Professores formados na FFP/UERJ e inclusão
Posfácio: Experiências instituintes e instituídas sobre formação de professores para/na educação inclusiva
Posfácio
Experiências instituintes e
instituídas sobre formação de
professores para/na educação
inclusiva
Márcia Denise Pletsch
A diversidade nos assusta e tendemos a compreendê-la como indício de
desordem o fracasso de aprendizagem, ambas, situações que tentaremos
evitar organizando turmas ideais, homogêneas, cheias de alunos iguais uns
aos outros. Tudo em vão, naturalmente, pois escolas – tal como tudo mais
relacionado à Educação – são fenômenos com vida e alma próprias, livres e
absolutamente fora do nosso controle, fenômenos cuja existência depende
do diverso, do imprevisível acaso. — Senna, 2014, p. 58
É com imensa alegria e prazer que aceitei fazer o posfácio do livro Professores formados na FFP/UERJ e inclusão: entre políticas, práticas e poéticas, organizado pela Prof.ª Dr.ª Anelice Ribetto. Imediatamente após aceitá-lo, passei a refletir sobre os caminhos seguidos pelas políticas educacionais denominadas inclusivas e as possibilidades encontradas pelos professores em formação e, também, por aqueles já por nós formados nos cursos de Pedagogia e demais Licenciaturas, para o trabalho com a diversidade humana, sobretudo, a que se apresenta em pessoas com alguma deficiência intelectual, sensorial ou outra especificidade no desenvolvimento. Para refletir sobre tal aspecto, questiono: Qual seria a formação de professores necessária para atuar com a diversidade escolar e as especificidades humanas cada vez mais presentes na escola a partir das propostas de educação inclusiva? Que experiências acadêmicas possibilitam formar um professor de Pedagogia que contemple a diversidade escolar?
A essas questões acrescento aquelas trazidas por Kassar (2014, p. 218) que problematizei em artigo recente produzido em colaboração com Daniele Araújo e Marcela Lima: “Que tipo de conhecimento é relevante para uma formação do professor da educação básica, levando-se em conta a escolarização dos alunos com deficiências? Que tipo de conhecimento é necessário para formar o professor considerado ‘especialista’?”.
Para refletir sobre tais questões, o livro organizado por Anelice Ribetto traz um conjunto de textos que problematizam, a partir da experiência vivenciada pelos discentes do curso de Pedagogia da FFP/UERJ, durante a sua formação inicial, a formação para atuar com a inclusão e a diversidade humana. As experiências, frutos de pesquisas e atividades de extensão, apresentam pistas construídas nas práticas instituintes e instituídas para pensar uma formação de professores aberta e comprometida com a escola pública com todos e para todos. Uma escola que, nas palavras de Caivano (2001, p. 12), ao parafrasear o livro de Rosa Maria Torres, Itinerários pela educação latino-americana, pode ser “pequena e remota, mas para muitos estudantes é o centro do mundo”, é o espaço “onde a esperança sobrevive para muitas pessoas subjugadas pela pobreza e pela ignorância, ambas filhas da injustiça e da opressão; a escola e seus protagonistas formam um mural esculpido no mármore da coragem e do compromisso”.
É sobre essa escola e seus professores que o presente livro traz uma rica contribuição. É sobre o cotidiano da escola, a escola que realmente existe, “essa grande ou pequena escola em que atuam educadores anônimos” (Caivano, 2001, 2013), que as contribuições da obra são instigantes e problematizam a formação inicial oferecida pelos cursos de Pedagogia.
As reflexões trazidas ao longo do livro apresentam e problematizam, a partir do debate com base em dados empíricos, a implementação e as tensões provocadas pela proposta política de educação inclusiva na realidade das redes de ensino, neste caso, no município de São Gonçalo e outros municípios do leste fluminense. Igualmente, apresentam discussões sobre a ideia de normalidade e anormalidade ainda hoje presente nos discursos educacionais. Para fazer um contraponto a esse debate, o livro traz caminhos e possibilidades construídas e forjadas nas práticas cotidianas das escolas para inserir os alunos com deficiência por meio da mediação escolar.
Nesse contexto, também são apresentadas outras formas de pensar uma formação para a inclusão da diversidade por meio das narrativas e memórias discentes/docentes sobre o fazer com sujeitos outros, como, por exemplo, com sujeitos com autismo ou deficiência visual (cegos), além de outros espaços educativos, como a classe hospitalar.
Entendo que os temas e os debates aqui apresentados, assim como o conjunto de dados sistematizados coletivamente pelo coletivo “Diferenças e Alteridade na Educação”, instigarão nos leitores inúmeras reflexões sobre as demandas e as possibilidades para a formação inicial e continuada de professores, além dos fazeres pedagógicos e científicos ligados a uma perspectiva educacional que envolva a diversidade e as especificidades de todos os alunos.
Enfim, os leitores têm em suas mãos um rico trabalho coletivo, que certamente iluminará aspectos da realidade dinâmica e contraditória em que vivemos, bem como suscitará questões necessárias para que sigamos adiante na formação de professores, numa perspectiva inclusiva, e na imaginação necessária para ensinar e pesquisar sobre a Educação e a diversidade humana. Assim, como dito na epígrafe inicial, são fenômenos com vida e alma próprias, livres e absolutamente fora do nosso controle, fenômenos cuja existência depende do diverso, do imprevisível.
Nova Iguaçu, julho de 2017.
Referências
CAIVANO, F. “Prefácio”. In TORRES, Rosa Maria. Itinerários pela educação latino-americana. Porto Alegre: Artmed, 2001. KASSAR, M. de C. M. “A formação de professores para a educação inclusiva e os possíveis impactos na escolarização de alunos com deficiência”. Revista Cadernos CEDES (Impresso), v. 34, pp. 207-24, 2014.
PLETSCH, M. D. et al. “Experiências de formação continuada de professores: possibilidades para efetivar a inclusão escolar de alunos com deficiência intelectual”. Revista Periferia, v. 9, pp. 290-311, 2017.
SENNA, L. A. G. “O campo acadêmico do letramento e da alfabetização no Brasil: estados e perspectivas da pesquisa em linguística aplicada”. Revista Teias, v. 15, n. 38, pp. 57-74, Rio de Janeiro, 2014.