Patriarcas e Profetas

Ellen G. White · Capítulo 5 de 9 · parte 3/5

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Patriarcas e Profetas

Satanás foi "homicida desde o princípio" (João…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

O coração de Moisés desfaleceu. Pleiteara que Israel não fosse destruído, mesmo que sua própria posteridade se tornasse então uma grande nação. Em seu amor por eles, rogara fosse Pág. 380

antes o seu nome riscado do livro da vida do que se deixassem eles a perecer. Por eles arriscara tudo, e este era o modo em que correspondiam. Todas as suas dificuldades, mesmo os sofrimentos imaginários, atribuíam a ele; e suas ímpias murmurações tornavam duplamente pesado o fardo de cuidados e responsabilidades sob que ele cambaleava. Em sua angústia foi tentado mesmo a não confiar em Deus. Sua oração foi quase uma queixa. "Por que fizeste mal a Teu servo, e por que não achei graça a Teus olhos, que pusesses sobre mim o cargo de todo este povo? ... Donde teria eu carne para dar a todo este povo? porquanto contra mim choram, dizendo: Dá-nos carne a comer. Eu só não posso levar a todo este povo, porque muito pesado é para mim." Núm. 11:11, 13 e 14. O Senhor atendeu-lhe à oração, e ordenou-lhe convocar dos anciãos de Israel setenta homens, não somente avançados em idade, mas que possuíssem dignidade, juízo são e experiência. "E os trarás perante a tenda da congregação, e ali se porão contigo", disse Ele. "Então Eu descerei e ali falarei contigo e tirarei do Espírito que está sobre ti, e O porei sobre eles; e contigo levarão o cargo do povo, para que tu só o não leves." Núm. 11:16 e 17.

O Senhor permitiu a Moisés escolher por si mesmo os homens mais fiéis e aptos para com ele participarem da responsabilidade. Sua influência ajudaria a sustar a violência do povo e sufocar a insurreição; contudo, graves males resultariam finalmente de sua promoção. Eles nunca teriam sido escolhidos caso Moisés houvesse manifestado uma fé que correspondesse às provas que tivera do poder e bondade de Deus. Mas ele exagerara seus encargos e trabalhos, quase perdendo de vista que era apenas o instrumento pelo qual Deus operara. Não tinha desculpa, por condescender, por pouco que fosse, com o espírito de murmuração, que era a maldição de Israel. Se tivesse depositado inteira confiança em Deus, o Senhor tê-lo-ia guiado continuamente, e lhe teria dado forças para toda emergência.

Determinou-se a Moisés preparar o povo para o que Deus estava prestes a fazer para eles. "Santificai-vos para amanhã, e comereis carne; porquanto chorastes aos ouvidos do Senhor, dizendo: Quem nos dará carne a comer, pois bem nos ia no Egito? Pelo que o Senhor vos dará carne, e comereis. Não comereis um dia,

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nem dois dias, nem cinco dias, nem dez dias, nem vinte dias; mas um mês inteiro, até vos sair pelos narizes, até que vos enfastieis dela; porquanto rejeitastes ao Senhor, que está no meio de vós, e chorastes diante dEle, dizendo: Por que saímos do Egito?"

"Seiscentos mil homens de pé é este povo, no meio do qual estou", exclamou Moisés; "e Tu tens dito: Dar-lhes-ei carne, e comerão um mês inteiro. Degolar-se-ão para eles ovelhas e vacas, que lhes bastem? ou ajuntar-se-ão para eles todos os peixes do mar?" Foi-lhe reprovada a falta de confiança: "Será pois encurtada a mão do Senhor? Agora verás se a Minha palavra acontecerá ou não." Núm. 11:18-23.

Moisés repetiu à congregação as palavras do Senhor, e anunciou a designação dos setenta anciãos. O encargo imposto pelo grande dirigente àqueles homens escolhidos, bem poderia servir de modelo de integridade judicial para os juízes e legisladores dos tempos modernos: "Ouvi a causa entre vossos irmãos, e julgai justamente entre o homem e seu irmão, e entre o estrangeiro que está com ele. Não atentareis para pessoa alguma em juízo, ouvireis assim o pequeno como o grande. Não temereis a face de ninguém, porque o juízo é de Deus." Deut. 1:16 e 17. Moisés convocou agora os setenta ao tabernáculo. "Então o Senhor desceu na nuvem e lhe falou; e, tirando do Espírito que estava sobre ele, O pôs sobre aqueles setenta anciãos; e aconteceu que, quando o Espírito repousou sobre eles, profetizaram, mas depois nunca mais." Núm. 11:25. Como os discípulos no dia de Pentecostes, foram dotados de "poder do alto." Luc. 24:49. Aprouve assim ao Senhor prepará-los para a Sua obra, e honrá-los na presença da congregação, a fim de que se estabelecesse confiança neles como homens divinamente escolhidos para se unirem com Moisés no governo de Israel.

De novo se demonstrou o espírito nobre e abnegado do grande chefe. Dois dos setenta, considerando-se humildemente como indignos de uma posição de tal responsabilidade, não se reuniram com seus irmãos no tabernáculo; mas o Espírito de Deus veio sobre eles onde se achavam, e também exerceram o dom de profecia. Sendo informado a tal respeito, Josué quis pôr cobro a tal irregularidade, receando que a mesma tendesse para divisão. Zeloso pela honra de seu senhor, disse ele: "Senhor meu, Moisés, Pág. 382

proíbe-lho." A resposta foi: "Tens tu ciúmes por mim? Oxalá que todo o povo do Senhor fosse profeta, que o Senhor lhes desse o Seu Espírito!"

Um vento forte, soprando do mar, trouxe então bandos de codornizes, "quase caminho dum dia de uma banda, e quase caminho dum dia doutra banda, à roda do arraial, e quase dois côvados sobre a terra." Núm. 11:28, 29 e 31. Todo aquele dia e aquela noite, e o dia seguinte, o povo trabalhou ajuntando alimento miraculosamente provido. Obtiveram imensa quantidade. "O que menos tinha, colhera dez ômeres." Núm. 11:32. Tudo que não era necessário usar-se no momento, foi conservado, secando-se de modo que o suprimento, conforme fora prometido, foi suficiente para um mês inteiro. Deus deu ao povo aquilo que não era para seu máximo bem, porque persistiram em desejá-lo; não queriam satisfazer-se com as coisas que se mostrariam ser para eles um benefício. Seus rebeldes desejos foram satisfeitos, mas foram entregues ao sofrimento das conseqüências. Comeram sem restrições, e seus excessos foram prontamente punidos. "E feriu o Senhor o povo com uma praga mui grande." Núm. 11:33. Grande número foi ceifado pela febre ardente, enquanto os mais culpados entre eles foram feridos logo que provaram o alimento cobiçado. Em Hazerote, o próximo acampamento depois de saírem de Taberá, uma prova ainda mais amarga esperava Moisés. Arão e Miriã tinham ocupado posição de grande honra e de chefia em Israel. Ambos eram favorecidos com o dom de profecia e, por determinação divina, tinham estado ligados a Moisés no livramento dos hebreus. "E pus diante de ti a Moisés, Arão, e Miriã" (Miq. 6:4), são as palavras do Senhor pelo profeta Miquéias. A força de caráter de Miriã cedo se mostrara, quando criança vigiara ao lado do Nilo a pequena cesta em que estava escondido o bebê Moisés. De seu domínio próprio e tato Deus Se servira como instrumento para preservar o libertador de Seu povo. Dotada abundantemente dos dons da poesia e música, Miriã dirigira as mulheres de Israel no cântico e na dança, à margem do Mar Vermelho. Na afeição do povo e honras do Céu, estava ela apenas abaixo de Moisés e Arão. Entretanto, o mesmo mal que a princípio trouxera discórdia no Céu, surgiu no coração desta mulher de Israel, e ela não deixou de encontrar quem com ela simpatizasse em seu descontentamento. Na designação dos setenta anciãos, Miriã e Arão não tinham Pág. 383

sido consultados, e seus ciúmes despertaram-se contra Moisés. Por ocasião da visita de Jetro, enquanto os israelitas estavam a caminho do Sinai, a pronta aceitação por parte de Moisés do conselho de seu sogro despertou em Arão e Miriã um receio de que sua influência junto ao grande chefe excedesse à deles.

Na organização do conselho dos anciãos, entenderam que sua posição e autoridade haviam sido desprezadas. Miriã e Arão nunca haviam conhecido o peso dos cuidados e responsabilidades que repousava sobre Moisés; contudo, visto que tinham sido escolhidos para o auxiliarem, consideraram-se co-participantes seus e na mesma medida, do cargo da liderança, e acharam desnecessária a designação de mais auxiliares.

Moisés compenetrara-se da importância da grande obra a ele confiada, como nenhum outro jamais a sentira. Estava ciente de sua própria fraqueza, e fez de Deus o seu Conselheiro. Arão tinha-se em mais elevada conta, e confiava menos em Deus. Fracassara quando se lhe confiara responsabilidade, dando prova de fraqueza de caráter pela sua vil condescendência na questão do culto idólatra no Sinai. Miriã e Arão, porém, cegos pela inveja e ambição, perderam isto de vista. Arão fora altamente honrado por Deus pela designação de sua família para o ofício sagrado do sacerdócio; todavia, mesmo isto aumentava agora o desejo de exaltação própria. "Porventura falou o Senhor somente por Moisés? não falou também por nós?" Núm. 12:2. Considerando-se igualmente favorecidos por Deus, entenderam ter direito à mesma posição e autoridade.

Cedendo ao espírito de descontentamento, Miriã achou motivos de queixa nos acontecimentos que Deus de maneira especial dirigira. O casamento de Moisés lhe fora desagradável. O haver ele escolhido uma mulher de outra nação, em vez de tomar esposa dentre os hebreus, foi uma ofensa à sua família e ao orgulho nacional. Zípora era tratada com mal-disfarçado desprezo. Embora fosse chamada "mulher cusita" (Núm. 12:1), era a esposa de Moisés midianita e, assim, descendente de Abraão. Na aparência pessoal ela diferia dos hebreus, tendo a pele de cor um pouco mais escura. Se bem não fosse israelita, Zípora era adoradora do verdadeiro Deus. Tinha disposição tímida, acanhada, e era gentil, afetuosa, e grandemente sensível à vista do sofrimento; e foi por esta razão que Moisés, quando a caminho para o Egito, consentiu que ela voltasse a Midiã. Ele quis poupar-lhe

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a dor de testemunhar os juízos que deveriam cair sobre os egípcios. Quando Zípora se reuniu a seu povo no deserto, viu que os encargos dele lhe estavam esgotando as forças, e deu a conhecer seus temores a Jetro, que sugeriu medidas para o aliviarem. Nisso estava a principal razão da antipatia de Miriã para com Zípora. Doendo-se muito da suposta negligência manifestada a ela e Arão, considerou a esposa de Moisés como a causa, concluindo que sua influência o impedira de os tomar em seus conselhos como antes fazia. Houvesse Arão permanecido firme pelo que era reto, e poderia ter reprimido o mal; mas, em vez de mostrar a Miriã a pecaminosidade de sua conduta, compartilhou-lhe os sentimentos, deu ouvidos às suas palavras de queixa, e assim veio a partilhar de seus ciúmes.

Suas acusações foram suportadas por Moisés em paciente silêncio. Foi a experiência ganha durante os anos de labuta e espera em Midiã - aquele espírito de humildade e longanimidade ali desenvolvidos - que preparou Moisés para defrontar com paciência a incredulidade e murmuração do povo, e o orgulho e inveja daqueles que deveriam ser seus inabaláveis auxiliadores. Moisés era "mui manso, mais do que todos os homens que havia sobre a Terra"(Núm. 12:3), e foi por isto que se lhe conferiu sabedoria e guia divinas mais do que aos outros. Dizem as Escrituras: "Guiará os mansos retamente, e aos mansos ensinará o Seu caminho." Sal. 25:9. Os mansos são guiados pelo Senhor, porque são dóceis e dispostos a serem instruídos. Eles têm o desejo sincero de conhecer e fazer a vontade de Deus. A promessa do Salvador é: "Se alguém quiser fazer a vontade dEle, pela mesma doutrina conhecerá." João 7:17. E Ele declara pelo apóstolo Tiago: "Se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada." Tia. 1:5. Mas esta promessa é apenas para aqueles que estão dispostos a seguir inteiramente ao Senhor. Deus não força a vontade de ninguém; daí o não poder Ele levar aqueles que são demasiado orgulhosos para serem ensinados, os quais se inclinam a ter o seu próprio caminho. Quanto ao homem de coração dobre - aquele que procura seguir sua própria vontade, ao mesmo tempo que professa fazer a vontade de Deus - está escrito. "Não pense tal homem que receberá do Senhor alguma coisa." Tia. 1:7. Deus escolhera a Moisés, e sobre ele pusera o seu Espírito; e Miriã e Arão, pelas suas murmurações, eram culpados de

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deslealdade, não somente para com o chefe que lhes fora designado, mas para com o próprio Deus. Os sediciosos faladores foram convocados ao tabernáculo, e levados perante Moisés. "Então o Senhor desceu na coluna de nuvem, e Se pôs à porta da tenda; depois chamou a Arão e a Miriã." Sua pretensão ao dom profético não foi negada; podia ser que Deus lhes tivesse falado em visões e sonhos. Mas a Moisés, a quem o Senhor mesmo declarou "fiel em toda a Minha casa", uma comunhão mais íntima fora concedida. Com ele o Senhor falava boca a boca. "Por que pois, não tiveste temor de falar contra o Meu servo, contra Moisés? Assim a ira do Senhor contra eles se acendeu; e foi-Se." A nuvem desapareceu do tabernáculo em sinal do desprazer de Deus, e Miriã foi castigada. Ela ficou "leprosa, como a neve". Núm. 12:5-10. Arão foi poupado, mas teve severa repreensão no castigo de Miriã. Agora, com o orgulho humilhado até ao pó, Arão confessou seu pecado, e rogou que sua irmã não fosse deixada a perecer por aquele flagelo repugnante e mortal. Em resposta às orações de Moisés, a lepra foi purificada. Miriã foi, contudo, excluída do acampamento durante sete dias. O símbolo do favor divino não repousou de novo sobre o tabernáculo até que ela fosse banida do acampamento. Em atenção à sua elevada posição, pesarosos pelo golpe que sobre ela fora desferido, a multidão toda permaneceu em Hazerote, esperando sua volta.

Esta manifestação do desprazer do Senhor destinava-se a ser um aviso a todo o Israel, para reprimir o crescente espírito de descontentamento e insubordinação. Se a inveja e descontentamento de Miriã não houvessem sido repreendidos de maneira assinalada, disto teria resultado um grande mal. A inveja é uma das mais satânicas características que podem existir no coração humano, e uma das mais funestas em seus efeitos. Diz o sábio: "Cruel é o furor e a impetuosa ira, mas quem parará perante a inveja?" Prov. 27:4. Foi a inveja que a princípio causou a discórdia no Céu, e a condescendência com a mesma acarretou males indizíveis entre os homens. "Onde há inveja e espírito faccioso aí há perturbação e toda a obra perversa." Tia. 3:16.

Não deve ser considerado coisa vã falar mal de outros, ou fazer-nos juízes de seus intuitos ou ações. "Quem fala mal de um irmão, e julga a seu irmão, fala mal da lei, e julga a lei; e, se tu julgas a lei, não és observador da lei, mas juiz." Tia. 4:11. Não há senão um juiz, a saber, Aquele que "trará à luz as coisas ocultas das

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trevas, e manifestará os desígnios dos corações". I Cor. 4:5. E qualquer que tomar a si o julgar e condenar seus semelhantes, está usurpando a prerrogativa do Criador. A Bíblia nos ensina especialmente a nos precavermos quanto a fazer acusações contra aqueles a quem Deus chamou para agirem como Seus embaixadores. O apóstolo Pedro, descrevendo uma classe de declarados pecadores, diz: "Atrevidos, obstinados, não receando blasfemar das dignidades; enquanto os anjos, sendo maiores em força e poder, não pronunciam contra eles juízo blasfemo diante do Senhor." II Ped. 2:10 e 11. E Paulo, em suas instruções àqueles que são postos na administração da igreja, diz: "Não aceiteis acusação contra o presbítero, senão com duas ou três testemunhas." I Tim. 5:19. Aquele que pôs sobre os homens a pesada responsabilidade de chefes e instrutores de Seu povo, responsabilizará o povo pela maneira por que tratam os Seus servos. Devemos honrar aqueles a quem Deus honrou. O juízo que caiu sobre Miriã deveria ser uma repreensão a todos os que se entregam à inveja, e murmuram contra aqueles sobre quem Deus põe o encargo de Sua obra. IV. A Longa Jornada

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Os Doze Espias

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Onze dias depois de partir do Monte Horebe, as tribos hebréias acamparam-se em Cades, no deserto de Parã, que não ficava longe das fronteiras da Terra Prometida. Ali foi proposto pelo povo que fossem enviados espias a fim de examinarem o país. Isto foi apresentado ao Senhor por Moisés, e Ele lhes concedeu permissão, com a instrução de que um dos príncipes de cada tribo fosse escolhido para tal fim. Os homens foram escolhidos, conforme ficara determinado, e Moisés mandou-os ir ver o país: qual era o mesmo, sua situação e vantagens naturais, e o povo que nele habitava, notando se eram fortes ou fracos, poucos ou muitos; bem como deveriam observar a natureza do solo e sua produtividade, e trazer do fruto da terra.

Eles foram e examinaram a terra toda, entrando pela fronteira ao sul e indo até à extremidade norte. Voltaram depois de uma ausência de quarenta dias. O povo de Israel estava acariciando grandes esperanças, e os aguardavam com ávida expectação. A notícia da volta dos espias foi levada de tribo a tribo, e saudada com regozijo. O povo precipitou-se ao encontro dos mensageiros, que saíram ilesos dos perigos de sua arriscada empresa. Os espias trouxeram amostras do fruto, que comprovavam a fertilidade do solo. Era o tempo da maturação das uvas, e trouxeram um cacho tão grande que era carregado entre dois homens. Trouxeram também figos e romãs que ali cresciam em abundância. O povo regozijava-se de que devesse entrar na posse de uma terra tão boa, e escutaram atentamente ao ser o relatório apresentado a Moisés, a fim de que nenhuma palavra se lhes escapasse. "Fomos à terra a que nos enviaste", começaram os espias; "e verdadeiramente mana leite e mel, e este é o fruto." Núm. 13:17-33. O povo ficou entusiasmado; queriam com avidez obedecer à voz do Senhor, e subir sem demora a possuir a terra. Mas, depois de descreverem a beleza e fertilidade Pág. 388

da terra, todos os espias, com exceção de dois, exageraram as dificuldades e perigos que estavam diante dos israelitas caso empreendessem a conquista de Canaã. Enumeraram as poderosas nações localizadas nas várias partes do país, e disseram que as cidades eram muradas e muito grandes, e o povo que nelas habitava era forte; e seria impossível vencê-los. Declararam também que tinham visto ali gigantes, os filhos de Enaque, e era inútil pensar em possuir a terra. Agora a cena mudou. A esperança e o ânimo deram lugar ao desespero covarde, ao proferirem os espias os sentimentos de seu coração incrédulo, que estava cheio de desânimo inspirado por Satanás. Sua incredulidade lançou escura sombra à congregação, e o grande poder de Deus, tantas vezes manifesto em prol da nação eleita, foi esquecido. O povo não se deteve a refletir; não raciocinou que Aquele que os trouxera até ali certamente lhes daria a terra; não se lembravam de quão maravilhosamente Deus os libertara de seus opressores, abrindo caminho através do mar, e destruindo as hostes perseguidoras de Faraó. Puseram a Deus fora da questão, e agiram como se devessem confiar apenas no poder das armas.

Em sua incredulidade limitaram o poder de Deus, e não confiaram na mão que até ali os guiara com segurança. E repetiram seu erro anterior de murmurar contra Moisés e Arão. "Este, pois, é o fim de todas as nossas grandes esperanças?" disseram. "É esta a terra para possuir a qual viajamos desde o Egito." Acusaram seus chefes de enganar o povo, e acarretar angústia sobre Israel. O povo ficou desesperado em seu desapontamento e aflição. Ergueu-se um pranto agoniado, e misturou-se com o murmúrio confuso das vozes. Calebe compreendeu a situação e, bastante ousado para tomar a defesa da palavra de Deus, fez tudo ao seu alcance para desfazer a má influência de seus companheiros infiéis. Por um momento o povo ficou em silêncio para ouvir-lhe as palavras de esperança e ânimo, com respeito à boa terra. Ele não contradizia o que já havia sido dito; os muros eram altos, e fortes os cananeus. Mas Deus prometera a Israel a terra. "Subamos animosamente, e possuamo-la em herança", insistiu Calebe; "porque certamente prevaleceremos contra ela." Mas os dez, interrompendo-o descreveram os obstáculos em cores mais negras do que ao princípio. "Não podemos subir contra aquele povo", declararam; "porque é mais forte do que nós. ... Pág. 389

Todo o povo que vimos no meio dela são homens de grande estatura. Também vimos ali gigantes, filhos de Enaque, descendentes dos gigantes; e éramos aos nossos olhos como gafanhotos, e assim também éramos aos seus olhos." Núm. 13:31-33.

Estes homens, tendo enveredado por um mau caminho, insistentemente se puseram contra Calebe e Josué, contra Moisés, e contra Deus. Cada passo para frente os tornava mais decididos. Estavam resolvidos a frustrar todo o esforço para se apossarem de Canaã. Torciam a verdade a fim de sustentar sua influência nociva. "É terra que consome seus moradores", (Núm. 13:32) disseram eles. Isto era não somente uma notícia ruim, mas também mentirosa. Era incoerente. Os espias tinham declarado ser o país frutífero e próspero, e o povo de estatura gigantesca, coisas estas que seriam impossíveis se o clima fosse tão insalubre que se pudesse dizer da terra que consumia os habitantes. Mas quando os homens entregam o coração à incredulidade, colocam-se sob o domínio de Satanás, e ninguém poderá dizer até aonde ele os levará.

"Então levantou-se toda a congregação, e alçaram a sua voz; e o povo chorou naquela mesma noite." Revolta e franca sedição seguiram-se rapidamente; pois Satanás teve pleno domínio, e o povo parecia despojado da razão. Amaldiçoaram Moisés e Arão, esquecendo-se de que Deus escutava suas ímpias palavras, e que, cercado pela coluna de nuvem, o Anjo de Sua presença estava a testemunhar a terrível explosão de ira por parte deles. Com amargura exclamaram: "Ah! se morrêramos na terra do Egito! ou, ah! se morrêramos neste deserto!" Então seus sentimentos se insurgiram contra Deus: "Por que nos traz o Senhor a esta terra, para cairmos à espada, e para que nossas mulheres e nossas crianças sejam por presa? Não nos seria melhor voltarmos ao Egito? E diziam uns aos outros: Levantemos um capitão, e voltemos ao Egito." Desta maneira não somente acusavam a Moisés, mas ao próprio Deus, de os enganar, prometendo-lhes uma terra que eram incapazes de possuir. E chegaram a ponto de designar um capitão para os guiar de volta à terra de seu sofrimento e cativeiro, da qual haviam sido libertos pelo braço forte da Onipotência.

Com humilhação e angústia, "Moisés e Arão caíram sobre os seus rostos perante todo o ajuntamento dos filhos de Israel" (Núm. 14:1-5), não sabendo o que fazer para os desviar de seu precipitado e apaixonado propósito. Calebe e Josué tentaram acalmar o tumulto. Pág. 390

Rasgando as vestes em sinal de pesar e indignação, arrojaram-se entre o povo, e suas vozes penetrantes foram ouvidas acima da tormenta das lamentações e mágoa revoltosa: "A terra pelo meio da qual passamos a espiar é terra muito boa. Se o Senhor Se agradar de nós, então nos porá nesta terra, e no-la dará; terra que mana leite e mel. Tão-somente não sejais rebeldes contra o Senhor, e não temais o povo desta terra, porquanto são eles nosso pão. Retirou-se deles o seu amparo, e o Senhor é conosco; não os temais." Núm. 14:7-9.

Os cananeus tinham enchido a medida de sua iniqüidade, e o Senhor não mais os suportaria. Sendo removida a sua proteção, seriam presa fácil. Pelo concerto de Deus, a terra estava assegurada a Israel. Mas o relato falso dos espias infiéis foi aceito, e por meio dele toda a congregação foi iludida. Os traidores haviam feito a sua obra. Se apenas dois homens houvessem trazido o mau relato, e todos os dez os animassem a possuir a terra em nome do Senhor, teriam também adotado o conselho dos dois de preferência ao dos dez, por causa de sua ímpia incredulidade. Mas dois apenas haviam advogado o que era reto, enquanto dez estavam do lado da rebelião. Os espias infiéis denunciavam em alta voz a Calebe e Josué, e levantou-se o clamor para os apedrejar. A turba insana apanhou pedras para matar aqueles homens fiéis. Avançaram com uivos de furor, quando subitamente as pedras lhes caíram das mãos, tombou sobre eles um silêncio, e tremeram de medo. Deus interviera para impedir o seu desígnio assassino. A glória de Sua presença, como uma luz chamejante, iluminou o tabernáculo. Todo o povo viu o sinal do Senhor. Alguém que era mais poderoso do que eles Se revelara, e ninguém ousava prosseguir com a resistência. Os espias que trouxeram o mau relatório, agacharam-se tomados de terror, e com a respiração contida procuraram suas tendas. Moisés levantou-se então e entrou no tabernáculo. O Senhor declarou-lhe: "Com pestilência o ferirei, e o rejeitarei; e farei de ti povo maior." Núm. 14:12. Mas de novo Moisés pleiteou em favor de seu povo. Não podia consentir em que fossem destruídos, e dele se fizesse uma nação mais poderosa. Apelando para a misericórdia de Deus, disse: "Rogo-Te que a força do meu Senhor se engrandeça; como tens falado, dizendo: O Senhor é longânimo, e grande em beneficência. ... Perdoa pois a iniqüidade deste povo,

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segundo a grandeza da Tua benignidade; e como também perdoaste a este povo desde a terra do Egito até aqui." Núm. 14:17-19.

O Senhor prometeu poupar Israel de destruição imediata; mas, por causa de sua incredulidade e covardia, não poderia manifestar Seu poder para subjugar os inimigos deles. Portanto, em Sua misericórdia ordenou-lhes, como o único meio seguro, que volvessem em direção ao Mar Vermelho. Em sua rebelião o povo declarara: "Ah! se morrêramos neste deserto!" Núm. 14:2. Agora esta oração devia ser atendida. O Senhor declarou: "Como falastes aos Meus ouvidos, assim farei a vós outros. Neste deserto cairão os vossos cadáveres, como também todos os que de vós foram contados segundo toda a vossa conta, de vinte anos e para cima. ... Mas os vossos filhos de que dizeis: Por presa serão, meterei nela, e eles saberão da terra que vós desprezastes." E quanto a Calebe, Ele disse: "Porém o Meu servo Calebe, porquanto nele houve outro espírito, e perseverou em seguir-Me, Eu o levarei à terra em que entrou, e a sua semente a possuirá." Núm. 14:28, 29, 31 e 24. Assim como os espias haviam despendido quarenta dias em sua viagem, deveriam semelhantemente as hostes de Israel vaguear pelo deserto quarenta anos.

Quando Moisés fez saber ao povo a decisão divina, a ira deste transformou-se em lamentação. Sabiam que seu castigo era justo. Os dez espias infiéis, feridos por determinação divina pela praga, pereceram diante dos olhos de todo o Israel; e em sua sorte o povo leu sua própria condenação. Agora pareciam arrepender-se sinceramente de sua conduta pecaminosa; mas entristeciam-se por causa do resultado de seu mau caminho, em vez de o ser pela intuição de sua ingratidão e desobediência. Quando viram que o Senhor não Se abrandava na execução de Seu decreto, surgiu de novo sua voluntariosidade, e declararam que não voltariam ao deserto. Ordenando-lhes que se retirassem da terra de seus inimigos, Deus pusera à prova a sua aparente submissão, e demonstrara que a mesma não era real. Sabiam ter pecado gravemente consentindo em que seus sentimentos temerários os dominassem, e procurando matar os espias que insistiam com eles para que obedecessem a Deus; mas apenas estavam aterrorizados por achar que tinham cometido um erro terrível, cujas conseqüências se lhes mostrariam desastrosas. Seu coração não estava mudado, e tão-somente necessitavam de um pretexto para darem lugar a outra rebelião semelhante. Este se apresentou quando Moisés, pela autoridade de Deus, lhes ordenou voltarem ao deserto. Pág. 392

O decreto de que Israel não deveria entrar em Canaã antes de passarem quarenta anos, foi um amargo desapontamento para Moisés e Arão, Calebe e Josué; todavia, sem murmurar, aceitaram a decisão divina. Mas aqueles que estiveram a queixar-se do trato de Deus para com eles, e a declarar que voltariam ao Egito, choraram e lamentaram grandemente quando as bênçãos que desprezaram lhes foram tiradas. Haviam-se queixado de coisas irreais, e agora Deus lhes deu motivo para chorar. Houvessem deplorado o seu pecado, quando este se lhes apresentou lealmente, não teria sido pronunciada aquela sentença; mas lamentavam pelo motivo do juízo; sua tristeza não era arrependimento, e não poderia obter a revogação da sentença. Passaram a noite em lamentação; porém, com a manhã veio a esperança. Resolveram reparar sua covardia. Quando Deus lhes mandara subir e tomar a terra, tinham-se recusado; e agora que lhes determinava retroceder estavam igualmente rebeldes. Decidiram-se a tomar a terra e possuí-la; poderia ser que Deus lhes aceitasse o trabalho, e modificasse Seu propósito em relação a eles. Deus tornara privilégio e dever deles entrar na terra no tempo por Ele designado; mas, pela sua voluntariosa negligência, fora retirada aquela permissão. Satanás conseguira seu objetivo impedindo-os de entrar em Canaã; e agora, em face da proibição divina, insistia com eles para que fizessem a mesma coisa que se haviam recusado a fazer quando Deus a ordenara. Assim o grande enganador alcançou a vitória, levando-os à rebelião pela segunda vez. Não haviam confiado no poder de Deus a operar juntamente com seus esforços ao se apoderarem eles de Canaã; todavia contavam agora com sua própria força para efetuarem o trabalho independente do auxílio divino. "Pecamos contra o Senhor", exclamaram; "nós subiremos e pelejaremos, conforme a tudo o que nos ordenou o Senhor nosso Deus". Deut. 1:41. Tão terrivelmente cegos ficaram eles pela transgressão. O Senhor nunca lhes mandara "subir e pelejar". Não era Seu propósito que adquirissem a terra pela guerra, mas pela obediência estrita às Suas ordens.

Se bem que seu coração não estivesse mudado, o povo fora levado a confessar a pecaminosidade e loucura de sua rebelião diante do relatório dos espias. Viam agora o valor da bênção que tão temerariamente haviam rejeitado. Confessaram que sua própria incredulidade os excluíra de Canaã. "Pecamos", disseram

Pág. 393 eles, reconhecendo que a falta estava neles mesmos, e não com Deus, a quem tão impiamente acusaram de deixar de cumprir Suas promessas para com eles. Se bem que sua confissão não partisse do verdadeiro arrependimento, serviu para reivindicar a justiça de Deus, em Seu trato com eles. O Senhor ainda opera de modo semelhante para glorificar o Seu nome, levando homens a reconhecerem Sua justiça. Quando aqueles que professam amá-Lo se queixam de Sua providência, desprezam-Lhe as promessas e, cedendo à tentação, se unem com os anjos maus para frustrar os propósitos de Deus, o Senhor muitas vezes encaminha de tal maneira as circunstâncias que essas mesmas pessoas são levadas ao ponto em que se convençam de seu pecado e sejam constrangidas a reconhecer a impiedade de sua conduta, e a justiça e bondade de Deus em Seu trato com elas, e isto embora não tenham verdadeiro arrependimento. É assim que Deus põe em ação forças contrárias a fim de tornar manifestas as obras das trevas. E se bem que o espírito que inspirou a má conduta não esteja radicalmente transformado, fazem-se confissões para vindicar a honra de Deus, e justificar aqueles que da parte dEle reprovam fielmente, os quais sofreram oposição e foram caluniados. Assim será quando a ira de Deus for finalmente derramada. Quando o Senhor vier "com milhares de Seus santos para fazer juízo contra todos", convencerá "dentre eles todos os ímpios por todas as suas obras de impiedade". Jud. 14 e 15. Cada pecador será levado a ver e reconhecer a justiça de sua condenação. Sem tomar em consideração a sentença divina, prepararam-se os israelitas para empreender a conquista de Canaã. Equipados de escudos e armas de guerra, achavam-se, quanto ao que calculavam, completamente preparados para a luta; mas eram deploravelmente deficientes à vista de Deus e de Seus entristecidos servos. Quando, quase quarenta anos mais tarde, o Senhor ordenou a Israel subir e tomar Jericó, prometeu ir com eles. A arca contendo a Sua lei foi levada diante dos exércitos deles. Os chefes que Ele designara deviam guiar-lhes os movimentos, sob a inspeção divina. Com tal direção, nenhum mal lhes poderia sobrevir. Mas agora, contrariamente ao mando de Deus e à proibição solene de seus chefes, sem a arca e sem Moisés, foram enfrentar os exércitos do inimigo.

A trombeta soou o alarma, e Moisés apressou-se após eles com o aviso: "Por que quebrantais o mandado do Senhor? pois isso não

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prosperará. Não subais, pois o Senhor não estará no meio de vós, para que não sejais feridos diante dos vossos inimigos. Porque os amalequitas e os cananeus estão ali diante da vossa face, e caireis à espada." Núm. 14:41-43.

Os cananeus tinham ouvido falar do poder misterioso que parecia guardar esse povo, e dos prodígios operados em seu favor; e agora convocaram uma força poderosa para repelir os invasores. O exército atacante não tinha chefe. Nenhuma oração fora feita para que Deus lhes desse a vitória. Saíram com o desesperado intuito de revogar a sua sorte ou morrer na batalha. Posto que não fossem experimentados na guerra, eram uma vasta multidão de homens armados, e esperavam por um assalto de surpresa suplantar toda oposição. Presunçosamente desafiaram o adversário que não ousara atacá-los.

Os cananeus tinham-se estacionado sobre um planalto rochoso, acessível apenas por desfiladeiros incômodos, e subidas íngremes e perigosas. O imenso número dos hebreus apenas poderia tornar sua derrota mais terrível. Vagarosamente enfileiraram-se pelas sendas das montanhas, expostos aos projéteis mortíferos de seus inimigos no alto. Rochas pesadas vinham trovejando abaixo, assinalando o seu caminho com o sangue dos mortos. Aqueles que atingiam o cimo, exaustos com a ascensão, eram atrozmente repelidos, e expulsos com grandes perdas. O campo de carnificina ficou juncado de cadáveres. O exército de Israel foi derrotado completamente. Destruição e morte foram o resultado daquela experiência revoltosa.

Obrigados finalmente à submissão, os sobreviventes voltaram e choraram perante o Senhor, mas o Senhor não ouviu a sua voz. Deut. 1:45. Pela sua assinalada vitória, os inimigos de Israel, que antes haviam esperado com tremor a aproximação daquele poderoso exército, inspiraram-se de confiança para lhes resistir. Todas as notícias que tinham ouvido concernentes às coisas maravilhosas que Deus operara pelo Seu povo, consideravam agora falsas, e entendiam não haver motivos de receio. Aquela primeira derrota de Israel, inspirando os cananeus com coragem e resolução, aumentara grandemente as dificuldades da conquista. Nada restava a Israel senão recuar da face de seus vitoriosos adversários para o deserto, sabendo que ali deveria ser o túmulo de uma geração inteira. 35

A Rebelião de Coré

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Os juízos com que foram atingidos os israelitas serviram durante algum tempo para restringir-lhes a murmuração e indisciplina, mas o espírito rebelde ainda estava no coração, e finalmente produziu os mais amargos frutos. As rebeliões anteriores tinham sido meros tumultos populares, surgindo dos impulsos momentâneos da multidão exaltada; agora, porém, formou-se uma conspiração muito bem fundamentada, como resultado de um propósito decidido de subverter a autoridade dos líderes designados pelo próprio Deus.

Coré, o espírito dirigente deste movimento, era levita, da família de Coate, e primo de Moisés; era homem de habilidade e influência. Embora designado para o serviço do tabernáculo, descontentara-se com sua posição, e aspirara à dignidade do sacerdócio. A concessão a Arão e sua casa do ofício sacerdotal, que anteriormente tocava ao filho primogênito de cada família, dera origem a inveja e dissabor, e por algum tempo Coré estivera secretamente a opor-se à autoridade de Moisés e Arão, se bem que não se arriscasse a um ato manifesto de rebelião. Finalmente concebeu o ousado plano de subverter tanto a autoridade civil como a religiosa. Não deixou de achar quem o apoiasse. Junto às tendas de Coré e dos coatitas, do lado sul do tabernáculo, achava-se o acampamento da tribo de Rúben, estando as tendas de Datã e Abirã, dois príncipes desta tribo, próximas da de Coré. Estes príncipes prontamente aderiram aos planos ambiciosos daquele. Sendo descendentes do filho mais velho de Jacó, pretendiam que a autoridade civil lhes pertencesse, e decidiram-se a dividir com Coré as honras do sacerdócio.

O estado dos sentimentos entre o povo favorecia os desígnios de Coré. Na amargura de seu desapontamento, voltaram-lhes as dúvidas, inveja e ódio anteriores, e de novo dirigiram queixas Pág. 396

contra o paciente líder. Os israelitas estavam continuamente a perder de vista que se encontravam sob guia divina. Esqueciam-se de que o Anjo do concerto era seu diretor invisível, e que, velada pela coluna de nuvem, a presença de Cristo ia adiante deles, e dEle Moisés recebia todas as instruções. Estavam indispostos a sujeitar-se à terrível sentença pela qual todos deviam morrer no deserto, e daí o acharem-se prontos a apanhar qualquer pretexto para crer que não era Deus mas Moisés que os estava guiando, e pronunciara a sua condenação. Os maiores esforços do homem mais manso da Terra não puderam abafar a insubordinação daquele povo; e, embora os sinais do desprazer de Deus por ocasião de sua perversidade anterior ainda estivessem diante deles, incompletos em suas fileiras, não levavam a sério a lição. Novamente foram vencidos pela tentação. A vida de humilde de Moisés, como pastor, fora muito mais pacífica e feliz do que sua posição atual como dirigente daquela vasta assembléia de espíritos turbulentos. Contudo Moisés não ousava fazer sua escolha. Em lugar do cajado de pastor fora-lhe dada uma vara de poder, a qual ele não poderia depor antes que Deus o desobrigasse.

Aquele que lê os segredos de todos os corações, notara os propósitos de Coré e seus companheiros, e dera a Seu povo aviso e instrução suficientes para os habilitarem a livrar-se do engano daqueles homens mal-intencionados. Tinham visto os juízos de Deus recaírem em Miriã por causa de sua inveja e queixas contra Moisés. O Senhor declarara que Moisés era maior do que profeta. "Boca a boca falo com ele." "Por que, pois", acrescentou Ele, "não tivestes temor de falar contra o Meu servo, contra Moisés?" Núm. 12:8. Estas instruções não se destinavam a Arão e Miriã somente, mas a todo o Israel. Coré e seus companheiros de conspiração eram homens que haviam sido favorecidos com manifestações especiais do poder e grandeza de Deus. Faziam parte do número dos que subiram com Moisés ao monte, e viram a glória divina. Mas desde aquele tempo operara-se uma mudança. Uma tentação, leve a princípio, fora abrigada, e fortalecera-se ao ser alimentada, até que a mente foi dirigida por Satanás, e aventuraram-se a entrar em sua obra de desafeto. Dizendo ter grande interesse na prosperidade do povo, falaram a princípio, uns com outros, ocultamente, a respeito de seu descontentamento, e a seguir falaram aos homens dirigentes de Israel. Suas insinuações foram tão prontamente

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recebidas que se arriscaram ainda mais, e afinal acreditaram realmente estarem agindo pelo zelo de Deus.

Foram bem-sucedidos em aliciar duzentos e cinqüenta príncipes, homens de renome na congregação. Com este forte e influente apoio, sentiram-se confiantes em que fariam uma mudança radical no governo, e melhorariam grandemente a administração de Moisés e Arão. O ciúme dera origem à inveja e a inveja à rebelião. Haviam discutido a questão do direito de Moisés a sua tão grande autoridade e honra, até que vieram a considerá-lo ocupante de uma posição muito invejável, que qualquer deles poderia deter tão bem quanto ele. E enganaram-se a si mesmos e uns aos outros, pensando que Moisés e Arão tinham por si mesmos assumido as posições que ocupavam. Os descontentes disseram que esses chefes se haviam exaltado sobre a congregação do Senhor, tomando para si o sacerdócio e o governo; mas sua casa não tinha direito à distinção de superioridade às outras de Israel; não eram mais santos do que o povo, e ser-lhes-ia bastante estar no mesmo nível de seus irmãos, que eram igualmente favorecidos com a presença e proteção especial de Deus. A obra imediata dos conspiradores foi com o povo. Àqueles que estão no erro, e merecem reprovação, nada há mais agradável do que receber simpatia e louvor. E, assim, Coré e seus companheiros obtiveram a atenção e conseguiram o apoio do povo. A notícia de que as murmurações do povo acarretaram sobre eles a ira de Deus, declarou-se ser um engano. Disseram que a congregação não estava em falta, visto que não desejavam nada mais que seus direitos; mas que Moisés era um governador déspota; que ele reprovara o povo como pecadores, sendo eles um povo santo, e estando o Senhor entre eles.

Coré passou em revista a história de suas viagens através do deserto, onde haviam sido levados a situações angustiosas, e muitos pereceram por causa de sua murmuração e desobediência. Seus ouvintes julgaram ver claramente que suas dificuldades poderiam ter sido evitadas se Moisés tivesse adotado procedimento diverso. Concluíram que todos os seus fracassos eram atribuíveis a ele, e sua exclusão de Canaã fora em conseqüência da má administração de Moisés e Arão; que, se Coré fosse o seu dirigente, e os animasse ocupando-se com suas boas ações em vez de lhes Pág. 398

reprovar os pecados, teriam uma jornada muito pacífica e próspera; em vez de vaguearem de um lado para outro no deserto, seguiriam diretamente para a Terra Prometida. Nesta obra inspiradora de desafeição, houve maior união e harmonia entre os elementos discordantes da congregação do que já existira antes. O êxito de Coré junto ao povo aumentou-lhe a confiança, e confirmou-o em sua crença de que a usurpação da autoridade por Moisés, a não ser reprimida, seria fatal à liberdade de Israel; pretendia também que Deus lhe patenteara a questão, e o autorizara a fazer uma mudança no governo antes que fosse demasiado tarde. Muitos, porém, não estavam prontos a aceitar as acusações de Coré contra Moisés. A lembrança de seus pacientes e abnegados labores surgia diante deles, e a consciência se lhes perturbava. Era portanto necessário indicar algum motivo egoísta pelo seu profundo interesse para com Israel; e reiterou-se a antiga acusação de que ele os tirara a fim de perecerem no deserto, para que pudesse apoderar-se de seus bens. Durante algum tempo esta obra foi promovida em segredo. Entretanto, logo que o movimento ganhou força suficiente para garantir uma explosão franca, Coré apareceu à frente do partido, e acusou publicamente a Moisés e Arão de usurparem a autoridade de que ele, Coré, e seus companheiros tinham igualmente direito de participar. Houve além disso a acusação de que o povo fora despojado de sua liberdade e independência. "Demais é já", disseram os conspiradores, "pois que toda a congregação é santa, todos eles são santos, e o Senhor está no meio deles; por que, pois, vos elevais sobre a congregação do Senhor?"

Moisés não suspeitara desta trama tão cuidadosamente urdida, e, quando sua terrível significação lhe ocorreu, caiu sobre seu rosto em um apelo silencioso a Deus. Levantou-se triste, em verdade, mas calmo e forte. Fora-lhe concedida direção divina. "Amanhã pela manhã", disse ele, "o Senhor fará saber quem é Seu, e quem o santo que Ele fará chegar a Si; e aquele a quem escolher fará chegar a Si." A prova deveria ser transferida até o dia seguinte, a fim de que todos pudessem ter tempo para refletir. Então aqueles que aspiravam ao sacerdócio deveriam vir cada um com o incensário, e oferecer incenso no tabernáculo, na presença da congregação. A lei era muito explícita de que unicamente os que haviam sido ordenados para o ofício sagrado deviam ministrar no santuário. E mesmo os sacerdotes Nadabe e Abiú tinham sido destruídos por se arriscarem a oferecer "fogo estranho", em Pág. 399

desrespeito ao mandado divino. Todavia Moisés desafiou os seus acusadores a levar a questão perante Deus, caso ousassem recorrer a tão perigoso apelo.

Separando a Coré, e aos levitas seus companheiros, disse Moisés: "Porventura pouco para vós é que o Deus de Israel vos separou da congregação de Israel, para vos fazer chegar a Si, a administrar o ministério do tabernáculo do Senhor e estar perante a congregação para ministrar-lhe; e te fez chegar, e todos os teus irmãos, os filhos de Levi, contigo; ainda também procurais o sacerdócio? Pelo que tu e toda a tua congregação congregados estais contra o Senhor; e Arão, que é ele, que murmurais contra ele?"

Datã e Abirã não haviam assumido atitude tão ousada como Coré; e Moisés, esperando que eles pudessem ter sido arrastados para a conspiração sem se haverem completamente corrompido, chamou-os para que comparecessem perante ele, a fim de poder ouvir suas acusações contra ele. Mas não quiseram ir, e insolentemente se recusaram a reconhecer a sua autoridade. Sua resposta, proferida aos ouvidos da congregação, foi: "Porventura pouco é que nos fizeste subir de uma terra que mana leite e mel, para nos matares neste deserto, senão que também totalmente te assenhoreias de nós? Nem tampouco nos trouxeste a uma terra que mana leite e mel, nem nos deste campos e vinhas em herança; porventura arrancarás os olhos a estes homens? Não subiremos." Núm. 16:5-14. Assim eles aplicaram ao cenário de seu cativeiro a mesma expressão com que o Senhor descrevera a herança prometida. Acusaram Moisés de pretender agir sob guia divina, como meio para estabelecer sua autoridade; e declararam que não mais se sujeitariam a ser levados como homens cegos, ora para Canaã, e ora para o deserto, conforme melhor conviesse a seus ambiciosos intuitos. Assim, aquele que fora como um terno pai, um pastor paciente, foi representado no mais negro caráter de um tirano e usurpador. A exclusão de Canaã, como castigo aos seus próprios pecados, foi a ele atribuída. Era evidente que as simpatias do povo estavam com o partido desafeto; mas Moisés não fez esforços para a reivindicação própria. Apelou solenemente a Deus, na presença da congregação, como testemunha da pureza de seus intuitos e correção de sua conduta, e implorou-Lhe que fosse seu Juiz. Pág. 400

No dia seguinte, os duzentos e cinqüenta príncipes, com Coré à sua frente, apresentaram-se com seus incensários. Foram levados ao pátio do tabernáculo, enquanto o povo se reuniu fora, para esperar o resultado. Não foi Moisés que reuniu a congregação para ver a derrota de Coré e seu grupo, mas sim os rebeldes, em sua cega presunção, congregaram-nos para testemunharem sua vitória. Grande parte da congregação tomou francamente o lado de Coré, cujas esperanças de provar suas acusações contra Arão eram grandes.

Enquanto estavam assim congregados diante de Deus, "a glória do Senhor apareceu a toda a congregação". Foi comunicada a Moisés e Arão a advertência divina: "Apartai-vos do meio desta congregação, e os consumirei como num momento." Mas eles caíram sobre o seu rosto, com esta oração: "Ó Deus, Deus dos espíritos de toda a carne, pecará um só homem, e indignar-Te-ás Tu tanto contra toda esta congregação?"

Continuar: parte 4 de 5