Pensamento e linguagem: Vygotsky, Wallon, Chomsky e Piaget
3. A teoria de Stern e o erro de Vygotsky
3. A teoria de Stern e o erro de
Vygotsky
Crítica de Vygotsky ao idealismo e
intelectualismo de Williams Stern1
A crítica de Vygotsky a Stern permite observar melhor a singularidade e os limites do pensamento de Vygotsky. No presente caso, é pertinente a afirmação de que a crítica revela melhor o autor da crítica do que o sujeito criticado.
Segundo Vygotsky, a teoria de Stern é uma teoria idealista, pois a explicação do desenvolvimento da linguagem carece de uma explicação causal e genética. Tratar-se-ia de uma explicação intelectualista, idealista, pois a capacidade da linguagem humana – caracterizada pela sua intencionalidade e seu simbolismo – teria como origem uma “tendência primordial”, inexplicável em termos causais e materiais.
Stern substituiria a explicação causal e genética por uma explicação intelectualista quando vê na linguagem humana uma decorrência de uma condição prévia indeterminada: tendência primordial para a intencionalidade. Tal intencionalidade seria como “ter alguma coisa em mente” para alcançar objetivos, “designar algo objetivo emitindo sons” (sendo esses objetivos uma coisa, um conteúdo, um fato, um problema etc.).
Vygotsky resume o que considera o erro principal de Stern nos seguintes termos. Em primeiro lugar, Stern não explica causalmente aquilo que considera como fator essencial para a constituição das formas superiores de linguagem e pensamento. Nesse sentido, a sua teoria seria antigenética (a-histórica). Em segundo lugar, os traços que distinguem as formas superiores do desenvolvimento da linguagem são deslocados aos seus começos. Nos começos da vida mental, não existe traço algum de intencionalidade e significação. Desse modo, a teoria de Stern seria inconsistente e vazia, uma vez que nada explica e instaura um círculo vicioso: quando tenta responder quais são as raízes e as vias de surgimento da inteligibilidade da linguagem humana, Stern afirma que ela tem origem na “tendência intencional”, isto é, tendência para a inteligibilidade. É nisso que consiste o erro principal de qualquer teoria intelectualista e da teoria de Stern em particular, porque, ao explicar, ela tenta partir daquilo que, no essencial, deve ser explicado. Nisso reside sua característica antigenética (os traços que distinguem as formas superiores do desenvolvimento da linguagem
[...] são relegados aos seus primórdios); nisso consiste a sua inconsistência interna, o vazio e ausência de conteúdo, uma vez que, no fundo, ela nada explica, pelo contrário, descreve num círculo lógico vicioso; e quando tenta responder quais são as raízes e as vias de surgimento da inteligibilidade da linguagem humana, Stern afirma que ela tem origem na tendência intencional, vale dizer, na tendência para a inteligibilidade. (Vygotsky, 2010 [1934], p.99)
Mas se isso é verdade, por que razão a teoria da Stern sobre a origem da lógica infantil se tornou clássica?
Segundo Vygotsky, a aceitação tácita de muitos autores sobre a lógica da linguagem infantil se deveu à descrição de Stern daquilo que se tornou aceito facilmente na psicologia da criança: o momento em que a criança faz uma das maiores descobertas de toda a sua vida: “todo objeto tem o seu nome”. Em virtude desse fato, Stern atribuiu à criança de 2 anos a necessidade e a consciência dos símbolos. Isso levou a admitir que uma criança de 2 anos compreende a relação entre signo e significado, ou seja, tem consciência da função simbólica da linguagem (consciência da diferença entre significante e significado).
Diante disso, Vygotsky, com justa razão, pergunta sobre a existência de fundamentos fatuais e teóricos para semelhante suposição. Para ele, estudos de mais de duas décadas desmentem essa possibilidade: uma criança dessa faixa etária tem pouquíssimo a ver com uma operação mental sumamente complexa (consciência do significado da linguagem). Pelo contrário, essa aquisição é bem tardia e se processa graças a uma longa história natural e cultural de signos.
Para Vygotsky, muitas pesquisas e observações experimentais indicam que o domínio da relação entre signo e significado surge na criança bem mais tarde e é inacessível para uma criança da idade admitida por Stern. Pelo contrário, o processo genético é sumamente complexo e envolve uma “história natural de signos” que tem raízes naturais e formas transitórias nas camadas primitivas do comportamento pré-verbal e na história cultural de signos, que passa por mudanças quantitativas, qualitativas e funcionais, como
aquelas observadas no capítulo anterior.
Segundo Vygotsky, Stern ignora esse processo complexo e simplifica infinitamente o processo de desenvolvimento da linguagem. Por isso, Stern substitui a via genética real por uma explicação intelectualista, logicizante: de que a criança descobre que a linguagem tem sentido e significação.
Para mostrar o caráter idealista e intelectualista da teoria de Stern, Vygotsky compara as raízes das funções expressivas e comunicativas da linguagem primária com a tendência intencional da linguagem verbal ou conceitual.
A “função expressiva” constitui um sistema de comportamentos claros e geneticamente antigos, que remonta às raízes dos instintos e reflexos incondicionados e que passa por modificações estruturais. O mesmo se poderia dizer da “função comunicativa” que foi observada tanto nos antropoides quanto nas crianças pré-verbais. Essas tendências primitivas possuem bases materiais, o que não ocorre com a “tendência intencional”. Esta surge do nada, não tem história genética, nada a determina, no entanto é postulado como primitiva, primordial, e surge “de uma vez por todas”, por si mesma; e, em função dessa tendência, a criança descobre o significado da linguagem por meio de um processo puramente lógico.
Em decorrência de tudo isso, para Vygotsky, Stern cometeria um erro capital: atribuir ao início intelectual da fala infantil a causa primeira da linguagem consciente.
Importância dos processos
endógenos, para a teoria da interação,
segundo Stern
Para nós, a hipótese de Stern tem um valor extraordinário para o avanço da ciência, pois, embora ele não explique em termos causais e genéticos, a sua conjectura teórica é correta: existência de significação e intencionalidade das funções expressivas e comunicativas primárias, particularmente no momento crítico de acesso ao mundo simbólico da pergunta “O que é isso?”. Não é apenas pelo nome que a criança pergunta, mas sim pelo que os objetos mantêm em relação aos esquemas previamente adquiridos.
Sabemos hoje que a distinção consciente entre o signo e o conceito é tardia e que a intencionalidade, como planejamento consciente de ações, também o é; contudo, não se poderia negar que tanto a significação quanto a intencionalidade já ocorrem, praticamente, nos primeiros dezoito meses de vida da criança. A “lógica da ação”, como observaremos na terceira parte deste livro, é imanente ao funcionamento das estruturas inteligentes da atividade sensório-motora.
Vygotsky tem razão quando critica a atribuição à criança pequena da intencionalidade e da significação como formas acabadas de linguagem e inteligência. Mas não quando retira dos comportamentos inteligentes da criança pequena toda significação e intencionalidade. Ele não consegue observar – quase como uma espécie de recalque cognitivo – que os comportamentos da criança pequena, quando esta se adapta inteligentemente ao mundo, organizam-se de maneira intencional e significativa. Não consegue admitir que os esquemas práticos funcionam também como sistemas de encaixes e de relações “implicativas” (implicação significante), análogas (isomorfas) às futuras estruturas lógicas do pensamento conceptual.
Somente anos mais tarde se conseguiu provar que, embora exista diferença estrutural entre a inteligência sensório-motora e a inteligência conceptual, existe, do ponto de vista do funcionamento, isomorfia funcional. É justamente essa isomorfia e essa diferença estrutural que será mostrada, anos depois, pela pesquisa psicogenética. Portanto, o erro de Vygotsky é ter negado, do ponto de vista do funcionamento, comportamentos significativos e intencionais nas ações inteligentes (adquiridas) da criança. Foi, justamente, esse erro que o levou a buscar a originalidade da consciência humana numa fonte exterior: na determinação das leis “histórico-sociais”. Isso o levou a privilegiar a transmissão social na formação logica do pensamento verbal ou conceitual da criança (das leis da linguagem que se internalizam em leis do pensamento).
A dialética da natureza não foi buscada nos processos endógenos, mas, apenas, em fontes externas a ela. Foi justamente esse erro que não lhe permitiu observar a originalidade do fator da interação social, proposto por Stern, como uma das fontes importantes da formação, não determinação, da inteligência conceptual da criança.
Consideramos que a proposta de “interação social” foi muito avançada para os tempos de Stern, pois constitui uma solução relacional e dialética. Contudo, para Vygotsky, Stern teria fracassado também nesse aspecto. O motivo desse fracasso seria o mesmo que as hipóteses anteriores propõem.
É fato histórico que Stern buscou superar o empirismo e o inatismo e propor uma teoria interacionista. Por um lado, ele questionou os empiristas, pois para estes a linguagem infantil é produto do meio e a criança participa passivamente na sua aquisição; por outro lado, se opôs aos inatistas, pois, para estes, a linguagem infantil primitiva é criação da criança, de acordo com as ações milenares do ser humano (uma simples atualização).
Para superar as concepções epistemológicas acima apontadas, Stern propôs o princípio metodológico interacionista: princípio de “convergência” entre o organismo e o meio. No entanto, para Vygotsky, essa solução não se sustenta, pois Stern estaria utilizando explicações genéricas e deixando de analisar a especificidade dos fatores sociais. Stern estaria propondo um intelecto já formado e, por isso, estaria obedecendo a determinações individuais.
Poderia parecer que a redução do problema central da linguagem – sua inteligibilidade – a uma tendência intencional e a uma operação intelectual permitisse que esse aspecto da questão – a relação e a interação entre linguagem e pensamento – recebesse a mais completa elucidação. Na realidade, porém, é precisamente esse tipo de enfoque do problema – que supõe antecipadamente um intelecto já formado – que não permite elucidar a interação dialética sumamente complexa entre intelecto e linguagem. (ibidem, p.104-5, grifo nosso)
Sabe-se que Stern, para defender a influência social, recorreu, principalmente, às interações sociais e, secundariamente, à transmissão social e cultural. Ele faz intervir também processos internos na explicação do desenvolvimento das funções superiores. Mas, tudo isso, na interpretação de Vygotsky, é insuficiente, e o interacionismo de Stern fracassaria devido à superestimação de fatores internos. É verdade que Stern (ibidem, p.109, grifo nosso) declara decididamente que o meio social é o principal fator de desenvolvimento da linguagem da criança, mas, na realidade, “ele restringe o papel desse fator a uma influência puramente quantitativa sobre o retardamento ou à aceleração dos processos de desenvolvimento, que, em seu fluxo, estão sujeitos a sua lei interna imanente”. Isso leva o autor a uma colossal superestimação dos fatores internos, como procuramos mostrar com o exemplo da explicação da inteligibilidade da linguagem.
Embora Stern não contasse com dados concretos para defender o seu ponto de vista, as suas hipóteses sobre a participação dos elementos endógenos da atividade elementar humana, para os efeitos da real interação, são originais e legítimas. As pesquisas científicas das décadas seguintes confirmariam essas suposições.