Patriarcas e Profetas
Satanás foi "homicida desde o princípio" (João…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
Coré retirara-se da assembléia a fim de reunir-se com Datã e Abirã, quando Moisés, acompanhado dos setenta anciãos, desceu com um último aviso aos homens que se haviam recusado a ir a ele. As multidões seguiram e, antes de comunicar sua mensagem, Moisés, por direção divina, ordenou ao povo: "Desviai-vos, peço-vos, das tendas destes ímpios homens, e não toqueis nada do que é seu, para que porventura não pereçais em todos os seus pecados." Núm. 16:19-26. O aviso foi atendido, pois uma apreensão de juízo iminente repousava sobre todos. Os chefes dos rebeldes viram-se abandonados por aqueles a quem haviam enganado, mas sua dureza ficou inabalável. Permaneceram com suas famílias às portas de suas tendas, como que em desafio à advertência divina. Em nome do Deus de Israel, Moisés declarou agora aos ouvidos da congregação: "Nisto conhecereis que o Senhor me enviou a fazer todos estes feitos, que de meu coração não procedem. Se estes morrerem como morrem todos os homens, e se forem visitados como se visitam todos os homens, então o Senhor me não enviou. Mas, se o Senhor criar alguma coisa nova, e a terra abrir a sua boca e os tragar com tudo que é seu, e vivos descerem ao sepulcro, então conhecereis que estes homens irritaram ao Senhor." Núm. 16:28-30.
Os olhares de todo o Israel estavam fixos em Moisés, enquanto se achavam aterrorizados e expectantes, aguardando os acontecimentos. Cessando ele de falar, a terra sólida partiu-se, e os Pág. 401
rebeldes desceram vivos para o abismo, com tudo que lhes pertencia, e "pereceram no meio da congregação". Núm. 16:33. O povo fugiu, condenando-se a si próprio, como participantes do pecado. Mas os juízos não haviam terminado. Fogo que flamejou da nuvem consumiu os duzentos e cinqüenta príncipes que tinham oferecido incenso. Estes homens, não sendo os primeiros na rebelião, não foram destruídos com os principais conspiradores. Foi-lhes permitido ver o fim daqueles, e ter oportunidade para o arrependimento; mas suas simpatias estavam com os rebeldes, e partilharam de sua sorte. Quando Moisés estava rogando a Israel para que fugisse da destruição vindoura, poder-se-ia mesmo ter detido então o juízo divino, se Coré e seu grupo se arrependessem e buscassem perdão. Sua obstinada persistência, porém, selou-lhes a condenação. A congregação inteira foi participante de seu crime, pois que todos, em maior ou menor grau, haviam contemporizado com eles. Deus, todavia, em Sua grande misericórdia, fizera distinção entre os chefes da rebelião e aqueles a quem haviam conduzido. Ao povo que se deixara enganar concedeu-se ainda tempo para o arrependimento. Dera-se prova esmagadora de que estavam em erro, e de que Moisés estava com a razão. A notável manifestação do poder de Deus removera toda a incerteza. Jesus, o Anjo que ia adiante dos hebreus, procurou salvá-los da destruição. O perdão continuava ainda ao seu alcance. Os juízos de Deus tinham vindo muito perto, incitando-os a que se arrependessem. Uma especial, irresistível intervenção do Céu, fizera deter sua rebelião. Agora, se correspondessem à interferência da providência de Deus, poderiam salvar-se. Mas, conquanto fugissem dos juízos pelo temor da destruição, sua rebelião não estava curada. Voltaram às suas tendas naquela noite, aterrorizados, mas não arrependidos.
Tinham sido lisonjeados por Coré e seu grupo a ponto de chegarem a crer que eram realmente um povo muito bom, e que haviam sido lesados e maltratados por Moisés. Caso admitissem que Coré e seu grupo estavam em erro, e Moisés com a razão, seriam então compelidos a reconhecer como palavra de Deus a sentença de que deveriam morrer no deserto. Não estavam dispostos a sujeitar-se a isto, e procuraram crer que Moisés os enganara. Tinham alimentado carinhosamente a esperança de que uma nova ordem de coisas estivesse prestes a estabelecer-se, na qual a reprovação seria substituída pelo louvor, e a ansiedade e conflito,
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pela comodidade. Os homens que pereceram haviam proferido palavras lisonjeiras, e dito possuir grande interesse e amor por eles; e o povo concluiu que Coré e seus companheiros deviam ter sido bons homens, e que Moisés por algum meio fora a causa de sua destruição. Dificilmente poderão os homens cometer maior insulto a Deus do que desprezar e rejeitar os instrumentos que deseja usar para a salvação deles. Os israelitas não somente fizeram isto, mas propuseram-se a matar Moisés e Arão. Não compreendiam, entretanto, a necessidade de buscar o perdão de Deus, pelo seu enorme pecado. Aquela noite de prova não foi passada em arrependimento e confissões, mas à procura de algum meio para resistir às evidências que lhes mostravam serem os maiores pecadores. Alimentavam ódio contra os homens que haviam sido por Deus designados, e uniram-se a fim de resistirem à autoridade dos mesmos. Satanás estava a postos para perverter-lhes o discernimento e levá-los de olhos vendados à destruição. Todo Israel fugira alarmado ao grito dos pecadores condenados que desceram ao abismo, pois disseram: "Para que porventura também nos não trague a terra a nós." "Mas no dia seguinte toda a congregação dos filhos de Israel murmurou contra Moisés e contra Arão, dizendo: Vós matastes o povo do Senhor." E estavam a ponto de fazer violência aos fiéis e abnegados chefes. Viu-se na nuvem por cima do tabernáculo uma manifestação da glória divina, e uma voz da nuvem falou a Moisés e Arão: "Levantai-vos do meio desta congregação, e a consumirei como num momento." Núm. 16:34, 41 e 45.
A culpa do pecado não recaía sobre Moisés, e portanto ele não receou, e não se apressou em retirar-se e deixar a congregação para que perecesse. Moisés demorou-se, manifestando neste terrível momento crítico o interesse do verdadeiro pastor pelo rebanho ao seu cuidado. Advogou para que a ira de Deus não destruísse inteiramente o povo de Sua escolha. Pela sua intercessão deteve o braço da vingança, para que o rebelde e desobediente Israel não tivesse um fim total. Mas o ministrador da ira saíra; a praga estava a fazer a sua obra de morte. Por determinação de seu irmão, Arão tomou um incensário, e foi apressadamente ao meio da congregação para fazer "expiação por eles". "E estava em pé entre os mortos e os vivos." Núm. 16:48. Enquanto subia o fumo do incenso, as orações de Moisés no tabernáculo ascendiam a Deus; e a praga deteve-se, mas Pág. 403
não antes que catorze mil de Israel jazessem mortos, como prova do crime de murmuração e rebelião. Deu-se, entretanto, mais prova de que o sacerdócio fora estabelecido na família de Arão. Por determinação divina cada tribo preparou uma vara, e escreveu nela o nome da tribo. O nome de Arão estava na de Levi. As varas foram postas "perante o Senhor na tenda do testemunho". A florescência de qualquer vara deveria ser sinal de que o Senhor escolhera aquela tribo para o sacerdócio. Na manhã seguinte, "eis que a vara de Arão, pela casa de Levi, florescia; porque produzira flores, e brotara renovos e dera amêndoas". Foi mostrada ao povo, e depois posta no tabernáculo como testemunho às gerações subseqüentes. Este prodígio decidiu finalmente a questão do sacerdócio. Ficou agora plenamente estabelecido que Moisés e Arão tinham falado por autoridade divina; e o povo foi constrangido a crer na desagradável verdade de que morreriam no deserto. "Eis aqui, nós expiramos", exclamaram; "perecemos, nós perecemos todos." Núm. 17:7, 8 e 12. Confessaram haver pecado, rebelando-se contra seus dirigentes, e ter Coré e seu grupo sofrido o justo juízo de Deus.
Na rebelião de Coré, vêem-se, em um cenário menor, os resultados do mesmo espírito que determinou a rebelião de Satanás no Céu. Foi o orgulho e a ambição que moveram Lúcifer a queixar-se do governo de Deus, e procurar subverter a ordem que fora estabelecida no Céu. Desde sua queda tem sido o seu objetivo infundir nas mentes humanas o mesmo espírito de inveja e descontentamento, a mesma ambição de posições e honras. Assim agiu ele na mente de Coré, Datã e Abirã, para suscitar o desejo de exaltação própria, e provocar inveja, falta de confiança e rebelião. Satanás, fazendo-os rejeitar os homens que Deus designara, fê-los rejeitar a Deus como seu líder. Contudo, ao mesmo tempo em que com sua murmuração contra Moisés e Arão blasfemavam de Deus, estavam tão iludidos que se julgavam justos, e consideravam como tendo sido dirigidos por Satanás aqueles que fielmente haviam reprovado seus pecados.
Não existem ainda os mesmos males que jazem no fundamento da ruína de Coré? O orgulho e a ambição estão espalhados; e, quando são acalentados, abrem a porta à inveja, e a uma luta pela supremacia; a alma é alienada de Deus, e inconscientemente arrastada às fileiras de Satanás. Semelhantes a Coré e seus
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companheiros, muitos, mesmo dos professos seguidores de Cristo, estão a pensar, projetar e agir com tanta avidez pela exaltação própria que, para o fim de alcançar a simpatia e o apoio do povo, estão prontos a perverter a verdade, atraiçoando e caluniando os servos do Senhor, e mesmo acusando-os dos motivos vis e egoístas que lhes inspira o próprio coração. Reiterando persistentemente a falsidade, e isso contra toda a evidência, chegam finalmente a crer ser ela verdade. Ao mesmo tempo em que se esforçam por destruir a confiança do povo nos homens que por Deus foram designados, acreditam realmente que se acham empenhados em uma boa obra, fazendo em verdade serviço para Deus. Os hebreus não estavam dispostos a sujeitar-se às determinações e restrições do Senhor. Inquietavam-se com sofrerem restrições, e não se dispunham a ser reprovados. Tal era o segredo de sua murmuração contra Moisés. Ficassem livres para fazerem conforme lhes aprouvesse, e teria havido menos queixas contra seu chefe. Durante toda a história da igreja, os servos de Deus têm tido o mesmo espírito a defrontar.
Por uma condescendência pecaminosa é que os homens dão a Satanás acesso à sua mente, e vão de um grau de impiedade a outro. A rejeição da luz lhes entenebrece a mente e endurece o coração, de modo que lhes é mais fácil dar o passo imediato no pecado, e rejeitar luz ainda mais clara, até que afinal seus hábitos de fazerem mal se tornam fixos. O pecado deixa de lhes parecer pecaminoso. Aquele que com fidelidade prega a Palavra de Deus, condenando deste modo seus pecados, mui freqüentemente incorre no seu ódio. Indispostos a suportar a dor e o sacrifício necessários à sua correção, voltam-se contra o servo do Senhor e denunciam-lhe as reprovações como inoportunas e severas. Semelhantes a Coré, declaram que o povo não está em falta; é aquele que reprova que ocasiona toda a dificuldade. E, acalmando a consciência com esta falácia, os ciosos e desafetos combinam semear discórdia na igreja, e enfraquecer as mãos daqueles que a querem edificar. Todo o progresso feito por aqueles a quem Deus chamou para tomar parte na direção de Sua obra, tem provocado suspeita; cada um de seus atos tem sido desvirtuado pelos que são invejosos e críticos. Assim foi no tempo de Lutero, dos Wesleys e de outros reformadores. Assim é hoje. Coré não teria seguido o caminho por onde foi, se tivesse sabido que todas as instruções e reprovações comunicadas a Israel
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eram de Deus. Ele podia, entretanto, ter sabido isto. Deus dera prova esmagadora de que estava guiando Israel. Mas Coré e seus companheiros rejeitaram a luz até se tornarem tão cegos que mesmo as mais notáveis manifestações de Seu poder não bastavam para os convencer; atribuíam-nas todas a operações humanas ou satânicas. A mesma coisa fora feita pelo povo que, no dia seguinte ao da destruição de Coré e seu grupo, veio a Moisés e Arão, dizendo: "Vós matastes o povo do Senhor." Núm. 16:41. Apesar de terem tido a prova mais convincente do desagrado de Deus pela sua conduta, na destruição dos homens que os haviam enganado, ousaram atribuir Seus juízos a Satanás, declarando que, pelo poder do maligno, Moisés e Arão tinham ocasionado a morte de homens bons e santos. Foi este ato que selou a condenação deles. Haviam cometido o pecado contra o Espírito Santo, pecado este em virtude do qual o coração do homem eficazmente se endurece contra a influência da graça divina. "Se qualquer disser uma palavra contra o Filho do homem", disse Cristo, "ser-lhe-á perdoado; mas, se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado." Mat. 12:32. Estas palavras foram proferidas por nosso Salvador quando as obras cheias de graça que realizara pelo poder de Deus, foram atribuídas pelos judeus a Belzebu. É mediante a operação do Espírito Santo que Deus Se comunica com o homem; e aqueles que deliberadamente rejeitam esta operação como satânica, interceptaram o conduto que estabelece comunicação entre a alma e o Céu. Deus opera pela manifestação de Seu Espírito para reprovar e convencer o pecador; e, se a obra do Espírito é finalmente rejeitada, nada mais há que Deus possa fazer pela alma. O último recurso da misericórdia divina foi empregado. O transgressor desligou-se de Deus; e o pecado não tem remédio para curar a si mesmo. Não há um poder reservado, pelo qual Deus possa operar para convencer e converter o pecador. "Deixa-o" (Osé. 4:17), é a ordem divina. Então, "já não resta mais sacrifício pelos pecados, mas uma certa expectação horrível de juízo, e ardor de fogo, que há de devorar os adversários". Heb. 10:26 e 27.
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No Deserto
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Durante quase quarenta anos, os filhos de Israel perdem-se de vista na obscuridade do deserto. "E os dias que caminhamos, desde Cades-Barnéia até que passamos o ribeiro de Zerede", diz Moisés, "foram trinta e oito anos, até que toda aquela geração dos homens de guerra se consumiu do meio do arraial, como o Senhor lhes jurara. Assim também foi contra eles a mão do Senhor, para os destruir do meio do arraial até os haver consumido." Deut. 2:14 e 15.
Durante esses anos, lembrava-se constantemente ao povo que se achavam sob a reprovação divina. Na rebelião em Cades tinham rejeitado a Deus; e Deus, durante aquele tempo, os rejeitara. Visto que se haviam mostrado infiéis para com o Seu concerto, não deveriam receber o sinal desse concerto: o rito da circuncisão. Seu desejo de voltar à terra da escravidão mostrara serem eles indignos da liberdade, e a ordenação da Páscoa, instituída para comemorar o livramento do cativeiro, não deveria ser observada.
Contudo, a continuação do serviço no tabernáculo, atestava que Deus não abandonara completamente Seu povo. E Sua providência supria-lhes ainda as necessidades. "O Senhor teu Deus te abençoou em toda a obra das tuas mãos", disse Moisés, referindo a história de suas peregrinações. "Ele sabe que andas por este grande deserto; estes quarenta anos o Senhor teu Deus esteve contigo, coisa alguma te faltou." Deut. 2:7. E o hino dos levitas, registrado por Neemias, descreve vividamente o cuidado de Deus por Israel, mesmo durante aqueles anos de rejeição e banimento: "Tu, pela multidão das Tuas misericórdias, os não deixaste no deserto. A coluna de nuvem nunca deles se apartou de dia, para os guiar pelo caminho, nem a coluna de fogo de noite, para os alumiar e mostrar o caminho por onde haviam de ir. E deste o Teu bom Espírito, para os ensinar; e o Teu Pág. 407
maná não retiraste da sua boca; e água lhes deste na sua sede. Desse modo os sustentaste quarenta anos no deserto; ... seus vestidos se não envelheceram, e os seus pés se não incharam." Nee. 9:19-21. A peregrinação pelo deserto não foi simplesmente ordenada como um juízo sobre os rebeldes e murmuradores, mas servia à geração que crescia, como disciplina preparatória à sua entrada na Terra Prometida. Moisés declarou-lhes: "Como um homem castiga a seu filho, assim te castiga o Senhor teu Deus", "para te humilhar, e te tentar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias os Seus mandamentos, ou não. E... te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram; para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas que de tudo o que sai da boca do Senhor viverá o homem." Deut. 8:5, 2 e 3. "Achou-o na terra do deserto, e num ermo solitário cheio de uivos; trouxe-o ao redor, instruiu-o, guardou-o como a menina do Seu olho." Deut. 32:10; "Em toda a angústia deles foi Ele angustiado, e o Anjo da Sua face os salvou; pelo Seu amor, e pela sua compaixão Ele os remiu; e os tomou, e os conduziu todos os dias da antiguidade." Isa. 63:9.
Todavia, os únicos relatos de sua vida no deserto são exemplos de rebelião contra o Senhor. Da revolta de Coré resultou a destruição de catorze mil pessoas de Israel. E houve casos isolados que mostram o mesmo espírito de desdém pela autoridade divina.
Uma ocasião, o filho de uma mulher israelita e um egípcio (sendo este da mistura de gente que com Israel subira do Egito), deixou a parte que lhe era própria no acampamento, e, entrando na dos israelitas, pretendeu ter direito de armar sua tenda ali. Isto a lei divina lhe vedava fazer, sendo os descendentes de um egípcio excluídos da congregação até à terceira geração. Uma contenda surgiu entre ele e um israelita, e a questão, sendo referida aos juízes, foi decidida contra o transgressor. Enraivecido com esta decisão, amaldiçoou o juiz, e no ardor de sua paixão blasfemou do nome de Deus. Foi imediatamente levado perante Moisés. Havia sido dada esta ordem: "Quem amaldiçoar a seu pai ou a sua mãe, certamente morrerá" (Êxo. 21:17);
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mas disposição alguma fora tomada para atender a este caso. Tão terrível era o crime que foi sentida a necessidade de direção especial de Deus. O homem foi posto em guarda até que se pudesse saber a vontade do Senhor. Deus mesmo pronunciou a sentença; por determinação divina o homem blasfemo foi conduzido para fora do acampamento e apedrejado. Aqueles que tinham sido testemunhas do pecado, colocaram as mãos sobre sua cabeça, testificando desta maneira solenemente da verdade da acusação contra ele. Então atiraram as primeiras pedras, e o povo que estava ao lado uniu-se a seguir na execução da sentença.
Isto foi seguido do anúncio de uma lei para enfrentar a faltas idênticas: "E aos filhos de Israel falarás, dizendo: Qualquer que amaldiçoar o seu Deus, levará sobre si o seu pecado. E aquele que blasfemar o nome do Senhor, certamente morrerá; toda a congregação certamente o apedrejará; assim o estrangeiro como o natural, blasfemando o nome do Senhor, será morto." Lev. 24:15 e 16. Há os que porão em dúvida o amor de Deus e Sua justiça, infligindo tão severo castigo por palavras faladas no ardor da paixão. Mas tanto o amor como a justiça exigem que se mostre serem as palavras inspiradas pela maldade contra Deus um grande pecado. A paga que recaiu sobre o primeiro transgressor seria um aviso para os outros, de que o nome de Deus deve ser tido em reverência. Mas caso se houvesse permitido que o pecado deste homem passasse sem punição, outros se teriam desmoralizado; e, como resultado, muitas vidas finalmente deveriam ser sacrificadas. A mistura de gente que com os israelitas subira do Egito era uma fonte contínua de tentação e dificuldades. Professavam ter renunciado à idolatria, e adorar o verdadeiro Deus; mas sua primitiva educação e ensino lhes haviam modelado os hábitos de caráter, e estavam mais ou menos corrompidos pela idolatria e irreverência para com Deus. Eram os que mais freqüentemente suscitavam contendas e os primeiros a queixar-se, e contaminavam o acampamento com suas práticas idólatras e murmurações contra Deus.
Logo depois da volta ao deserto, ocorreu um caso de violação do sábado, sob circunstâncias que o tornavam de uma culpabilidade peculiar. O anúncio do Senhor de que deserdaria Israel, despertara um espírito de rebelião. Alguém do povo, irado por ser
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excluído de Canaã, e decidido a mostrar seu desafio à lei de Deus, atreveu-se a uma transgressão declarada do quarto mandamento, indo apanhar lenha no sábado. Durante a permanência no deserto fora estritamente proibido acender fogo no sétimo dia. A proibição não se estendia à terra de Canaã, onde muitas vezes a inclemência do clima tornaria necessário o fogo; mas no deserto o fogo não era necessário para aquecer. O ato deste homem foi uma violação voluntária e deliberada do quarto mandamento - pecado este não cometido por inadvertência ou ignorância, mas por presunção. Ele foi apanhado no ato e trazido a Moisés. Já havia sido declarado que a violação do sábado seria punida com a morte; mas ainda não fora revelado como a pena deveria ser infligida. O caso foi levado por Moisés perante o Senhor, que deu esta instrução: "Certamente morrerá o tal homem; toda a congregação com pedras o apedrejará para fora do arraial." Núm. 15:35. Os pecados de blasfêmia e voluntária violação do sábado recebiam o mesmo castigo, sendo igualmente uma expressão de desprezo pela autoridade de Deus.
Em nossos tempos muitos há que rejeitam o sábado da criação como uma instituição judaica, e insistem em que, se o mesmo deve ser guardado, a pena de morte deverá ser infligida pela sua violação; vemos, porém, que a blasfêmia recebia o mesmo castigo que a violação do sábado. Concluiremos pois que o terceiro mandamento também deve ser posto de lado como aplicável só aos judeus? No entanto o argumento tirado da pena de morte aplica-se ao terceiro, ao quinto, e na verdade a quase todos os dez preceitos, do mesmo modo que ao quarto. Posto que Deus não castigue hoje a transgressão de Sua lei com castigos temporais, Sua Palavra declara, todavia, que o salário do pecado é a morte; e na execução final do juízo achar-se-á que a morte é o quinhão daqueles que violam Seus sagrados preceitos.
Durante todos os quarenta anos no deserto, recordava-se semanalmente ao povo a sagrada obrigação do sábado, pelo milagre do maná. Contudo mesmo isto não os levava à obediência. Se bem que não se atrevessem a uma transgressão tão franca e ousada como a que recebera assinalada punição, havia, entretanto, grande frouxidão na observância do quarto mandamento. Deus declara pelo Seu profeta: "Profanaram grandemente os Meus sábados." Ezeq. 20:13-24. E isto se conta entre as razões para a exclusão da primeira geração, da Terra Prometida.
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Não obstante, seus filhos não aprenderam a lição. Tal foi sua negligência do sábado durante os quarenta anos de vagueação que, embora Deus os não impedisse de entrar em Canaã, declarou que deveriam ser espalhados entre os gentios depois de seu estabelecimento na Terra Prometida. De Cades os filhos de Israel voltaram ao deserto; e, terminado o período de sua permanência no deserto "os filhos de Israel, a congregação toda, vieram ao deserto de Zim, no primeiro mês. Ficou o povo em Cades". Núm. 20:1.
Ali morreu Miriã e foi sepultada. Daquela cena de júbilo nas praias do Mar Vermelho, quando, com cântico e danças para celebrar a vitória de Jeová, saiu Israel, até à sepultura no deserto, a qual acabou com o peregrinar de toda a sua vida - tal foi a sorte de milhões que com grandes esperanças haviam saído do Egito. O pecado lhes arrebatara dos lábios a taça de bênçãos. Aprenderia a lição a geração seguinte?
"Com tudo isto ainda pecaram, e não deram crédito às Suas maravilhas. ... Pondo-os Ele à morte, então O procuravam; e voltavam, e de madrugada buscavam a Deus. E lembravam-se de que Deus era a sua Rocha, e o Deus altíssimo o seu Redentor." Sal. 78:32-35. Não voltavam, todavia, a Deus com propósito sincero. Se bem que, quando aflitos por seus inimigos, buscavam auxílio dAquele que unicamente poderia livrar, no entanto "o seu coração não era reto para com Ele, nem foram fiéis ao Seu concerto. Mas Ele, que é misericordioso, perdoou a sua iniqüidade, e não os destruiu; antes muitas vezes desviou deles a Sua cólera, ... porque Se lembrou de que eram carne, um vento que passa e não volta". Sal. 78:37-39.
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A Rocha Ferida
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Da rocha ferida em Horebe fluiu pela primeira vez a torrente viva que refrigerou Israel no deserto. Durante todas as suas vagueações, onde quer que fosse necessário, eram supridos de água com um milagre da misericórdia de Deus. A água não continuou, entretanto, a brotar de Horebe. Onde quer que em suas jornadas necessitavam de água, esta jorrava ali das fendas da rocha, ao lado de seu acampamento.
Era Cristo, pelo poder de Sua palavra, que fazia com que a torrente refrigerante vertesse para Israel. "Beberam todos duma mesma bebida espiritual, porque bebiam da Pedra espiritual que os seguia; e a Pedra era Cristo." I Cor. 10:4. Ele era a fonte de todas as bênçãos temporais bem como espirituais. Cristo, a verdadeira Rocha, estava com eles em todas as suas peregrinações. "E não tinham sede, quando os levava pelos desertos; fez-lhes correr água da rocha; fendendo Ele as rochas, as águas manavam delas." Isa. 48:21. "Brotaram águas, que correram pelos lugares secos como um rio." Sal. 105:41.
A rocha ferida era uma figura de Cristo, e por meio deste símbolo são-nos ensinadas as mais preciosas verdades espirituais. Assim como as águas vivificadoras brotavam da rocha ferida, assim de Cristo, "ferido de Deus", "ferido pelas nossas transgressões", "quebrantado pelas nossas iniqüidades" (Isa. 53:4 e 5), a torrente de salvação flui para uma raça perdida. Assim como a rocha foi ferida uma vez, semelhantemente Cristo deveria ser oferecido "uma vez para tirar os pecados de muitos". Heb. 9:28. Nosso Salvador não deveria ser sacrificado segunda vez; e é tão-somente necessário àqueles que buscam as bênçãos de Sua graça pedi-las em nome de Jesus, derramando o desejo de seu coração em uma prece feita no espírito de arrependimento. Tal oração levará perante o Senhor dos exércitos os ferimentos de Jesus, e então de novo fluirá o sangue doador de vida, simbolizado pelo fluir da água viva para Israel.
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A emanação da água da rocha do deserto foi celebrada pelos israelitas, depois de seu estabelecimento em Canaã, com demonstrações de grande regozijo. No tempo de Cristo esta celebração se tornara uma cerimônia muito impressionante. Ocorria por ocasião da Festa dos Tabernáculos, quando o povo de toda a terra se congregava em Jerusalém. Em cada um dos sete dias da festa, os sacerdotes saíam com música e coro dos levitas a tirar água da fonte de Siloé, em um vaso de ouro. Eram seguidos pelas multidões de adoradores, em tão grande número quanto podiam ficar perto da fonte, dela bebendo, enquanto surgiam os acordes jubilosos: "Vós com alegria tirareis águas das fontes da salvação." Isa. 12:3. A água tirada pelos sacerdotes era então levada ao templo, por entre sons de trombetas e o canto solene: "Nossos pés estarão dentro dos teus muros, ó Jerusalém." Sal. 122:2. A água era derramada sobre o altar do holocausto, enquanto repercutiam cânticos de louvor, unindo-se as multidões em coros triunfantes com instrumentos musicais e trombetas de baixo diapasão.
O Salvador fez uso deste cerimonial para encaminhar a mente do povo às bênçãos que Ele lhes viera trazer. "No último dia, o grande dia da festa", foi ouvida Sua voz em tons que repercutiam pelos pátios do templo: "Se alguém tem sede venha a Mim, e beba. Quem crê em Mim, como diz a Escritura, rios d'água viva correrão de seu ventre." "Isto", declarou João, "disse Ele do Espírito que haviam de receber os que nEle cressem." João 7:37-39. A água refrigerante, borbulhando na terra ressequida e estéril, fazendo com que o deserto floresça, e fluindo para dar vida aos que perecem, é um emblema da graça divina que apenas Cristo pode conferir, e é como água viva, purificando, refrigerando a alma. Aquele em quem Cristo habita tem dentro de si uma fonte incessante de graça e força. Jesus consola a vida e ilumina a senda de todo aquele que em verdade O busca. Seu amor, recebido no coração, expandir-se-á em boas obras para vida eterna. E não somente abençoa a alma em que ele se expande, mas a torrente viva fluirá em palavras e ações de justiça, para refrigerar os sedentos em redor daquela alma. A mesma figura empregou Cristo em Sua conversa com a mulher de Samaria, no poço de Jacó. "Aquele que beber da água que Eu lhe der nunca terá sede, porque a água que Eu lhe der Pág. 413
se fará nele uma fonte d'água, que salta para a vida eterna." João 4:14. Cristo combina os dois tipos. Ele é a rocha, Ele é a água viva.
As mesmas figuras, belas e expressivas, encontram-se em toda a Bíblia. Séculos antes do advento de Cristo, Moisés O indicou como a rocha da salvação de Israel (Deut. 32:15); o salmista dEle cantou como sendo "Libertador meu" (Sal. 19:14), "Rocha da minha fortaleza" (Sal. 62:7), "Rocha que é mais alta do que eu" (Sal. 61:2), "Rocha de habitação" (Sal. 71:3), "Rocha do meu coração" (Sal. 73:26), "Rocha em que me refugiei" (Sal. 94:22). No cântico de Davi Sua graça é também descrita como águas frescas, "tranqüilas" (Sal. 23:2), entre verdes pastos, ao lado das quais o Pastor celestial guia Seu rebanho. Outra vez: Tu "os farás beber da corrente das Tuas delícias; porque em Ti está o manancial da vida" (Sal. 36:8 e 9). E o sábio declara: "Ribeiro transbordante é a fonte da sabedoria." Prov. 18:4. Para Jeremias Cristo é "manancial de águas vivas" (Jer. 2:13); para Zacarias "fonte aberta... contra o pecado, e contra a impureza". Zac. 13:1.
Isaías descreve-O como "uma Rocha eterna" (Isa. 26:4), "sombra de uma grande rocha em terra sedenta". Isa. 32:2. E ele recorda a preciosa promessa, trazendo vividamente à lembrança a torrente viva que flui para Israel: "Os aflitos e necessitados buscam águas, e não as há, e a sua língua se seca de sede; mas Eu, o Senhor os ouvirei, Eu o Deus de Israel os não desampararei." Isa. 41:7. "Derramarei água sobre o sedento, e rios sobre a terra seca" (Isa. 44:3); "águas arrebentarão no deserto, e ribeiros no ermo (Isa. 35:6)." Faz-se o convite: "Ó vós, todos os que tendes sede, vinde às águas." Isa. 55:1. E nas páginas finais do Volume Sagrado este convite soa de novo. O rio da água da vida, "claro como cristal", provém do trono de Deus e do Cordeiro; e o convite cheio de graça repercute através dos séculos: "Quem quiser, tome de graça da água da vida." Apoc. 22:17. Precisamente antes de as hostes hebréias chegarem a Cades, cessou a torrente viva que durante tantos anos jorrara ao lado de seu acampamento. Deus Se propusera novamente provar Seu povo. Prová-los-ia para ver se confiariam em Sua providência ou imitariam a incredulidade de seus pais. Estavam agora à vista das colinas de Canaã. Alguns dias de marcha levá-los-iam às fronteiras da Terra Prometida. Achavam-se a pequena distância de Edom, que pertencia à descendência Pág. 414
de Esaú, e através de cujo território se estendia o itinerário pelo qual deveriam ir a Canaã. Fora dada a Moisés a direção: "Virai-vos para o norte. E dá ordem ao povo, dizendo: Passareis pelos termos de vossos irmãos, os filhos de Esaú, que habitam em Seir; e eles terão medo de vós. ... Comprareis, por dinheiro, comida para comerdes; e também água para beber deles comprareis por dinheiro." Deut. 2:3-6. Estas instruções deveriam ter sido suficientes para explicar por que lhes fora cortado o suprimento de água; estavam prestes a passar através de um território bem regado e fértil, em caminho direto para a terra de Canaã. Deus lhes prometera uma passagem isenta de incômodos através de Edom, e oportunidades de comprar alimento e água também, suficientes para suprir as hostes. A cessação da miraculosa emanação de água devia ter sido, portanto, motivo de regozijo, sinal de que terminara a vagueação pelo deserto. Não houvessem eles se tornado cegos pela sua incredulidade, e teriam compreendido isto. Mas o que deveria ter sido prova do cumprimento da promessa de Deus, tornou-se motivo para dúvida e murmuração. O povo parecia ter abandonado toda esperança de que Deus os levaria à posse de Canaã, e clamaram pelas bênçãos do deserto. Antes que Deus lhes permitisse entrar em Canaã, deviam mostrar que criam em Sua promessa. A água cessou antes que chegassem a Edom. Ali estava uma oportunidade para andarem, por algum tempo, pela fé em vez de pela vista. Mas a primeira prova suscitou o mesmo espírito turbulento e ingrato, manifestado por seus pais. Mal se ouviu no acampamento o clamor por água, e se esqueceram da mão que durante tantos anos lhes suprira as necessidades; e, em vez de volverem a Deus em busca de auxílio, murmuraram contra Ele, exclamando em seu desespero: "Oxalá tivéssemos expirado quando expiraram nossos irmãos perante o Senhor!" (Núm. 20:3); isto é, desejavam ter sido do número dos que foram destruídos na rebelião de Coré.
Seus clamores eram dirigidos contra Moisés e Arão: "Por que trouxestes a congregação do Senhor a este deserto, para que morramos ali, nós e os nossos animais? E por que nos fizestes subir Pág. 417
do Egito, para nos trazer a este lugar mau? lugar não de semente, nem de figos, nem de vides, nem de romãs, nem de água para beber."
Os chefes foram à porta do tabernáculo, e caíram sobre seu rosto. Novamente "a glória do Senhor lhes apareceu", e determinou-se a Moisés: "Toma a vara, e ajunta a congregação, tu e Arão, teu irmão, e falai à rocha perante os seus olhos, e dará a sua água; assim lhes tirarás água da rocha." Núm. 20:4, 5 e 8.
Os dois irmãos foram perante a multidão, indo Moisés com a vara de Deus na mão. Eles eram agora homens idosos. Muito tempo haviam suportado a rebelião e obstinação de Israel; mas agora, finalmente, mesmo a paciência de Moisés vacilou. "Ouvi agora, rebeldes", exclamou ele; "porventura tiraremos água desta rocha para vós?" E, em vez de falar à rocha, como Deus lhe mandara, feriu-a duas vezes com a vara.
A água jorrou em abundância, satisfazendo as hostes. Mas uma grande falta fora cometida. Moisés falara com sentimento de irritação; suas palavras eram uma expressão de paixão humana, em vez de santa indignação porque Deus houvesse sido desonrado. "Ouvi agora, rebeldes", disse ele. Esta acusação era verdadeira, mas mesmo a verdade não deve ser falada com paixão nem impaciência. Quando Deus mandara Moisés acusar Israel de rebelião, as palavras lhe foram dolorosas, e difícil lhes era suportarem-nas; contudo Deus o amparara ao transmitir a mensagem. Mas quando tomou sobre si o acusá-los, agravou o Espírito de Deus, e apenas fez mal ao povo. Sua falta de paciência e domínio próprio eram evidentes. Assim foi dada ao povo ocasião para porem em dúvida que sua atuação passada fora sob a direção de Deus, e desculparem seus próprios pecados. Moisés, bem como eles, haviam ofendido a Deus. Sua conduta, disseram, fora desde o princípio passível de crítica e censura. Tinham achado agora o pretexto que desejavam para rejeitarem todas as reprovações que Deus lhes enviara mediante Seu servo.
Moisés manifestou falta de confiança em Deus. "Tiraremos água?" perguntou, como se o Senhor não fizesse o que prometera. "Não Me crestes a Mim", declarou o Senhor aos dois irmãos, "para Me santificar diante dos filhos de Israel." Num. 20:10-13. Na ocasião em que a água faltou, sua própria fé no cumprimento da promessa de Deus fora abalada pela murmuração e rebelião do povo. A primeira geração foi condenada a perecer no deserto, por causa de Pág. 418
sua incredulidade; contudo o mesmo espírito apareceu em seus filhos. Deixariam estes também de receber a promessa? Cansados e desalentados, Moisés e Arão não fizeram esforço algum para opor-se à corrente do sentimento popular. Houvessem eles manifestado fé inabalável em Deus, e poderiam ter posto a questão perante o povo sob um prisma que os teria habilitado a suportar esta prova. Mediante o exercício pronto e decisivo da autoridade a eles investida como magistrados, poderiam ter abafado a murmuração. Tinham o dever de fazer todo esforço possível para melhorar o estado de coisas, antes de pedirem a Deus que fizesse por eles o trabalho. Se a murmuração em Cades tivesse sido sustada de pronto, que cortejo de males se poderia ter evitado!
Por seu ato precipitado, Moisés tirou a força da lição que Deus Se propunha ensinar. A rocha, sendo um símbolo de Cristo, fora ferida uma vez, assim como Cristo uma vez seria oferecido. A segunda vez, era necessário apenas falar à rocha, assim como temos apenas de pedir bênçãos em nome de Jesus. Ferindo-se pela segunda vez a rocha, foi destruída a significação desta bela figura de Cristo. Mais do que isto: Moisés e Arão tinham assumido poder que apenas pertence a Deus. A necessidade de intervenção divina tornava a ocasião de grande solenidade, e os chefes de Israel deviam tê-la aproveitado para impressionar o povo a fim de terem reverência para com Deus, e lhes fortalecer a fé em Seu poder e bondade. Quando iradamente exclamaram: "Tiraremos água desta rocha para vós?" (Núm. 20:10) puseram-se no lugar de Deus, como se o poder estivesse com eles, homens possuidores de fragilidades e paixões humanas. Cansado com a contínua murmuração e rebelião do povo, Moisés perdera de vista o seu todo-poderoso Auxiliador; e sem a força divina veio a macular o relato de seus feitos com uma exibição de fraqueza humana. O homem que poderia ter permanecido puro, firme e abnegado até o final de sua obra, fora finalmente vencido. Deus fora desonrado perante a congregação de Israel, quando devia ter sido engrandecido e exaltado. Deus não pronunciou nesta ocasião juízos sobre aqueles cuja ímpia conduta de tal maneira provocara a Moisés e Arão. Toda a reprovação recaiu sobre os dirigentes. Os que se achavam como os representantes de Deus não O haviam honrado. Moisés e Arão sentiram-se ofendidos, perdendo de vista que a murmuração do povo não era contra eles mas contra Deus. Foi por Pág. 419
olharem a si mesmos, por apelarem para sua própria simpatia, que inconscientemente caíram em pecado, e deixaram de pôr perante o povo o seu grande delito para com Deus. Amargo e profundamente humilhante foi o juízo imediatamente pronunciado. "Porquanto não Me crestes a Mim, para Me santificar diante dos filhos de Israel, por isso não metereis esta congregação na terra que lhes tenho dado." Juntamente com o rebelde Israel deviam morrer antes de atravessarem o Jordão. Se Moisés e Arão houvessem estado a acalentar uma elevada opinião de si mesmos, ou condescender com um espírito apaixonado, em face da advertência e reprovação divina, sua culpa teria sido muito maior. Mas não se lhes atribuía pecado voluntário nem premeditado; haviam sido vencidos por uma tentação súbita, e sua contrição foi imediata e provinha do coração. O Senhor aceitou seu arrependimento, embora não pudesse remover a punição, por causa do mal que seu pecado poderia fazer entre o povo.
Moisés não ocultou a sua sentença, mas contou ao povo que, visto ter deixado de conferir glória a Deus, não os poderia guiar à Terra Prometida. Mandou-os notar o severo castigo com que fora atingido, e então considerarem como Deus devia olhar as suas murmurações, acusando um simples homem dos juízos que pelos seus pecados haviam trazido sobre si. Contara-lhes como rogara a Deus uma revogação da sentença, e isto fora negado. "O Senhor indignou-Se muito contra mim por causa de vós", disse ele; "e não me ouviu." Deut. 3:26.
Em toda ocasião de dificuldade ou provação, os israelitas estavam prontos para acusarem a Moisés de os ter tirado do Egito, como se Deus não tivesse atuação alguma nesta questão. Por todas as suas jornadas, quando se queixavam das dificuldades do caminho, e murmuravam contra seus chefes, Moisés lhes dizia: "Vossas murmurações são contra Deus. Não fui eu que operei o vosso livramento, mas sim Deus." Mas suas precipitadas palavras diante da rocha: "Tiraremos água", eram uma admissão virtual daquilo de que eles os acusavam, e os confirmavam assim em sua incredulidade, justificando-lhes as murmurações. O Senhor queria remover-lhes para sempre do espírito esta impressão, vedando a Moisés de entrar na Terra Prometida. Ali estava a prova definitiva de que seu líder não era Moisés, mas o poderoso Anjo de quem o Senhor disse: "Eis que Eu envio um Anjo diante de ti, para que te guarde neste caminho, e te leve ao lugar
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que te tenho aparelhado. Guarda-te diante dEle, e ouve a Sua voz... porque o Meu nome está nEle." Êxo. 23:20 e 21.
"O Senhor indignou-Se muito contra mim por causa de vós", disse Moisés. Os olhos de todo o Israel estavam em Moisés, e seu pecado refletiu em Deus, que o escolhera como chefe de Seu povo. A transgressão foi conhecida por toda a congregação; e, se tivesse passado sem a devida consideração, ter-se-ia dado a impressão de que a incredulidade e a impaciência sob grande provocação poderiam ser desculpadas naqueles que ocupam posições de responsabilidade. Quando, porém, foi declarado que Moisés e Arão não deveriam entrar em Canaã, por causa daquele único pecado, o povo soube que Deus não faz acepção de pessoas, e punirá certamente o transgressor. A história de Israel devia ser registrada para a instrução e aviso das gerações vindouras. Homens de todos os tempos futuros deviam ver o Deus do Céu, como um Governador imparcial, não justificando de maneira alguma o pecado. Mas poucos se compenetram da excessiva malignidade do pecado. Lisonjeiam-se alguns homens de que Deus é bom demais para punir o transgressor. Mas, à luz da história bíblica, é evidente que a bondade de Deus e Seu amor O obrigam a tratar o pecado como um mal fatal à paz e felicidade do Universo.
Nem mesmo a integridade e fidelidade de Moisés podiam desviar a retribuição à sua falta. Deus perdoara ao povo maiores transgressões, mas não podia tratar com o pecado nos dirigentes do mesmo modo que naqueles que eram dirigidos. Honrara a Moisés mais do que a todos os outros homens na Terra. Revelara-lhe a Sua glória, e por meio dele comunicara Seus estatutos a Israel. O fato de que Moisés possuíra tão grande luz e saber, tornara mais grave seu pecado. A fidelidade passada não expiará um mau ato sequer. Quanto maior a luz e os privilégios concedidos ao homem, maior é sua responsabilidade, mais grave a sua falta, mais severo o seu castigo.
Conforme o juízo dos homens, Moisés não era culpado de um grande crime; seu pecado foi desses que ocorrem usualmente. O salmista diz que ele "falou imprudentemente com seus lábios". Sal. 106:33. Perante o juízo humano isto pode parecer coisa leve; mas, se Deus tratou tão severamente com este pecado em Seu servo mais fiel e honrado, não o desculpará em outros. O espírito de exaltação própria, a disposição para censurar os irmãos, são desagradáveis a Deus. Os que condescendem com a prática destes males lançam dúvida sobre a obra de Deus, e dão aos céticos uma desculpa para a sua incredulidade. Quanto mais importante é a posição de alguém, e maior sua influência, maior é a necessidade de que cultive a paciência e a humildade. Pág. 421
Se os filhos de Deus, especialmente os que ocupam posições de responsabilidade, puderem ser levados a tomar para si a glória que é devida a Deus, Satanás exultará. Terá alcançado uma vitória. Foi assim que ele caiu. Nesse ponto alcança ele mais êxito do que em outro qualquer, ao tentar outros à ruína. É para pôr-nos de sobreaviso contra seus ardis que Deus deu em Sua Palavra tantas lições que ensinam o perigo da exaltação própria. Não há um impulso de nossa natureza, nem uma faculdade do espírito ou inclinação do coração, que não necessite achar-se a todo o instante sob a direção do Espírito de Deus. Não há uma bênção que Deus confira ao homem, nem uma provação que permita recair sobre ele, de que Satanás não possa e não queira prevalecer-se para tentar, perturbar e destruir a alma, se lhe dermos a menor vantagem. Portanto, por maior que seja a luz espiritual de alguém, por mais que obtenha do favor e bênção de Deus, deve andar sempre humildemente perante o Senhor, rogando pela fé que Deus lhe dirija todo o pensamento e domine todo impulso. Todos os que professam piedade estão sob a mais sagrada obrigação de guardar o espírito, e exercitar o domínio próprio sob a maior provocação. Os encargos colocados sobre Moisés eram muito grandes; poucos homens serão tão severamente provados como ele foi; contudo, isto não lhe permitiria desculpar o pecado. Deus fez amplas provisões para Seu povo; e, se depositarem confiança em Sua força, jamais se tornarão o joguete das circunstâncias. A tentação mais forte não pode desculpar o pecado. Por maior que seja a pressão exercida sobre a alma, a transgressão é o nosso próprio ato. Não está no poder da Terra nem do inferno compelir alguém a fazer o mal. Satanás ataca-nos em nossos pontos fracos, mas não é o caso de sermos vencidos. Por mais severo ou inesperado que seja o ataque, Deus nos proveu auxílio e em Sua força podemos vencer. 38
A Jornada em Redor de Edom
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O acampamento de Israel em Cades ficava a pequena distância das fronteiras de Edom, e tanto Moisés como o povo desejavam grandemente seguir através deste país em seu itinerário para a Terra Prometida; em conformidade com isto enviaram uma mensagem, conforme Deus lhes ordenara, ao rei edomita:
"Assim diz teu irmão Israel: Sabes todo o trabalho que nos sobreveio; como nossos pais desceram ao Egito, e nós no Egito habitamos muitos dias; e como os egípcios nos maltrataram, a nós e a nossos pais; e clamamos ao Senhor, e Ele ouviu a nossa voz, e mandou um Anjo, e nos tirou do Egito; e eis que estamos em Cades, cidade na extremidade dos teus termos. Deixa-nos pois passar pela tua terra; não passaremos pelo campo, nem pelas vinhas, nem beberemos da água dos poços; iremos pela estrada real; não nos desviaremos para a direita nem para a esquerda, até que passemos pelos teus termos." Núm. 20:14-18.
A este pedido cortês, deu-se em resposta uma recusa ameaçadora: "Não passarás por mim, para que porventura eu não saia à espada ao teu encontro."