Professores formados na FFP/UERJ e inclusão

Anelice Ribetto · Capítulo 8 de 15

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Professores formados na FFP/UERJ e inclusão

Experiências de formação: entre o que emerge no encontro com alunos da Educação Especial em Sala de Recursos e o não ser professora

Experiências de formação:

 

entre o que emerge no encontro

 

com alunos da Educação

 

Especial em Sala de Recursos e

 

o não ser professora

 

Valéria Vilhena

 

Esta escrita acontece entre práticas escolares e estudos de formação em Pedagogia na FFP/UERJ (Faculdade de Formação de Professores). Narra a formação nos encontros com as disciplinas de Psicologia da Educação, Educação Especial (EE), ambas da grade curricular, e Educação Especial nas eletivas que escolhi por já viver, naquele tempo, a EE como escolha no fazer pedagógico.

Restitui (Lourau, 1993) o experenciado em Salas de Recursos (SR) e o encontro com a inclusão na rede pública no município de Niterói, articulados com diários de campo (Lourau, 1993), de trabalho e afetos, até o momento presente. Dando as mãos ao texto caminhada-protesto de Rosimeri Dias, “Entre ementas, teorias e o que temos feito de nós na relação psicologia e educação”, pelo desejo de ter estado ali, resistindo, para manter viva essa universidade. Fazendo visível o vivenciado no campo da Educação Especial e a força dessa universidade no momento em que resiste, mais do que nunca, a uma política de desvalorização da educação em nosso estado e em nosso país. Restitui, portanto, o investimento feito em mim, como profissional na Educação Especial que se abre às diferenças nas escolas e reafirma a técnica ali forjada como força transformadora daquilo que temos e daquilo que desejamos no campo da escola e no campo da vida. Reverbera a experiência como bolsista da FAPERJ, no projeto de “Formação Inventiva de

Professores”1, da mesma autora do texto-ato-caminhada. Rompendo tempo e espaço, coloco-me no e, de Dias, e me misturo (Lourau, 1993, p. 110). E também se constitui, então, de Sala de Recursos e de professora na Educação Especial. Formação feita na periferia, ali citada. Crescer em ato-caminhada de mãos dadas em outros tempo e espaço são forças que tangenciamos, também, nos estudos de psicologia e educação. Faço em dois tempos, a seguir: O que emerge nos encontros na Sala de Recursos e na perspectiva de Inclusão; a situação dos(as) (professores) auxiliares de Educação Especial no município de Saquarema. Peço licença a Caetano Veloso e uso seu canto poesia ao Tempo.

 

És um senhor tão bonito

Quanto a cara do meu filho

Tempo Tempo Tempo Tempo

Vou te fazer um pedido

Tempo Tempo Tempo Tempo

Compositor de destinos

Tambor de todos os ritmos

Tempo Tempo Tempo Tempo

Entro num acordo contigo

Tempo Tempo Tempo Tempo

(“Oração ao tempo”, Caetano Veloso)

 

O que emerge nos encontros na Sala

 

de Recursos e na perspectiva da

 

inclusão

 

Escrever entre práticas e estudos usando o tempo a nosso favor, se posso hoje fazê-lo, há um tanto disso na disciplina de Psicologia da Educação do currículo de Pedagogia da FFP/UERJ, com a professora Rosimeri Dias. Porque, no entre ementa e práticas de estudos de formação, estudamos filosofia, que nos ajuda a pensar em ética e rever conceitos de estética, por exemplo. Hoje – lamento muito –, essa possibilidade tende a ser negada aos estudantes do Ensino Médio. Estudar filosofia e autores afetos à Educação Especial pode, ainda, provocar movimentos que, no meu caso, deslocaram-se da Pedagogia Empresarial para as Salas de Recursos. Outras formas implicadas na formação de professores se somam, e estar na EE seria inimaginável sem minhas professoras Anelice Ribetto e Vanessa Brea. Se aqui o expresso, é mesmo pelo desejo de fazer ver o quanto nossos mestres resistem em fazer formação de professores com práticas que viabilizem a inclusão e nos seja possível chegar ao chão da Escola Básica com ferramentas para analisar e intervir, buscando contornos outros que viabilizem estudar e aprender com alegria, não sem luta.

Apertando as mãos unidas no ato-caminhada, trago o cronograma

de um semestre intenso em estudos e em aprendizado:2

CRONOGRAMA DE ATIVIDADES DO 1.º SEMESTRE/2011

Mês Dia Atividades/Textos Local

 

Fevereiro 08 Reunião do grupo FFP

de pesquisa:

planejamento do

semestre/seleção

de bolsistas de

EIC e ID

 

09 Reunião do grupo CECMS

de pesquisa:

planejamento do

semestre e filme

Só dez por cento é

mentira

 

15 GE: Hermenêutica FFP

do sujeito – aula

do dia 10/02/1982

 

16 Orientação CECMS

bolsistas

 

18 PRAZO FINAL EIC

/ ID

 

22 GE: Hermenêutica FFP

do sujeito – aula

do dia 17/02/1982

 

23 Exibição e debate CECMS

do filme Só dez

por cento é

mentira

 

Março 01 GE: Hermenêutica FFP

do sujeito – aula

do dia 24/02/1982

 

15 GE: Hermenêutica FFP

do sujeito – aula

do dia 03/03/1982

do dia 03/03/1982

 

16 GE: Análise CECMS

Institucional e

práticas de

pesquisa –

primeiro encontro

(26/04/1993)

 

17 Reunião da equipe CECMS – de 10h30min às

técnica e 12h30min pedagógica do

CECMS

 

22 GE: Hermenêutica FFP

do sujeito – aula

do dia 10/03/1982

 

23 GE: Análise CECMS

Institucional e

práticas de

pesquisa –

segundo encontro

(27/04/1993)

 

25 Prazo final do

relatório

PIBIC/UERJ

 

31 ENVIO DO TEXTO

DO LIVRO

SOBRE

FORMAÇÃO

INVENTIVA DE

PROFESSORES

 

29/03 à 02/04 –

congresso na

Espanha

 

Abril 05 GE: Hermenêutica FFP

do sujeito – aula

do dia 17/03/1982

06 GE: Análise CECMS

Institucional e

práticas de

pesquisa – terceiro

encontro

(28/04/1993)

 

12 GE: Hermenêutica FFP

do sujeito – aula

do dia 24/03/1982

 

13 Reunião da equipe CECMS – de 10h30min às

técnica e 12h30min pedagógica do

CECMS

 

14 PRAZO FINAL http://www.anped.org.br/novo_portal

PARA ENVIO DE

TRABALHO PARA

A ANPED

 

16 PRAZO FINAL http://www.seminarioredes.com

PARA ENVIO DE

TRABALHO PARA

O CONGRESSO

DE REDES

 

19 GE: Hermenêutica FFP

do sujeito –

resumo e situação

do curso

 

20 GE: Análise CECMS

Institucional e

práticas de

pesquisa – quarto

encontro

(29/04/1993)

 

26 Governo de si e FFP

dos outros –

situação do curso

 

Maio 03 Governo de si e FFP

dos outros – aula

do dia 05/01/1983

 

04 GE: Análise CECMS

Institucional e

práticas de

pesquisa – quinto

encontro

(30/04/1993)

 

10 Governo de si e FFP

dos outros – aula

do dia 12/01/1983

 

17 Governo de si e FFP

dos outros – aula

do dia 19/01/1983

 

18 Reunião da equipe CECMS – de 10h30min às

técnica e 12h30min pedagógica do

CECMS

 

24 Governo de si e FFP

dos outros – aula

do dia 26/01/1983

 

26 PRAZO FINAL

PARA SOLICITAR

APQ3

 

31 FFP

 

Junho 01 CECMS

 

07 FFP

 

14 FFP

 

15 Reunião da equipe CECMS – de 10h30min às

técnica e 12h30min

pedagógica do

CECMS

21 FFP

 

28 FFP

 

29 CECMS

 

Julho 05 FFP

 

12 FFP

 

13 CECMS

 

3 à ABRAPEE –

6 Maringá

OBS: Acontecerão encontros para orientações individuais. É

importante lembrar que estes precisam ser agendados com a

orientadora.

Para o segundo semestre de 2011, temos as seguintes datas para

as reuniões mensais com o corpo técnico e pedagógico do CECMS:

10/08; 14/09; 26/10 e 16/11 o mês de junho está em aberto, pois

será um mês de elaboração dos relatórios finais dos bolsistas e a

ideia é fazermos leituras de poesias, contos, vídeos, pinturas…

Aguardo sugestões!!!!

 

Problematizando: Como funcionar em modelos de estudos quando você se compõe de um semestre inteiro de filosofia foucaultiana que provoca mudanças intensas, de arte como estética de vida, quando “o truque era só virar bocó” (Barros, 1996, p. 23), e também se reinventar nas pedras, nas formigas e nas flores? Quando estudos de formação forjam um professor aberto à alteridade? Um diário de campo me auxilia nas possíveis respostas.

 

Os ventos de agosto e Johnny, com seu desejo de voo, foram disparadores

da experiência das cafifas, no encontro do dia 28/08/2016. Com autismo que

não o coloca nas esperadas condições de ‘prestar atenção nas propostas’,

nossos encontros têm sido uma viagem sempre em deriva. Estas condições

me deslocam, muitas vezes, para o lugar do aprendiz, que no momento, foi o

de aprender a fazer cafifas. Ele fez aquelas dez, vinte perguntas sobre cafifas

com nomes de peão, arraia, cabresto, rabiola. Tudo que já fez parte do meu

vocabulário de irmã de um menino com quem brinquei durante toda a

infância. A mim, naquela época, era dada a função de fazer rabiola, o rabo do

papagaio (como é conhecido em Minas Gerais). Todo o resto, não sabia.

Planejamos para a próxima aula confeccionar cafifas. Gerônimo, meu aluno

também com autismo, sabe fazer e seria nosso professor. O protagonismo de

Gerônimo é algo que tenho propiciado e ele tem feito movimentos

interessantes com isso. Mas, fui ao youtube aprender e vi garotos de todas as

idades mostrando suas artes de voo. Muito bacana! Arthur, outro

companheiro de voos, deu aula de cabresto em casa. Parti para a serra do

Mato Grosso com ânimo e dúvidas.

No dia 30, dia da aula de cafifas, Gerônimo faltou. Ainda bem que eu já tinha

feito o dever de casa… Levei, também, duas arraias prontas, dois carreteis

de linha própria e quatro folhas em cores diferentes.

E agora? Getúlio não veio. Outro aluno que iniciava na Sala de Recursos

naquele dia, o Caique, chegou mais cedo, viu as cafifas e ficou doido de

alegria. Meus alunos são de uma comunidade rural extremamente carente,

no meio do mato. Ele sabe fazer cafifas. Fomos pro mato buscar bambu.

Entramos com um facão emprestado da cozinha sob os olhares festivos das

cozinheiras. Ele nos mostrou que bambu seco e fino não serve. Verga com a

pressão. Tem um ponto do estar verde que é preciso conhecer. Difícil!!! Tudo

bem, conseguimos! Sua habilidade em cortar os bambus, como ele faz

pressão de cima para baixo para obter o corte reto e preciso não tem manual,

mas é eficiente demais. O medo de deixar a faca em suas mãos foi

substituído por confiança quando olhou para mim e disse: ‘tia, isso é fácil pra

mim.’ Na sequência, cortou quadrados precisos com ângulos em 90º feitos

por dobraduras. Rápido e tranquilo para ele. Johnny, fazia perguntas. Jean

precisava de autoconfiança para arriscar mais, mas inda não consegue

assumir fazeres próprios. Fim do tempo de atendimento. Foram para casa.

Não foram. Ficaram por lá, querendo mais. Maicon chegou para nosso

encontro. E formamos um grupo maior de cafifeiros e aprendizes de

cafifeiros.

Foi um grande barato. Discutir sobre o barulho que o peão faz no ar, fazer ver

que o formato do peão provoca mais atrito com o ar e também o barulho; que

o cabresto alto da arraia deixa o ar passar por baixo com menos atrito e

menos barulho gostoso; discutir a questão do cerol que alguns deles usam;

tudo atravessado pela experienciação. Que dia! Que encontro! O

planejamento anterior, para este dia, era de concluir uma maquete de casa

que estamos montando. Chamo de casa retalho por ter um pouco da casa de

cada um. No entra e sai dos horários estabelecidos, eles continuam lá

quando saem, imprimem nos pequenos espaços da maquete, seus olhares e

percepções das abordagens feitas sobre as variações arquitetônicas, seus

usos e formas, recursos das construções e os sonhos de como gostaríamos

que fossem. Mas a maquete teve que esperar porque a deriva do Johnny nos

permite voar em outros céus (Diário de voos das cafifas na Serra do Mato

Grosso, 30/08/2016).

 

Contudo, e pelo que estudei como mergulho de desejo de saber, colho as delícias de uma Sala de Recursos, que é lugar de alegria, valorização das habilidades de cada um, de tinta colorida e purpurina. A ementa que trabalha a favor das subjetividades é possível para mim. Oxalá!!

 

Por seres tão inventivo

E pareceres contínuo

Tempo Tempo Tempo Tempo

És um dos deuses mais lindos

Tempo Tempo Tempo Tempo

Que sejas ainda mais vivo

No som do meu estribilho

Tempo Tempo Tempo Tempo

Ouve bem o que te digo

Tempo Tempo Tempo Tempo

 

Vivendo nessa proposta, a formação inventiva de professores (Dias, 2012) opera com processos em curso, processos de aprendizagem que não estão dados, não o sabemos de antemão. É no encontro que se dá a ver, analisar e intervir nesse percurso entre ensinar e aprender. Não chego à Sala de Recursos sem um planejamento, sem objetivos pensados nas singularidades dos estudantes com os quais caminho. Porém, chego aberta ao encontro. Se o estudante necessita aprimorar sua leitura para uma vida com maior plenitude, vamos, por exemplo, fazer também leituras sobre a arte das cafifas que o apaixona e, ali, colho pistas, o fazer se dobra.

Como todo(a) professor(a), na Sala de Recursos, temos demandas da ordem escolar. Temos metas, burocracias a serem planejadas e cumpridas, que são atravessadas pelo aluno. Comumente, eles têm alguma dificuldade motora, principalmente a motora fina. Trazem uma falta de hábito de tomar decisões e fazer escolhas, talvez, consequência de uma naturalização e rotulação da incapacidade que lhes é dada de fora para dentro. Forjar autonomia é uma demanda da Sala de Recursos. Acostumar-se a incorporar a noção benjaminiana de experiência (Benjamin, 1994, p. 115), do fazer e do saber como cuidado de si (Foucault, 2006) é minha proposta com os mosaicos que trago nos trabalhos a seguir. Experienciamos arte como transformação. Aqui, liberdade de escolha está naquilo que nos toca para o tema, as cores, quantidades, enfim, que rompe com o estabelecido para viver a criação como transformação de si. Ainda, o uso de material reaproveitado é transformação como atitude ecológica. Fazer escolhas, brincar com as cores, levar a cabo uma tarefa, tudo atravessa e dá contornos pedagógicos. Autonomia que se adquire no fazer. Conhecer a técnica do mosaico ajuda, inclusive, a desenvolver a concentração, o autoconhecimento e a trabalhar a ansiedade.

Ainda no cronograma que reverbera, e no texto-ato-caminhada de Rosimeri Dias, ela nos provoca: “É possível ensinar modos de trabalhar mais sensíveis às práticas de acontecimentalização?” (Dias, 2017, p. 120). Acreditamos nelas. Desejamo-las. Respondo de mãos dadas nessa caminhada. Meu diário também transversa no tempo e conta:

 

Aprendizado entre produção de subjetividades e positivismo

Tenho participado de processos para contrato temporário em escolas

públicas. As percepções do funcionamento escolar não se esgotam, até

porque a Escola não está terminada, feita, acabada. Percebi que ao chegar

na entrevista necessito dizer, de pronto, qual o objetivo de determinada

abordagem, o que meu aluno vai aprender com aquilo. Como trabalho com

Educação Especial, invariavelmente, estou alfabetizando. Só não havia me

dado conta de que seria preciso expressar isso. Por quê? Porque não

trabalho com objetivos fechados e isto está em mim, encarnado. Penso que

alfabetizar é algo parecido com uma transformação para além da

decodificação de signos. Que eles, os signos, necessitam estar vivos em nós

para que se constituam de sentidos. Por isso não vejo uma alfabetização

como objetivo uno, mas como um mergulho nas palavras, nas cores, sons e

memórias refeitas, reconstituídas. A escola me impõe/ensina: Se não der a

resposta certa, não tira nota para a aprovação. Ainda bem que a escola não

está pronta, vamos interferindo, então (Alfabetizar: Diário de campo,

31/05/2015).

 

O texto “Hermenêutica do sujeito” (2006), auxilia-nos a ver que o saber se dá nas práticas. Saber que se relaciona às coisas do mundo e que é efeito modificador. Engendra-se em formas de ensinar e de aprender em que sujeito é transformado e transformador, acontecimentos no “entre como cruzamento de territórios, no e que é acepção de tornar-se outro” (Dias, 2017, p. 110). Algo como produzir uma casa dos sonhos. Sonho sonhado no coletivo de alunos da Sala de Recursos. Coletivo que rompe territórios e se faz outro no sonho dele e no sonho do colega.

Andar pelas trilhas da Serra do Mato Grosso, em Saquarema; olhar com desejo de ver. De que é feita essa casa? Por que será que ela é assim? Quem construiu mora nela? Quem a sonhou necessitava do quê? Aquela outra ali, em que é diferente desta? Ela te parece gostosa de morar? O que tem nela que te faria sonhar? Assim, iniciamos a maquete da casa dos sonhos, que também chamo de “casa retalhos de nós”. Sonhando, cortamos, colamos, cobrimos paredes e pisos, escancaramos portas e janelas. Separamos cômodos, montamos móveis. Depois, enfeitamos tudo com nossos desejos de beleza e de cores. Se, para Gilberto Gil, a Bahia já deu régua e compasso, a mim, quem deu foi a Faculdade de Formação de Professores da UERJ.

Contudo, o chão da escola é duro. Dói. Não chegaria lá firme para a luta e a resistência sem os estudos que tive oportunidade de viver, sem os textos e as abordagens experienciados nas disciplinas de Educação Especial da grade curricular do curso de Pedagogia e os complementares, que escolhi por afinidade, e por conhecer o trabalho das professoras Anelice Ribetto e Vanessa Brea. “Os infames da História” (Lobo, 2008), por exemplo, descortina o cenário daquilo que se institui como deficiência. Você pode chorar na leitura e, depois, de novo, na vida dentro da escola, mas sabe por quem está chorando, e luta. Luta por não concordar que se continue a tratar alguém como um estorvo, como incapaz, como incômodo. Briga para que as suspensões de alunos parem de acontecer. Faz ver que eles estão esgotados de rejeição sofrida, de não conseguirem se comunicar, de serem culpabilizados todo o tempo. Fica feliz por eles ainda reagirem. Ainda não mataram suas forças de vida! Mas é preciso fazê-lo de forma convincente, e a técnica te ampara, está em você, te constitui, e, assim, vamos nos tornando professoras na Educação Especial. Às vezes, é necessário um tempo preciso, um estribilho. Tempo Tempo Tempo.

 

Que sejas ainda mais vivo

No som do meu estribilho

Tempo Tempo Tempo Tempo

Ouve bem o que te digo

Tempo Tempo Tempo Tempo

Peço-te o prazer legítimo

E o movimento preciso

Tempo Tempo Tempo Tempo

Quando o tempo for propício

Tempo Tempo Tempo Tempo

De modo que o meu espírito

Ganhe um brilho definido

Tempo Tempo Tempo Tempo

E eu espalhe benefícios

Tempo Tempo Tempo Tempo

O que usaremos pra isso

Fica guardado em sigilo

Tempo Tempo Tempo Tempo

Apenas contigo e migo

Tempo Tempo Tempo Tempo (Veloso, 1979)

 

Estar nas Salas de Recursos, tanto faz onde, Niterói, Saquarema ou qualquer outro lugar, é uma escolha que faço diariamente. Muitas vezes, os alunos me chegam pelos professores regentes. Estes são parceiros na inclusão dos nossos caminhantes em outros atos-protestos por desejos de que se tornem alunos para além da matrícula escolar. Para que possamos, no sábado letivo, ver seus trabalhos expostos juntos aos demais. Para que marchem nas festas cívicas, participem das festas de final de ano, dos passeios a lugares que muitos nem imaginam existir. Falta muito, mas somos alunos da UERJ e, como ela, resistimos.

 

Rodrigues (2015) nos diz que há quatro operações disciplinares que se

lançam sobre os corpos (dos alunos e dos professores) e implantam um certo

sistema de controle relativo ao corpus dos saberes: seleção, normalização,

hierarquização e centralização. Aproximando de nossa questão, aqui é

possível dizer que, com tais operações, emerge uma disciplina geral: a

Psicologia da Educação (Dias, 2017, p. 118).

 

Nesse corpus dos saberes, nossos alunos da SR e da Inclusão, claro, não se encaixam. Vivemos em exercício de desfazer esse sistema de controle, de provocar outros modos de olhar para ver. Resistimos e caminhamos com as famílias dos estudantes, orientando, mostrando as leis que os amparam na luta pelos direitos que demoraram a chegar. Auxiliar na resistência para que a família não desista desses direitos é mais um fazer que se dá no entre SR, Inclusão e a vida. Assim, participei de uma reunião com a diretora e com a orientadora pedagógica em uma escola do município de Niterói que está no topo do ranking (palavras da diretora), na tentativa de traçar caminhos para que a aluna usufruísse dos seus direitos.

Há cinco anos trabalhando com essa aluna, caminho com uma guerreira na luta para uma vida digna. Ela está com treze anos. Tem deficiência física, e alguns outros diagnósticos como autismo e deficiência intelectual. Depois de anos na rede privada, em Niterói, e um ano em Curitiba, agora estuda na rede municipal de Niterói, cursando o quinto ano. A avó e eu solicitamos, em abril de 2017, a reunião, já que, após dois meses de aula, a estudante não havia levado, sequer, uma folha de atividades para casa. Seus cadernos continuavam em branco, os bilhetes enviados pela avó na agenda não eram assinados pela professora. Mesmo fazendo horário adaptado, ficando duas horas na escola, não havia nada que possibilitasse entender o que estaria ocorrendo. Ficamos satisfeitas em saber que ela já tem uma professora auxiliar e percebemos que a estudante em questão está confortável com essa professora. Mas, o que ela tem feito na escola? Quais trabalhos está produzindo? Por que não há nada nos cadernos, nas atividades para casa? Por que não fez avaliação, ou o que fez nesse momento? “Se não fez a avaliação foi um erro da professora que vou corrigir” – respondeu a Sr.ª Diretora. E as adaptações, como estão ocorrendo? – indaguei. “Aqui não fazemos adaptações. Ela ficará no 5.º ano até que consiga fazer a mesma prova que os demais alunos” – respondeu novamente. Não paramos aí, mas nesse campo árido não vou investir tempo. Procuramos o setor de Educação Especial – a casa amarela, como é chamada – reunimo-nos em busca de terrenos mais férteis e, ao que parece, encontramos.

Reafirmando um caminhar de mãos unidas com a FFP e meus professores, que são inesquecíveis, todos eles, damos continuidade à luta na e pela educação em nosso país. Minhas colegas e meus colegas estão por aí espalhados. Somos muitos. Nossa corrente pedagógica é forte e está viva! Seguimos, sempre que possível, com alegria, porque estamos fazendo o nosso trabalho. As disciplinas de Psicologia da Educação e de Educação Especial, com suas ementas inventivas e outros modos de olhar e de ver o outro, possibilitam ferramentas contra o assujeitamento no espaço escolar. Também elas não estão separadas, porque se coadunam na realização de um trabalho que acontece em mergulho profundo nos temas abordados.

 

E quando eu tiver saído

Para fora do teu círculo

Tempo Tempo Tempo Tempo

Não serei nem terás sido

Tempo Tempo Tempo Tempo

Ainda assim acredito

Ser possível reunirmo-nos

Tempo Tempo Tempo Tempo

Num outro nível de vínculo

Tempo Tempo Tempo Tempo

Portanto peço-te aquilo

E te ofereço elogios

Tempo Tempo Tempo Tempo

Nas rimas do meu estilo

Tempo Tempo Tempo Tempo (Veloso, 1979)

 

Um tempo de não ser professora, mas

 

já terás sido

 

Como trouxe anteriormente, sou professora em SR, com pósgraduação em Educação Especial. Mas, não terei sido. Viver em articulações com um não ser professora e o ser professora, habitando o mesmo espaço escolar, o mesmo tempo escolar como se dá? És ou não és? Quem tem a resposta? A mesma escola que gosta tanto de respostas certas não consegue nos responder. Vou contar, quem sabe problematizando, inventando uma vida outra, ou mesmo no ato da escrita, algumas pistas a mais nos cheguem como comumente ocorre. Conto como ato de caminhante.

 

Quando nos posicionamos em movimentos de vínculo estreito com o tempo e

os modos de vida para pensar e fazer psicologia e educação, na verdade

falamos de lutas contra o assujeitamento, apontando para os combates em

prol da invenção de si e do mundo e, também, das lutas de estudantes e

professores para se libertarem das formas de ensinar e aprender

comportamentais, desenvolvimentistas e cognitivistas, que reduzem a vida a

um processo de solução de problemas. Apostamos em processos de

invenção de problemas, de problematizações que não funcionam como

universais (Dias, 2017, p. 121).

 

No ano de 2015, a prefeitura de Saquarema abriu concurso, inclusive, para professores das Salas de Recursos. A nomenclatura para esse profissional, já no edital, era de Auxiliar de Educação Especial. Ao questionarmos a nomenclatura, antes de fazer as provas, foi-nos dito que houve um erro no edital e este seria corrigido. Acreditamos. Tomamos posse e iniciamos o Atendimento Educacional Especializado nas Salas de Recursos, em fevereiro de 2016. Em abril do mesmo ano, nada havia mudado na nomenclatura. Entre fevereiro e abril, questionamos, ouvimos, falamos, conseguimos algumas inimizades de pessoas que tomam os questionamentos justos como pessoal, e nada mudou. Documentamos e levamos à Secretaria de Educação uma carta que expunha as contradições entre edital e verdade do trabalho, além da formação específica exigida para o exercício do cargo. Um ano depois de entregue e assinada pela mesma Secretaria de Educação, soubemos que não fora protocolada. Agora, com um advogado que tomou nossa causa, soubemos que ela estaria perdida entre as mudanças de mandatos da prefeitura local. Iniciamos novamente um processo de pedido de revisão. O SEPE (Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação) tem sido parceiro nessa luta, mas ainda recebemos como Auxiliares de Educação Especial e trabalhamos comprometidamente com nossos alunos. Os resultados desses trabalhos são reconhecidos no município de Saquarema, mas não representam mudanças. É um tempo de não ser professora, mas já terás sido.

Nesse percurso, o município, os alunos da EE e o grupo de professoras da SR perderam colegas que desistiram da luta por motivos vários, entre eles, a possibilidade de trabalhar no município de Araruama, que valoriza esse profissional com boas condições de trabalho, reconhecimento do investimento feito na formação, salários dentro da lei do piso para a função exercida e compromisso com a inclusão. Pois é, elas nos fazem falta!

Ainda não sendo efetivados como professores, não podemos participar de cursos e de eventos que exijam tal nomenclatura. Como deixar de ser aquilo que você de fato é? “[…] na verdade falamos de lutas contra o assujeitamento […]”.

A professora continua nos dando aula de Psicologia da Educação. As disciplinas de Educação Especial também continuam presentes na luta para as muitas formas de inclusão. A maneira como se pode viver uma formação reverbera na vida. Não há uma professora separada da vida pessoal e da vida coletiva. Tudo é força transformadora e potência de vida digna.

O município de Saquarema vive hoje com o trabalho de muitos professores formados na UERJ, assim como todo o país. Encontramo-nos aqui e ali. Nossa universidade está viva e forte, reafirmo. Resiste em nós. Nossos professores da FFP estão, transversos no tempo e no espaço, presentes nas salas de aula, nas pesquisas, trabalhos de campo, na vida de Saquarema. Habitamos esse espaço. A UERJ nos habita. Somos um em muitos e muitos em um. Vivas à UERJ! Vivas!

 

Referências

 

BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas: magia e técnica, arte e política. 7 ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.

 

DIAS, Rosimeri de O. “Pesquisa-intervenção, cartografia e estágio supervisionado na formação de professores”. Disponível em:

www.anped.org.br/33encontro/internas/ver/trabalhos-gt24. Acesso em: 22 fev. 2013.

 

______. “Entre ementas, teorias e o que temos feito de nós na relação psicologia e educação”. Disponível em:

http://www.crp03.org.br/aquisicao/conversacoes-em-psicologia-e-

educacao. Acesso em: 26/05/2017.

 

______ e SCHEINVAR, Estela. “Posfácio”. In ______ (orgs.). Formação inventiva de professores. Rio de Janeiro: Lamparina, 2012, pp.147-50.

 

FOUCAULT, Michel. A hermenêutica do sujeito. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

 

______. O governo de si e dos outros. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

 

GIL, Gilberto. “Aquele Abraço”. In Gilberto Gil. Philips Discos, 1969.

 

LOBO, Lilia. Os infames da história: pobres, escravos e deficientes no Brasil. Rio de Janeiro: Lamparina, 2008.

LOURAU, Renê. Análise institucional e práticas de pesquisa. Rio de Janeiro: EdUERJ, 1993.

 

VELOSO, Caetano. “Oração ao tempo”. In Cinema transcendental. Universal Discos, 1979.