Professores formados na FFP/UERJ e inclusão
Uma política da memória: meu memorial de formação… cheio de perguntas, cheio de vida
Uma política da memória: meu
memorial de formação… cheio
de perguntas, cheio de vida
Rejane Macedo
Telha de vidro
Quando a moça da cidade chegou veio morar na fazenda, na casa velha…
Tão velha! Quem fez aquela casa foi o bisavô…
Deram-lhe para dormir a camarinha, uma alcova sem luzes, tão escura!
mergulhada na tristura de sua treva e de sua única portinha…
A moça não disse nada, mas mandou buscar na cidade uma telha de vidro…
Queria que ficasse iluminada sua camarinha sem claridade…
Agora, o quarto onde ela mora é o quarto mais alegre da fazenda, tão claro
que, ao meio dia, aparece uma renda de arabesco de sol nos ladrilhos
vermelhos, que coitados tão velhos só hoje é que conhecem a luz do dia…
A luz branca e fria também se mete às vezes pelo clarão da telha
milagrosa… Ou alguma estrela audaciosa careteia no espelho onde a moça
se penteia.
Que linda camarinha! Era tão feia! Você me disse um dia que sua vida era
toda escuridão cinzenta, fria, sem um luar, sem um clarão… Por que você
não experimenta? A moça foi tão bem sucedida…
Ponha uma telha de vidro em sua vida!
RACHEL DE QUEIROZ
Minha formação não se iniciou com o ingresso na graduação e nem com o término dela. Mesmo antes de escolher minha profissão, eu já admirava meus professores. Já me via professora antes mesmo da minha formação. “Então vejo este processo como um processo cheio de encontros e desencontros com pessoas concretas, com textos, com palavras ditas, com silêncios, com ações, com instituições…” (Skliar, 2012, p. 312).
Lembro-me do Jardim de Infância, das mesas e cadeiras pequenas, enfileiradas, da hora do lanche, do parquinho e, principalmente, da professora de voz tão mansa que eu aprendi a admirar. Eu a imitava. Brincava de escolinha e minhas bonecas eram minhas alunas. Eu queria ser como ela.
Mais tarde, aos nove anos, tive uma professora que também marcou a minha vida. Foi por causa dela que decidi ser professora e, antes mesmo da minha formação, eu já havia consolidado esse desejo. Eu amava essa professora, porque ela era diferente das outras que eu conhecia. Ela era divertida e dinâmica. Contava histórias da vida dela. Conversava com os alunos sobre coisas que não eram da rotina da escola. Queria saber da gente e sobre a gente. Ensinou-nos a brincar com o que se tinha, com jornal e corda, com tinta feita de farinha de trigo e anilina. Era admirável. Cheguei a dizer a ela que seria professora e, anos mais tarde, isso aconteceu.
Em 1994, formei-me professora e trabalhamos juntas por três anos no Centro Educacional José do Patrocínio, localizado no município de São Gonçalo – Rio de Janeiro. Tinha orgulho de dizer que eu fui sua aluna. Aprendi muito com ela enquanto iniciava minha vida profissional.
Durante dois anos (1998 a 2000), ministrei aulas para alunos da Educação Infantil e Alfabetização em uma escola no bairro de Santa Luzia, no município de São Gonçalo. Como já falei anteriormente, foi essa a primeira escola em que Victor estudou. Ele tinha dois anos e começaria ali a viver sua vida/experiência de escolarização. Nesse período, comecei a estudar em casa para o vestibular e foi um grande desafio. Eu precisava estudar mais um pouco, principalmente sobre Educação Especial. Esse era já o meu foco quando pensei em estudar Pedagogia.
No ano 2000, prestei vestibular para Pedagogia para a Faculdade de Formação de Professores/UERJ e consegui passar. Durante o curso, surgiram muitas inquietações, mas eu tinha dificuldades de relacionar o cotidiano da escola em que eu atuava com o que aprendia na universidade. Foi um grande desafio superado por meio das experiências acadêmicas que me fizeram experimentar outras formas de ensinar e também outras formas de aprender, reinventando o meu fazer pedagógico.
A passagem pela universidade trouxe contribuições importantes para minha formação. Naquela época, entre os anos de 2000 e 2004, pouco se falava na disciplina de Educação Especial, pois não existia nenhuma matéria específica na grade curricular do curso de Pedagogia que eu cursava. As ideias sobre Educação Inclusiva começavam a ser desenhadas e eu já pesquisava sobre isso. No decorrer das aulas, às vezes, surgiam alguns questionamentos e provocações a respeito dessa questão. Poucas colegas se aventuravam a fazer perguntas, mas vários eram os relatos sobre as “supostas dificuldades” para dar aula aos alunos chamados “pessoas com deficiência”. Todas as dificuldades eram colocadas nos sujeitos: “uma ideia obsessiva sobre as diferenças acaba sendo diferencialismo e acaba marcando sujeitos concretos como se fossem equivocados, como se estivessem errados etc.” (Skliar, 2012, p. 317).
Eu me sentia mexida com esse assunto e, sempre que podia, levantava alguma questão. Quase terminando o curso, tivemos na disciplina de Tópicos Especiais a oportunidade de trazer algumas questões sobre Educação Especial para a nossa aula. Estive algumas vezes com colegas da universidade na escola que funcionava dentro da APAE – Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais – de São Gonçalo, que fica localizada ao lado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro/FFP. Foi uma experiência importante e muitas implicações surgiram. Eu pensava, por exemplo, que aqueles alunos que estudavam ali poderiam estar em escolas comuns. Por que não estavam? Por que faziam atividades tão infantilizadas se tinham idade adulta? Fizemos algumas visitas a essa instituição, onde tivemos a oportunidade de conviver um pouco com os alunos chamados pessoas com deficiência. Enfim, algo já me movia e me fazia pensar em outras formas de escolarização diferentes daquela que estava acompanhando.
Continuando a costurar os retalhos que vão compondo esta colcha, sigo a escrita deste texto pensando que o encontro com os colegas da universidade, com os professores e com os alunos, naquela época, colaborou para que eu pudesse ampliar os meus passos. Acredito que eu não estava preocupada em dar passos largos, velozes. Eles foram meios para que eu pudesse prosseguir na minha formação e me conduziram a pensar de outro jeito.
Metamorfose ambulante
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Eu quero dizer
Agora o oposto do que eu disse antes
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou
Se hoje eu sou estrela
Amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio
Amanhã lhe tenho amor
Lhe tenho amor
Lhe tenho horror
Lhe faço amor
Eu sou um ator
É chato chegar
A um objetivo num instante
Eu quero viver
Nessa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.
RAUL SEIXAS
Em 2006, comecei a pós-graduação em Educação Básica, Modalidade Gestão Escolar, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro/FFP. Foi um grande desafio, pois esse curso reunia alunos de diferentes graduações. O aprendizado foi muito significativo, e a troca de experiências levantou vários questionamentos e inquietações.
Os debates que aconteciam durante as aulas me aproximavam cada vez mais da escola pública. Eu queria estar lá, dentro dela. Não queria mais ser apenas ouvinte e espectadora das experiências dos meus colegas e professores que trabalhavam nela.
Todo este envolvimento com a escola pública me motivou a fazer concurso público. Queria muito conhecer esse universo que eu não tinha ainda experimentado. Então, aconteceu. Passei em um concurso da Prefeitura de Maricá para Docente II, em 2006. Deixei a escola particular e mergulhei de cabeça na escola pública. “O que seria a escola? Prefiro não dizer o que a escola é, mas tentar ver o que acontece no seu interior” (Skliar, 2012, p. 316).
No ano de 2006 ainda, comecei a pós-graduação em Psicopedagogia. Acreditava que seria interessante fazer esse curso para me aprofundar sobre o processo de desenvolvimento e construção de conhecimento. Também poderia colaborar com o Victor, meu filho diagnosticado com deficiência mental.
Na busca por novas oportunidades em 2009, passei novamente em outro concurso público para Docente II (Séries Iniciais), dessa vez, para o município de São Gonçalo. Fui trabalhar em uma escola que ficava no bairro conhecido como Arrastão, localizado naquele município. Foi mais uma experiência importante, pois atuei com turmas de alfabetização e EJA durante quatro anos.
Minha vida acadêmica e profissional foi se expandido, e as inquietações, aumentando. Encontrei algumas dificuldades para trabalhar naquela época. Faltavam recursos, as turmas estavam cheias, poucos eram os incentivos para realizar um bom trabalho com os alunos. Eram dificuldades que fui superando junto a outras colegas de trabalho. Fomos à luta. Não era uma luta minha ou delas. Era a luta por um tipo de educação que proporcione aprendizagens e amplie sentidos, que valorize a cultura e que se aproxime do cotidiano dos alunos e da comunidade escolar.
Passei a viver a realidade de dois municípios (Maricá e São Gonçalo). Nessa época, a Política Nacional de Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva (Brasil, 2007) começava a ser implantada como política pública que chegava às escolas. A Inclusão Escolar tomava corpo e, segundo esse documento, ela diz respeito ao acesso, à participação e à aprendizagem de alunos com necessidades especiais – termo utilizado para designar o público alvo da Educação Especial. Eram os primeiros passos efetivos para que essas pessoas estivessem na escola comum, e, com isso, começaram a surgir diferentes mudanças nas diretrizes políticas federais referentes às propostas de sua escolarização (Plestch, 2014, p. 09).
Outras questões além da matrícula começavam a ser levantadas: acesso, permanência, currículo adaptado, práticas pedagógicas etc. Eram coisas novas que chegavam às escolas e traziam certo temor para alguns professores, pais e alunos. Com isso, fui fazendo o percurso da minha vida profissional e algumas inquietações me levaram a pensar sobre o quanto as Políticas Públicas de Inclusão Escolar eram implementadas de forma diferente nos dois municípios em que atuava. Penso que, para além dessas questões apontadas, faltava, naquela época, trazer a discussão sobre a convivência, e não somente sobre a presença dos alunos com deficiência nas escolas.
Em 2011, buscando aumentar as possibilidades de fazer outros concursos públicos e ampliar as possibilidades profissionais, fiz pós-graduação em Gestão Educacional – Administração, Supervisão e Orientação Educacional, na Universidade Castelo Branco, e dei continuidade às pesquisas às quais eu já estava me dedicando sobre a escola pública.
Com o passar do tempo e com as experiências do cotidiano da escola pública, percorri diversos caminhos que me levaram a trabalhar, em 2012, na Superintendência de Educação Inclusiva e Diversidade, da Secretaria de Educação do município de Maricá. Atuei diretamente com Políticas Públicas de Inclusão Escolar, visitando escolas e colaborando com a expansão da Educação Inclusiva nesse município.
No mesmo período, assumi a coordenação do Atendimento Pedagógico Domiciliar ofertado para aqueles alunos que, devido a algum problema de saúde (quadro clínico ou algum tipo de deficiência muito grave), não podiam frequentar a escola por algum período ou por tempo prolongado. É um tipo de Atendimento Educacional Especializado previsto no Art. 6.º, da Resolução n.º 04, de 02 de outubro de 2009. Vivi experiências que me convidavam “a duvidar, perguntar, interrogar o já sabido, a olhar e escutar com mais atenção, a afinar nossa sensibilidade para o que nos passa” (Skliar, 2012, p. 311).
Na busca por formação, conheci a educação a distância (EAD), o que contribuiu muito para minha vida acadêmica e minha formação. Após realizar alguns cursos a distância, fui indicada pela Secretaria de Educação de Maricá para ser tutora do programa Formação pela Escola nas Ações do FNDE, do Ministério da Educação. Era uma boa oportunidade de colaborar para a formação de outros colegas professores.
Prestei um novo concurso público para a prefeitura de Maricá e, em 2013, assumi a função de orientadora educacional. Escolhi o cargo porque, nessa função, poderia atuar junto aos alunos e abraçar diversas questões pedagógicas e sociais que fazem parte da vida deles. Deixei a matrícula de Docente II, em São Gonçalo, e fiquei com duas matrículas em Maricá.
Em 2013, ainda, abracei mais um desafio, assumindo uma Sala de Recursos Multifuncionais em uma escola pública do município de Maricá. Segundo a Resolução n.º 04, de 02 de outubro de 2009, esse é o lugar onde deve ser ofertado o Atendimento Educacional Especializado (AEE) para alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação. Continuei também com a minha função de orientadora educacional em uma escola rural, o que trouxe experiências importantes para minha formação acadêmica e profissional.
A partir de 2015, fui convidada novamente para fazer parte da equipe da Superintendência de Educação Inclusiva e Diversidade, da Secretaria de Educação do município de Maricá, e continuo como professora de Sala de Recursos Multifuncional (AEE).
Alguns avanços foram acontecendo no campo da Educação Especial e Inclusiva. No entanto, é possível notar certa obsessão pela igualdade quando penso nas políticas públicas que foram elaboradas nos últimos tempos, sem problematizar as singularidades humanas, sem pensar que a igualdade precisa ser pensada como o início, e não o motivo pelo qual se movimenta a inclusão (Skliar, 2015).
No movimento da pesquisa, questiono-me sobre que igualdade é esta que se apresenta de forma tão constante no discurso jurídico:
Por que esta obsessão pela igualdade? Não no sentido sociológico do termo,
mas ainda assim continuo a pensar o quanto as políticas que falam da
diversidade, do outro, em nome do outro, representações dos outros,
continuam achando que a igualdade vai ser um resultado final, quando na
verdade, para mim, e para muitas outras pessoas, a igualdade é o ponto de
partida (Skliar, 2012, p. 317).
Precisamos olhar para a inclusão como uma emergência no cenário atual e, por isso, é preciso problematizá-la, fazendo uma crítica a partir do que a tem sustentado: políticas públicas, leis e formas de materializá-la (Lopes, 2013, pp. 11-2).
Depois de viver diversas experiências de inclusão, eu continuava a me sentir provocada. Continuava a estudar, e isso foi me conduzindo a buscar novos caminhos. Passei pela universidade nos cursos de graduação e pós-graduação e sentia que podia ir mais além. Pensei em fazer o curso de mestrado.
O projeto de pesquisa enviado para o programa que escolhi começou a ser escrito em 2012. Inicialmente, meu desejo era de que a escrita me provocasse a fazer perguntas. Fiz isso. Peguei um caderno e comecei a fazer os primeiros registros. Entretanto, fui pensando que meu desejo não poderia se reduzir a isso. Precisava viver a pesquisa, senti-la, poetizá-la, deixando-a tomar forma e força, o que contribuiu para a escrita do projeto. O encontro com outras pessoas, com outros textos e com outras instituições foi fundamental na minha tomada de decisão em ingressar no curso de mestrado.
Escolhi, então, o curso de mestrado do Programa de Pós-graduação em Educação, área de concentração: Educação – Processos Formativos e Desigualdades Sociais, por conta do desejo de retornar à Faculdade de Formação de Professores/UERJ. Esse foi o local onde fiz minha graduação e uma pós-graduação. Mesmo depois da conclusão do curso, em 2007, sempre procurei estar na universidade de algum modo, frequentando cursos, seminários e palestras. Sentia a necessidade de estar em contato com o meio acadêmico. Era, talvez, uma maneira de renovar as forças e seguir em frente. O desejo de estar na Universidade era intenso.
Elaborei meu projeto para a linha de pesquisa “políticas públicas, direitos e desigualdades”, passando por todo o processo seletivo, no qual fui aprovada.
Felicidade! Foi esse sentimento que senti e experimentei.
Retornei à Faculdade de Formação de Professores/UERJ para prosseguir na minha formação, iniciando o curso no momento em que foi declarada greve de professores e demais funcionários da instituição. A Universidade do Estado do Rio de Janeiro tem atravessado um verdadeiro processo de desmonte, em que a falta de investimento em pesquisa e infraestrutura e o atraso no pagamento dos salários dos servidores vêm desencadeando uma série de dificuldades para o seu funcionamento adequado. É um momento de luta pela manutenção de um espaço público, forjado, construído e constituído pela força daqueles que seguem resistindo ao desejo por parte do governo de acabar com o ensino público gratuito.
Hoje é o meu primeiro dia no Mestrado. Estou aqui! A Universidade pra mim
é vida, solo fértil para aqueles que desejam preparar a terra, semear, regar e
colher. Sim é a vida. Sei que o percurso será longo, mas o desejo de passar
por esta experiência me movimenta. Sinto-me deslizando entre céu e terra!
(Diário de vida (entre) mãe e filho, 04 de março de 2016).
Vai-se escrevendo e inscrevendo (em mim) a proposta da pesquisa: pensar sobre os efeitos da Educação Especial e das políticas públicas na produção de vida entre mãe e um filho, este sendo chamado de pessoa com deficiência. A pretensão desta pesquisa é narrar uma história de produção de vida, e isso seria o que refere Benjamim, ao dizer: “Assim se imprime na narrativa a marca do narrador, como a mão do oleiro na argila do vaso” (1994, p. 204).
Trago, com esta pesquisa-escrita – atravessada por escritos costurados, dissertativos, poemas, trechos de diários de campo, fotografias e outros –, como objeto de análise, os atravessamentos e as implicações que compõem o próprio campo de pesquisa.
Quando já não nos contentamos com a mera representação do objeto,
quando apostamos que todo conhecimento é uma transformação da
realidade, o processo de pesquisar ganha uma complexidade que nos obriga
a forçar os limites de nossos procedimentos metodológicos (Passos e
Barros, 2009, p. 30).
Os caminhos da pesquisa que sigo traçando, cartografando, vão aos poucos compondo-a, e ela, viva, é tecida como uma pesquisa-
intervenção 1, em que “os procedimentos, e mesmo os problemas, mudam consideravelmente no transcurso do pesquisar” (Maraschin e Raniere, 2012, p. 42). Por meio da cartografia, segue sendo experimentada, e sua diretriz “[…] se faz por pistas que orientam o percurso da pesquisa sempre considerando os efeitos do processo do pesquisar sobre o objeto de pesquisa, o pesquisador e seus resultados” (Passos e Barros, 2009, p. 30).
Mergulhada na pesquisa, cartografando o traçado no plano da experiência e acompanhando seus efeitos (entre objeto, pesquisador e produção do conhecimento) no próprio percurso da investigação, sigo o caminho metodológico pensando em transformar para conhecer. Os fios da tessitura que seguem são costurados com pontos pequenos e grandes, estreitos e largos, assumindo assim uma variedade instigante. São diferentes texturas que revelam encontros, desencontros, contradições, coerências, vida, cada qual carregado pelos vários territórios transitados que compõem os muitos cenários desta vida/experiência.
No decorrer desta pesquisa e a partir de várias experimentações, a costura começou a se aproximar ainda mais do meu objeto. Aprendi a costurar quando era menina. Minha mãe me ensinou. Além de professora, ela também era costureira. A costura faz parte da minha vida até hoje. Arrisco-me a dizer que, vivendo e experimentando, sou muitas coisas, tantas coisas, outras coisas; eu também sou costureira.
Meus escritos foram se apresentando e tomando forma de retalhos. Comecei a problematizar isso e, então, pensei que os acontecimentos descritos no texto poderiam ser unidos, costurados, juntados na sua composição, assim como em uma colcha de retalhos, “num exercício, uma experimentação. Uma escrita-experimentação” (Claretto e Veiga, 2016, p. 32). Seria um desafio fazer isso. Que tipo de costura seria essa? Não considerei isso fácil.
Assim como os retalhos, os acontecimentos se apresentavam de diversas formas, tamanhos e tessituras. A composição do texto, então, demandaria disposição para buscar o entre nesses acontecimentos, aquilo que “me passa, me afeta” (Larrosa, 2011,p. 6), as experiências produzidas na vida de dois, pela vida dos dois: mãe e filho. “A escrita do texto se daria por múltiplas entradas, em múltiplos afetos” (Larrosa, 2011, p. 31).
Costurar experiências? Costurar palavras? Optei por esses caminhos.
O próprio texto que é escrito vai se configurando como uma escrita subversiva. Suas partes-retalhos-palavras seguem produzidas e, no meio do processo, são sentidas, descartadas, sobrepostas e desencaixadas. Vai se constituindo aí a sua composição de forma prazerosa, catando os fragmentos que formam um conjunto interessante na pesquisa.
Como que eu vou fazer para costurar uma palavra? Linha e agulha? Em qual
tecido? Já sei! Vou costurar as palavras no jeans. Se alguém me perguntar
por que escolhi este tecido? Escolhi porque veio a memória sobre o meu pai.
Antigamente uma calça Jeans era muito cara. Era a ‘calça Lee’. Lembrome
de um dia que meu pai comprou uma e chegou em casa dizendo que agora
tinha uma calça boa. ‘O jeans demora a rasgar é resistente’ dizia ele. Então
foi por isso. Ao decidir costurar palavras eu pensei em um tecido resistente,
que talvez suportasse aquela costura e outras e outras… (Diário de vida
(entre) mãe e filho, 09 de agosto de 2016).
Como seria relembrar a história de Victor e politizar essa história ao narrá-la dentro da história da escolarização das chamadas pessoas com deficiência? Quais os caminhos percorridos por Victor em sua escolarização que me conduziram a buscar formação no campo de estudos da Educação Especial e das políticas de inclusão? Como se vincula essa teia complexa com a militância?
A pesquisa se encaminhou, então, para um modo de experimentar a escrita por meio da costurografia, um dispositivo que “segue direções diferentes” e “forma processos sempre em desequilíbrio” (Deleuze, 1996, p. 155). Outras composições e formas expressivas (poesia, música, diário) também vão se aproximando desta pesquisa. É o desejo, a escolha ética, estética e política, “um tipo de escrita viva também irá nos fazer disparar, por um caminho ou outro, com as espessuras e sutilezas da vida, encarando o quanto ela é estranha, misteriosa, complexa, enigmática e incontrolável” (Linhares, 2016, p. 08).
Nesse movimento, sigo com o desejo de escrever de dentro, sentindo, vivendo, experimentando, com as forças que elejo para costurar essas leituras e escritas no papel. Vou com agulhalinha-retalhos fazendo os primeiros pontos da costura. Pontos iniciais de costura ligeiros. Sigo costurando palavras nesse processo de formação, que não para e continua vivo para além de mim.
Referências
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