Promoção da cultura de notificação de incidentes em saúde
3 - Taxonomia dos incidentes
Após relatório realizado e divulgado pelo Institute of Medicine (IOM) em 1999, nos Estados Unidos, intitulado "Errar é humano: construindo um sistema de saúde mais seguro" (Khon; Corrigan; Donaldoson, 2000), tornou-se urgente a redução de incidentes, principalmente naquele país, pois foram identificados erros relacionados em pacientes que culminaram em disfunções permanentes e óbitos.
O relatório apontou a incidência de 100 mil mortes de pacientes por ano, em hospitais nos Estados Unidos, ocasionadas pelas falhas na assistência à saúde durante a hospitalização. A partir disso, o tema e estudos sobre segurança do paciente começou a ganhar relevância em diversos países.
Entretanto, após profissionais de saúde e pesquisadores perceberem a utilização de diversas definições para "erro em saúde e evento adverso", a OMS desenvolveu a Classificação Internacional de Segurança do Paciente (International Classification for Patient Safety – ICPS), constituído por 48 conceitos-chave, estabelecendo assim uma linguagem comum e padronizada
internacionalmente (Quadro 3) (WHO, 2009).
Quadro 3 – Algumas definições e conceitos-chave da Classificação
Internacional de Segurança do Paciente, OMS
Conceito Definição
Falha em executar um plano de ação como pretendido ou aplicação de um plano incorreto. Pode
Erro ocorrer por fazer a coisa errada (erro de ação) ou
por falhar fazendo a coisa certa (erro de omissão) na fase de planejamento ou na fase de execução.
Fonte: WHO (2009).
Conceito Definição
Comprometimento da estrutura ou função do corpo
e/ou qualquer efeito dele oriundo, incluindo-se
Dano
doenças, lesão sofrimento, morte, incapacidade ou
disfunção, podendo ser física, social ou psicológica.
Risco Probabilidade de ocorrer um incidente.
Incidente Evento ou circunstância que poderia ter resultado, ou resultou, em dano desnecessário ao paciente.
Circunstância Incidente com potencial dano ou lesão.
notificável
Near miss Incidente que não atingiu o paciente.
Incidente Incidente que atingiu o paciente, mas não causou
sem lesão dano.
Evento Incidente que resulta em dano ao paciente.
adverso
Fonte: WHO (2009).
O conhecimento de conceitos e definições relacionados a
incidentes, como circunstância de risco; near misses; incidente sem e com dano, bem como o grau de dano (leve, moderado, grave), além de saber reconhecer um incidente, e saber o que pode ser notificado, é importante para todos os profissionais de saúde, principalmente àqueles que têm o hábito de realizar o registro, pois são essas informações que são caracterizadas de alta qualidade no reporte e dão suporte à analise pela equipe de gestão de riscos (Ospina; Rivas; Velásquez, 2011).
Quadro 4 – Grau do dano conforme tipos de
incidentes
Incidente Grau de dano
Circunstância de risco Nenhum
Never miss ou quase evento Nenhum
Incidente sem dano Nenhum
Incidente com dano/evento adverso Leve
Fonte: WHO (2009).
Incidente Grau de dano
Moderado
Grave
Óbito
Fonte: WHO (2009).
Quadro 5 – Grau, descrição e exemplos de incidentes
Grau do Tratamento/
Descrição Exemplo
dano intervenções
Assintomático
Paciente recebe
ou nenhum
Nenhum NÃO medicamento e nada sintoma ocorre.
detectado.
Paciente recebe
Perda da função SIM medicamento e
Leve ou danos Observação, desenvolve reação mínimos, rápida revisão do alérgica que cessa com
duração. tratamento. antialérgico e resolve o
problema.
Paciente
sintomático, Paciente recebe
Moderado dano ou perda medicamento e SIM da função desenvolve reação Procedimento permanente ou alérgica intensa, terapêutico de longo prazo necessitando de mais adicional. com aumento do tratamentos e aumento
tempo de no tempo de internação.
internação.
Fonte: WHO (2009).
Grau do Tratamento/
Descrição Exemplo
dano intervenções
Grave expectativa de Diminuição da SIM Paciente recebe medicamento e Necessidade desenvolve choque de vida com grade anafilático por conta de intervenção perda de função reação alérgica, para suporte permanente. necessidade de de vida. internação em UTI.
Paciente recebe
medicamento e
desenvolve reação
Óbito Evento causa alérgica, choque anafilático, é levado para morte ou a UTI sob intubação e acelera o ventilação mecânica e processo. desenvolve pneumonia
associada à ventilação,
evoluindo para choque
séptico e óbito.
Fonte: WHO (2009).
A gestão de risco e da qualidade estão alinhadas no sentido de
que elas buscam os mesmos objetivos, isto é, a melhoria contínua na área assistencial, uma vez que almejam atingir excelência nas ações de cuidados à saúde percebidas pelos pacientes e pelos colaboradores, por meio do desenvolvimento de mecanismos que deem suporte e garantam a credibilidade da instituição baseada na participação intrassetorial e intersetorial com foco no processo, notificação e segurança do paciente.
Portanto, o estabelecimento de uma cultura de notificação pode
ser um grande passo para promover a segurança do paciente, alcançado pela mudança de comportamentos, pensamentos e da organização de trabalho, com uma participação ativa e engajada de todos os profissionais de saúde, aliada à participação do próprio paciente e de familiares quanto à identificação e prevenção de eventos indesejados no ambiente hospitalar (Duarte et al., 2015).