Professores formados na FFP/UERJ e inclusão

Anelice Ribetto · Capítulo 1 de 15

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Professores formados na FFP/UERJ e inclusão

Prefácio: Mestres ignorantes e outros olhares em um mundo nem sempre redondo

Prefácio

 

Mestres ignorantes e outros

 

olhares em um mundo nem

 

sempre redondo

 

Helena da Fontoura, Maria Tereza Goudard Tavares

 

O mundo parece chato mas eu sei que não é. Sabe por que parece chato?

Porque, sempre que a gente olha, o céu está em cima, nunca está embaixo,

nunca está de lado. Eu sei que o mundo é redondo porque disseram, mas só

ia parecer redondo se a gente olhasse e às vezes o céu estivesse lá

embaixo. (LISPECTOR, Clarice. Felicidade Clandestina. Rio de Janeiro:

Rocco, 1998)

 

Prefaciar um livro é sempre mobilizador de sentimentos e afecções. Um convite aberto e amoroso que só é feito a partir da radicalidade do desejo de encontro. Desse modo acolhemos o convite de estar no presente livro com um pouco de nossos percursos e lugares do dizer. A experiência da escritura nos comove e nos impulsiona à busca do diálogo com o pensamento do(s) outro(s). É uma honra e uma alegria, especialmente por conta da alegria do convite, da deferência afetiva e profissional que muito nos honra. Mas, embora a honra possa ser não merecida, ela pode mobilizar e reforçar a alegria, a “nossa força maior”, segundo o poeta brasileiro Oswald de Andrade, a “verdadeira prova dos nove”. Escolhemos então a alegria, por conta de sua potência e das possibilidades que oferece aos nossos sonhos, que, embora ainda fragilmente sonhados, teimam em oferecer resistência aos tempos fraturados que, no país e no mundo, assombram a democracia, a pedagogia, a escola, a formação de professores, a educação especial…

O livro Professores formados na FFP/UERJ e inclusão: entre políticas, práticas e poéticas, organizado pela Prof.ª Dr.ª Anelice Ribetto, é fruto de diferentes intervenções de pesquisa, ensino e extensão realizadas por ela e por seu grupo de pesquisa “Diferenças e alteridade em educação”, no período compreendido entre 2014 e 2017. Os onze textos reunidos neste livro e agrupados em três seções, que dialogam entre si e que se entrelaçam num tecido forte e bem alinhavado, convidam-nos a partilhar os sentidos das políticas, das práticas e das poéticas nas quais professoras da Escola Básica, professoras e estudantes da Faculdade de Formação de Professores, do mestrado em Educação: Processos Formativos e Desigualdades Sociais, gestoras das redes públicas de ensino e famílias, principalmente mães de estudantes e pessoas com deficiências, buscam desafiar e inaugurar outros modos de dizer e criar, fazer e de (re)inventar a(s) experiência(s) educativa(s), escolares ou não, com os outros nomeados “deficientes”. Segundo Ribetto, na apresentação do presente livro (p. 16), “Nesta rede problematizamos a produção da normalidade como política, presente no campo da pedagogia e que ainda contribui para a exclusão e massacre de pessoas que se afastam da norma criada como valor de padronização”. É dessa luta discursiva, prática, política e poética que trata o livro em tela. Parafraseando Jorge Larrosa e Walter Kohan, na apresentação da coleção a qual reúne (entre outros) o livro O mestre ignorante, de Jacques Rancière: “é a experiência, e não a verdade, o que dá sentido à escritura”. É a experiência de enfrentamento do discurso e das práticas de normalização e formatação das pessoas que fundamenta a força e o sentido da escritura das autoras e do autor dos textos aqui reunidos. Um livro escrito por jovens estudantes e mestres em educação, todos professores e pedagogos formados pela Faculdade de Formação de Professores da UERJ, a FFP, uma instituição pública que, há quarenta (40) anos, dos quais trinta já incorporada à UERJ, dedica-se à formação de professores. Professores que possam tomar “a experiência, e não a verdade”, uma determinada concepção de verdade como fundamento do processo educativo, da relação com o outro.

Refletindo sobre processos de narrar, pensamos nos caminhos do que é humano no processo de socialização possibilitado pelas linguagens, nas transformações e apropriações que vamos vivendo quando construímos individual e coletivamente nossos textos. As narrativas trazem a potência desse humano em nós, vão falando dos lugares de histórias e memórias, das produções e descobertas de nossos saberes e fazeres, na construção de nossos eus pesquisadores. Conhecer, como expressão da existência humana, exige reflexão pessoal, exige parar a aceleração cotidiana e se permitir voltar sobre si, fortalecendo os fios que, em cada ciclo, vão dando sentido à nossa vida. Mas, ao mesmo tempo que, nesse movimento, reencontramos a nós próprios, abrimo-nos ao outro, em uma formação que exige nossa implicação pessoal, demanda diálogo aberto para aprender com o mundo, o trabalho e a cultura.

Nesse sentido, a narrativa coloca-se como possibilidade de produção de imagens e fazeres instituintes, fazeres que questionem práticas instituídas, buscando formas instigantes de estar na profissão docente, na pesquisa com e sobre a docência. As transformações vão acontecendo em todas as dimensões e a escrita de nossos achados vai acontecendo de forma emancipatória, delineando os caminhos de nossas aprendizagens e os compartilhamentos necessários e possíveis. Pesquisamos para e com a sociedade que financia nossa instituição e os trabalhos nela desenvolvidos.

Vozes que falam de processos inclusivos de seres silenciados pelas diferenças são aqui ouvidas, produzindo uma cultura de libertação e de partilha. Narrar como uma arte de dialogar com a vida, com as práticas educativas libertadoras, retomando lutas muitas vezes silenciadas nos contextos formativos docentes, por não se querer falar delas ou por não se saber falar delas.

Provocadas pela força discursiva, ética, poética e política dos artigos que compõem o presente livro, e inspiradas por um longo percurso de estudos e pesquisas junto aos estudantes egressos das Licenciaturas da FFP desde 2009 (Fontoura e Tavares, 2013), defendemos que a investigação e a teorização no campo educativo e pedagógico constituem dispositivos para melhor conhecer e pensar aquilo que desconhecemos, que ainda não compreendemos e que gostaríamos de conhecer. Porém, a pesquisa e o esforço de teorizar sobre o que ainda não sabemos constituem também um vigoroso convite a “estranhar o familiar”, a pensar o ainda não pensado, e especialmente a buscar modos e formas escriturais de afirmar pela palavra a força do (des)conhecido, do (im)pensado, do (im)possível, do (des)ruptivo, do que é (re)criado pela força do trabalho coletivo e da singularidade de cada sujeito na trama cotidiana da pesquisa e da intervenção no campo da educação especial.

É dessa tensão entre o conhecido e o esforço teórico, epistêmico e metodológico de investigar o (ainda) desconhecido e de narrá-lo a partir da escrita de diários, biografemas, crônicas, ensaios que trata o livro que alegremente prefaciamos. É da alegria de criar possibilidades no campo da(s) teoria(s) educativa(s), permitindo religar a educação ao humano, colocando a alteridade dos sujeitos e o caráter existencial da educação como centralidade. Esse é o frescor do livro, em seu compromisso com a igualdade das inteligências, tal qual Joseph Jacotot, no livro O mestre ignorante.“O aluno deve ver tudo por ele mesmo, comparar incessantemente e sempre responder à tríplice questão: o que vês? O que pensas disso? O que fazes com isso? E, assim, até o infinito.” É dessa maneira que o autor propõe que os indivíduos se comportem.

Contrapondo um método de ensino considerado velho, o da explicação da parte de alguém que sabe para alguém que não sabe, propõe o método universal, aquele em que o aluno aprende sem mestre explicador, subvertendo assim a ordem de supremacia entre mestre e aluno. Romper com uma hierarquia das inteligências é trazer um frescor às relações pedagógicas elitizantes e pregadoras das supremacias de qualquer ordem, desde que mantenham alguns mais poderosos do que outros.

Por que colocar em diálogo o presente livro com a aventura de O mestre ignorante? Com efeito, além de ser uma história surpreendente e muito provocadora, Rancière apresenta a incrível jornada do pedagogo francês dos séculos XVIII-XIX, Joseph Jacotot, analisando os seus princípios para (re)criação de sua ação educadora. De forma muito resumida, o perturbador livro de Rancière nos faz pensar numa outra pedagogia a partir do lugar paradoxal e dissonante que Jacotot atribui à igualdade e à sua relação com a desigualdade em suas propostas educativas. É igualmente perturbadora e altamente provocante a crítica feita à “razão explicadora” que encerra a figura do mestre ignorante. Dito de outra forma: Jacotot estende a igualdade da inteligência a todos os humanos não como um direito, mas como um dispositivo central e definidor de cada ser humano e potencializador de uma relação outra, alteritária entre eles.

A igualdade, ensinava Jacotot, não é nem formal nem real. Ela não consiste nem no ensino uniforme de crianças da república nem nos produtos de baixo preço nas estantes de supermercados. A igualdade é fundamental e ausente, ela é atual e intempestiva, sempre dependendo da iniciativa de indivíduos e grupos que, contra o curso natural das coisas, assumem o risco de verificá-la, de inventar formas, individuais ou coletivas, de sua verificação. Essa lição, ela também, é mais do que nunca atual (Rancière, 2009).

Talvez seja essa também a lição desse livro: a igualdade das inteligências. Isto é, nos textos que compõem e amalgamam o livro, a professora e seu grupo de pesquisa, as estudantes, pedagogas, professoras e professor, todos egressos da Faculdade de Formação de Professores da UERJ, da nossa querida e resistente FFP, a igualdade das inteligências é assumida como um pressuposto a ser verificado e atualizado pelas práticas relacionais, e não como objetivo da transformação que deve ser operada nos sujeitos.

A igualdade que Rancière e Jocotot defendem se manifesta como um princípio da relação entre as pessoas, não anulando as diferenças e as singularidades que constituem os sujeitos implicados na ação educativa. Pelo contrário, aposta na possibilidade do encontro e da criação coletiva de dispositivos que afirmem as micropolíticas da diferença, como nos convoca a pensar a organizadora deste livro em sua apresentação.

Pensamos, assim, que a organizadora e os demais autores deste livro são todos mestres ignorantes ao reconhecerem que os outros, no caso, as crianças, os jovens e os adultos com os quais trabalham, pesquisam e aprendem são igualmente capazes, inteligentes, ignorantes e repletos de vontade de aprender tal qual eles próprios, emancipando-os pela força, obrigando-os a usarem a inteligência e o desejo de se tornarem presentes no mundo, com a responsabilidade educativa necessária ao cuidado de si e do outro, como nos convida a pensar Arendt (2001).

Para nós, professoras da Faculdade de Formação de Professores há muito anos, e profundamente implicadas com o campo da formação de professores numa perspectiva emancipadora, de caráter freireano, o livro que prefaciamos é um convite ao exercício da resistência e da luta cotidiana para pensar a vida e nos pensarmos na relação com o outro de uma forma aberta, alteritária, reiterando em nossos processos de conhecimento a relevância de assumir a alteridade como elemento vital da sobrevivência e invenção das relações educativas dentro e fora da escola. É desse lugar, de admiração e de amorosidade, que convidamos os possíveis e prováveis leitores a se aventurarem nos textos deste livro, exercendo a dúvida, o desejo de diálogo e a alegria como companheiros de percurso no movimento de leitura dos textos.

É isto que desejamos: um bom percurso, atento, que atravesse as veredas do livro e propicie a todos os leitores e leitoras uma “felicidade clandestina”, descoberta a todos os momentos e nas coisas mais simples, como nos sugere Clarice Lispector, olhar os mundos de formas diversas e criativas, nem sempre redondas.