Pensamento e linguagem: Vygotsky, Wallon, Chomsky e Piaget

Adrian Oscar Dongo-Montoya · Capítulo 6 de 14

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Pensamento e linguagem: Vygotsky, Wallon, Chomsky e Piaget

2. Tese de Vygotsky: determinação histórico-social do pensamento e da linguagem

2. Tese de Vygotsky:

 

determinação histórico-social

 

do pensamento e da linguagem

 

No item anterior, foi anunciado que as raízes do pensamento para Vygotsky se encontram nas funções expressivas e comunicativas elementares da linguagem, as quais se transformariam, graças à ação da linguagem egocêntrica, em funções superiores internas.

Agora, trata-se de entender a natureza dessas funções elementares, as quais se transformariam em funções intelectuais superiores (pensamento verbal ou conceitual). A questão básica é responder: onde se encontram as raízes das funções superiores e como estas se constituem? Será que as ações comunicativas primárias se prolongam, no plano da representação e da semiotização, em funções superiores? Ou será que existe, pelo contrário, uma ruptura radical com o passado arcaico? Trata-se de analisar, portanto, as possíveis continuidades e rupturas, e, nesse processo, conhecer os mecanismos que explicam a produção de novidades.

Em virtude dessa problemática, apresentaremos, em primeiro lugar, os estudos de Vygotsky junto a antropoides e, depois, junto a crianças pequenas, para evidenciar o processo e os mecanismos de transição entre as estruturas elementares e as estruturas superiores da linguagem e do pensamento.

 

Pesquisas junto a antropoides e

 

crianças pequenas

 

Em primeiro lugar, Vygotsky apresenta as pesquisas de Koehler (autor alemão, fundador da teoria da Gestalt) junto a antropoides. Mostra que esses animais apresentam comportamentos “expressivos” e “comunicativos” limitados ao espaço e tempo imediato, ou seja, usam gestos e sinais para se comunicar, contudo as suas ações estão referidas ao aqui e agora. Esses animais conseguem resolver problemas práticos, como o uso de instrumentos, desde que os objetos a coordenar se localizem no campo perceptivo: a percepção do objetivo a alcançar e os instrumentos usados (conduta da vara). Se alguns desses elementos sair do campo perceptivo, o chimpanzé fracassará completamente. Isso evidenciaria que esses animais carecem da capacidade de imaginação (função simbólica) e, com isso, da capacidade conceptual.

Um processo análogo ocorre com as crianças pequenas, pois elas, embora saibam “exprimir” e “comunicar” suas emoções e desejos, não usam um “pensamento intencional” para se reportar aos objetos por meio de signos convencionais e de imagens (pensamento representativo). Essas crianças, igual aos antropoides, embora consigam resolver problemas práticos, não conseguem se reportar a objetos que ultrapassem a realidade imediata. Sua inteligência funciona na relação imediata com os objetos, no aqui e no agora.

 

Qual a razão das limitações desse

 

tipo de condutas? Qual a natureza

 

desse tipo de comportamento

 

elementar?

 

A resposta se encontra tanto na ausência de imagens e signos (pensamento representativo) quanto nas características inerentes a esse tipo de conduta.

Para Vygotsky, a natureza desse tipo de conduta obedece ao seu caráter inato e biológico, os quais obedecem a processos e mecanismos mecânicos e associativos. A inteligência primitiva, ou biológica, obedece a leis mecânicas, opostas à inteligência superior, que obedece a leis lógicas, próprias da vida social humana. Por isso, o pensamento da criança pequena não poderia ser intencional nem lógico, pois ela carece da especificidade da cultura humana. Portanto, as condutas pré-verbais e pré-intelectuais operam graças ao mecanismo associativo, tal como os reflexos condicionados.

Noutros termos, os sons imitados, as onomatopeias da criança pequena são incapazes de se reportar a objetos e situações ausentes, e são incapazes de se organizar sob a forma de implicações lógicas (relações de parte e todo, esquemas de ações coordenados de meios e fins).

As formas de organização lógica ocorrerão, somente, com o domínio da “linguagem verbal” que se prolonga em “fala interna” graças à atividade da “linguagem egocêntrica”. Assim, entre os comportamentos da fase inicial (pré-verbal e pré-intelectual) e os comportamentos propriamente linguísticos e intelectuais das fases seguintes, existe ruptura tanto no que diz respeito a seu funcionamento quanto à sua estrutura. Esse fato evidenciaria a passagem da natureza biológica (mecânica e associativa) para outra de caráter social e cultural. Por isso, as “funções superiores”, como a linguagem verbal e o pensamento conceitual, obedeceriam a outras leis, a leis de natureza histórica e cultural.

Como então, para Vygotsky, os comportamentos primários, que constituem as raízes da linguagem e do pensamento humano, se transformam e constituem o pensamento verbal ou conceitual? Por meio de que mecanismos? Como dissemos anteriormente, embora Vygotsky destaque a importância adaptativa dos primeiros comportamentos, estes não se prolongam em comportamentos superiores. Pelo contrário, esses comportamentos se submetem à ação do meio social e cultural através das estruturas gramaticais da linguagem. Por isso, apesar de serem adaptáveis, eles não se prolongam para constituir a estrutura básica do pensamento conceitual e da linguagem verbal; pelo contrário, eles são negados radicalmente pela intervenção de uma fonte exterior. Por isso, não seria possível pensar a mudança como superação (Aufhebung) mas, somente, como ruptura com o passado. A natureza do seu funcionamento é abandonada completamente.

Vygotsky (2010 [1934], p.141) insiste em que a raiz do comportamento propriamente humano se encontra no comportamento dos antropoides, como afirma na passagem seguinte: “Para nós está claro que, independentemente da classificação que se lhe dê, o tipo superior de comportamento do chimpanzé é, nesse sentido, a raiz do comportamento humano, que se caracteriza pelo emprego de instrumentos”. Além disso, acrescenta que a descoberta de Koehler não é nenhuma surpresa para os marxistas, pois o próprio Marx tinha afirmado: “O uso e a criação de ferramentas de trabalho, embora presentes de forma embrionária em algumas espécies de animais, são uma característica específica do processo de trabalho humano” (Marx, 1920 apud Vygotsky, 2010 [1934], p.153).

Mas o enraizamento significa prolongamento do funcionamento nas estruturas superiores? Vygotsky (2010, p.59, grifo nosso) salienta as palavras de Engels sobre a existência de caracteres comuns entre os animais e os humanos:

 

Nós e os animais temos em comum todas as espécies de atividade intelectual: a indução, a dedução e, consequentemente, a abstração (o conceito tribal de quadrúpedes e bípedes), a análise de objetos desconhecidos (o ato de quebrar uma noz já é o começo de uma análise), a síntese (em caso de feitos de animais) e, como fusão de tudo, o experimento (em caso de novos obstáculos e em situações independentes). Pelo tipo, todos esses métodos, ou melhor, todos os meios de investigação científica conhecidos da lógica comum são perfeitamente idênticos no homem e nos animais superiores. Só pelo grau de desenvolvimento (do respectivo método) eles se distinguem.

 

É evidente que para Engels, na organização do comportamento dos animais superiores, existe uma atividade lógica, e que somente pelo método e pelo grau de desenvolvimento há diferença estrutural entre eles e os humanos. Observa-se, aí, que Engels – criador da dialética da natureza – postulou uma continuidade endógena, de funcionamento e não estrutural, entre a conduta dos animais e do homem. Por que razão, então, essa hipótese foi abandonada? Não sabemos, mas apenas podemos conjeturar que a hipótese de Engels é análoga à hipótese de Piaget sobre a identidade funcional e não estrutural entre os comportamentos pré-verbais e conceituais das crianças.

Vygotsky preferiu insistir na diferença radical entre as formas primitivas e superiores de linguagem e pensamento. Desse modo, para ele, os comportamentos primitivos obedeceriam a leis mecânicas, opostas às leis histórico-culturais, próprias do pensamento humano. Para ele, o pensamento humano obedece a leis de outra ordem, oposta à organização da vida, e segue as leis da formação e transformação das sociedades, tal como o “materialismo histórico” o proporia. É isso que constataremos a seguir.

 

A passagem da inteligência pré-verbal

 

para a inteligência e linguagem verbal

 

Significado da descoberta do nome dos objetos

 

Para Vygotsky, as vias primitivas do intelecto e da linguagem caminham paralela e separadamente. Elas, num determinado momento, se unem graças a uma descoberta crucial da criança.

Stern, que foi um observador profundo do desenvolvimento da fala da criança, evidencia a razão do cruzamento de ambas as linhas de desenvolvimento: a criança descobre que “cada objeto tem seu nome”. Para ele, essa descoberta seria o sintoma da natureza intencional e simbólica da linguagem infantil. Vygotsky discorda, radicalmente, dessa afirmação, pois esse comportamento seria muito complexo para a criança.

Vygotsky, ao lado de autores como Wallon, questiona a natureza simbólica dessa aquisição e salienta que a descoberta apenas indica que a palavra é um simples atributo do objeto, um elemento da estrutura do objeto. Quando cada objeto novo apresenta uma situação problema, a criança resolve nomeando-o pela palavra. Quando lhe falta a palavra para nomear o novo objeto, ela pede aos pais: “O que é”. Para Vygotsky (2010 [1934], p.145-6), esta solução seria a mais apropriada:

Os dados da psicologia étnica e principalmente da psicologia infantil da linguagem (veja-se especialmente Piaget) sugerem que, por longo tempo, a palavra é para a criança antes uma propriedade que um símbolo do objeto: que a criança assimila a estrutura externa antes da interna. Ela assimila a estrutura externa: a palavra-objeto, que já depois se torna estrutura simbólica.

 

Desse modo, Vygotsky procura evidenciar que o caráter simbólico das primeiras palavras não seria possível numa tenra idade e que o encontro entre as vias intelectuais e linguísticas ocorrerão efetivamente, mas em idades posteriores e variadas.

 

Etapas da interiorização da linguagem exterior

 

Como qualquer operação intelectual baseada no emprego de signos, a linguagem primitiva passa por quatro estágios, até se tornar linguagem interior.

No primeiro estágio, corresponde à linguagem pré-intelectual e ao pensamento pré-verbal. É quando a criança e o antropoide fazem uso da função expressiva e comunicativa da linguagem primitiva: exprimem emoções e necessidades ao entrar em contato com os semelhantes. Vygotsky insiste que esse período obedece a ações que funcionam essencialmente por meio de leis mecânicas e associativas (reflexos condicionados).

O segundo estágio é chamado de “Psicologia ingênua”, porque consiste no exercício da inteligência prática. Do ponto de vista do desenvolvimento da linguagem infantil, este estágio se caracteriza pelo fato de que a criança incorpora as estruturas e formas gramaticais antes de incorporar as estruturas e operações lógicas.

 

A criança assimila a oração subordinada, as formas de linguagem, como “porque”, “uma vez que”, “se”, “quando”, “ao contrário”, “mas”, muito antes de assimilar as relações causais, temporais, condicionais, de oposições etc. A criança assimila a sintaxe da língua antes de assimilar a sintaxe do pensamento. Os estudos de Piaget mostraram claramente que a criança desenvolve a gramática antes de desenvolver a lógica, e só relativamente tarde assimila as operações lógicas que correspondem às estruturas gramaticais que vem usando há muito tempo. (ibidem, p.138)

O terceiro estágio se caracteriza pelo uso de signos exteriores, uso de operações externas como auxiliares na solução de problemas internos. Seria o estágio em que a criança conta com os dedos. No desenvolvimento da fala, isso corresponde à linguagem egocêntrica.

No quarto estágio, as operações externas se interiorizam e passam por uma profunda mudança. A criança começa a contar mentalmente, a usar a “memória lógica”, a operar com relações interiores em forma de signos interiores. No campo da fala, a linguagem interior ou silenciosa corresponde a essa fase.

 

O pensamento conceitual como produto da

 

interiorização da linguagem

 

O intermediário fundamental entre a linguagem externa e a linguagem interna constitui a “linguagem egocêntrica”. Para a explicação desse processo, Vygotsky usa como apoio metodológico a tese de Watson, o criador do behaviorismo americano, para quem existe identidade estrutural entre linguagem interior e pensamento, e que a transição entre um e outro consiste na diminuição do som da linguagem falada. O sussurro seria, para Watson, o estado de transição da linguagem falada para a silenciosa. Para Vygotsky, contudo, existiriam profundas transformações funcionais e estruturais da linguagem exterior para se constituir como linguagem interior: a passagem dos “mecanismos associativos” para os “mecanismos implicativos” ou “lógicos”.

A coincidência metodológica com a tese de Watson pode-se observar na seguinte passagem:

 

Abordamos o ponto de vista de Watson não só porque ele é muitíssimo difundido e típico daquela teoria do pensamento e da linguagem que ele representa, nem porque ele nos permite contrapor claramente o enfoque genotípico da questão ao fenotípico, mas principalmente por motivos positivos. Na abordagem de Watson, somos inclinados a ver uma correta sugestão metodológica do caminho a ser seguido para se chegar à solução de todo o problema. (ibidem, p.135, grifo nosso)

Essa abordagem metodológica consiste na necessidade de encontrar o elo capaz de reunir os processos das linguagens exterior e interior. Entretanto, esse elo não é o sussurro, como propõe Watson, mas sim a “linguagem egocêntrica”.

Para Vygotsky (ibidem, p.136), a “linguagem egocêntrica” muito facilmente se torna pensamento, ou seja, assume a função de operação de planejamento, de solução de tarefas que surgem no comportamento.

Como resultado das suas pesquisas filogenéticas e ontogenéticas, e seus estudos experimentais sobre o processo de interiorização da linguagem, Vygotsky chega a duas conclusões, as quais exprimem a tese da determinação sócio-histórica ou histórico-cultural do pensamento. Na primeira delas, a internalização das estruturas da linguagem determina a natureza das estruturas básicas do pensamento.

 

A linguagem interior se desenvolve mediante um lento acúmulo de mudanças estruturais e funcionais; ela se separa da linguagem exterior das crianças ao mesmo tempo que ocorre a diferenciação das funções social e egocêntrica da linguagem; por último, as estruturas da linguagem dominadas pela criança tornam-se estruturas básicas do seu pensamento. (ibidem, p.148)

 

Isso determina um fato indiscutível e decisivo: que o desenvolvimento da linguagem interna depende, sobretudo, de fatores externos que determinam a natureza do pensamento conceitual.

 

O desenvolvimento do pensamento e da linguagem depende dos instrumentos da experiência sociocultural da criança. Basicamente, o desenvolvimento da linguagem interior depende de fatores externos: o desenvolvimento da lógica na criança, como demonstram os estudos de Piaget, é uma função direta de sua linguagem socializada. O desenvolvimento do pensamento da criança depende de seu domínio dos meios sociais do pensamento, isto é, da linguagem. (ibidem, p.149, grifo nosso)

 

A segunda conclusão é de caráter metodológico e teórica e decorre dos estudos comparativos do desenvolvimento da linguagem e do intelecto junto aos animais e às crianças: “[...] um desenvolvimento não é a simples continuação direta de outro, mas ocorre uma mudança do próprio tipo de desenvolvimento – do biológico para o histórico-social”.

Mas, o que muda nessa ruptura do biológico para o social, pela ação da vida histórico-social? O que muda é a natureza das conexões: os comportamentos práticos ou sensório-motores obedecem a leis mecânicas e associativas, a consciência e o pensamento conceptual, a leis histórico-sociais e, por isso, a mecanismos implicativos e lógicos. “O pensamento verbal não é uma forma natural e inata, mas uma forma histórico-social e por isso se distingue basicamente por uma série de propriedades e leis específicas, que não podem ser descobertas nas formas naturais do pensamento e da linguagem” ibidem, p.149, grifo nosso). A partir dessas duas conclusões, Vygotsky (ibidem, p.149) reafirma a concepção básica de partida: se reconhecermos o caráter histórico do pensamento verbal, devemos estender a essa forma de comportamento todas as teses metodológicas que o materialismo histórico estabelece para todos os fenômenos históricos na sociedade humana.

Portanto, na tese de Vygotsky não existe continuidade com reconstrução (entre ações práticas da criança pré-verbal e o pensamento conceitual que se segue), mas sim ruptura radical entre duas formas de inteligência. A diferença estrutural ocorre em razão da determinação unilateral de uma fonte exterior ao funcionamento próprio do indivíduo.