho de deveres especiais. Deut. 1:15.
O arraial dos hebreus estava arranjado em ordem exata. Estava dividido em três grandes partes, tendo cada uma a sua posição designada no acampamento. No centro estava o tabernáculo, a morada do Rei invisível. Em redor estavam estacionados
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os sacerdotes e levitas. Além destes estavam acampadas todas as outras tribos. Aos levitas foi confiado o cuidado do tabernáculo e de tudo que ao mesmo se referia, tanto no acampamento como em viagem. Quando o arraial se punha em marcha, deveriam desarmar a tenda sagrada; ao chegarem a um ponto de parada, deveriam armá-la. A pessoa alguma de outra tribo se permitia aproximar-se, sob pena de morte. Os levitas estavam separados em três divisões, conforme os descendentes dos três filhos de Levi; e a cada uma foi designada sua posição e obra especial. Na frente do tabernáculo, e mais próximo dele, estavam as tendas de Moisés e Arão. Ao Sul estavam os coatitas, cujo dever era cuidar da arca e de outros aparelhamentos; ao Norte estavam os meraritas, que foram encarregados das colunas, dos encaixes, das tábuas, etc.; na retaguarda os gersonitas, a quem foi confiado o cuidado das cortinas.
Especificou-se também a posição de cada tribo. Cada uma deveria marchar e acampar-se ao lado de sua própria bandeira, conforme o Senhor havia ordenado: "Os filhos de Israel assentarão as suas tendas, cada um debaixo da sua bandeira, segundo as insígnias da casa de seus pais; ao redor, defronte da tenda da congregação, assentarão as suas tendas." "Como assentaram as suas tendas, assim marcharão, cada um no seu lugar, segundo as suas bandeiras." Núm. 2:2 e 17. Àquela multidão mista que do Egito acompanhara Israel não foi permitido ocupar as mesmas seções das tribos; deveriam, porém, morar nos arredores do acampamento; e deveria a sua descendência ser excluída da comunidade até a terceira geração. Deut. 23:7 e 8.
Foi ordenada uma limpeza escrupulosa bem como uma ordem estrita por todo o arraial e arredores. Pôs-se em execução um regulamento sanitário completo. A toda pessoa que estivesse imunda por qualquer motivo, era vedado entrar no acampamento. Tais medidas eram indispensáveis para a conservação da saúde em meio de uma multidão tão vasta; e também necessário era que se mantivessem ordem e pureza perfeitas, para que Israel pudesse desfrutar da presença de um Deus santo. Assim Ele declarou: "O Senhor teu Deus anda no meio do teu arraial, para te livrar e entregar os teus inimigos diante de ti: pelo que o teu arraial será santo." Em todas as jornadas de Israel, "a arca do concerto do Senhor caminhou diante deles... para lhes buscar lugar de descanso".
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Núm. 10:33. Levado pelos filhos de Coate, o receptáculo sagrado que continha a santa lei de Deus devia ir na vanguarda. Diante dele iam Moisés e Arão; e os sacerdotes, levando trombetas de prata, estavam estacionados perto. Esses sacerdotes recebiam ordens de Moisés, as quais comunicavam ao povo por meio das trombetas. Era dever dos dirigentes de cada companhia dar instruções definidas com respeito a todos os movimentos a serem feitos, conforme eram indicados pelas trombetas. Quem quer que negligenciasse conformar-se com as instruções dadas, era punido de morte. Deus é um Deus de ordem. Tudo que se acha em conexão com o Céu, está em perfeita ordem; a sujeição e a perfeita disciplina assinalam os movimentos da hoste angélica. O êxito apenas pode acompanhar a ordem e a ação harmoniosa. Deus requer ordem e método em Sua obra hoje, não menos do que nos dias de Israel. Todos os que estão a trabalhar para Ele devem fazê-lo inteligentemente, não de maneira descuidada, casual. Ele quer que Sua obra seja feita com fé e exatidão, para que sobre ela ponha o sinal de Sua aprovação. Deus mesmo dirigiu os israelitas em todas as suas viagens. O local para o seu acampamento era indicado pela descida da coluna de nuvem; e enquanto devessem permanecer acampados a nuvem repousava sobre o tabernáculo. Quando deviam continuar sua jornada, ela se elevava muito acima da tenda sagrada. Uma invocação solene ao Senhor assinalava tanto as paradas como as partidas. "Era pois que, partindo a arca, Moisés dizia: Levanta-Te, Senhor, e dissipados sejam os Teus inimigos, e fujam diante de Ti os aborrecedores. E, pousando ela, dizia: Volta, ó Senhor, para os muitos milhares de Israel." Núm. 10:35 e 36.
Uma distância de apenas onze dias de viagem existia entre o Sinai e Cades, nas fronteiras de Canaã; e foi com a perspectiva de logo entrarem na esplêndida terra que as hostes de Israel retomaram sua marcha, quando finalmente a nuvem deu sinal para prosseguir. Jeová operara prodígios, tirando-os do Egito; e que bênçãos não poderiam eles esperar, agora que haviam solenemente pactuado aceitá-Lo como seu Soberano, e sido reconhecidos como o povo escolhido do Altíssimo? Todavia foi com quase relutância que muitos deixaram o lugar em que por tanto tempo estiveram acampados. Tinham vindo quase a considerá-lo como sua morada. Dentro do abrigo daquelas rochas, Deus reunira Seu povo, separados de
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todas as outras nações, a fim de lhes declarar Sua santa lei. Gostavam de olhar para o monte sagrado, em cujos picos esbranquiçados e áridas saliências tantas vezes se mostrara a glória divina. O cenário estava tão intimamente associado com a presença de Deus e dos santos anjos, que parecia demasiado sagrado para que fosse deixado com indiferença, ou mesmo alegremente. Ao sinal das trombetas, contudo, o acampamento todo se pôs em marcha, sendo o tabernáculo carregado ao centro, e estando cada tribo na sua designada posição, sob a sua própria bandeira. Todos os olhares estavam volvidos ansiosamente para ver em que direção a nuvem seguiria. Quando ela se moveu em direção ao Oriente, onde apenas havia aglomerações montanhosas, negras e desoladas, um sentimento de tristeza e dúvida surgiu em muitos corações. Avançando eles, o caminho se tornou mais difícil. Seu percurso estendia-se através de barrancos e desolação estéril. Tudo em redor deles era o grande deserto - "terra de charnecas e de covas", "terra de sequidão e sombra de morte", "terra em que ninguém transitava, e na qual não morava homem algum". Jer. 2:6. As gargantas de pedra, de longe e de perto, estavam repletas de homens, mulheres e crianças, com animais e carros, e longas fileiras de rebanhos e gado. Sua marcha era necessariamente lenta e trabalhosa; e as multidões, depois de seu longo acampamento, não estavam preparadas para suportar os perigos e incômodos do caminho.
Depois de três dias de viagem, ouviram-se francas queixas. Estas se originaram com a mistura de gente, muitos dentre a qual não se achavam unidos completamente com Israel e estavam continuamente a espreitar qualquer motivo de censura. Os queixosos não se agradavam com a direção da marcha, e estavam continuamente a achar defeito no modo como Moisés os estava a guiar, embora bem soubessem que ele, assim como todos, estavam seguindo a nuvem que os guiava. O descontentamento é contagioso, e logo espalhou-se pelo arraial. Novamente começaram a clamar pedindo carne para comer. Se bem que abundantemente supridos de maná, não estavam satisfeitos. Os israelitas, durante seu cativeiro no Egito, tinham sido compelidos a passar com o mais trivial e simples alimento; mas o bom apetite provocado pela privação e árduo trabalho tornava-o saboroso. Muitos dos egípcios, entretanto, que agora se achavam entre eles, tinham estado acostumados a regime farto; e estes
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foram os primeiros a queixar-se. Ao dar o maná, precisamente antes de Israel chegar ao Sinai, o Senhor lhes concedera carne em resposta aos seus clamores; mas esta lhes foi fornecida apenas um dia.
Deus poderia tão facilmente tê-los provido de carne como de maná; impôs-se-lhes, porém, uma restrição, para o seu bem. Era Seu propósito supri-los de alimento mais adaptado às suas necessidades do que o regime estimulante a que muitos se haviam acostumado no Egito. O apetite pervertido devia ser posto em uma condição mais sadia, a fim de que pudessem usar o alimento originariamente provido ao homem: os frutos da Terra, que Deus dera a Adão e Eva no Éden. Foi por esta razão que os israelitas foram em grande medida privados do alimento cárneo. Satanás tentou-os a considerar esta restrição como injusta e cruel. Fê-los cobiçar coisas proibidas, porque viu que a satisfação desenfreada do apetite tenderia a produzir a sensualidade, e por este meio o povo poderia ser mais facilmente submetido ao seu domínio. O autor da moléstia e da miséria assaltará os homens no ponto em que ele pode ter o maior êxito. Por meio de tentações que visam o apetite, tem ele, em grande parte, levado homens ao pecado, desde o tempo em que induziu Eva a comer do fruto proibido. Foi por este mesmo meio que levou Israel a murmurar contra Deus. A intemperança no comer e no beber, determinando, como o faz, a satisfação das paixões baixas, prepara aos homens o caminho para desrespeitarem todos os deveres morais. Ao serem assaltados pela tentação, pouco poder têm eles para resistir.
Deus tirou do Egito os israelitas para que os pudesse estabelecer na terra de Canaã como um povo puro, santo e feliz. Para a realização deste objetivo, sujeitou-os a um processo de disciplina, tanto para o seu bem como para o bem de sua posteridade. Estivessem eles dispostos a vencer o apetite, em obediência às Suas sábias restrições, e teriam sido desconhecidas entre eles a fraqueza e a moléstia. Seus descendentes teriam possuído força tanto física como mental. Teriam tido clara percepção da verdade e do dever, discernimento penetrante e são juízo. Mas sua falta de vontade para se sujeitarem às restrições e reclamos de Deus, impediu-os em grande parte de alcançarem a elevada norma que desejava atingissem, bem como de receberem as bênçãos que estava pronto para lhes conferir. Pág. 379
Diz o salmista: "Tentaram a Deus nos seus corações, pedindo carne para satisfazerem o seu apetite. E falaram contra Deus, e disseram: Poderá Deus porventura preparar-nos uma mesa no deserto? Eis que feriu a penha, e águas correram dela; rebentaram ribeiros em abundância: poderá também dar-nos pão, ou preparar carne para o Seu povo? Pelo que o Senhor os ouviu, e Se indignou." Sal. 78:18-21. Murmurações e tumultos tinham sido freqüentes durante a jornada do Mar Vermelho ao Sinai; mas, compadecendo-Se de sua ignorância e cegueira, Deus não visitara então o pecado com juízos. Mas desde aquele tempo Ele Se lhes revelara em Horebe. Haviam recebido grande luz, visto que tinham sido testemunhas da majestade, do poder e da misericórdia de Deus; e sua incredulidade e descontentamento incorriam em maior delito. Ademais, haviam eles pactuado aceitar a Jeová como seu Rei, e obedecer à Sua autoridade. Sua murmuração era agora rebelião, e como tal devia receber imediato e assinalado castigo, para que Israel fosse preservado da anarquia e ruína. "O fogo do Senhor ardeu entre eles, e consumiu os que estavam na última parte do arraial." Núm. 11:1. Os mais culpados dos queixosos foram mortos pelo relâmpago da nuvem. O povo, aterrorizado, rogou a Moisés que pedisse ao Senhor por eles. Moisés o fez, e o fogo apagou-se. Em lembrança deste juízo ele deu àquele lugar o nome de Taberá, que quer dizer, "queima". Mas o mal logo foi pior do que antes. Em vez de levar os sobreviventes à humilhação e ao arrependimento, este terrível juízo pareceu apenas aumentar-lhes a murmuração. Em todas as direções o povo estava reunido à porta de suas tendas, chorando e lamentando. "E o vulgo [a mistura de gente], que estava no meio deles, veio a ter grande desejo; pelo que os filhos de Israel tornaram a chorar, e disseram: Quem nos dará carne a comer? Lembramo-nos dos peixes que no Egito comíamos de graça; e dos pepinos e dos melões, e dos porros, e das cebolas, e dos alhos. Mas agora a nossa alma se seca; coisa nenhuma há senão este maná diante dos nossos olhos." Núm. 11:4-6. Assim manifestaram seu descontentamento pelo alimento que o Criador lhes provera. Tinham, contudo, prova constante de que o mesmo se adaptava às suas necessidades; pois, apesar das fadigas que suportavam, não havia um que fosse fraco, em todas as suas tribos.