Patriarcas e Profetas

Ellen G. White · Capítulo 5 de 9 · parte 5/5

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Patriarcas e Profetas

Satanás foi "homicida desde o princípio" (João…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

Surpresos com esta repulsa, os dirigentes de Israel enviaram um segundo apelo ao rei, com a promessa: "Subiremos pelo caminho igualado, e se eu e o meu gado bebermos das tuas águas, darei o preço delas; sem fazer alguma outra coisa deixa-me somente passar a pé."

"Não passarás", (Núm. 20:18 e 19) foi a resposta. Bandos armados de edomitas já estavam postados em desfiladeiros difíceis, de maneira que qualquer avanço pacífico naquela direção era impossível, e aos hebreus era vedado recorrer à força. Deveriam fazer a longa jornada ao redor da terra de Edom. Se o povo houvesse confiado em Deus, ao ser trazido à prova, o Capitão da hoste do Senhor tê-los-ia levado através de Edom,

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e o temor deles teria repousado sobre os habitantes da terra, de modo que, em vez de manifestarem hostilidade, ter-lhes-iam mostrado favor. Mas os israelitas não agiram de pronto conforme a Palavra de Deus, e, enquanto estavam a queixar-se e murmurar, passou-se a áurea oportunidade. Quando finalmente estavam prontos para apresentar ao rei seu pedido, este não foi atendido. Sempre, desde que saíram do Egito, estivera Satanás constantemente em atividade para lançar estorvos e tentações em seu caminho, a fim de não herdarem Canaã. E pela sua incredulidade lhe haviam repetidas vezes aberto a porta, para resistir ao propósito de Deus.

É de importância crer na palavra de Deus e com prontidão agir segundo ela, enquanto Seus anjos estão esperando para agir em nosso favor. Anjos maus estão prontos para disputar cada passo para a frente. E, quando a providência de Deus ordena a Seus filhos avançarem, quando Ele está pronto para fazer grandes coisas por eles, Satanás os tenta a desagradar ao Senhor pela hesitação e demora; procura acender um espírito de contenda ou despertar murmuração ou incredulidade, e assim despojá-los das bênçãos que Deus deseja outorgar. Os servos de Deus devem ser homens de ação, sempre prontos para se moverem tão depressa quanto Sua providência abre o caminho. Qualquer demora de sua parte, dá tempo para Satanás agir a fim de os derrotar.

Nas instruções dadas a princípio a Moisés concernentes à sua passagem por Edom, depois de declarar que os edomitas ficariam com medo de Israel, o Senhor proibiu a Seu povo fazer uso desta vantagem contra eles. Conquanto o poder de Deus estivesse empenhado em prol de Israel, e o temor dos edomitas deles fizesse fácil presa, nem por isso deveriam os hebreus depredá-los. A ordem a eles dada foi: "Porém guardai-vos bem. Não vos entremetais com eles, porque vos não darei da sua terra nem ainda a pisada da planta de um pé; porquanto a Esaú tenho dado a montanha de Seir por herança." Deut. 2:4 e 5. Os edomitas eram descendentes de Abraão e Isaque, e por amor a estes Seus servos, Deus mostrara favor aos filhos de Esaú. Ele lhes dera a montanha de Seir em possessão, e não deveriam ser perturbados a menos que pelos seus pecados se colocassem além do alcance de Sua misericórdia. Os hebreus deviam desapossar e destruir totalmente os habitantes de Canaã, que tinham enchido a medida de sua iniqüidade; mas os edomitas estavam ainda sob o tempo de graça, e em tais condições deviam ser tratados

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misericordiosamente. Deus Se deleita com a misericórdia e manifesta compaixão antes de infligir juízos. Ensina Israel a poupar o povo de Edom, antes de exigir que destruam os habitantes de Canaã. Os antepassados de Edom e Israel eram irmãos, e bondade e cortesia fraternal deviam existir entre eles. Proibiu-se aos israelitas, quer naquela ocasião quer em qualquer tempo futuro, vingar a afronta que se lhes fizera com a recusa da passagem pela terra. Não deviam ter expectativa de possuir qualquer parte da terra de Edom. Conquanto os israelitas fossem o povo escolhido e favorecido de Deus, deviam atender às restrições que Ele lhes impunha. Deus lhes prometera uma boa herança; mas não deviam entender que somente eles tinham direitos na terra, e procurar excluir todos os outros. Foram instruídos a que se acautelassem, em todas as suas relações com os edomitas, de lhes fazer injustiça. Deviam negociar com eles, adquirindo por compra os suprimentos necessários, e pagando prontamente tudo que recebiam. Como incitamento a Israel a fim de confiar em Deus, e obedecer à Sua palavra, lembrou-se-lhes: "O Senhor teu Deus te abençoou; ... coisa nenhuma te faltou." Deut. 2:7. Não deviam depender dos edomitas; pois tinham um Deus farto em recursos. Não deviam pela força ou pela fraude procurar obter coisa alguma a eles pertencente; mas, em todas as suas relações, exemplificar o princípio da lei divina: "Amarás a teu próximo como a ti mesmo." Lev. 19:18. Houvessem eles desta maneira passado por Edom, como fora propósito de Deus, a passagem ter-se-ia mostrado ser uma bênção, não somente para eles mesmos mas também aos habitantes da terra; pois lhes teria dado oportunidade de familiarizar-se com o povo de Deus e seu culto, e testemunhar como o Deus de Jacó prosperou aqueles que O amavam e temiam. Tudo isto, porém, a incredulidade de Israel impediu. Deus dera ao povo água em resposta aos seus clamores, mas permitiu que de sua incredulidade resultasse seu próprio castigo. Novamente deviam atravessar o deserto e matar sua sede pela fonte miraculosa, coisa esta de que não mais teriam necessidade caso houvessem confiado nEle. Em conformidade com isto, as hostes de Israel voltaram novamente para o Sul, e seguiram através de áridas regiões, que pareciam mesmo mais medonhas depois de um relance aos pontos verdejantes entre as colinas e vales de Edom. Da cordilheira de montanhas sobranceira a este sombrio deserto, ergue-se o monte de Hor, em cujo cimo morreria e seria sepultado Arão. Quando os israelitas chegaram a esta montanha, foi dirigida a Moisés esta ordem divina: Pág. 425

"Toma a Arão e a Eleazar, seu filho, e faze-os subir ao monte de Hor. E despe a Arão os seus vestidos, e veste-os a Eleazar, seu filho, porque Arão será recolhido, e morrerá ali." Núm. 20:25 e 26. Juntos, esses dois anciãos e o jovem afadigaram-se a galgar a altura da montanha. A cabeça de Moisés e a de Arão estavam brancas com a neve dos cento e vinte invernos. Sua vida longa e cheia de acontecimentos fora assinalada pelas mais sérias provações e maiores honras que já tocaram por sorte ao homem. Eram homens de grande habilidade natural, e todas as suas capacidades tinham-se desenvolvido, exaltado, dignificado, pela comunhão com o Ser infinito. Sua vida fora despendida em abnegado trabalho para Deus e seus semelhantes; seu rosto evidenciava grande capacidade intelectual, firmeza e nobreza de propósitos, e fortes afeições. Muitos anos, Moisés e Arão haviam estado ao lado um do outro em seus cuidados e labores. Juntos tinham lutado com inumeráveis perigos, e juntos participaram de assinaladas bênçãos de Deus; mas perto estava o tempo em que deviam separar-se. Moviam-se muito vagarosamente, pois cada momento da companhia mútua era precioso. A subida era íngreme e fatigante; e, como muitas vezes paravam para descansar, conversavam sobre o passado e o futuro. Diante deles, tanto quanto a vista podia alcançar, estendia-se o cenário de suas vagueações pelo deserto. Na planície, abaixo, estavam acampadas as vastas hostes de Israel, pelas quais esses homens escolhidos de Deus haviam despendido a melhor parte de sua vida; por cujo bem-estar haviam sentido tão profundo interesse e feito tão grandes sacrifícios. Algures, para além das montanhas de Edom, estava o caminho que conduzia à Terra Prometida, terra cujas bênçãos Moisés e Arão não iriam desfrutar. Nenhum sentimento revoltoso encontrava guarida em seu coração, expressão alguma de murmuração lhes escapava dos lábios; todavia uma tristeza solene se estampava em seu rosto, ao lembrarem o que os privara da herança de seus pais.

A obra de Arão em prol de Israel estava concluída. Quarenta anos antes, com a idade de oitenta e três anos, Deus o chamara para unir-se a Moisés em sua grande e importante missão. Ele cooperara com seu irmão, ao tirar do Egito os filhos de Israel. Sustivera as mãos do grande líder quando as hostes hebréias davam batalha a Amaleque. Fora-lhe permitido subir ao Monte Sinai, aproximar-se da presença de Deus, e ver a glória divina. O

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Senhor conferira à família de Arão o ofício do sacerdócio, e o honrara com a santa consagração de sumo sacerdote. Ele o mantivera no ofício santo pelas terríveis manifestações de juízo divino, na destruição de Coré e seu grupo. Foi pela intercessão de Arão que a praga se deteve. Quando seus dois filhos foram mortos por desrespeitarem o mandado expresso de Deus, ele não se rebelou, nem mesmo murmurou. Contudo o relato de sua nobre vida fora deslustrado. Arão cometeu grave pecado quando se rendeu aos clamores do povo e fez o bezerro de ouro no Sinai; e novamente, quando se uniu a Miriã na inveja e murmuração contra Moisés. E, juntamente com Moisés ofendeu o Senhor em Cades, desobedecendo à ordem de falar à rocha para que esta vertesse sua água. Era intuito de Deus que estes grandes dirigentes de Seu povo fossem representantes de Cristo. Arão trazia sobre o peito os nomes de Israel. Comunicava ao povo a vontade de Deus. Entrava no lugar santíssimo no dia da expiação, "não sem sangue", (Heb. 9:7) como mediador de todo o Israel. Saía daquela obra para abençoar a congregação, assim como Cristo sairá para abençoar Seu povo expectante quando Sua obra de expiação em favor do mesmo se finalizar. Foi o caráter exaltado daquele sagrado ofício, como representante de nosso grande Sumo Sacerdote, que tornou o pecado de Arão em Cades de tamanha magnitude.

Com profunda tristeza Moisés removeu de Arão as santas vestes, e as pôs sobre Eleazar, que assim se tornou seu sucessor por determinação divina. Pelo seu pecado em Cades, foi proibido a Arão o privilégio de oficiar como sumo sacerdote de Deus em Canaã - de oferecer o primeiro sacrifício na boa terra, e assim consagrar a herança de Israel. Moisés devia continuar em seu cargo, guiando o povo até as bordas de Canaã. Devia ele chegar até onde poderia avistar a Terra Prometida, mas ali não deveria entrar. Houvessem esses servos de Deus, quando se achavam perante a rocha em Cades, resistido, sem murmurar, à prova que ali lhes sobreveio, quão diferente lhes teria sido o futuro! Um mau ato jamais pode ser desfeito. Pode ser que o trabalho de uma vida inteira não recupere o que se perdeu em um simples momento de tentação ou mesmo de inadvertência. A ausência no acampamento dos dois grandes chefes, e o haverem sido acompanhados por Eleazar, o qual, sabia-se, deveria ser o sucessor de Arão no sagrado ofício, despertaram sentimento de apreensão, e sua volta era ansiosamente esperada. Ao olhar Pág. 427

o povo em redor de si, para a sua vasta congregação, viram que quase todos os adultos que saíram do Egito haviam perecido no deserto. Todos sentiram um mau sinal ao lembrarem-se da sentença pronunciada contra Moisés e Arão. Alguns estavam cientes do objetivo daquela jornada misteriosa ao cume do Monte de Hor, e sua solicitude para com os líderes aumentava em virtude de amarguradas lembranças e acusações contra si mesmos.

As formas de Moisés e Eleazar foram finalmente divisadas descendo vagarosamente a encosta da montanha; mas Arão não estava com eles. Sobre Eleazar estavam os trajes sacerdotais, mostrando que havia sucedido a seu pai no ofício sagrado. Quando o povo com coração pesaroso se reuniu em torno de seu líder, Moisés lhes disse que Arão morrera em seus braços, sobre o Monte Hor, e que eles o sepultaram ali. A congregação rompeu em pranto e lamentação, pois todos amavam Arão, embora lhe houvessem tantas vezes causado tristeza. "Choraram a Arão trinta dias, isto é, toda a casa de Israel." Núm. 20:29.

Com respeito ao sepultamento do sumo sacerdote de Israel, as Escrituras dão apenas este simples relato: "Ali faleceu Arão, e ali foi sepultado." Deut. 10:6. Em que notável contraste com os costumes dos tempos atuais se acha este enterro, efetuado conforme o mandado expresso de Deus. Nos tempos modernos os funerais de um homem de alta posição, muitas vezes dão ensejo para ostentações aparatosas e extravagantes. Quando Arão morreu, sendo ele um dos mais ilustres homens que já viveram, houve apenas dois de seus mais chegados amigos para lhe testemunharem a morte e cuidar de seu enterro. E aquela sepultura solitária sobre o monte de Hor esteve para sempre oculta das vistas de Israel. Deus não é honrado com a grande ostentação tantas vezes feita nos sepultamentos, e com o extravagante dispêndio feito ao restituir o corpo ao pó. A congregação inteira entristeceu-se pela falta de Arão; no entanto não poderia sentir essa perda tão intensamente como Moisés. A morte de Arão forçosamente lembrou a Moisés que seu fim estava próximo; mas, ainda que o tempo de sua permanência na Terra devesse ser breve, sentiu profundamente a perda de seu companheiro constante - aquele que compartilhara de suas alegrias e tristezas, esperanças e temores, durante tantos longos anos. Moisés teria de continuar agora o trabalho, sozinho; mas sabia que Deus era seu amigo, e nEle se apoiou mais pesadamente. Logo depois de partirem do Monte Hor, os israelitas sofreram Pág. 428

revés em um combate com Harade, um dos reis cananeus. Mas, como fervorosamente buscassem auxílio de Deus, foi-lhes concedida a ajuda divina, e seus inimigos foram derrotados. Esta vitória, em vez de inspirar gratidão ao povo e levá-lo a sentir sua dependência de Deus, tornou-os jactanciosos e presunçosos. Logo caíram no velho hábito de murmurar. Estavam agora descontentes porque aos exércitos de Israel não fora permitido avançar contra Canaã imediatamente depois de sua rebelião por motivo do relato dos espias, quase quarenta anos antes. Declararam ser sua longa peregrinação pelo deserto uma demora desnecessária, raciocinando que poderiam ter vencido seus inimigos tão facilmente outrora como então.

Continuando sua jornada em direção ao Sul, estendia-se seu itinerário através de um vale quente, arenoso, destituído de sombra ou vegetação. O caminho parecia longo e difícil, e sofriam cansaço e sede. De novo não puderam suportar a prova de sua fé e paciência. Ocupando-se continuamente com o lado tenebroso de suas experiências, separaram-se mais e mais de Deus. Perderam de vista que, caso não houvessem murmurado quando cessou a água em Cades, ter-lhes-ia sido poupada a jornada em redor de Edom. Deus tivera o propósito de melhores coisas para eles. Devia ter-se-lhes enchido de gratidão o coração para com Ele, por haver-lhes punido de modo tão leve o pecado. Mas, em vez disto, lisonjeavam-se de que, se Deus e Moisés não houvessem intervindo, poderiam agora estar de posse da Terra Prometida. Depois de trazerem sobre si dificuldades, tornando sua sorte muito mais rigorosa do que era intuito de Deus, a Ele atribuíram todos os seus infortúnios. Assim alimentavam amargos pensamentos com relação ao Seu trato para com eles, e finalmente ficaram descontentes com tudo. O Egito parecia-lhes brilhante e mais desejável do que a liberdade, e do que a terra para a qual Deus os estava guiando.

Condescendendo os israelitas com o espírito de descontentamento, dispuseram-se para achar defeitos mesmo em suas bênçãos. "E o povo falou contra Deus e contra Moisés: Por que nos fizeste subir do Egito, para que morrêssemos neste deserto? Pois nem pão nem água há; e a nossa alma tem fastio deste pão tão vil." Núm. 21:5.

Moisés apresentou com fidelidade ao povo o grande pecado deles. Fora o poder de Deus apenas que os preservara naquele "grande e terrível deserto de serpentes ardentes, e de escorpiões, Pág. 429

e de secura, em que não havia água". Deut. 8:15. Em cada dia das suas viagens tinham sido guardados por um milagre da misericórdia divina. Em todo o caminho, sob a guia de Deus, tinham encontrado água para refrescar os sedentos, pão do Céu para satisfazer a fome, e paz e segurança, debaixo da nuvem que dava sombra durante o dia, e debaixo da coluna de fogo à noite. Anjos lhes haviam ministrado enquanto subiam as montanhas rochosas, ou desfilavam pelas ásperas sendas do deserto. Apesar das dificuldades que tinham sofrido, nenhum havia que fosse fraco em todas as suas fileiras. Seus pés não se haviam inchado nas longas jornadas, tampouco se lhes envelheceu a roupa. Deus subjugara diante deles as feras rapinantes e os répteis venenosos da floresta e do deserto. Se com todos estes sinais de Seu amor o povo ainda continuava a queixar-se, o Senhor retiraria Sua proteção até que fossem levados a apreciar Seu misericordioso cuidado, e a voltar-se para Ele com arrependimento e humilhação.

Por que tivessem sido protegidos pelo poder divino, não se compenetraram dos incontáveis perigos de que se achavam continuamente rodeados. Em sua ingratidão e incredulidade, haviam desejado a morte, e agora o Senhor permitiu que esta viesse para eles. As serpentes venenosas que infestavam o deserto foram chamadas serpentes ardentes, por causa dos terríveis efeitos produzidos por sua mordedura, que causava inflamação violenta e morte rápida. Removendo-se de Israel a mão protetora de Deus, grande número de pessoas foram atacadas por esses animais venenosos. Houve então terror e confusão por todo o acampamento. Em quase cada tenda havia moribundos ou mortos. Ninguém estava livre. Muitas vezes o silêncio da noite era interrompido por gritos penetrantes que significavam novas vítimas. Todos estavam ocupados em tratar dos sofredores, ou esforçando-se com um cuidado torturante por proteger os que ainda não tinham sido picados. Nenhuma murmuração escapava agora de seus lábios. Comparados com seu sofrimento presente, as dificuldade e provações anteriores pareciam indignas de qualquer consideração. O povo humilhou-se agora perante Deus. Vieram a Moisés com suas confissões e rogos. "Havemos pecado", disseram, "porquanto temos falado contra o Senhor e contra ti." Núm. 21:7. Pouco antes, haviam-no acusado de ser o seu pior inimigo, a causa de todas as suas angústias e aflições. Mas sabiam que a acusação era falsa, mesmo quando as palavras estavam em seus lábios; e, Pág. 430

mal chegara a dificuldade real, correram para ele como o único que poderia interceder junto a Deus por eles. "Ora ao Senhor", clamaram, "que tire de nós estas serpentes." Núm. 21:7. Foi divinamente ordenado a Moisés fazer uma serpente de metal, assemelhando-se às serpentes vivas, e erguê-la entre o povo. Para esta todos os que haviam sido feridos deviam olhar, e encontrariam alívio. Ele assim fez, e repercutiu por todo o acampamento a alegre notícia de que todos os que houvessem sido mordidos poderiam olhar para a serpente de metal e viver. Muitos já haviam morrido e, quando Moisés ergueu a serpente sobre a haste, alguns não queriam crer que meramente o olhar para a figura de metal os curaria; estes pereceram em sua incredulidade. Muitos havia, contudo, que tinham fé no meio que Deus provera. Pais, mães, irmãos e irmãs estavam ansiosamente empenhados em ajudar amigos sofredores e moribundos a fixar na serpente seus desfalecidos olhares. Se estes, embora abatidos e moribundos, tão-somente pudessem olhar uma vez, eram perfeitamente restabelecidos. O povo bem sabia que na serpente de metal não havia poder para causar tal mudança nos que a contemplavam. A virtude curadora provinha de Deus tão-somente. Em Sua sabedoria, escolheu Ele este meio de demonstrar Seu poder. Por essa maneira simples o povo foi levado a reconhecer que aquele mal lhes fora acarretado por seus pecados. Foi-lhes também afirmado que, enquanto obedecessem a Deus, não tinham motivo para temer; pois Ele os preservaria. O levantamento da serpente de bronze deveria ensinar a Israel uma importante lição. Não poderiam salvar a si mesmos dos efeitos fatais do veneno em seus ferimentos. Apenas Deus os poderia curar. Contudo exigia-se-lhes mostrar fé no meio que Ele provera. Deviam olhar, a fim de viverem. A sua fé é que era aceitável diante de Deus; e, olhando a serpente, mostravam a sua fé. Sabiam que não havia virtude na serpente mesma, mas era ela um símbolo de Cristo; e a necessidade de fé em Seus méritos era-lhes assim apresentada ao espírito. Até ali muitos haviam trazido suas ofertas a Deus, e entendiam que assim fazendo efetuavam uma ampla expiação por seus pecados. Não depositavam sua confiança no Redentor vindouro, de quem essas ofertas eram apenas um tipo. O Senhor queria agora ensinar-lhes que seus sacrifícios em si mesmos, não tinham mais poder nem virtude do que a serpente de bronze, mas deviam, como aquela, dirigir a mente a Cristo, a grande oferta pelo pecado. Pág. 431

"Como Moisés levantou a serpente no deserto", assim foi levantado o Filho do homem, "para que todo aquele que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna." João 3:14 e 15. Todos os que têm vivido na Terra, têm sentido a picada mortífera daquela "antiga serpente, chamada o diabo, e Satanás". Apoc. 12:9. Os efeitos fatais do pecado podem apenas ser removidos pela provisão que Deus fez. Os israelitas salvaram a própria vida olhando para a serpente levantada. Aquele olhar envolvia fé. Viviam porque acreditavam na palavra de Deus, e confiavam no meio provido para o seu restabelecimento. Assim o pecador pode olhar a Cristo, e viver. Recebe perdão pela fé no sacrifício expiatório. Diferente do símbolo inerte e inanimado, Cristo tem poder e virtude em Si mesmo para curar o pecador arrependido.

Conquanto o pecador não possa salvar-se a si próprio, tem algo que fazer para conseguir a salvação. "O que vem a Mim", disse Cristo, "de maneira nenhuma o lançarei fora." João 6:37. Mas devemos ir a Ele; e, quando nos arrependemos de nossos pecados, devemos crer que Ele nos aceita e perdoa. A fé é dom de Deus, mas a faculdade de exercê-la é nossa. A fé é a mão pela qual a alma se apodera das ofertas divinas de graça e misericórdia.

Nada além da justiça de Cristo pode dar-nos direito às bênçãos do concerto da graça. Muitos há que durante longo tempo têm desejado e procurado obter essas bênçãos, mas não as têm recebido, porque têm acariciado a idéia de que podiam fazer algo para se tornarem dignos das mesmas. Eles não têm olhado fora de si, e crido que Jesus é um Salvador inteiramente capaz. Não devemos crer que nossos próprios méritos nos salvarão; Cristo é a nossa única esperança de salvação. "Debaixo do Céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos." Atos 4:12. Quando confiarmos em Deus completamente, quando contarmos com os méritos de Jesus como um Salvador que perdoa o pecado, receberemos todo o auxílio que pudermos desejar. Que ninguém olhe para si, como se tivesse poder para salvar-se. Jesus por nós morreu porque éramos impotentes para fazer isso. NEle está a nossa esperança, nossa justificação, nossa justiça. Quando vemos nossa pecaminosidade, não devemos desalentar-nos, e recear que não temos Salvador, ou que Ele não tem pensamentos de misericórdia para conosco. Nessa mesma ocasião está Ele convidando-nos para chegar a Si, em nosso desamparo, e sermos salvos.

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Muitos dos israelitas não reconheceram auxílio no remédio que o Céu havia indicado. Os mortos e moribundos estavam em redor deles, e sabiam que, sem ajuda divina, sua própria sorte era certa; mas continuavam a lamentar seus ferimentos, suas dores, sua morte certa, até que lhes desaparecia a força, e os olhos ficavam embaciados, quando poderiam ter tido cura instantânea. Se temos consciência de nossas necessidades, não devemos empregar nossas forças em lamentação por causa delas. Conquanto nos compenetremos de nossa condição de desamparo, sem Cristo, não devemos entregar-nos ao desânimo, mas confiar nos méritos de um Salvador crucificado e ressuscitado. Olhai e vivei. Jesus empenhou Sua palavra; Ele salvará todos os que a Ele se chegarem. Embora milhões que necessitam ser curados rejeitem Sua misericórdia que é oferecida, nenhum dos que confiam em Seus méritos será deixado a perecer.

Muitos não querem aceitar a Cristo antes que lhes fique claro todo o mistério do plano da salvação. Recusam o olhar da fé, embora vejam que milhares têm olhado para a cruz de Cristo e sentido a eficácia desse olhar. Muitos vagueiam nos labirintos da filosofia, em busca de razões e provas que nunca encontrarão, ao mesmo tempo que rejeitam as provas que Deus foi servido dar-lhes. Recusam-se a andar na luz do Sol da Justiça, antes que lhes seja explicada a razão de seu resplendor. Todos quantos persistirem nesta atitude deixarão de chegar ao conhecimento da verdade. Deus nunca removerá todo o motivo para a dúvida. Ele dá prova suficiente sobre que basear a fé e, se isto não é aceito, a mente é deixada em trevas. Se aqueles que foram picados pelas serpentes se tivessem detido para duvidar e discutir antes de se resolverem a olhar, teriam perecido. Temos o dever, primeiramente, de olhar; e o olhar de fé nos dará vida.

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A Conquista de Basã

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Depois de passarem para o sul de Edom, os israelitas voltaram-se para o norte, e novamente volveram o rosto em direção à Terra Prometida. Seu caminho agora se estendia por uma planície vasta, elevada, batida pelas aragens frescas e agradáveis das colinas. Foi isto uma mudança oportuna do vale ressequido através do qual tinham estado a viajar; e avançaram eufóricos e esperançosos. Tendo atravessado o ribeiro Zerede, passaram para o oriente da terra de Moabe; pois tinha sido dada esta ordem: "Não molestes a Moabe, e não contendas com eles em peleja, porque te não darei herança da sua terra; porquanto tenho dado Ar aos filhos de Ló." Deut. 2:9. E a mesma determinação foi repetida com relação aos amonitas, que também eram descendentes de Ló. Ainda avançando para o norte, as hostes de Israel logo chegaram ao país dos amorreus. Este povo forte e belicoso ocupava originariamente a parte sul da terra de Canaã; mas, aumentando em número, atravessaram o Jordão, fizeram guerra aos moabitas, e obtiveram posse de parte de seu território. Ali se fixaram, mantendo domínio indiscutível por toda a terra, desde o Arnom para o norte até o Jaboque. O caminho para o Jordão, pelo qual os israelitas desejavam prosseguir, estendia-se diretamente através deste território, e Moisés enviou uma mensagem amigável a Seom, o rei amorreu, em sua capital: "Deixa-me passar pela tua terra; somente pela estrada irei; não me desviarei para a direita nem para a esquerda. A comida que eu coma, vender-ma-ás por dinheiro, e dar-me-ás por dinheiro a água que beba; tão-somente deixa-me passar a pé." (Deut. 2:27 e 28) A resposta foi uma decidida recusa; e todos os exércitos dos amorreus foram convocados para se oporem à marcha dos invasores. Esse formidável exército aterrorizou os israelitas, que estavam mal preparados para um encontro com forças bem armadas e disciplinadas. Tanto quanto

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dizia respeito à arte da guerra, os seus inimigos tinham a vantagem. Segundo toda a aparência humana, Israel teria um fim imediato.

Mas Moisés conservava seu olhar fixo na coluna de nuvem, e incentivava o povo com o pensamento de que o sinal da presença de Deus ainda estava com eles. Ao mesmo tempo determinou-lhes fazerem tudo que a força humana podia fazer no preparo para a guerra. Seus inimigos estavam ávidos de batalhar, e confiantes em que exterminariam da terra os israelitas, que não estavam preparados. Mas, do Possuidor de toda a Terra, havia saído a ordem para o líder de Israel: "Levantai-vos, parti e passai o ribeiro de Arnom; eis aqui na tua mão tenho dado Seom, amorreu, rei de Hesbom, e a sua terra; começa a possuí-la, e contende com eles em peleja. Este dia começarei a pôr um terror e um temor de ti diante dos povos que estão debaixo de todo o céu; os que ouvirem a tua fama tremerão diante de ti e se angustiarão." Deut. 2:24 e 25.

Estas nações nas fronteiras de Canaã teriam sido poupadas, caso não se houvessem levantado em desafio à palavra de Deus para se oporem à marcha de Israel. O Senhor Se mostrara longânimo, de grande bondade e terna piedade, mesmo para com esses povos gentílicos. Quando a Abraão foi mostrado em visão que sua semente, os filhos de Israel, seriam estrangeiros em terra estranha, durante quatrocentos anos, o Senhor lhe fez uma promessa: "A quarta geração tornará para cá; porque a medida da injustiça dos amorreus não está ainda cheia." Gên. 15:16. Embora os amorreus fossem idólatras e houvessem com justiça perdido o direito à vida por causa de sua grande impiedade, Deus os poupou durante quatrocentos anos para dar-lhes prova inequívoca de que Ele era o único verdadeiro Deus, o Criador do céu e da Terra. Todos os Seus prodígios ao tirar Israel do Egito eram deles conhecidos. Prova suficiente fora dada; eles poderiam ter conhecido a verdade, caso tivessem estado dispostos a volver de sua idolatria e licenciosidade. Mas rejeitaram a luz e apegaram-se a seus ídolos. Quando o Senhor pela segunda vez trouxe o Seu povo às fronteiras de Canaã, outra prova de Seu poder foi concedida àquelas nações gentílicas. Viram que Deus estava com Israel na vitória ganha sobre o rei Harade e os cananeus, e no milagre operado para salvar os que estavam a perecer da picada das serpentes. Posto que aos israelitas houvesse sido recusada passagem pela terra de Edom, sendo obrigados a fazer assim longo e difícil

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itinerário ao lado do Mar Vermelho, não haviam eles, contudo, em todas as suas jornadas e acampamentos junto a terra de Edom, Moabe e Amom, mostrado hostilidade, e nenhum mal fizeram ao povo ou às suas posses. Atingindo as fronteiras dos amorreus, Israel pedira permissão apenas para passar diretamente pelo país, prometendo observar as mesmas regras que tinham presidido a suas relações com outras nações. Quando o rei amorreu recusou satisfazer este atencioso pedido, e arrogantemente reuniu seus exércitos para a batalha, sua taça de iniqüidade estava cheia, e Deus agora exerceria Seu poder para os subverter.

Os israelitas atravessaram o rio Arnom e avançaram contra o adversário. Travou-se um combate, no qual os exércitos de Israel foram vitoriosos; e prosseguindo com a vantagem adquirida, logo ficaram de posse do país dos amorreus. Foi o Capitão do exército do Senhor que venceu os inimigos de Seu povo; e teria feito o mesmo trinta e oito anos antes, se Israel houvesse nEle confiado. Cheio de esperança e ânimo, o exército de Israel avançava ardorosamente e, jornadeando ainda em direção ao norte, chegaram logo a um país que bem poderia pôr à prova seu ânimo e fé em Deus. Diante deles se achava o poderoso e populoso reino de Basã, cheio de grandes cidades de pedra que até hoje provocam a admiração do mundo: "sessenta cidades, ... com altos muros, portas e ferrolhos; além de outras muitas cidades sem muros". Deut. 3:1-11. As casas eram construídas de enormes pedras negras, de tamanho tão formidável que tornava os edifícios absolutamente inexpugnáveis a qualquer força que naqueles tempos pudesse ser levada contra eles. Era um território repleto de cavernas desertas, fundos precipícios, abismos hiantes e fortalezas rochosas. Os habitantes desta terra, descendentes de uma raça de gigantes, eram de estatura e força maravilhosas, e tão notados pela violência e crueldade que eram o terror de todas as nações circunvizinhas; e isto ao mesmo tempo em que Ogue, rei do país, era notável pela estatura e proezas, mesmo em uma nação de gigantes. Mas a coluna de nuvem moveu-se para a frente, e guiando-se por elas as hostes hebréias avançavam para Edrei, onde o rei gigante, com suas forças, esperava a sua aproximação. Ogue havia habilmente escolhido o local para a batalha. A cidade de Edrei estava situada à margem de um tabuleiro que se erguia abruptamente da planície, e coberto de rochas vulcânicas pontiagudas. A Pág. 436

ela só se podia chegar por veredas estreitas, íngremes e difíceis de subir. Em caso de derrota, suas forças poderiam encontrar refúgio naquele deserto de rochas, onde seria impossível aos estrangeiros seguirem-nas.

Confiante no êxito, o rei saiu com um imenso exército para a planície aberta; ao mesmo tempo aclamações de desafio eram ouvidas do tabuleiro acima, onde se podiam ver as lanças de milhares ávidos pela batalha. Quando os hebreus olharam para a figura excelsa daquele gigante de gigantes, sobressaindo por sobre os soldados de seu exército; ao verem as hostes que o rodeavam, e a fortaleza aparentemente inexpugnável, atrás da qual milhares invisíveis estavam entrincheirados, o coração de muitos em Israel estremeceu de temor. Moisés, porém, estava calmo e firme; o Senhor dissera com relação ao rei de Basã: "Não o temas, porque a ele e a todo o seu povo, e a sua terra, tenho dado na tua mão; e far-lhe-ás como fizeste a Seom, rei dos amorreus, que habitava em Hesbom." Deut. 3:2. A fé calma de seu líder inspirava ao povo confiança em Deus. Em tudo contavam com Seu onipotente braço, e Ele os não desamparou. Nem poderosos gigantes, nem cidades muradas, exércitos armados, nem pétreas fortalezas, poderiam subsistir perante o Capitão das hostes do Senhor. O Senhor guiou o exército; o Senhor desbaratou o inimigo; o Senhor venceu em prol de Israel. O rei gigante e seu exército foram destruídos; e os israelitas logo tomaram posse de todo o país. Assim foi tirado da terra aquele povo estranho, que se dera à iniqüidade e à idolatria abominável. Na conquista de Gileade e Basã havia muitos que se recordavam dos acontecimentos que, quase quarenta anos antes, haviam em Cades condenado Israel à longa peregrinação no deserto. Viam que o relato dos espias a respeito da Terra Prometida era correto em muitos aspectos. As cidades eram muradas e muito grandes, e eram habitadas por gigantes, em comparação com estes os hebreus eram simples pigmeus. Mas podiam agora ver que o erro fatal de seus pais fora não confiar no poder de Deus. Isso, apenas, os impedira de entrar logo na boa terra. Quando a princípio se estiveram preparando para entrar em Canaã, este empreendimento era acompanhado de muito menos dificuldade do que agora. Deus prometera a Seu povo que, se obedecessem à Sua voz, Ele iria adiante deles e por eles combateria; e enviaria também vespões para expelir os habitantes da terra. O temor das nações não tinha sido geralmente suscitado, e pouco Pág. 437

preparo fora feito para resistir à sua marcha. Mas, mandando o Senhor agora Israel ir avante, deviam avançar contra adversários vigilantes e poderosos, e contender com exércitos grandes e bem treinados, que tinham estado a preparar-se para resistir a sua aproximação. Em suas competições com Ogue e Seom, o povo fora trazido sob a mesma prova debaixo da qual seus pais fracassaram tão assinaladamente. Entretanto, a prova era agora muito mais severa do que quando Deus ordenara a Israel que avançasse. As dificuldades em seu caminho tinham aumentado grandemente desde que se recusaram a avançar, ao ser-lhes mandado assim fazer em nome do Senhor. É assim que Deus ainda prova Seu povo. E, se deixam de resistir à prova, Ele os traz de novo ao mesmo ponto; e a segunda vez a prova será mais rigorosa, e mais severa do que a precedente. Isto continua até que resistam à prova; ou, se ainda são rebeldes, Deus retira deles Sua luz, e os deixa em trevas.

Os hebreus lembraram-se agora de como uma vez, anteriormente, ao saírem suas forças para a batalha, foram derrotados, e milhares morreram. Mas tinham ido, então, em oposição direta à ordem de Deus. Haviam saído sem Moisés, o líder designado por Deus, sem a coluna de nuvem, símbolo da presença divina, e sem a arca. Agora, porém, Moisés estava com eles, fortalecendo-lhes o coração com palavras de esperança e fé; o Filho de Deus, encerrado na coluna de nuvem, abria o caminho; e a arca sagrada acompanhava o exército. Esta experiência tem uma lição para nós. O poderoso Deus de Israel é o nosso Deus. NEle podemos confiar; e se Lhe obedecermos as ordens Ele operará em nosso favor de maneira tão assinalada como fez para com Seu antigo povo. Todo aquele que procura seguir o caminho do dever, será às vezes assaltado por dúvidas e incredulidade. O caminho algumas vezes estará tão cheio de obstáculos, aparentemente insuperáveis, que abaterão os que cedem ao desânimo; mas Deus está a dizer a tais: Ide avante! Cumpri vosso dever custe o que custar. As dificuldades que parecem tão enormes, que vos enchem de terror a alma, se desvanecerão ao avançardes no caminho da obediência, confiando humildemente em Deus.

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Balaão

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Voltando ao Jordão da conquista de Basã, os israelitas, em preparativos para a imediata invasão de Canaã, acamparam ao lado do rio Jordão, acima de sua foz no Mar Morto, e precisamente defronte da planície de Jericó. Estavam exatamente nas fronteiras de Moabe, e os moabitas estavam cheios de terror pela grande proximidade dos invasores.

O povo de Moabe não fora incomodado por Israel, todavia eles tinham observado com inquietadores pressentimentos tudo que ocorrera nos países circunvizinhos. Os amorreus, de diante dos quais eles tinham sido obrigados a bater em retirada, haviam sido vencidos pelos hebreus, e o território que tinham extorquido de Moabe estava agora de posse de Israel. Os exércitos de Basã haviam-se rendido diante do misterioso poder envolto na coluna de nuvem, e as gigantescas fortalezas foram ocupadas pelos hebreus. Os moabitas não ousaram arriscar contra ele um ataque; o recurso às armas seria inútil em vista das forças sobrenaturais que operavam em seu favor. Mas decidiram-se, como Faraó fizera, a pôr a seu serviço o poder da feitiçaria para contrariar a obra de Deus. Queriam acarretar uma maldição sobre Israel.

O povo de Moabe estava intimamente ligado com os midianitas, tanto pelo laços de nacionalidade como de religião. E Balaque, rei de Moabe, despertou os receios do povo aparentado, e conseguiu sua cooperação em seus intuitos contra Israel, por meio da mensagem: "Agora lamberá esta congregação tudo quanto houver ao redor de nós, como o boi lambe a erva do campo." Núm. 22-24. Dizia-se que Balaão, morador da Mesopotâmia, possuía poderes sobrenaturais, e sua fama chegou à terra de Moabe. Resolveu-se chamá-lo em seu auxílio. Nestas condições, mensageiros dos "anciãos dos moabitas e os anciãos dos midianitas", foram enviados para conseguirem suas adivinhações e encantamentos contra Israel.

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Os embaixadores logo se puseram a caminho em sua longa viagem, através de montanhas e de desertos, para a Mesopotâmia; e, encontrando Balaão, transmitiram-lhe a mensagem de seu rei: "Eis que um povo saiu do Egito; eis que cobre a face da terra, e parado está defronte de mim. Vem pois agora, rogo-te, amaldiçoa-me este povo, pois mais poderoso é do que eu; para ver se o poderei ferir, e o lançarei fora da terra; porque eu sei que, a quem tu abençoares será abençoado, e a quem tu amaldiçoares será amaldiçoado." Núm. 22:6.

Balaão já havia sido um bom homem e profeta de Deus; mas apostatara e entregara-se à cobiça; todavia professava ainda ser servo do Altíssimo. Não ignorava a obra de Deus em prol de Israel; e, quando os enviados comunicaram sua mensagem, bem sabia que era seu dever recusar as recompensas de Balaque, e despedir os embaixadores. Mas arriscou-se a contemporizar com a tentação, e instou com os mensageiros para que ficassem com ele aquela noite, declarando que não poderia dar resposta decisiva antes que houvesse pedido conselho da parte do Senhor. Balaão sabia que sua conduta não poderia prejudicar Israel. Deus estava ao lado deles; e, enquanto fossem fiéis, nenhum poder adverso, da Terra ou do inferno, poderia prevalecer contra eles. Mas seu orgulho fora lisonjeado com as palavras dos embaixadores: "A quem tu abençoares será abençoado, e a quem tu amaldiçoares será amaldiçoado." As seduções de valiosas dádivas e a exaltação em perspectiva provocaram-lhe a cobiça. Avidamente aceitou os tesouros oferecidos, e então, ao mesmo tempo em que professava obediência estrita à vontade de Deus, procurou satisfazer os desejos de Balaque. À noite o anjo do Senhor veio a Balaão, com esta mensagem: "Não irás com eles, nem amaldiçoarás a este povo, porquanto bendito é."

Pela manhã, Balaão despediu relutantemente os mensageiros; mas não lhes referiu o que o Senhor dissera. Irado por se terem dissipado subitamente suas visões de lucro e honra, exclamou petulantemente: "Ide à vossa terra, porque o Senhor recusa deixar-me ir convosco." Núm. 22:12 e 13. Balaão "amou o prêmio da injustiça". II Ped. 2:15. O pecado da cobiça, que Deus declara ser idolatria, dele fizera um servo de ocasião, e, mediante esta única falta, Satanás obteve inteiro domínio sobre ele. Foi isto que causou a sua ruína. O tentador

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está sempre a apresentar lucros e honras mundanas para aliciar os homens do serviço de Deus. Diz-lhes que são os seus demasiados escrúpulos de consciência que os impedem de alcançar a prosperidade. Assim muitos são induzidos ao risco de saírem do caminho da estrita integridade. Um passo errado torna o outro mais fácil, e eles se tornam cada vez mais presunçosos. Farão e ousarão as mais terríveis coisas quando uma vez se entregaram ao domínio da cobiça e do desejo de poderio. Muitos se lisonjeiam com a idéia de que podem afastar-se da integridade estrita durante algum tempo, por amor a alguma vantagem mundana, e que, tendo conseguido seu objetivo, podem mudar sua conduta quando lhes aprouver. Esses tais se acham a enredar-se na cilada de Satanás, e raramente escapam.

Quando os mensageiros deram parte a Balaque da recusa do profeta a acompanhá-los, não deram a entender que Deus lho proibira. Supondo que a demora de Balaão visava simplesmente conseguir uma recompensa mais valiosa, o rei enviou príncipes em maior número e mais dignos do que os primeiros, com promessas de mais altas honras, e com autorização de concordar com quaisquer condições que Balaão pudesse exigir. A urgente mensagem de Balaque ao profeta, era: "Rogo-te que não te demores em vir a mim, porque grandemente te honrarei, e farei tudo o que me disseres; vem pois, rogo-te, amaldiçoa-me este povo." Núm. 22:16 e 17.

Segunda vez foi Balaão provado. Em resposta às solicitações dos embaixadores, ele se disse possuidor de muita consciência e integridade, afirmando-lhes que nenhuma quantidade de ouro ou prata poderia induzi-lo a ir de encontro à vontade de Deus. Mas anelava condescender com o pedido do rei; e, se bem que a vontade de Deus já se lhe houvesse tornado definidamente conhecida, insistiu com os mensageiros para que ficassem, a fim de que pudesse consultar outra vez a Deus; e isto como se o Ser infinito fosse um homem, para ser persuadido.

À noite, o Senhor apareceu a Balaão e disse: "Se aqueles homens te vierem chamar, levanta-te, vai com eles; todavia farás o que Eu te disser." Até este ponto o Senhor permitiria que Balaão seguisse sua vontade, porque ele estava resolvido a isto. Não procurou fazer a vontade de Deus, mas escolheu seu próprio caminho e então esforçou-se por conseguir a sanção do Senhor. Há na atualidade milhares que estão seguindo uma conduta semelhante. Não teriam dificuldade em compreender seu dever se este estivesse em harmonia com suas inclinações. Acha-se na Pág. 441