Professores formados na FFP/UERJ e inclusão

Anelice Ribetto · Capítulo 2 de 15

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Professores formados na FFP/UERJ e inclusão

Apresentação: #uerjresiste: afirmando a diferença na produção de alguma coisa em comum

Apresentação

 

#uerjresiste: afirmando a

 

diferença na produção de

 

alguma coisa em comum

 

Anelice Ribetto

 

Este livro é um efeito do projeto de pesquisa “Tensões entre políticas e experiências inclusivas na formação dos professores em

São Gonçalo”1, coordenado por mim, entre 2014 e 2017, e um desdobramento do curso de extensão (aprovado pelo DEPEXT-UERJ) “Professores formados na Faculdade de formação de Professores da UERJ (FFP/UERJ) e inclusão: entre políticas, práticas e poéticas”, que contou com coprodução de dez pedagogos egressos da FFP.

Com uma duração de 45 horas, os objetivos desse curso de extensão foram: 1) cartografar – a partir das oficinas de extensão – práticas de professores egressos do curso de Pedagogia da FFP que trabalhem em escolas regulares com alunos com deficiências, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação, em São Gonçalo e localidades vizinhas, para tornar visível e enunciar os efeitos e experiências que relacionam a formação inicial e continuada com os desafios da inclusão no cotidiano escolar; e 2) oferecer um espaço de discussão, conversa e informação aos alunos do curso de Pedagogia da FFP e aos professores da rede de São Gonçalo e Itaboraí sobre diferentes dimensões do campo da educação especial e inclusiva a partir da exposição das experiências dos colegas (que já foram alunos da FFP). A ação de extensão esteve direcionada principalmente aos bolsistas do Subprojeto PIBID/CAPES/UERJ, estudantes do curso de Pedagogia e professores da rede de Itaboraí e São Gonçalo. Inscreveram-se 45 pessoas e se formaram 30 participantes, a maioria deles alunos do curso de Pedagogia da FFP e professores da rede de São Gonçalo e Itaboraí que desenvolvem funções como “professores mediadores ou professores de apoio especializado”. O curso se organizou em doze encontros (oito em 2015 e quatro em 2016) e cada um deles foi coordenado por um egresso, apresentando uma narrativa formativa do trabalho que desenvolve – no campo de estudos – e uma articulação dessa narrativa com conceitos produzidos no próprio percurso formativo.

O curso de extensão foi um movimento gerado pelo coletivo

“Diferenças e alteridade na educação” 2, criado em 2011, que, atualmente, reúne professores da escola básica, professores e estudantes da Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, gestores das redes públicas de ensino e famílias – principalmente mães – de alunos ditos “pessoas com deficiências”. Nessa rede, problematizamos a produção da normalidade como política presente no campo da pedagogia e que ainda contribui para a exclusão e massacre de pessoas que se afastam da norma criada como vetor de padronização. Por outro lado, e coerente com essa problematização da norma, colocamos também em questão as formas como a pedagogia tem narrado o outro: desde um discurso profundamente medicalizado (os rótulos) ou marcadamente judicializado (o discurso de direito como discurso apenas jurídico) para afirmar, a partir do coletivo, a invenção de uma narrativa que revele o encontro ético com o outro. Para isso, criamos uma diversidade de dispositivos que nos permitem contar esse encontro: aquilo que nos passa e nos transforma a partir da interrupção da mesmice com a chegada – sem aviso – do acontecimento, quer dizer, a experiência educativa como exercício de alteridade. Alteridade que se encarna na relação com essas pessoas que foram historicamente produzidas como “anormais”, pois problematizam radicalmente a “congruência” dos corpos. Tendo, então, a possibilidade de alteridade como produção investigativa, a pergunta que se instala como interrogante é: Como narrar este acontecimento? Não se trata, pois, de escrever sobre um tema, uma questão, um problema. Trata-se de expor as travessias e implicações que o encontro e a emergência com o temaquestão-problema provoca em nós e o que nós fazemos com isso. Assim, afirmamos a escrita de diários, biografemas, crônicas, ensaios, produção de paisagens sonoras etc. como uma expressão da aposta na micro-política da diferença.

Dessa forma, o livro aqui apresentado tem como desejo dar a ver e falar práticas, políticas e poéticas inclusivas que emergem no campo de atuação dos egressos do curso de Pedagogia da FFP como uma política da narratividade preocupada com a experiência singular de cada um deles, mas também com o compromisso da produção de um coletivo de forças que atua no cotidiano – das escolas e universidades públicas – como expresão da luta por um mundo que afirme a diferença como condição de produção de vida. É importante dizer, que, no meio do processo formativo, ou melhor, como parte dele, produzimos os encontros como uma linha de resistência a uma política de esvaziamento da condição pública da nossa universidade, a UERJ, e da maioria das escolas dos egressos e participantes do curso: no ano de 2015, uma série de ocupações contra o desfinanciamento da educação e, em 2016, uma greve da educação que atravessou as universidades e as escolas do estado do Rio de Janeiro e de vários municípios. Ainda assim, o coletivo manteve os encontros na certeza de que é exatamente na condição de possibilidade de manutenção dos espaços de discussão, conversa, dissenso e produção de diferença que o caráter democrático da educação é defendido. Este livro revela uma diversidade de narrativas, formas de entender a educação inclusiva, de produzir práticas, de compor lutas e de contar a experiência de encontro com o outro e de intervenção dos egressos nos planos macro e micropolítico. Para manter uma organização possível, a composição dos textos se reúne em três planos: políticas, práticas e poéticas. Planos estes, que, como platôs, imbricam-se, ligam-se e produzem-se.

 

Políticas

O primeiro texto, escrito por mim, tenta apresentar o campo problemático do projeto “Tensões entre políticas e experiências inclusivas na formação dos professores em São Gonçalo” e os efeitos e resultados produzidos em três anos de pesquisa.

Como segundo texto, Bruna Pontes escreve um ensaio chamado “O normal questionado: processos (micropolíticos) para pensar a normalização dos sujeitos no espaço escolar”, que traz à mesa de discussão o questionamento quanto à normalidade no espaço escolar, problematizando o processo histórico de produção do espaço da norma como parte de uma prática discursiva que foi instituída e naturalizada no cotidiano da escola. A temática se insere no campo de discussão da pedagogia das diferenças e aborda a construção da escola como espaço de subjetivação e as relações que produzem os chamados anormais. Presos no paradigma da normalidade, reproduzimos uma forma padronizada de ver-estar-pensar-aprender o mundo. Nesse ensaio, escritos de diário costuram uma forma singular de registro que nos permite problematizar o processo de escolarização dos alunos ditos anormais. Os registros dão a ver a relação de uma professora e uma aluna incluída em classe regular com laudo de deficiência intelectual severa e o processo de ensino aprendizado em uma escola pública municipal.

Rejane Nascimento propõe “Uma política da memória: meu memorial de formação… cheio de perguntas, cheio de vida”. Entre escrita, memória e costura, segue a composição desse texto que oferece um memorial de formação repleto de experiências, movimento e vida. A autora, desde criança, antes mesmo da formação no curso normal, já se via professora. Esse desejo foi tomando força e se materializou na escola e na universidade. Os caminhos de formação são tecidos por meio de uma política da memória, que aponta algumas experiências, as escolhas feitas e os efeitos produzidos nesse percurso. Ser professora e produzir uma formação no campo da educação especial para afirmar um espaço de diferença: ser mãe-professora-militante de uma pessoa (dita) aluno com deficiência mental.

Finalmente, Gilcelia Coelho, quem ofereceu as narrativas dos egressos para a produção do meu texto, traz ao plano do debate a formação dos professores graduados no curso de Pedagogia da FFP, com foco na formação para atuação no campo da Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Pergunta sobre: O que nós, pedagogos, sabemos ou queremos dizer e pensar sobre as diferenças na educação? Reflete sobre os sentidos produzidos pela expressão “estar preparado” para essa atuação e os entres que permeiam o imaginário sobre as questões do ensinar a alunos ditos pessoas com deficiência. O texto por ela produzido se intitula “O curso de pedagogia da FFP e o debate sobre educação especial, inclusão e diferenças na educação”.

 

Práticas

 

Esse plano abre com o texto “Experiências de invenção e formação: uma intervenção outra (com) crianças no Transtorno do Espectro Autista”, de Rafaela Correa, que emerge de uma experiência-intervenção de atuar como mediadora escolar com uma criança diagnosticada com autismo. A escolha dessa escrita se deu em meio à atenção aos processos e efeitos de uma prática na perspectiva da intervenção e um modo outro de olhar, relacionar, conviver com pessoas diagnosticadas no Transtorno do Espectro Autista. Nesse caminho, busca-se o diálogo entre inclusão e mediação escolar, narrando os estranhamentos produzidos nesse encontro e problematizando o trabalho de mediação escolar, a produção de conhecimentos coletivos e a atenção à experiência presente. No decorrer da escrita, são abordadas análises-experiências no processo de mediação, tomando como ponto de partida uma mediação com, e não para. Apresentam-se três palavras como conceitos-chave (pistas) de deslocamento no trabalho de uma mediação-intervenção, a aproximação, o encantamento e o mergulho. Assim, junto com autores e conceitos, rente ao diário de campo, conversas e encontros, ensaiam-se modos outros de mediação-intervenção escolar.

Valeria Vilhena, no texto “Experiências de formação: entre o que emerge no encontro com alunos da Educação Especial em Sala de Recursos e o não ser professora”, escreve os acontecimentos entre práticas escolares e estudos de formação em Pedagogia na FFP/UERJ. Narra a formação nos encontros com as disciplinas de Psicologia da Educação, Educação Especial, ambas da grade curricular, e Educação Especial, nas eletivas. Restitui o experenciado nas Salas de Recursos Multifuncionais e o encontro com a inclusão na rede pública do município de Niterói, articulando com diários de campo, de trabalho e afetos. Relata outras formas de exclusão e de desvalorização dos profissionais do campo da Educação Especial ao colocar como eixo de análise a nomenclatura de “Auxiliares da Educação Especial no Município de Saquarema, RJ”. O texto emerge como desejo de fazer ver a força da FFP/UERJ na formação de profissionais da educação, que neste momento resiste, mais que nunca, a uma política de desvalorização da educação no Brasil.

O terceiro texto, chamado “Mediação escolar: narrando experiências no campo”, produzido por Gabrielle Macedo, narra as experiências de uma professora com a mediação escolar. As mesmas vão sendo narradas com trechos do caderno de campo e reflexões sobre aquilo que foi emergindo do campo problemático. A aposta do texto é pensar o professor mediador como um cartógrafo que vai traçando possibilidades de atuação junto com a própria prática, caminho esse que vai se constituindo como possibilidade e que marca a presença do professor mediador na escola.

Finalmente, “Diariando a experiência educativa com uma pessoa com surdocegueira em uma escola municipal de Niterói”, um ensaio de Sara Busquet, que expõe uma pesquisa que, a modo de diário, objetiva problematizar a experiência educativa com uma pessoa com surdocegueira e as relações que se tecem entre o estudante, as professoras e a escola. Efeito da prática cartográfica produzida nos encontros entre uma bolsista – hoje, pedagoga – iniciando sua prática de pesquisa e sendo ainda professora de apoio, um coletivo de pesquisa e uma pessoa com surdocegueira que habita uma escola pública de Niterói, o diário emerge como força expressiva para dar a ver e enunciar aquilo que se passa como experiência nesse cotidiano escolar e assim dar língua aos afetos que por esse território experiencial se produzem. Dessa forma, o texto apresentado é uma composição entre a escrita diarística da pesquisadora/coletivo de pesquisa e alguns interlocutores que emergem de leituras do próprio campo de análise.

 

Poéticas

 

O texto que inicia esse plano foi produzido por Vannina Silveira e intitulado “Encontros (im)possíveis: conversas entre professores sobre escolarização no hospital”, o qual conta os efeitos gerados pelos encontros pedagógicos entre uma professora egressa da Faculdade de Formação de Professores da UERJ e seu primeiro aluno atendido num hospital, ao longo de três anos. Os efeitos se materializaram na proposta de um outro currículo e tiveram como desdobramento a força para a instituição de políticas públicas em Itaboraí, município do Rio de Janeiro. Com o conceito de experiência e por meio de conversas e produção artística de crônicas, a pesquisa cartografa a produção poética de políticas públicas e práticas de educação especial e inclusão que se dão entre escola e hospital como espaço legítimo de escolarização das pessoas com condições físicas severas. E também propõe pensar a educação no hospital como escola outra, construída na potência do “estar juntos” e cujas aulas são tecidas entre “conversas”.

Leidiane Macambira oferece uma carta chamada “Entre ver e não ver… Encontros entre pessoas que não veem (apenas) com os olhos”, que trata da narrativa de uma aluna egressa do curso de Pedagogia da Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Nessas tramas, conta por meio de uma carta endereçada a uma querida amiga as experiências de formação, que não se limitaram ao período em que cursou a graduação em Pedagogia, sua aproximação e a paixão pela Educação Especial. A carta faz parte da dissertação Encontrar(se), (não) ver(-se), diferir(se): platôs para pensar a educação de pessoas que não veem (apenas) com os olhos, composta durante o curso de mestrado em Educação naquela instituição. A autora escreveu essa carta, pois encontrou nela um modo generoso de contar suas experiências sem enrijecer as palavras. Ela convida Foucault para pensar que escrever uma carta é um ato de abertura de si ao outro, um gesto de produção de alteridade em todo o tempo em que está escrevendo: trata de uma vida e um processo formativo que se mostra disponível ao encontro com o outro que lerá suas palavras.

Fechando nosso livro, “Entre meios… Linhas, tessituras, práticas e agenciamentos de um estudante e seu professor mediador”, de Luan Sávio, propõe um movimento de escrita que faz emergir a primeira experiência profissional como egresso da FFP/UERJ. O objetivo é analisar a mediação escolar feita entre o pedagogo e seu aluno autista, num esforço que circunda a seguinte questão: Que práticas fazem mais bela e poética a relação entre mediador e mediado na Educação Especial? Para tal, o autor cria um mapa sobre o decalque dos diários de campo que produziu como mediador para acompanhar e avaliar o trabalho pedagógico. O caminho metodológico escolhido é a cartografia como proposta deleuze-guattariana, que ajuda a entender as relações e agenciamentos entre o estudante e o mediador escolar, por meio de suas linhas constitutivas, sem desqualificar os saberes datados de outrora acerca do menino, mas afirmando a potência dos caminhos percorridos e fazendo intercessões conceituais que permitem pensar, além dos modos de vida contemporâneos, a docência no campo da Educação Especial, que é sempre plural e repleta de excentricidades e exuberâncias e, ao mesmo tempo, engessada por leis e normatividades.

Finalmente, e com muita alegria, convidamos as professoras Helena da Fontoura e Maria Tereza Goudard Tavares, da Faculdade de Formação de Professores da UERJ, e a professora Márcia Pletsch, do Instituto Multidisciplinar da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, para comporem essa teia. As convidadas Helena e Maria Tereza foram professoras dos pedagogos autores deste livro – na graduação e no mestrado – e desenvolvem projetos junto a outros egressos da FFP/UERJ. Nesse sentido, implicam-se nos trabalhos de ensino, pesquisa e extensão e se comprometem na produção de uma articulação fértil entre universidade e escola básica, espaço de trabalho de nossos egressos. A professora Márcia, uma querida parceira em todos os cursos de extensão, projetos de pesquisa, rodas de conversa, mesas de debate, bancas etc., acompanhou a produção dos encontros, articulando, na Baixada Fluminense, ações extensivas que – de uma maneira diferente, mas combinada com a nossa – têm como objetivo o acompanhamento das políticas e experiências inclusivas nas redes de ensino, além da luta por um mundo em que caibam todos os mundos, qualquer mundo.

São Gonçalo, 23/5/2017.

#uerjresiste