Professores formados na FFP/UERJ e inclusão

Anelice Ribetto · Capítulo 10 de 15

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Professores formados na FFP/UERJ e inclusão

Diariando a experiência educativa com uma pessoa com surdocegueira em uma Escola Municipal de Niterói

Diariando a experiência

 

educativa com uma pessoa

 

com surdocegueira em uma

 

Escola Municipal de Niterói.

 

Sara Busquet Magalhães

 

A introdução deste diário: O que me

 

move?

 

Aqui inicia meu diário de pesquisa…

sua escrita… início de uma pesquisa diariada ou diarística

que se compõe na escrita das experiências e que

tem nesse movimento uma expressão de vida.

Um diário.

(Diáraio de pesquisa de Sara B.)

 

O que me move? Pensar, refletir, pensar mais vezes… Essa pergunta é constante em mim, pois, se estou aqui compondo uma pesquisa com um tema no campo da chamada Educação Especial, é possivelmente porque algo me move. Será? Responder tal pergunta com uma frase ou parágrafos seria um caminho possível? Não sei… Narrar minhas experiências seria um caminho possível? Experiências? Segundo Larrosa (2002), a experiência não é aquilo que passa ou se passa. De acordo com o autor, a experiência é aquilo que nos passa, toca-nos, atravessa-nos. Perguntando-me, e na tentativa de me responder, penso então que narrar minhas experiências possa ser um caminho possível a seguir, para refletir, pensar, repensar o que me move…

Movo-me antes de saber que me movo, mas como? E, antes de iniciar minha vida acadêmica na graduação, movo-me. Minha relação com meu campo atual de trabalho e pesquisa começa antes da minha entrada na faculdade. Sou filha de professora de escola pública. Desde antes de me entender como pessoa, minha mãe já trabalhava em escola pública. As relações e as experiências que tive são do lugar (também) de uma estudante filha de uma professora.

A partir da segunda metade do 4.º ano, passei a estudar na Escola Municipal Alberto Torres, em Niterói. Minha mãe estava diretora adjunta dessa escola. Alguns (poucos) dias, eu ia de manhã e voltava à noite com ela – a escola funcionava em três turnos.

A referida escola situa-se ao lado da APAE1 de Niterói. Como eu passava muito tempo na escola, a APAE foi um dos lugares que eu conheci e frequentei – principalmente, o espaço em que ficava a cantina, pois adorava lanchar lá. Foi naquela época que tive os primeiros contatos com a Educação Especial, mas eu não pensava sobre isso… Em minha memória estão: o cheiro da grama do jardim, as crianças brincando e o gosto do salgado da cantina.

Em 2009, comecei a estudar no curso Normal2, no Instituto de Educação Clélia Nanci – IECN. Enquanto estudava no IECN, participei de estágios que me permitiram vivenciar a docência e a escola de modos diferentes do que eu já conhecia.

Em 2012, após terminar o curso Normal, minha vontade de estudar a educação não acabou. Todas as vivências e experiências que atravessei no curso Normal e no decorrer da minha vida me levaram a cursar Pedagogia. Escolhi estudar na Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Jáneiro (FFP/UERJ), pois fica na minha cidade – e mais perto da minha casa. Fiz uma escolha aparentemente confortável… confortável se observarmos por uma perspectiva de lugar/bairro/cidade, mas não em relação ao que penso, vivo, experiencio. Em abril de 2013, comecei o curso de Pedagogia na FFP/UERJ.

Me desloco… me desestabilizo… me movo.

No meu segundo período da graduação, cursei a disciplina eletiva de Libras – Língua Brasileira de Sinais. As aulas e o aprendizado da Libras, mesmo que inicial, me arrebataram… Fiquei muito curiosa sobre Cultura Surda e a Libras. Busquei por cursos, encontros e palestras nessa área. Com esse despertar, fiz um curso de extensão em Libras. Cada aula no curso era uma descoberta… Novos sinais, modos outros de pensar e de conhecer a Cultura Surda e a Libras.

Cultura Surda? Afinal, o que pode ser entendido por Cultura Surda? Sem desejo de tematizar sua cultura, conceituar o outro, mas tentando ampliar os sentidos do que estudo, converso com Perlin e Miranda (2003), para que possamos compreender alguns desses sentidos que ajudam a entender o conceito de Cultura Surda. As autoras nos dizem que ser surdo é uma questão de vida e não se trata de uma deficiência, mas de uma experiência visual.

 

Experiência visual significa a utilização da visão, (em substituição total a

audição), como meio de comunicação. Desta experiência visual surge a

cultura surda representada pela língua de sinais, pelo modo diferente de ser,

de se expressar, de conhecer o mundo, de entrar nas artes, no

conhecimento científico e acadêmico (Perlin e Miranda, 2003, p. 218).

 

Lopes (2011) nos diz que a surdez é uma grande invenção. A autora não se refere à surdez como materialidade inscrita em um corpo, mas à construção de um olhar sobre a surdez e sobre o sujeito que não ouve.

 

Para além da materialidade do corpo, construímos culturalmente a surdez

dentro de distintas narrativas associadas e produzidas no interior (mas não

fechadas em si mesmas) de campos discursivos distintos – clínicos,

linguísticos, religiosos, educacionais, jurídicos, filosóficos, etc. […]. Portanto,

todas as interpretações possíveis sobre o que convencionamos chamar de

surdez são interpretações sempre culturais. Não há nada do que possamos

afirmar sobre a surdez que não esteja alojado dentro de campos de sentidos

produzidos culturalmente (Lopes, 2011, p. 7).

 

No mesmo texto, propõe-nos olharmos a surdez não pela falta, mas por aquilo que ela marca como diferença. A surdez, nessa narrativa, é marcada pela presença de um conjunto de elementos que inscrevem alguns sujeitos em um grupo, enquanto outros são deixados de fora desse grupo (Lopes, p. 23, 2011). Conversando com a autora, vejo que, além de um corpo físico, estão implicadas formas de se comunicar, de se relacionar, de se identificar com alguns e de utilizar a visão como um elo aproximador entre os sujeitos semelhantes.

Em 2014, comecei a participar, como bolsista de Iniciação à Docência, do subprojeto de pedagogia da Faculdade de Formação de Professores, do Projeto PIBID/CAPES/UERJ, coordenado, na época, pelas professoras Rosimeri de Oliveira Dias e Anelice Ribetto.

Permaneci no PIBID – Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência – por dois anos. Esse subprojeto funcionava em parceria com duas escolas, Colégio Estadual Conselheiro Macedo Soares (em Niterói) e CIEP Municipalizado 411 Dr. Armando Leão Ferreira (em São Gonçalo), colocando em análise as micropolíticas do cotidiano da escola básica e da formação de professores.

Durante esses dois anos, participei de dois coletivos de trabalho e estudo no CEC Macedo Soares: a Oficina de Informática e o Conexão Macedo. O trabalho acontecia na escola, entre bolsistas e os sujeitos da escola. Experimentávamos e problematizávamos os efeitos dos modos representacionais na escola e na vida:

 

Penso com o texto de Orlandi (2002) que conversamos hoje no grupo de

estudos…

Uma escolha, um gesto, um fazer… nunca são somente aquilo que se

apresenta. Existem as dobras, as redobras, aquilo que se vê, que se toca e

aquilo que não se vê ou não se pode tocar. Em um campo de tensões…

Conexão Macedo é nosso projeto… Experimentar a coletividade não porque

é preciso ter domínio disso para sobreviver no mercado de trabalho, mas sim

porque vivemos no coletivo, assim é que se faz a vida, o outro em nós. Não

porque precisamos criar corpos dóceis que precisam viver em sociedade,

mas sim como um meio pelo qual se dá visibilidade ao que é potente nas

relações entre NÓS…

(Trecho do diário de pesquisa do dia 26 de agosto de 2015 que estava

compondo durante minha permanência no PIBID)

Foi durante minha permanência no subprojeto PIBID de Pedagogia, na FFP, que conheci a metodologia da cartografia e o diário de pesquisa como dispositivo para narrar e pensar os movimentos que me atravessavam na escola, na minha formação, na minha vida. Também foi lá que frequentei grupos de estudos, onde tínhamos como eixo de análise a noção de formação inventiva de professores, o conceito de cartografia como método de pesquisa e as políticas e práticas da diferença entre a escola básica, a universidade e a vida. Esses conceitos reverberam nesta pesquisa que, dando expressão a uma cartografia, tece-se como diário de pesquisa…

Atualmente, curso o 8.º período3 do curso de Pedagogia. Sou uma futura professora egressa da FFP/UERJ e faço parte do grupo de pesquisa Diferenças e Alteridade na Educação: Problematizando as Tensões entre Políticas e Experiências Inclusivas na Formação dos Professores em São Gonçalo (RJ-Brasil), da FFP/UERJ. Também me encontro como bolsista de Iniciação Científica (CNPq) e atuo no projeto de pesquisa coordenado pela Professora Anelice Ribetto. O trabalho que desenvolvo desdobra-se do projeto de pesquisa “Diferenças e Alteridade na Educação: Saberes, Práticas e Experiências (Inclusivas) na Rede Pública de Ensino nos Municípios de São Gonçalo e Niterói”, que busca conhecer, por meio das experiências docentes, como as políticas de inclusão se materializam no cotidiano escolar e como tais profissionais negociam a convivência com alunos com deficiências que outrora não foram contemplados no processo de escolarização das escolas regulares.

Nas páginas deste diário, pesquiso e converso com o que me atravessa na escola, no campo da chamada Educação Especial, na vida. Me desloco… me desestabilizo… me movo…

 

Seria possível transportar o sensível

 

para o papel?

 

Diariando…

Sendo tarefa do cartógrafo dar língua para afetos que pedem passagem,

dele se espera basicamente que esteja mergulhado nas intensidades de seu

tempo e que, atento às linguagens que encontra, devore as que lhe

parecerem elementos possíveis para a composição das cartografias que se

fazem necessárias. O cartógrafo é antes de tudo um antropófago […]. Para

isso, o cartógrafo absorve matérias de qualquer procedência. Não tem o

menor racismo de frequência, linguagem ou estilo. Tudo o que der língua

para os movimentos do desejo, tudo o que servir para cunhar matéria de

expressão e criar sentido, para ele é bem-vindo (Rolnik, 1989, p. 1).

 

A pergunta escrita anteriormente, fiz-me e a escrevi em um diário de pesquisa, em 25 de agosto de 2015. Ela reverbera em mim desde então. Surgiu-me durante uma aula de Estágio Supervisionado I com a professora Regina de Jesus, na FFP/UERJ. Conversávamos sobre o registro em diários de pesquisa daquilo que nos acontece no cotidiano e, naquela situação, como dispositivo que nos permitiria pensar o estágio e nossa formação como docentes.

Como podemos registrar aquilo que nos acontece? E o que é isso que nos acontece? Acontecer? Passar? Já escrevi, no início das páginas desse diário, sobre o conceito de experiência, segundo Larrosa (2002). Mas acredito que precisamos (me incluo) perceber, como Larrosa (2002) nos diz também, a diferença entre informação e experiência para continuar escrevendo nessas páginas. Diariamente, passam-se muitas coisas em nossas vidas, em nossas pesquisas, porém, ao mesmo tempo, quase nada nos acontece (Larrosa, 2002, p. 21). Tudo o que se passa, passa demasiadamente depressa, cada vez mais depressa (Larrosa, 2002, p. 23) e estamos cada vez mais informados, com mais informações:

 

A informação não é experiência. E mais, a informação não deixa lugar para a

experiência, ela é quase o contrário da experiência, quase uma

antiexperiência. O sujeito da informação sabe muitas coisas, passa seu

tempo buscando informação, o que mais o preocupa é não ter bastante

informação; cada vez sabe mais, cada vez está melhor informado, porém,

com essa obsessão pela informação e pelo saber (mas saber não no sentido

de ‘sabedoria’, mas no sentido de ‘estar informado’), o que consegue é que

nada lhe aconteça (Larrosa, 2002, p. 21).

Entretanto, quando estamos disponíveis para o outro, penso com Larrosa (2002), quando paramos para sentir, o sensível nos atravessa. Volto-me para minha pergunta: Algo sensível nos toca? Não é algo inteligível que se possa descrever, clinicamente analisar, mas penso que é algo que pulsa… E isso que pulsa? Como registrar? Como não deixar passar aquilo que me passa?

 

Para [pensar partiendo de la experiencia] no basta con narrar los hechos: es

necesario inventar para que una experiencia tome sentidos. En cambio, para

‘atenerse a los hechos’ no es necesario inventar porque ellos nos vienen

dados por los modelos aprobados de relación con el mundo, es decir, por los

códigos simbólicos de que disponemos. […] en el lenguaje es necesario

inventar porque en la experiencia a la que el recuerdo se refiere

insistentemente, están presentes elementos que los lenguajes de que

disponemos cancelan, descartan, evitan, para conservar la imagen ya dada

(Zamboni, 2002, pp. 25-6).

 

Penso em minha pesquisa… Como registrar o encontro com o outro? Como narrar a experiência com o outro? Experiência… Conversando com Larrosa (2002), entendo que experiência não é aquilo que passa ou se passa. De acordo com o autor, a experiência é aquilo que nos passa, toca-nos, atravessa-nos. Mas, e registrar? Escrever? Diariar? Leila Domingues nos alerta de que a escrita pode transformar o que vemos ou o que ouvimos em batalhas: “Ela transforma-se em um princípio de ação. Em contrapartida, aquele que escreve se transmuta em meio a esse emaranhado” (Machado, 2004, p. 149). Penso, junto com ela, na aposta metodológica desse diário: diariar – um verbo, uma ação, algo que se faz e que nos transforma.

Verbo, ação, diariar… Entretanto, como se vive esse verbo? Esse diariar? Skliar nos diz que já não basta dizer que escrever é importante para o amanhã, que escrever serve para o futuro, que escrever serve para o trabalho ou para a continuidade no estudo. “Escrevendo é no presente, não no futuro. Escrever escrevendo, sim” (Skliar, 2016, p. 19). Escrevendo, diariando, vivendo o presente, o que me atravessa agora, o que pulsa do encontro entre nós na escola.

O encontro entre nós na escola… Vivendo esse encontro e o diariando é o que me proponho no diário de monografia/pesquisa que está em composição. Conversando com Rosimeri Dias, percebo que o diário escrito, na cartografia, pode ser uma possibilidade de transformação que acontece e cria novos sentidos e fazeres e de dizeres. Sentidos daquilo que estamos vivendo e expressando no dispositivo do diário ações do presente que nos atravessam.

 

Inventar e escrever uma constituição que nos passa e nos atravessa é

distinto de contar o que já está dado e representá-lo caligraficamente. […]

Uma tessitura que opta por dar passagem aos fragmentos de diários das

investigações que nos mostram, com efeito, a possibilidade de constituição

de um devir texto. Um modo de escrever, de estudar, de trabalhar, de ler o

que nos passa e o que se passa nesse entrelugar – formação e escola (Dias,

2016, p. 114).

 

Nesse entrelugar em que se atravessa minha pesquisa, emergem questões entrenós… O que nos atravessa, escola, universidade, o coletivo de pesquisa… Diariando, escrevendo… Me faz pensar em mais uma questão: Como estou registrando isso que se passa entrenós? Escrevendo, sim… Paro e olho para a tela do computador, para o diário em cima da mesa e vejo… Palavras.

Constantemente, diariamente, escrevo palavras. Larrosa nos diz “creio no poder das palavras, na força das palavras, creio que fazemos coisas com as palavras e, também, que as palavras fazem coisas conosco” (Larrosa, 2002, p. 21). Me faz pensar… O que tenho feito com as palavras aqui no diário de monografia, na pesquisa? O que essas palavras todas têm feito comigo? Percebo que muito de mim tem aqui neste diário e que muito daqui tem em mim…

Leila Domingues Machado nos diz que a leitura nos percorre e não faz apenas parte de uma lembrança, torna-se nosso próprio corpo. “É preciso que haja uma composição das consultas, das leituras e releituras, das escolhas, enfim, da vida, naquele que escreve e no que escreve” (Machado, 2004, p. 149). O que essa pesquisa tem feito comigo? Para a autora,

Trata-se de conectar fragmentos por meio da criação de um estilo de escrita.

E o corpo que aí se cria, não é um corpo de doutrina, é o próprio corpo

daquele que ao ser percorrido pelas leituras se apossou delas e faz sua

afirmativa. […] A escrita como encontro com a alteridade, como um

desmanchar do Idêntico, a escrita como um ‘outramento’. Uma estranheza

(Machado, 2004, p. 149).

 

Outramento, o outro, alteridade… Este diário não é meu, não se trata de mim, não se vive por mim… Se trata, se vive, se diaria entre nós… Escrevendo estou, diariando estou em um dispositivo de expressão do que acontece no encontro entre mim e os sujeitos na escola… Digo verdades aqui? Falo do outro aqui? Não pretendo isso… Escrevendo entrenós… “O texto diarista enuncia sua própria produção, liberando-se da pretensão do conhecimento definitivo sobre o objeto” (Barros e Passos, 2009, p. 175).

Vivendo uma composição entre nós, mas como eu me coloco nesse entre? Como estou nessa pesquisa? Larrosa e Rolnik, mesmo em conversas diferentes, fazem-me pensar em como estou nessa pesquisa. Tudo (ou quase tudo) que me passa na escola, nessa pesquisa entre, eu me coloco à disposição para pensar, sentir, viver, escrever, diariar. “O cartógrafo é um verdadeiro antropófago: vive de expropriar, se apropriar, devorar e desovar, transvalorado” (Rolnik, 1989, p. 2). Pensando, sentindo, vivendo, escrevendo, diariando o presente… Tem sido um exercício diário, vivido… Como nos diz Larrosa, a experiência nos exige um gesto de interrupção:

 

Parar para pensar, parar para olhar, parar para escutar, pensar mais

devagar, olhar mais devagar, e escutar mais devagar; parar para sentir, sentir

mais devagar, demorar-se nos detalhes, suspender a opinião, suspender o

juízo, suspender a vontade, suspender o automatismo da ação, cultivar a

atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos

acontece, aprender a lentidão, escutar aos outros, cultivar a arte do

encontro, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço (Larrosa, 2002,

p. 19)

 

Os encontros entre nós, na escola, entre mim e minhas companheiras de Orientação Coletiva, entre mim e os textos de diferentes autores são o que mais me impulsionam a diariar… As conversas pulsam em mim no presente e no presente estou escrevendo-as, diariando-as, vivendo-as…

 

Todas as entradas são boas, desde que as saídas sejam múltiplas. Por isso

o cartógrafo serve-se de fontes as mais variadas, incluindo fontes não só

escritas e nem só teóricas. Seus operadores conceituais podem surgir tanto

de um filme quanto de uma conversa ou de um tratado de filosofia (Rolnik,

1989, p. 2).

 

No encontro com o outro, este diário tem sido composto… “Trata-se de um pedido da escrita do outro. Sem o outro, a escrita está despojada de alteridade. E despojada de alteridade não há escrita” (Skliar, 2014, p. 18). Nesse entrelugar (Dias, 2016, p. 114), entrenós… com o exercício contínuo de parar, olhar, escutar, disponibilizar-se… escrevendo, diariando o que acontece entre nós (Larrosa, 2014, p. 10), pois “trata-se apenas de escrever o que nos acontece com nossas próprias palavras” (Skliar, 2014, p. 18).

 

Diariando entre nós…

 

Cursei a disciplina obrigatória de Educação Especial durante o quarto período da graduação. Em uma das aulas dessa disciplina, realizamos uma visita à Escola Municipal Paulo Freire – EMPF –

para conhecer o Atendimento Educacional Especializado 4 – AEE – e

o grupo bilíngue 5 (aulas em Libras, como primeira língua, com o aprendizado do Português, como segunda língua, para sujeitos surdos) de lá. Foi muito interessante conhecer o grupo bilíngue e aprender um pouco sobre o cotidiano dessa realidade, pois esse grupo é uma proposta de turma diferente das que estava habituada a encontrar nas escolas regulares.

Estava aqui pensando… a monografia que estou compondo é efeito de uma pesquisa cartográfica que se tece antes mesmo de me inscrever na disciplina Seminário de Monografia… antes mesmo de ter uma orientadora e de ter “escolhido” um tema.

Um gesto… aquele gesto… uma conversa… o encontro…

No final da visita, eu tive a oportunidade de conversar com um

rapaz com surdocegueira por meio da Libras tátil6. Esse momento não surgiu do nada, eu já esperava por ele antes de acontecer. Minha mãe estava diretora da EMPF quando conversei com o rapaz.

Eu havia visto o Paulo7 várias vezes na escola enquanto fazia visitas a minha mãe lá. Nunca tinha tido coragem, digamos assim, de conversar com ele. Não por receio de que ele não quisesse conversar comigo, mas porque eu não imaginava como conseguiria me comunicar com ele. Tinha inúmeras dúvidas: Como iniciar uma conversa? Ele fala com a voz? Ele fala com sinais? Ele consegue me ver? Eu vou entender o que ele quer dizer? Será que consigo?

Naquele dia, no final da manhã, resolvi que iria conversar com ele. Pensei que juntos iríamos nos entender e fui! Falei com sua

professora de apoio8 que queria conversar com ele, e ela foi me ensinando: faz o sinal nas mãos dele e espera ele responder.

A professora me apresentou a ele, disse meu nome, meu sinal9 e que eu era filha da diretora. Falou também que eu queria conversar com ele. Ele repetiu meu nome, meu sinal e disse que eu era filha da diretora. Comecei então a conversar com ele: “Oi! Tudo bem?”. E ele repetia o que eu falava. “Você estudou hoje? Você gosta de estudar?”. E ele repetia os sinais que eu fazia. Depois de duas tentativas, ele me respondeu! Disse: “Eu gosto de estudar muito!”, e meus olhos brilharam. Fomos seguindo nossa conversa!

A experiência dessa conversa me afetou. Fez-me pensar sobre a surdocegueira e sobre a Educação Especial. Segundo Skliar (2015, p. 27), não podemos estar juntos sem sermos afetados e afetarmos mutuamente. A conversa que tive com essa pessoa me despertou para outros olhares e me atravessou de tal forma que apenas uma pesquisa na internet não satisfez minha vontade de conhecer mais sobre o universo da surdocegueira. Busquei (e ainda busco) cursos, palestras, oficinas, textos, artigos e, talvez, o mais importante: mais conversas com o Paulo.

Com efeito de uma das orientações coletivas, leio o que escreve minha companheira do coletivo Diferenças e Alteridade na

Educação 10: “Esse movimento é interessante. Eu me sinto sem jeito de falar com as pessoas no IBC porque não tem a antecipação da visão. Nesses casos, como iniciar uma conversa? Como anunciar sua chegada? Como se colocar ali para se encontrar?”(Leidiane Macambira, 01 de julho de 2016).

Penso… penso… penso…

Leidiane, essa questão martelava na minha cabeça… Eu pensava em como começar a conversar… Será que eu vou assustá-lo se começar a falar do nada? A pessoa está quieta e eu chego falando? Hoje, conversando mais com Paulo, e também com outras pessoas que não veem apenas com os olhos (Macambira, 2017, p. 16), esses receios não martelam, digamos assim, como antes. Penso que não é uma questão minha apenas. É nossa. A conversa se tece entre nós. O encontro vem dele para mim e de mim para ele. Chego, coloco minha mão no braço de Paulo, depois em suas mãos, prontas para me ouvir. Digo “Bom dia” ou “Oi”, e juntos compomos nossa conversa.

Necessitamos, segundo Larrosa (2014, p. 71), de uma língua para a conversação… não para o debate, discussão ou diálogo… uma língua para resistir, para chamarmos de nossa… Converso com Larrosa e penso a experiência da conversa com Paulo… Seguimos criando e conversando uma língua nossa, entre nós. Conversamos juntos.

No dia 13 de junho de 2016, após um encontro do coletivo a que pertenço, algumas perguntas ressoaram em mim: Quando começo a compor com Paulo os encontros e as experiências educativas na Escola Municipal Paulo Freire? Existe um momento que eu possa dizer que foi o início da minha pesquisa cartográfica? Não sei se existem respostas, mas, nesta parte do diário, quero conversar mais entre nós…

Não sei se posso dizer que essa pesquisa teve um início fixo, como, por exemplo, um possível início: minha inscrição na disciplina de Seminário de Monografia. Penso que ela tem sido composta de múltiplos encontros, conversas, atravessamentos, sujeitos, dispositivos… experiências… experiências educativas… O que pode ser significado como experiência educativa? O que podemos pensar com isso? Como pensar esse conceito que, entre outros, compõe a minha monografia?

Como proposto pela minha orientadora, Anelice Ribetto, leio o capítulo “La experiencia y la investigación educativa”, de José Domingo Contreras e Nuria Pérez de Lara Ferré, que se encontra no livro Investigar la experiencia educativa. Irei conversar com esses dois autores aqui, nesta parte do diário. O primeiro descolamento que me ocorre é o da língua. Eu, com meu espanhol meio português, me disponibilizo para a experiência da leitura como parte do meu processo de pesquisa e escrita da monografia. Conversando com os autores, percebo que é preciso uma prática de abertura para a experiência na qual esses acontecimentos possam passar. É preciso disponibilizar-se…

 

Una práctica abierta a la experiencia supone la creación del espacio en

donde el acontecimiento pueda darse, y donde por tanto, a veces, cuando

sucede, pueda darse una aceptación de lo que acontece, e incluso una

suspensión del propio saber adquirido (Contreras e Pérez de Lara, 2010, pp.

33-4).

 

Voltando a uma de minhas perguntas: Como pensar o conceito de experiência educativa que compõe a minha monografia? Como compor, com outros autores, um conceito presente neste diário, mas que, ao mesmo tempo, acontece no presente, na vida, diariamente? Como pensar a experiência para além de um excesso de informação? (Larrosa, 2002, p. 71)

FRIO! Parece-me que Paulo ama esse tempinho frio e com chuva… Como posso dizer que ele ama esse clima? No dia 06 de junho de 2016, estava chovendo… cheguei à escola e cumprimentei todas as pessoas. Quando dei “bom dia” a Paulo, a primeira coisa que ele disse, antes do meu sinal, foi “CHUVA! MUITA CHUVA” (eu fiquei surpresa, pois estava acostumada a receber um “bom dia” de volta, sucedido do meu sinal). Eu disse: “SIM!!! Muita chuva”. Perguntei a ele se gosta da chuva e do frio, e ele disse que sim, que gosta muito. Perguntei sobre o sol… disse que o sol é bom. Ele disse que não! Não gosta de sol e de calor… gosta mesmo é do frio.

Eu fiquei impressionada, pois foi a primeira vez que Paulo e eu conversamos sobre algo que não fosse escola ou como ele estava se sentindo naquele dia.

Outro fato que me deixou feliz: ele puxou o assunto! Eu mesma nada falei para ele dizer algo…

Paulo que quis conversar algo comigo!

O inusitado!

Algo que me capturou, interrompeu-me, deslocou-me… uma conversa com outro assunto, não o mesmo que sempre converso com Paulo… uma experiência.

 

Es experiencia precisamente porque irrumpe ante lo que era previsto, lo

sabido; no puede estar sometida a control, ni ser producto de un plan. Por

eso obliga a pensar, para ser acogida en su novedad, como lo que no

encaja, o lo que necesita de un nuevo lenguaje, una nueva expresión, o un

nuevo saber para dar cuenta de ella. Irrumpe también su significado, el

sentido de lo vivido (Contreras e Pérez de Lara, 2010, p. 25).

 

Penso, com Contreras e Perez de Lara (2010), que a experiência vem, o que não é o inesperado, sem um plano ou ordem da qual pensamos que as coisas devam acontecer. A experiência é atravessada pelo improviso, pelo que pulsa… algo que vivo.

 

Referências

 

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