Quatro Novelas

Ana de Castro Osório · Capítulo 8 de 13

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Quatro Novelas

Capítulo III

 

Manoela sahiu do dormitorio logo que a tia deixara de existir.

Cambaleando, os olhos sêcos, a alma vazia, sem a sensação dolorosa da pena, como se a tivessem magnetisado para a furtarem ao sofrimento, apenas uma necessidade material a impulsionava.

Tinha sôno—havia tantas noites que não dormia!

Agora que tudo estava acabado, que não havia uma esperança a sustentá-la, estonteada, inconsciente, deixava-se vencer por esse torpôr que segue a excitação dolorosa de dias sobre dias de espétativa diante da morte. A natureza retomava os seus direitos, e a reação era tanto mais violenta quanto fôra maior o predominio do espirito sobre a materia.

Logo na pequena sala contigua ao dormitorio, que fazia de livraria, deixou-se cahir numa cadeira sem força para ir mais longe.

No dormitorio ia um vai-vem silencioso que mais parecia mover de sombras num pesadêlo. As freiras ciciavam ordens ás criadas, acendiam-se{202} luzes, rezavam baixinho, limpavam as lagrimas que teimavam em enevoar-lhes os olhos, e levantavam com respeito a morta para a vestirem como havia de ir para a cova, com o mesmo triste habito que trouxera em vida e logo ao entrar para o convento, noviça ingenua e formosa, lhe tinham dito que seria a sua mortalha.

E assim, eternamente amortalhada, passava da tristeza de viver ao unico sôno consolador dos infelizes, porque é daquelle que se não acorda para sofrer mais.

A sua face, serenada pela morte, reflétia a suprema felicidade de não existir conscientemente num triste mundo tão cheio de desacertos e injustiças. As freiras benziam-se e murmuravam baixinho, pondo as mãos com devoção:—que o seu rosto de santa reflétia já todo o goso da bemaventurança.

Manoela, abrindo os olhos no meio sôno em que ficara embebida, viu os pés da morta calçados com as sandalias da ordem, magros e compridos, atados com uma fita para não descahirem; e, mergulhando de novo em letargo, sonhou que esses pés caminhavam por sobre o seu corpo desfeito e lhe batiam com força no coração. E a sensação foi tão dolorosa e a dôr tão forte, que acordou de vez, sentindo realmente uma pontada que lhe suspendia{203} quasi a respiração e a fez gritar levando as mãos ao peito, sufocada.

Foi quando Soror Angelica veiu têr com ella e a condusiu para o segundo dormitorio, fazendo-a deitar na sua propria cama, encarregando uma irmã leiga de a vigiar e acompanhar. Então Manoela cahiu num sôno pesado e mau, cheio de sonhos que a faziam chorar e gemer baixinho como quem se sente estrangulado, sem poder gritar, e a que a irmã leiga punha termo chamando-a carinhosamente e abanando-a de leve todas as vezes que a sentia.

Era já manhã quando a vieram chamar para assistir aos responsos que se iam fazer no côro e para os quais toda a comunidade se preparava.

Levantou-se sobresaltada, sem nada perceber, como quem acorda dum terrivel pesadêlo e reconhece com surpresa que ainda existe na vida tal qual a deixara... Atiraram-lhe o véo para a cara, composeram-lhe o vestido, e levaram-na pelo braço, sem que compreendesse intimamente de que se tratava. Mas quando se encontrou no côro e viu a morta estendida no chão sobre um pano preto, entre quatro grossos tocheiros, os padres rezando os responsos, e toda a comunidade em volta com os véos cahidos e segurando velas acêsas,{204} compreendeu finalmente o que se passava, a sua alma despertou para o sofrimento intenso da pavorosa realidade.

Já não havia dúvida possivel, e a noite, que se passara num atordoamento de sonanbulismo, aparecia-lhe agora em toda a sua nua e horrivel fatalidade.

Debaixo do véo que lhe cobria o rosto, as lagrimas corriam sem cessar mas já sem explosão de soluços, tão amargas e lentas que cada uma parecia vir arrastando um pedaço da sua alma esfacelada.

Procurava nessa face amada, coberta igualmente com o véo preto, o sorriso bondoso, o olhar de carinho, que em quatro anos de reclusão a tinham feito esquecer que a vida existia fóra daquellas paredes soturnas.

O véo era denso bastante para lhe velar a face, mas nada obstava a que os seus olhos halucinados vissem, debaixo do grosseiro hábito, o peito entumecido escancarando-se na repelencia da ferida.

Finda a encomendação, seguiu atraz das freiras, vélhinhas alquebradas e esquecidas pelo mundo, que assim iriam rareando, uma por uma, na longa fila que vinha do côro.

Era o último enterro a que assistia ali, porque a nova lei prohibia enterrar fóra do cemiterio público e fôra não pequeno trabalho{205} para se conseguir das autoridades aquella excéção em favôr de Soror Gertrudes, que era conhecida e estimada em toda a terra.

Manoela tremia de pavôr observando a serenidade extatica das freiras, que não se distinguiam umas das outras, com os véos negros derrubados, as velas a arder na mão direita, hirtas e silenciosas e graves como espétros.

Lá dentro,—quem sabe?—talvez que as suas almas tremessem de frio a cada sacudidela do vento da morte que ia levando uma a uma as companheiras de muitos anos, e que nunca mais seriam substituidas.

Já no refeitorio iam faltando tantas que, ao meio dia, a hora antigamente tão alegre de jantar,—quando sobre as toalhas de linho alvejante os moringues de barro de Estremoz marcavam nas mêsas estreitas e compridas, voltadas para o pulpito, o logar de cada uma —mais parecia que a sineta chamava para um banquete de sombras.

Os padres iam compassando os responsos, rodeando a cova onde já repousava o cadaver, e cada um ia deitando uma pá de terra, seguindo-se na ceremonia toda a comunidade.

Ah, bem feliz era Soror Gertrudes que ainda encontrava um abrigo santo junto das{206} suas irmãs, vivendo com ellas no eterno sôno, sob o abrigo das arcarias do claustro florido, acalentada pelo murmurio fresco da fonte que transbordava na sua concha de marmore. As outras—pobres dellas!—já não teriam na morte esse mesmo abrigo sagrado e seriam relegadas a mãos estranhas e indiferentes, esquecidas nesse campo desabrigado e devassado por todos os olhos profanos, que eram os novos cemiterios.

As velas tremiam nas mãos enrugadas das pobres vélhinhas.

Das trinta e três freiras que o Livro da fundação dava como limite para a comunidade, homenagem piedosa aos anos de Christo, e que ao soar a hora, que para muitos fôra de redenção e para ellas de mágua, se preenchera á pressa, abreviando as profissões das noviças, já quinze dormiam insubstituidas sob as lages do claustro.

Sentindo o lento caminhar das vivas, que eram como fantasmas errantes nesse asilo guardado pela morte, sentiriam a dôce ilusão de assistirem com ellas na vida comum.

Olhavam-se apavoradas, as velhas freiras, a cada nova escolhida que a morte vinha tocar com o seu beijo gelado, e murmuravam entre si:—de qual será agora a vez?—terrificadas com a ideia de sêrem a última.{207}

Soror Claudea, com o seu olhar sombrio e desvairado, seguia a ceremonia funebre com tremuras convulsivas no seu corpo magro de que a loucura histerica fizera uma bôa prêsa.

Dantes tambem morriam, é certo, mas a cada cova que se fechava abria-se a porta a uma noviça que tomava o véo preto, e no simbolico número se ia conservando sempre a comunidade.

Manoela soluçava agora, vendo cahir a última pedra que a separava para sempre da bôa tia, que era a sua unica grande afeição no mundo—tão diluida tinha na memoria a lembrança do passado que a filha era apenas uma vaga recordação, tão pouco pungitiva como a que lhe ficara do pai, que mal conhecera.

 

Soror Angelica ficara superiora sem quasi se proceder á ceremonia da eleição, tanto se impunha a todas a sua inteligencia, a sua energia, e a sua cultura, rara entre as senhoras daquella casa de regra áspera e humilde.

A nova superiora era uma bôa e valiosa amiga para Manoela, considerando como um dever estimá-la tal qual o fizera Soror Gertrudes, que tão solenemente lha entregara.{208}

Mas Soror Angelica era um espirito mais varonil e energico, e, se dava amizade segura e protéção incondicional, não tinha como a tia de Manoela os carinhos e as delicadezas dum espirito que tinha ficado menineiro apesar da esterilidade duma vida sem familia propria.

A nova superiora era respeitada por todas; a antiga tinha sido amada e era chorada como uma bôa mãe.

Se Soror Angelica tivesse nascido anos atraz, seria uma dessas preladas temidas e escutadas por todos, porque sabiam fazer valer a força do seu direito e pesar a influencia das familias, da fortuna e do nome profano de todas as suas governadas, em qualquer questão que as interessasse.

Se tivesse nascido alguns anos mais tarde, seria, em qualquer campo para onde dirigisse os seus passos, uma criatura representativa, uma destas influencias que todos procuram captar para o seu lado porque em toda a parte entra com o valôr da inteligencia, da energia e da tenacidade, qualidades sempre raras em todos os tempos.

Superiora sem importancia num convento desapossado de todos os seus rendimentos e que existia apenas emquanto vivessem as últimas freiras—como existe, sustentado pela{209} hera que o reveste, o velho muro em ruinas—Soror Angelica era um desacerto porque era uma força inutilisada.

Desde que ficou naquelle quasi isolamento, o espirito de Manoela começou a acordar, a debater-se para sahir do torpôr em que esses quatro anos amimalhados lhe tinham adormentado a alma.

Essa loucura ardente da fé que despreza o presente pela vaga esperança dum futuro cheio de delicias, já por vezes a compreendia, exaltada pela devoção e pelas leituras misticas que a superiora lhe indicava. O caminho que leva á sarça em fogo onde se consomem as pobres almas doentes, que dão as Santas Terezas de Jesus, já por vezes se abria diante da sua imaginação inátiva e do seu coração amoravel tão implacavelmente impelido pelo destino para a solidão e o desamôr.

Naquelle meio de apertada devoção, no silencio dos grandes corredores pontuados de capelinhas milagrosas, o seu espirito inclinava-se para um misticismo apaixonado e obsessivo, como tudo seria naquella alma de peninsular temperada e subtilisada pelo sofrimento, que vencera sem queixa.

Andava vagarosamente pelos claustros lageados, sentindo-se prêsa dum respeito supersticioso por essas pedras que cobriam corpos{210} macerados de santas; tinha sorrisos silenciosos, gestos vagos de corpo apenas vivo pela esperança de se consumir em breve e reviver só em espirito purificado.

Á hora das orações rituais, assentava-se com as companheiras nos cadeirões de pau santo, que se defrontavam em duas filas sobrepostas e dantes eram só destinados ás professas, e pensava que a vela benta que as separava era a alma de cada uma das freiras que ardia no amôr apaixonado do Senhor seu Esposo e seu Deus.

O bruxoleamento da luz sobre as paginas do livro de oficios, que seguia por dever, tinha para a sua mente enfebrecida a significação clara dum suspirar de espirito aspirando á eterna bemaventurança.

Ali, naquelle côro grande como uma capela, revestido de azulejos policrómos, cheio de santos e relicarios preciosos, que irradiavam na meia obscuridade das suas doiraduras e pedrarias, numa luz quasi de sonho, Manoela gastava os seus longos e inuteis dias.

O côro era, como tinha sido sempre desde que se fundara aquella casa, o unico luxo, o cuidado e gosto de todas aquellas almas privadas doutras delicadezas e distráções feminis. Privadas até de irem á igreja, que Manoela contemplava extatica pelas grades{211} estreitas, revivendo a vaga recordação que lhe ficara do dia da entrada, quando os seus olhos enevoados pelas lagrimas a tinham visto sem lhe poderem dar o verdadeiro valôr.

O convento nem se via de fóra, construido em quadrado por traz da igreja que o guardava, imperturbavel e austera como sentinela incorruptivel da fé.

A igreja era magnifica, nada dizendo com a humildade da regra nem com a modestia do resto da casa: duma traça arrojada, em que as colunas em marmore côr de rosa subiam em cordas espiraladas, até se juntarem na cúpula alta e sonora.

As janelas, do nosso gotico rendilhado a que se chama manoelino, conservavam ainda restos dos antigos vitrais, que deviam ter sido dum brilho e colorido que encheriam de encanto as naves silenciosas.

Os paineis, que a rodeavam, sobresahiam das largas molduras doiradas e entalhadas, pelo colorido um pouco frio e o desenho convencional e rigido do estilo que se impunha no tempo em que uma grande dama da côrte se lembrara, apaziguando talvez recordações importunas duma mocidade cheia de dôces culpas, de fundar aquella santa casa onde, propositadamente, só á igreja fôra dada a magnificencia e o fausto devidos ao Senhor{212} omnipotente, dispensador de todas as graças, arbitro de todo o julgamento. Para as Esposas, as virgens oferecidas como vítimas expiatorias do pecado deleitoso da fundadora, a humildade, o desconforto, e a asperesa da regra.

Contemplando a igreja, Manoela sentia-se amar um Deus imenso e magestoso, arrastando purpuras e fazendo refulgir as joias da sua corôa imperial por catedrais goticas de naves resoantes, cheias de grandezas e misterio. Prostrava-se ante o seu trôno de luz nessa côrte celestial tão fantastica e deslumbrante, que lhe descreviam as almas crédulas e os livros piedosos.

O Christo torturado, empalidecido e humanisado pela dôr, não o compreendia ali, no luxo e na grandeza da arte, como o poderia compreender na igreja humilde da sua modesta aldeia.

Ali era um Deus para camponezes e para as almas simples; aqui era um Deus aristocratico e soberbo que se impunha aos grandes e aos poderosos.

Prêsa naquelle deslumbramento, que a fazia viver uma existencia á parte, Manoela assim iria gastando a existencia se não viesse um banal incidente chamá-la a si, chamando-a á vida com novos interesses e novos deveres a cumprir.{213}

Ama-Rita, a bôa mulher que nunca a esquecêra, escrevia-lhe uma longa carta, de letra tortuosa, quasi ininteligivel, que ella decifrava a custo. «Só passados sete anos lhe escrevia, porque a senhora lho tinha prohibido e, não sabendo escrever, não confiava em ninguem da terra para fazer uma coisa contra a sua ordem. Agora era a sobrinha, a Luisa da Roda, que o fazia. A menina devia lembrar-se della, eram da mesma criação, tinham brincado bastante em pequenitas... Viera de servir, mas tão doente que o mais certo era não poder voltar. Podiam confiar nella e emquanto vivesse não teria a menina falta de cartas».

Manoela tinha os olhos rasos de lagrimas ao pensar na pobre rapariga, talvez tisica, que tinha sido sua companheira de infancia, dessa breve infancia que lhe vinha, numa lufada sã, evocada por essa mal redigida carta de camponia. Era um pedaço da sua rude terra, que a urze e o rosmaninho incensavam.

Depois, as noticias alongavam-se:—este que tinha ido para o Brazil, aquelle que voltara da tropa, casamentos, bátisados, mortes... e porfim, numa linha só, como misteriosamente, a causa primaria de se ter escrito aquella grande carta:—«A menina criava-se muito bem; a menina era muito linda».{214}

Mais nada... E, no entanto, que mundo novo de pensamentos e de paixões essas poucas palavras desenrolavam diante dos olhos e do coração da triste reclusa!

O seu espirito, adormentado numa crise de misticismo para que a predispunha o meio ambiente, reagia agora com toda a energia, porque a sua alma não era feita para vagas abstrações; antes fôra, era, e seria sempre, uma mulher humana, nascida para viver e sentir humanamente a vida, com todas as suas amarguras e alegrias compensadoras.

A filha!... Quasi a tinha esquecido, naquelle viver sem consciencia de si propria, que fôra a sua existencia ali.

Como podera resignar-se durante tanto tempo só com a certeza de que esse pequenino anjo, que era a carne da sua propria carne, vivia, nessa terra longinqua e áspera, sob os cuidados da velha Ama-Rita? Sentia remorsos e agradecia intimamente á bôa serviçal, que assim a chamava á vida lembrando-lhe o cumprimento do seu dever.

Relendo aquella frase incolôr, sentia que dentro da sua alma se ia levantando outro altar, criando uma nova religião, que mal sabia como era dificil de harmonisar.

Encostada ás grades da janela do dormitorio, para onde viera na ânsia de se encontrar{215} a sós com a sua propria alma, olhava o campo que se estendia num verde luminoso, com um castelo ao fundo, na imponencia de cenografia espétaculosa.

Na cerca a nóra gemia e a agua cahia no tanque donde era tirada para as regas.

Esse murmurar da agua corrente evocava-lhe o passado distante, a sua terra, o fiosinho de agua transparente a deslisar por entre os choupos, ao fundo da sua quinta, e aquella pequenina enseada onde se ia esconder, num desejo calmo de solidão, a olhar a agua saltando de pedra em pedra num grande esforço de quem vem exausto de longa caminhada.

Recordava, com tanta saüdade que chegava a sêr uma dôr material, essa época tão afastada para o seu espirito que já parecia têr pertencido a outra existencia, as horas que passara ali sósinha, idealisando um futuro de poesia e de romance, como o idealisam sempre as mulheres que uma educação racional não preparou para entrar na vida pela porta ampla e sem mentidos encantos da realidade.

Recordando todo esse passado, para sempre morto, a sua alma tão cruelmente torturada e tão profundamente humana acordava num alvoroço.{216}

Chamavam-na para a vida, e ella vinha toda inteira, corpo palpitante, coração sangrento pronto a entregar-se a um novo ideal.

Desde esse dia nunca mais deixou de pensar na filha, que se tornou a sua obsessão; sentia-lhe a vózinha de choro chamando-a mãe; via-lhe o pequenino rosto, que idealisava duma pureza de linhas que só igualariam os anjos das pinturas rafaelescas; tremia com a ideia de que podia uma doença cruel arrebatá-la sem que a tivesse uma vez sequer acalentado nos braços.

Já não rezava como dantes, mas ainda passava no côro as melhores horas da sua vida, ajoelhando-se de preferencia diante duma grande Virgem que a lenda dos seus milagres tornava célebre em toda a cidade.

Dizia a crónica:—que essa imagem viera de Candia com destino a Espanha e fôra por milagre trazida á cidade. Recebida entre musica e fogos de artificio, foi levada em procissão e confiada ás freiras que tinham fama de mais virtudes entre todos os conventos da terra. De tal maneira se avigorou a fé nos milagres da formosa imagem que raro era o dia em que a irmã rodeira não recebia, de pobres criaturas sofredoras, bilhetes e cartas implorativas dirigidas á Virgem para sêrem colocadas sob a sua guarda. A crença no{217} milagre, o último refugio dos fracos que não podem resistir á dôr, fizera da bela Senhora uma consoladora permanente como dispensadora desse beneficio inestimavel para a maior parte dos sêres humanos: a ilusão.

Tambem Manoela se afervorava na devoção pela milagrosa imagem; mas o motivo que a arrastava até aos seus pés e a prostrava agora em extasis era mais humano do que mistico. É que diante dessa Virgem, que era uma mulher que a escultura traçara com toda a verdade, sustentando nos braços um pequenino Jesus, filho humano e verdadeiro, que ella, humanamente mãe, acariciava com a doçura do seu olhar veludoso e a caricia dum sorriso angelical, sentia a sua alma pacificada, sentia-se irmanada no mesmo sentimento.

Essa mulher, mãe dum Deus, não a perturbava, porque era bem mulher, bem maternal, para compreender o sobresalto do seu coração, a saüdade que a sufocava por esse pequenino corpo adoravel, leitoso e macio, que apenas podera vêr e beijar á nascença. Aspirava pela caricia dos seus braços roliços e da sua boquinha perfumada; morria de paixão por esse entesinho dealbante, que lá longe ia crescendo e vivendo rudemente entre camponêses, que mal a saberiam amar.{218}