Pensamento e linguagem: Vygotsky, Wallon, Chomsky e Piaget
Introdução
No princípio era o “verbo” (ou o pensamento manifestando-se), diziam os discípulos místicos de Platão. “No princípio era a ação”, retrucava Goethe. Está aqui um debate que divide ainda hoje os filósofos e os sábios
(Wallon, 2008, p.9)
Neste trabalho, analisaremos as teorias que explicam a aquisição e o desenvolvimento da linguagem e do pensamento a partir da perspectiva genética, isto é, a partir do estudo das suas origens e transformações sucessivas. Essa análise será feita em função dos debates que ocorreram entre seus expoentes mais ilustres, como Vygotsky, Stern, Wallon, Chomsky e Piaget. Entendemos que entre eles existem pontos de convergência e divergência teóricas.
Apesar das grandes diferenças entre esses autores, existe um propósito comum que os une: fundamentar a psicologia do século XX sob bases científicas e genéticas, e superar as concepções idealistas e materialistas mecanicistas.
No início do século XX, a prática clínica e pedagógica precisou apoiar-se em princípios científicos consistentes. Para isso, a psicologia nascente se viu obrigada a fornecer sistemas de interpretação confiáveis, apoiados em fatos e métodos experimentais. Diante desse desafio, alguns autores ousaram soluções teóricas e metodológicas inovadoras, tendo como núcleo dos seus estudos o início da vida mental do indivíduo e da espécie humana. Por isso, a investigação privilegiou a criança e os antropoides no estudo da linguagem e do pensamento. Apesar das intenções e avanços, logo se constatou que a psicologia não estava preparada para tal desafio, pois as deficiências e as controvérsias herdadas do século anterior continuaram e, inclusive, se acentuaram. A realidade histórica da crise na Psicologia nos começos do século XX é descrita por Vygotsky na sua obra Teoria e método em Psicologia (1999).
As divergências se aprofundaram nas décadas seguintes, em função de soluções supostamente acabadas e de críticas cada vez mais extremadas. Assim, as novas propostas teóricas foram logo rotuladas de idealistas ou mecanicistas; biologistas ou culturalistas; individualistas ou sociologistas. Os rótulos impediram o verdadeiro debate científico. A controvérsia teórica virou disputa ideológica, sobretudo no campo da educação, o que impediu a superação dos reducionismos de toda ordem.
O pensamento inovador de autores de referência, como Vygotsky, Wallon, Stern, Chomsky, Piaget, serviu, sobretudo, para a adesão acrítica, sem o necessário debate científico. Com isso, o pensamento desses autores ficou reduzido a sua mínima expressão ou amplificado como única e absoluta referência teórica. Desse modo, apesar do acúmulo de dados empíricos e aplicações práticas que se seguiram, os modelos teóricos, geralmente, não renunciaram a nada e não fizeram o esforço da autocrítica necessária para alcançar novas integrações.
Ainda hoje, ouvem-se soluções reducionistas sobre a direção do desenvolvimento: para uns, o desenvolvimento se orienta do social para o individual; para outros, do individual para o social. Não se admite pensar a possibilidade de sínteses conceituais, como a boa dialética exigiria.
As disputas dogmáticas que se seguiram no século XX obedeceram, principalmente, à luta frontal contra o idealismo, considerado como expressão da metafísica medieval, que serviria para manter o status quo e os privilégios de classe. A luta também foi feita contra os materialistas mecanicistas, que estariam negando o estatuto irredutível da consciência.
Na psicologia, o idealismo estaria identificado com a defesa de funções mentais preexistentes sem base material, consideradas como substâncias – egocentrismo, consciência, intencionalidade, espírito – impossíveis de serem alteradas pela história da ação humana. O materialismo mecanicista estaria identificado com a ideia de evolução como obra da vida material e obedecendo a leis “mecânicas”, como ocorre no mundo físico, o que negaria a originalidade da consciência.
Para a psicologia científica nascente, havia a necessidade urgente de superar tanto o idealismo como o materialismo mecanicista. O grande desafio foi, então, superar as bases que sustentam esses dois modos opostos de pensamento científico e filosófico. Para os materialistas não mecanicistas o desafio foi mostrar a originalidade da consciência sem, contudo, esquecer que ela é resultado das transformações das ações materiais humanas. O grande problema foi evidenciar como isso ocorreria.
O “materialismo dialético” surge como uma nova concepção filosófica e científica capaz de superar o materialismo vulgar ou mecanicista e o idealismo. Esse materialismo parte do suposto de que a consciência é irredutível às leis do mundo físico, mas a sua originalidade seria expressão da transformação da própria matéria. A psicologia seria chamada a explicar a sua formação.
Autores, como Vygotsky e Wallon, identificaram-se com o materialismo dialético e defenderam que a consciência seria produto da transformação da ação humana. O desafio foi explicar essa hipótese, isto é, mostrar de que forma a ação humana produziria a consciência. Para esses autores, a ação individual não seria capaz de explicar tal desenvolvimento; ela apenas conduziria à preexistência do espírito e não a uma autêntica criação. Para eles, a verdadeira fonte da criação deverá ser buscada na ação humana coletiva (nas leis do materialismo histórico).
A formação da consciência não obedeceria a leis internas do desenvolvimento do indivíduo ou de mecanismos biológicos imanentes à atividade dele, mas sim à ação da vida coletiva. As leis endógenas não teriam a importância devida; são as leis sociais e históricas que determinariam unilateralmente o desenvolvimento individual.
Mas as perguntas a seguir seriam: de que modo e por meio de que mecanismo a vida coletiva explicaria a formação do pensamento e da consciência? As qualidades da consciência coletiva se formaram independentemente da consciência individual? Elas preexistem à consciência individual?
Como para esses autores não seria possível explicar o pensamento e a consciência a partir das leis internas ao indivíduo, seria necessário explicá-los em função da “transmissão social” ou coletiva. Foi essa solução que se constituiu hegemônica junto aos psicólogos marxistas do século XX. Por isso, como observaremos
no segundo capítulo da primeira parte deste livro, pensadores marxistas, como Friedrich Engels, parceiro intelectual de Marx, ficaram em segundo plano, por recorrerem a explicações endógenas da espécie humana.
Piaget, sem se declarar partidário do “materialismo dialético”, enfrenta o idealismo e o materialismo mecanicista, mas através de novos caminhos de superação dialética. Como teremos a oportunidade de observar, no caminho aberto por ele, considera tanto a organização endógena do indivíduo e da espécie quanto a organização exógena das relações sociais e históricas. Opõe-se, assim, ao determinismo unilateral da vida social e histórica sobre o indivíduo, como ao determinismo do indivíduo sobre a vida social e sócio-histórica.
Piaget, à medida que iniciava a construção de uma teoria científica que outorga importância necessária, não exclusiva, aos fatores endógenos e individuais, tornou-se alvo preferencial de críticas severas por parte dos psicólogos marxistas. Seus primeiros trabalhos foram caracterizados como idealistas por procurar explicar a formação do pensamento e da linguagem em função dos processos endógenos, como o “egocentrismo cognitivo”, e de processos exógenos como a “interação social”. Apesar de atender às observações críticas de Vygotsky e reorganizar melhor sua teoria construtivista do desenvolvimento (psicogênese e sociogênese) com base em novas evidências, não foi capaz deter a contínua atribuição dos rótulos individualista e inatista nas décadas que se seguiram. Neste trabalho, procuraremos mostrar a evolução e reconstrução conceitual do pensamento desse autor a partir do debate com outros autores e do acúmulo de novos fatos científicos.
É importante salientar que as divergências teóricas não se restringiram ao campo da psicologia; elas se expandiram para o campo da educação, onde se combateu com mais força as teorias que procuravam relativizar a determinação social.
Felizmente, a pesquisa e a reflexão científica não se detiveram, e as condições para a superação do pensamento dicotômico e reducionista foram se dando pouco a pouco.
Os avanços científicos da biologia começavam a se mostrar vigorosos, pois houve descobertas imprevisíveis sobre as atividades e as qualidades do sistema genético, sobre a adaptação e a evolução dos organismos vivos, além de descobertas decorrentes de novos modos de pensar o funcionamento e a transformação da vida, como os processos de auto-organização ou autorregulação. As pesquisas da “Gramática Gerativa” evidenciaram “universais linguísticos” e processos endógenos originais, como o “núcleo fixo inato”; as teorias geneticistas e de “equilibração” ganham terreno no campo da Psicologia e das ciências humanas, vencendo concepções lineares do desenvolvimento; a teoria da complexidade torna-se cada vez mais importante no debate científico das diversas áreas; a neurociência inicia descobertas surpreendentes sobre o funcionamento cerebral; a prática educativa tradicional começa a ser entendida melhor como processo de domesticação e transmissão; e as práticas que consideram os educandos sujeitos de conhecimento passam a adquirir valor científico e ético.
O novo contexto histórico do desenvolvimento da ciência do século XX e XXI permitiu que se produzissem renovadas controvérsias teóricas, novos debates, os quais possibilitaram compreender melhor as limitações dos sistemas teóricos iniciais em relação aos fatores endógenos e exógenos da atividade humana. Desse modo, observamos, no horizonte, a superação progressiva dos velhos reducionismos e das velhas controvérsias teóricas.
A primeira parte deste trabalho é dedicada a mostrar os primeiros debates que se iniciaram em torno das origens do pensamento e da linguagem. Destacamos o debate entre Vygotsky e Piaget, pois os pensamentos de ambos estiveram presentes nos debates que se seguiram no século XX. Esse debate teve início com as críticas de Vygotsky a Piaget e da única resposta deste último, que foi feita
após o falecimento prematuro do primeiro. O primeiro capítulo
aborda as críticas de Vygotsky; o segundo capítulo mostra a sua
concepção teórica; o terceiro, as críticas de Vygotsky a Stern, que serviu para evidenciar melhor a concepção teórica e epistemológica
do primeiro. O último capítulo desta parte é dedicado a mostrar a resposta de Piaget, na qual já aparecem alguns traços da sua epistemologia genética e o desenho de uma teoria mais acabada sobre as origens e o desenvolvimento do pensamento e da linguagem.
Na segunda parte do livro, mostramos os debates que se seguiram, ainda no século XX, sobre a gênese do pensamento e da linguagem. Trata-se de debates mais contemporâneos que procuram resolver a questão da ruptura ou continuidade entre a organização biológica e psicológica, entre a organização prática e conceitual da inteligência e do pensamento e da linguagem humana.
A terceira parte é dedicada a evidenciar o pensamento mais atual e mais acabado de Piaget sobre as origens, a evolução e a interação entre linguagem e pensamento.
Nas conclusões, abordamos as consequências da pesquisa sobre pensamento e linguagem para as questões educacionais e pedagógicas.