Professores formados na FFP/UERJ e inclusão

Anelice Ribetto · Capítulo 12 de 15

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Professores formados na FFP/UERJ e inclusão

Entre ver e não ver… Encontros entre pessoas que não veem (apenas) com os olhos

Entre ver e não ver… Encontros

 

entre pessoas que não veem

 

(apenas) com os olhos

 

Leidiane Macambira

 

Sou professora formada pela Faculdade de Formação de Professores, no curso de Pedagogia. Cursei o mestrado em Educação nessa mesma instituição pelo Programa de Pós-Graduação em Educação – PPGEdu – Processos Formativos e Desigualdades Sociais. Tenho uma forte relação com essa instituição, pois ela esteve presente em minha vida durante acontecimentos muito importantes, os quais foram imprescindíveis para meu processo formativo como pessoa.

Não acredito que uma instituição tenha per si o poder de formar alguém. Creio, sim, que as relações que compomos a partir daquele espaço é que nos forjam. E nela tive a sorte de forjar muitos bons encontros, os quais não foram harmoniosos, mas me deslocaram, tirando-me do lugar de conforto, e me transformaram… (trans)formaram… formaram…

Durante a graduação, participei do projeto de pesquisa “Diferenças e alteridades na educação: Saberes, práticas e experiências (in)clusivas na Rede Pública de Ensino em São Gonçalo”, coordenado pela Prof.ª Dr.ª Anelice Ribetto. Nesse projeto, buscávamos conhecer como as políticas de inclusão se materializavam no cotidiano escolar. Para isso, desenvolvíamos atividades em uma escola inclusiva chamada CIEP 237 – Jornalista Wladimir Herzog, situada na comunidade do Morro do Feijão, em SG.

O princípio da paixão (Larrosa, 2011), o encontro com aquilo que nos desloca, tira o nosso chão e nos põe em estado de atenção, escuta, abertura, disponibilidade, sensibilidade, vulnerabilidade, ex/posição (p. 22), deu-se quando assisti a um documentário chamado Janela da alma durante uma atividade no projeto de pesquisa. Desde então, pus-me a questionar por tudo o que considerava ser instituído como “realidade”. Perguntava-me se o que eu via com os meus olhos era o que todas as outras pessoas viam. Comecei a perguntar-me pelo ver. Que coisa é esse jogo de ver? Não quero, aqui, marcar cronologicamente uma experiência, pelo contrário, suas conexões já vinham há muito tempo acontecendo, mas foi com esse filme que a experiência rompeu com força expressiva em mim. As linhas a seguir pretendem narrar este acontecimento e seus efeitos em meu processo formativo.

Portanto, neste fragmento de texto, pretendo narrar experiências de vida e de formação na Faculdade de Formação de Professores, ao encontrar-me com pessoas que não veem (apenas) com os olhos. O encontro comigo mesma se deu a partir dos encontros forjados ao longo dos sete anos vividos intensamente nessa instituição, carinhosamente chamada por mim e por todos de FFP. Tais encontros não se limitaram aos espaços físicos dos prédios que compunham aquele lugar. Aconteceram pelos corredores, salas, bancos de praça, passeios, viagens de ônibus – muitas viagens de ônibus! –, conversas ao telefone, na cantina e em muitos outros lugares de que agora não consigo me lembrar… E, nesses intempestivos lugares, forjei minha formação. Aliás, ela continua sendo forjada, inventada… Continuo em formação, tais encontros continuam reverberando efeitos e provocando deslocamentos. Digo, que a FFP e as muitas pessoas que não veem (apenas) com os olhos com as quais me encontrei por lá continuam pulsantes em minha vida.

Com elas, venho perguntando, no meu fazer docente e investigativo, por tudo o que consideramos ser normal, ser natural. Pergunto-me pelo ver, pelo não ver, pelo cegar e pelo enxergar… a fim de entrar nessas palavras-conceito, rachar sua estrutura e experimentar a composição de sentidos outros possíveis.

 

Ella está en el horizonte.

Me acerco dos pasos,

ella se aleja dos pasos más.

Camino diez passos

y el horizonte se corre

diez pasos más allá.

Por mucho que yo camine

nunca la voy a alcanzar.

¿Para qué sirve la utopía?

Sirve para eso:

para caminar.

 

(Birri apud Galeano 1)

 

Um lindo texto, citado por Eduardo Galeano durante uma entrevista ao programa Sangue Latino. Utopia… a linha do horizonte… Dou um passo e ela se afasta dois passos… Nunca a alcançarei, talvez não a queira. Talvez a paixão seja essa perseguição… O movimento dos pés que caminham em sua direção.

Movimento… As perguntas também funcionam, para mim, como uma utopia. Não as quero responder, quero seguir em direção a elas, sem nunca alcançá-las. Dando passos… seguindo… movimentando… perguntando… perguntando…

Uma linda pergunta, e, poderia até dizer, uma linda utopia que a graduação em Pedagogia na FFP me proporcionou: “Que coisa é ver?” Quando me refiro à graduação, falo dos encontros produzidos com as muitas pessoas que conheci durante esse curso. Digo até que minha formação esgarçou os muros da faculdade. Ela ramificou-se por lugares, pessoas e bichos que não estão oficialmente nas ementas das disciplinas, mas que estão por lá. E ainda reverberam efeitos em minha vidaformação. Sim! Porque formação e vida não se separam. E, com elas juntas, irei compor essa tessitura textual a fim de narrar minhas experiências de formação na vida… E, ao narrá-la, revivo e, ao reviver, invento.

Isso…

…

Este texto é a narrativa de uma vida que se inventa à medida que é contada. “Trata-se de um corpo impessoal que não se atém apenas ao vivido, porque acredita que uma vida é feita de espaços vazios, de lacunas a serem preenchidas por ficções” (Machado e Almeida, 2016, p. 81).

“Invento para me conhecer…” (Barros, 2013, p. 430).

Com novas palavras, compostas e em decomposição, balbuciadas e gaguejadas, narro uma vida que não foi nem pretérita e nem porvir. Uma vida que se faz no tempo do acontecimento, no aqui e agora.

Como ato de atenção e delicadeza que essas tramas exigem, escolhi contar meu percurso de vidaformação e o modo como me aproximei do desejo de pesquisa por meio de cartas… endereçadas a uma querida amiga (uma… várias!). Pois,

 

Escrever é […] ‘mostrar-se’, dar-se a ver, fazer aparecer o rosto próprio junto

ao outro. E deve-se entender por tal que a carta é simultaneamente um olhar

que se volve para o destinatário (por meio da missiva que se recebe, ele

sente-se olhado) e uma maneira de o remetente se oferecer ao seu olhar

pelo que de si mesmo lhe diz. De certo modo, a carta proporciona um face a

face (Foucault, 1992, p. 8).

 

Essa escolha – escrever também por cartas – foi um escape encontrado, um modo outro de “tomar a palavra em sua força de criação de outros sentidos” (Passos e Barros, 2014, p. 156). Somente uma questão estética? Política?

Talvez, outra política de narratividade.

 

Cara amiga,

 

Muito feliz com a ideia de lhe fazer esta carta, estou aqui, mais uma vez sentada no meu sofá, escrevendo e revivendo minha lembrança de ser criança, estudante de escola pública num bairro da periferia de São Gonçalo. Não quero ser sensacionalista. Perdoe-me se em algum momento parecer, mas acho potente marcar isso, visto que também sou fruto de um movimento de abertura das universidades públicas para as classes populares. E isso não poderia deixar passar despercebido ante os movimentos políticos que vimos atravessando.

Então, tentarei, nesta carta, e em breves palavras, contar-lhe minhas andanças pela vida, pela formação, como venho sendo professora, pesquisadora, mulher, mãe, caminhante… Narrar-me nesta travessia.

Enfim…

Cresci numa época, política e economicamente, muito difícil, não difícil para todas as pessoas do meu país, pois algumas, nessa mesma época, estavam enriquecendo desenfreadamente, enquanto eu e as outras pessoas da minha comunidade estávamos vivendo e sobrevivendo à vida pobre. Lembro-me de que em toda a minha infância vivenciei a tensão do desemprego, ora pela minha mãe, ora pelo meu pai, ora pelos dois juntos, os quais encontravam escape no que, tão somente mais tarde (já na universidade), soube ter o nome de subemprego.

No desespero de ser alguém que ainda não era, esqueci-me de desfrutar de todas as potencialidades daquele espaço. Esqueci-me de ser simplesmente criança, de experimentar com mais ênfase a arte, o brincar, o bagunçar… muito embora também tenha tido meus momentos de infância, lacunas que encontrava para respirar, e nelas poder brincar, jogar, paquerar…

Enfim, cresci estudando em escolas públicas até o primeiro ano do ensino médio, e concluí os dois últimos anos na EJA – Educação de Jovens e Adultos – de outra instituição. Passado o período de

três anos, aproximadamente, cursei um pré-vestibular comunitário 2 e, no ano seguinte, passei no vestibular para Pedagogia na Faculdade de Formação de Professores. Ser professora era o que eu queria.

Meu olhar em relação ao curso ainda carregava a advertência da minha mãe. Depositava sobre a universidade uma responsabilidade que era minha. Acreditava que, se eu frequentasse todas as aulas, se lesse os textos, tornar-me-ia uma pessoa diferente, letrada, uma pessoa que venceu na vida!

No passar dos períodos, fui percebendo que o desejo de ser transvestida num ser acabado, letrado, formado pela academia, não acontecia… Vi a necessidade de colocar-me como sujeito do meu próprio processo formativo. E que me formar professora não era apenas a apreensão técnica de teorias e metodologias de ensino no curso de Pedagogia, mas eram todas as experiências (Larrosa, 2002) que atravessavam minha vida, da qual era sujeito reflexivo – autora e padecedora do que me acontecia. Foi quando eu comecei a procurar por outros espaços possíveis de andar.

Nessas andanças, conheci algumas instituições de formação continuada que atuavam na Educação Especial: o NAPES-SG (Núcleo de Apoio Pedagógico Especializado – São Gonçalo) e o CAP-SG (Centro de Apoio Pedagógico Especializado para Pessoas com Deficiência Visual – São Gonçalo), ambos ofereciam formação continuada aos professores da rede, à comunidade e aos alunos da FFP. Nesses lugares, e em tantos outros, fiz o curso de Braille, participei de cursos sobre adaptação de materiais pedagógicos para pessoas cegas e com baixa visão, apresentei trabalhos em eventos relacionados ao tema, ministrei oficinas de produção de material adaptado e livros táteis, multissensoriais etc.

Comecei a andar também pela poesia… ler poemas, atentarme para obras artísticas espalhadas pela cidade, ouvir músicas que não estava habituada a ouvir… Assistir a filmes que não costumava assistir… Tentei deslocar-me do lugar de tranquilidade e passividade por meio desses dispositivos. “Eu queria mesmo desver o mundo” (Barros, 2013, p. 421).

Nesse mundo outro que construía, andei, como bolsista de Iniciação Científica, pelo projeto de pesquisa “Diferenças e alteridades na educação: saberes, práticas e experiências (inclusivas) na rede pública de ensino em São Gonçalo”,

coordenado pela Prof. a Anelice Ribetto. Nesse projeto, pesquisávamos como as novas políticas de Educação Inclusiva se materializavam no cotidiano escolar. Nosso desejo era, a partir do mergulho no cotidiano, ver as tensões provocadas pelos múltiplos modos de materialização dessas políticas.

Nesse movimento, meu olhar acerca da vida foi mudando. O que desde pequena via como certo/errado, ser gente/não ser gente, crescer/não crescer, começou a tomar tons mais mesclados. Comecei a perceber um “entre” em meio a todas essas dicotomias.

E, nesse turbilhão de implicações provocadas em minha vida, assisti a um documentário que veio diretamente ao encontro das minhas inquietações: o filme Janela da alma, de João Jardim e Walter Carvalho. Um filme que problematiza os diferentes modos de olhar: pessoas que achavam que viam “normalmente”, mas que, ao colocar os óculos, perceberam um mundo diferente… Outras que preferiam ter a visão enquadrada dos óculos… Outras que eram estrábicas e se orgulhavam, pois tinham uma “supervisão” e conseguiam ver muitas coisas ao mesmo tempo… Outras que eram cegas, que “não conseguiam ver” as imagens, mas que as produziam por meio de fotografias…

Enfim, abriu-se mais uma vez diante de mim um mundo outro. Um mundo de possibilidades outras de ser e habitar nele. Daí, uma nova paixão disparava. A paixão pela cegueira, por visualidades, pelo ver. “Eu bem sabia que a nossa visão é um ato poético do olhar” (Barros, 2013, p. 428).

A visão como poesia do olhar. A poesia que não se encontra no olho, porque o ver transcende ao funcionamento do órgão ocular. Esse é apenas um dos instrumentos que usamos para ver. E quem não conta com esse órgão para viver? Poderia ver? Teria um déficit na visão? Seria um deficiente visual?

Com Skliar (1997), comecei a perguntar-me e a estranhar o que considerava e naturalizava ser normal. Por que o mundo se construiu numa dinâmica tão visual? Por que acreditamos que pessoas que não adentram esse mundo pelos olhos são prejudicadas e consideradas com deficiência? Seriam mesmo? E que, por isso, devemos pensar modos (artefatos inclusivos) para igualá-las aos que consideramos sujeitos “videntes”? Por que a “modernidade determinou o sentido da visão como o único capaz de, com precisão, observar, compreender e explicar a realidade”? (Oliveira, 2008, p. 30). E, mais, por que esgotamos a visão apenas ao pleno funcionamento do olho?

Essas perguntas, como linha do horizonte, me fizeram movimentar… Dei alguns passos mais… Comecei então a cursar o mestrado em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação – Processos Formativos e Desigualdades Sociais, na FFP/UERJ.

Nesses dois anos, desenvolvi a pesquisa narrada na dissertação Encontrar(se), (não)ver(se), diferir(se): platôs para pensar a educação de pessoas que não veem (apenas) com os olhos. Por meio de encontros com pessoas que não veem (apenas) com os olhos, buscava conhecer suas experiências e percursos de vida em relação ao mundo em que vivemos, seus processos de deslocamento possíveis e os efeitos que produzem ao viver-resistir-(re)existir na composição de mundos (outros) possíveis de serem habitados.

A referida pesquisa foi desenvolvida no setor da Reabilitação do

Instituto Benjamin Constant 3. Encontrava-me com pessoas que se tornaram cegas ao longo da vida e que frequentavam o Instituto para produzirem outros modos de ser e estar no mundo.

Tais encontros aconteciam em muitos lugares, pois os mesmos não se limitavam apenas à presença física dos corpos, mas se davam também nos efeitos provocados no friccionar, no estranhamento e na negociação de desejos entre os sujeitos que compunham a pesquisa.

Sendo assim, os encontros aconteciam em ônibus, corredores, passeios dentro e fora do IBC, tropeçando em degraus, atravessando ruas, quartos, campos, cidades… inventando imagens, sons de motores, cantos de bem-te-vi, ranger de dobradiças… Desse modo, o IBC era um dos pontos de encontro, mas não era apenas ali que os encontros aconteciam.

Desses encontros, gostaria de lhe contar um. Talvez, um dos que mais me deslocou. Certa vez, fomos passear pelo IBC. Eu ficaria com os olhos vendados e eles – Regina Célia e Eli – me conduziriam. O desejo naquele passeio era conhecer a instituição vivida por eles, a partir dos usos que eles faziam daquele lugar. Como eu não tinha experiência em andar de olhos vendados, uma profissional da Orientação e Mobilidade nos acompanhou, com certa distância, apenas me vigiando para eu não tropeçar e cair, pois, ali, naquele momento, eu que precisava de atenção por não conseguir enxergar.

Todo o meu corpo ainda funcionava, mas, com os olhos vendados, senti como se a atenção, o ouvir e a dimensão espacial estivessem se reconfigurando. Embora percebesse o mundo também com os outros sentidos, depositava apenas no olhar a função do ver. Esqueci que todo o corpo também estava relacionado com o ato de ver. E segui como “los primeros hombres y mujeres que acá se caminaron, a los tumbos, dándose golpes y caídas, chocándose entre ellos” (Subcomandante Marcos, 2016, p. 13).

Durante esse passeio, a tropeços e chocadas, percebi outra dimensão do visível. Não estava acostumada a me movimentar daquela outra maneira. É um trabalho lento e árduo reaprender a se movimentar pela cidade sem o recurso visual – pensava comigo mesma. “Era como se tudo isso estivesse já a diluir-se numa espécie de estranha dimensão, sem direções nem referências, sem norte nem sul, sem baixo nem alto” (Saramago, 1995, p. 15).

Naquele momento, eu estava completamente cega. Ficar com os olhos vendados me trouxe tamanho desconforto que havia me esquecido de todos os outros sentidos, tamanha era minha dependência. O mesmo percurso que fazia há vários meses se tornou longo, os minutos tornaram-se infindáveis, o tempo tornou-se outro, a dimensão espacial também. Já não era mais a mesma instituição. Andava tão lentamente que, com medo de cair, arrastava os pés. E, a passos miúdos, íamos nós três: seu Eli me guiando e Regina Célia, segurando em meu braço esquerdo, sendo guiada por mim.

De olhos vendados, não contava com a antecipação ou com a dimensão de profundidade proporcionada pelo olhar. No entanto, percebia com muito mais atenção cada passo que dava. Não andávamos apressadamente e nem a passos largos, íamos devagar quase que apalpando o chão com os pés.

Mudança de piso entre um corredor e outro, lombadas, degraus, valas, pedrinhas… passaram a ter mais importância naquela caminhada do que placas e murais de aviso. Outra sensação importante foi o vento. Corria pela nossa nuca como nunca antes houvera feito. Sua direção nos indicava se estávamos ou não indo para o lugar certo.

Tantas sensações, e eu sem nenhuma fonte de registro, não estava com a câmera e nem com o meu diário. Tudo o que vivemos ficara ali, acontecendo no presente, reverberando efeitos no aqui e agora, os quais se tornaram contínuos. Talvez nossa mania de registrar, capturar tudo a nossa volta para que seja postergado, acabe nos cegando.

Don Juan, um bruxo do povoado de Sonora, no México, em uma de suas expedições com Carlos Castañeda, a fim de ensiná-lo a ver, disse-lhe que uma de suas predileções era ver, mas gostava de ver tudo. Castañeda, seu aprendiz, um antropólogo pesquisador, disse-lhe que também sabia ver tudo. Entretanto, Don Juan lhe contradiz: “Você só olha para a superfície das coisas” (Castañeda, 1971, p. 16).

O que há nesse jogo em que Don Juan, Regina Célia e Eli nos convidam? Que olhar é esse que não se atém apenas a decifrar imageticamente o que nossos olhos conseguem captar? O que há depois da superfície das coisas?

Os agenciamentos engendrados no ato de olhar modificam o que olhamos? Modificam, ou produzem? Há uma realidade a priori que possa ser vista? Ou será que o visto é efeito desses movimentos, deslocamentos que comportam “linhas de articulação ou segmentaridade, estratos, territorialidades, mas também linhas de fuga, movimentos de desterritorialização e desestratificação?” (Deleuze e Guattari, 2011, p. 18). É na relação com o outro que construímos mundos? E esses mundos mudam ante uma nova relação, um novo outro… um novo eu? O ato de olhar, atravessado por todas essas linhas que nos compõem, é também um modo de construir mundos. É agenciamento!

“Eu bem sabia que a nossa visão é um ato poético do olhar” (Barros, 2013, p. 428). Em outras palavras, no jogo do olhar, implicamos os nossos desejos, nossos medos, sonhos, certezas… de modo que tudo aquilo que nos passa, nos atravessa e nos modifica, o que se torna saber de experiência (Larrosa, 2014), compõe o jogo do ver.

Seria, portanto, muito reducionista se se esgotasse a visão apenas às pessoas que tenham o “sadio” funcionamento fisiológico do olho, do sistema ocular. Entretanto, durante minhas experiências ao encontrar-me com pessoas que não veem (apenas) com os olhos, percebi que a visão não se esgota no funcionamento do olho físico. Então, faço-lhe a mesma pergunta que me move: O que é ver?

Outra experiência durante outro encontro foi quando Regina Célia, Eli, Joaquim, Sandra e eu passeávamos pelo estacionamento do IBC. Já era a parte da tarde, passava das 14h. Nessa parte do dia, o pátio fica mais vazio, então podemos perceber com muito mais ênfase o som da natureza. Indo passo a passo, agora não mais com a venda nos olhos, seguia junto com eles, quando Eli vira-se para mim e diz: “Olha! Um Bem-te-vi! Bem-te-vi… bem-te-vi…” – cantarola imitando o som do pássaro. Paramos e rapidamente peguei meu celular para fotografar, a fim de registrar aquele momento, mas não via o pássaro. Embora Eli estivesse, incessantemente, apontando a direção, não conseguia visualizar. Com um pouco de frustração, desisti de procurá-lo e seguimos o nosso passeio. “Por que não o vi?” – pensava comigo mesma. Meus olhos não deram conta daquilo que queria ver. Por vezes, não vemos o que queremos… Por muitas vezes, não vemos que não vemos.

“[Willian Blake] afirmava que ele não via com os olhos, mas através deles. Isto significa que ver […] equivale a alcançar a compreensão de algo, utilizando todas as explicações, metáforas, parábolas etc. com que contamos” (Foerster, 1996, p. 59). Há pessoas que, mesmo não tendo os olhos convencionais e convencionados, conseguem ver coisas que não são tão fáceis de serem captadas quando olhamos apenas com os olhos.

Esta experiência me fez lembrar de um conto zapatista em que o Subcomandante Marco narra “La historia de las miradas”, e diz o seguinte:

 

Así aprendieron estos hombres y mujeres que se puede mirar al otro […]

Supieron también que se puede mirar adentro del otro y ver lo que siente su

corazón. Porque no siempre el corazón se habla con las palabras que nacen

los labios. Muchas veces habla el corazón con la piel, con la mirada o con

pasos se habla. También aprendieron a mirar a quien mira mirándose, que

son aquellos que se buscan a sí mismos en las miradas de otros. Y supieron

mirar a los otros que los miran mirar. (Trecho de “La historia de las miradas”,

por Subcomandante Marcos, 2016, p. 13).

 

Diariamente, somos ensinados a olhar. O mundo a nossa volta, as mídias, os meios de comunicação nos ensinam o que olhar e como olhar. Entretanto, desaprendemos a ver as coisas como necessitam ser olhadas. Olhamos de maneira distanciada, antecipamo-nos porque vemos e, se já vemos, não precisamos tocar para saber o que é. Aliás, de antemão, fazemos uma série de preconceitos e definições para o que olhamos, atribuindo-lhe juízo. A antecipação, como nos diz Evgen Bavcar (2001), distancia-nos do que vemos. Segundo ele, os olhos são instrumentos da distância. Não nos permitimos ao toque, ao afeto. “O ‘contato’ – a contiguidade, a fricção, o encontro e a colisão – é a modalidade fundamental do afeto” (Nancy, 2007 apud Skliar, 2011, p. 51). Se nos antecipamos, criando sobre o outro uma série de preconceitos, não nos afetamos e muito menos permitimo-nos nos afetar. Não vemos.

Olhamos, mas não vemos.

Por que, vendo, cegamos?

O que nos impede de ver?

Ver com os olhos, talvez, tenha sido o meio mais rápido que desenvolvemos para nos apropriarmos do mundo. Não temos tempo para perceber as coisas, situações ou pessoas por meio de outros sentidos. Antecipar-se pelo que conseguimos captar com os olhos tem sido o modo que consideramos mais objetivo. Olhamos e rapidamente já sabemos o que é e, tão logo, decretamos nosso juízo sobre o que vemos. No entanto, a obsessão pela opinião anula nossas possibilidades de experiência e também faz com que nada nos aconteça (Larrosa, 2014, p. 20). Não tocamos, não cheiramos, não nos perguntamos sobre o que vemos, pois, se já vemos, entendemos tolamente que já conhecemos.

Pensando nessas questões, minha amiga, fico me perguntando se nós, pessoas consideradas videntes, enxergamos apenas com os olhos? Quem, ao ver a pessoa amada, enxerga apenas o que o olho consegue projetar em seu cérebro? Vejo as pessoas a partir dos afetos provocados pelos encontros…

Por vezes, ao sentir algum cheiro, remeto-me a alguma situação vivida… Vejo minha vida por lembranças e por sonhos. Não vejo apenas com o olho! Seríamos todos pessoas que não veem (apenas) com os olhos?

Mais uma pergunta para a minha linha do horizonte! Com elas, sigo caminhando, desnaturalizando as certezas… dando dois, três passos mais… tecendo e destecendo palavras… movimentando nesta vidaformação que pulsa e não para. Continuo andando e construindo caminhos outros…

Caminhos miúdos… de gente pequena, lá do meu bairro… e que hoje estão aqui, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, na Faculdade de Formação de Professores, num Programa de Pós-Graduação em Educação… Gente esta que ainda conta as “coisinhas pequenas” e que as reafirmam como potência…

Cara amiga, agradeço imensamente por ouvir minha história… pela delicadeza de existir em minha vida, por fazer parte dela e fazer-me, mais uma vez, dar um passo a mais rumo ao horizonte, agora com a sua presença.

Obs. 1.: Gostaria de lhe contar muito mais, porém o tempo é curto e as palavras também. A respiração já se torna ofegante, ora pelo cansaço das mãos que digitam esta carta, ora pelo esgotamento emocional da experiência de viver novamente tudo o que te escrevo.

Obs. 2.: Segue uma foto com dois queridos amigos que seguiram junto comigo nos passeios aqui relatados: Regina Célia e Eli.

Atenciosamente,

Leidiane Macambira

São Gonçalo, 29 de maio de 2015.

 

Referências

 

BARROS, Manoel de. Poesia completa. São Paulo: LeYa, 2013.

 

BAVCAR, Evgen. Jornal do MARGS, n. 72, set. 2001.

 

CASTAÑEDA, Carlos. Uma estranha realidade. 9 ed. Rio de Janeiro: Editora Record, 1971.

 

DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia 2. 2 ed. São Paulo: Editora 34, 2011, v. 1.

 

FOUCAULT, Michel. “A escrita de si”. O que é um autor? Lisboa: Passagens, 1992, pp. 129-60.

 

FOERSTER, Heinz Von. “Visão e conhecimento: disfunções de segunda ordem”. In SCHNITMAN, Dora Fried (org.). Novos paradigmas, cultura e subjetividade. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.

JANELA DA ALMA. Direção: João Jardim e Walter Carvalho. Roteiro: João Jardim. Direção de fotografia: Walter Carvalho. Montagem: Karen Harley e João Jardim. Brasil: Copacabana Filmes, 2001. 73 minutos.

 

KASTRUP, Virgínia et al. (orgs.). Pistas do método da cartografia: pesquisa-intervenção e produção de subjetividade. Porto Alegre: Sulina, 2014.

 

LARROSA, Jorge. “Notas sobre a experiência e o saber de experiência”. Revista Brasileira de Educação, n. 19, 2002.

 

______. Tremores: escritos sobre experiência. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2014.

 

MACHADO, Leila Domingues e ALMEIDA, Laura Paste de. “Notas sobre escrever [n]uma vida”. In RIBETTO, Anelice e CALLAI, Cristiana (orgs.). Uma escrita acadêmica outra: ensaios, experiências e invenções. Rio de Janeiro: Lamparina, 2016.

 

OLIVEIRA, Inês Barbosa de. “Estudo do cotidiano, pesquisa em educação e vida cotidiana: o desafio da coerência”. Revista Educação Temática Digital, v. 9, n. esp., pp. 162-84, Campinas, out. 2008.

 

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Disponível em: http://www.fe.ufrj.br/anpedinha2011/livro3.pdf.

 

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http://www.redchiapas.org/proyectos/los-otros-cuentos. Acessado em: 18 out. 2016.