Quatro Novelas
Capítulo VI
Tinha de sêr—mais uma vez sacrificando ao descanso dos outros os seus sonhos, as suas revoltas, as suas alegrias, a sua vontade. {245}
VI
Alguns dias depois chegava Christina, acompanhada pela Ama-Rita, que chorava de comoção só com o pensamento de revêr a sua querida menina.
Manoela foi esperá-las á portaria, escondendo a custo a ansiedade da sua alma que tumultuava em desejos loucos de tomar a filha nos braços e gritar bem alto a sua paixão.
Toda ella tremia, sorrindo contrafeita ás conversas e perguntas das outras senhoras, amparada pela Madre Superiora, que extraordinariamente sahira do cantinho da sua céla para a fortalecer naquella suprema prova.
Veiu por fim a hora da chegada; abriu-se a portaria, e Manoela poude vêr pela grade entreaberta a Ama-Rita, muito vélhita e trôpega, acompanhada por uma mulher, uma verdadeira mulher forte e desempenada, que olhava com visivel curiosidade essas paredes enegrecidas que iam sêr o seu novo abrigo—sahida dum convento, onde a mãe pagara para a educarem, para entrar naquelle como recolhida.
Manoela, á medida que a filha se ia aproximando, subindo a escada para entrar no{246} palratorio, ia recuando espavorida, sentindo um frio de morte no coração, que a asfixiava. É que diante dos seus olhos estava, não a filha que amava e chamara febrilmente durante anos de paixão esteril em que se consumira, mas a imagem viva do homem que, na rétidão do seu caráter, apenas podera desprezar como um sêr ignobil e ascoroso.
Christina não era nada, nada do que ella tinha idealisado. Não era a sua filha, era a filha delle, que a natureza, inconsciente na fatalidade da sua força, lhe punha nos braços.
Vencendo a repugnancia instintiva que essa semelhança lhe inspirava, foi sorrisonha e meiga que recebeu a afilhada, mas Christina não correspondeu tambem a esse apêlo. Os seus olhos garços ficaram frios e dominadores, como eram habitualmente; a sua bôca não se desdobrou álêm do sorriso escarninho que lhe errava habitualmente nos labios.
Foi tristemente resignada que Manoela a acompanhou ao dormitorio cheio de luz onde ella dormia, e onde, com amoroso cuidado, lhe arranjara a cama velada com cortinados de inexcedivel brancura, fresca como um berço de criança.
Ama-Rita seguiu-as falando muito, abraçando de quando em quando a sua querida menina, que ainda era capaz de reconhecer{247} entre muitas apesar de tão mudada e tão triste.
Christina não despertou a simpatia viva que a mãe inspirara a toda a comunidade logo ao entrar no convento.
Pagava com sorrisos contrafeitos os carinhos que lhe faziam, e mal atentava nos mimos com que a mãe a rodeava. Aborrecia-se e impacientava-se com as pobres vélhinhas, que procuravam nessa mocidade a alegria que as aquecesse e lhes reflorisse as existencias a extinguirem-se. Como á mãe, outrora, todas abriram o coração a esse coração, mas este permaneceu fechado e frio, afastando-as descaroavelmente.
Tinha revoltas bruscas, respondia sêcamente, e queixava-se á Ama-Rita de que a queriam sepultar entre quatro paredes e que a tinham tirado duma prisão para a fecharem noutra peor. Manoela sofria com todas essas pequenas coisas, que se iam avolumando, tornando-a odiada por todas as outras companheiras; mas temia fazer-lhe qualquer observação receando o seu genio, que presentia violento e áspero...
Até que um dia Christina, de combinação com uma menina do côro que levou á rebelião, pôs uma verdadeira nota de escandalo no meio conventual, subindo com ella ao{248} telhado para vêr o que se passava no largo apinhado de gente para a feira.
Manoela foi obrigada a proceder, advertida pela Madre Superiora, que a acusava, com a sua voz dôce, de falta de energia para com a filha.
—«Christina—dizia-lhe meigamente—para que me obriga a admoestá-la? Para que faz coisas... que não ficam bem a uma menina?...
—«Mas o que fiz eu, minha senhora? Foi algum crime subir ao telhado para tomar um pouco de ar, para fugir um instante desta sensaboria?!
—«Mas a Christina não está bem, não gosta de estar no convento?
—«Não, minha senhora, não gosto de estar nesta prisão.
—«Mas oiça: hade sahir, tenha paciencia um pouco. Isto não pode durar muito; são apenas duas as freiras que ainda existem, e quando ellas morrerem sahiremos ambas. Continuará aqui a sua educação; a Christina sabe tão pouco que mal se poderá apresentar no mundo, onde ha muita exigencia para as senhoras da nossa classe.
—«Ah, sim!? Conselhos, conselhos tenho ouvido muitos. Eu já tenho educação bastante, não preciso mais...{249}
—«Christina!?
—«Minha senhora!?
—«Então não está bem ao pé de mim?...—E querendo-a convencer, com a sua voz dum carinho maternal:—Não diga que não, que é sêr ingrata. Se soubesse como sou sua amiga!...
—«Minha amiga?! Se o fôsse, não me prendia aqui como uma criminosa. Se o fôsse, não me chamava afilhada—quando eu sei muito bem que tenho outro nome...
Manoela interrompeu-a com um grito desvairado:
—«Christina, Christina, cala-te! Tu não sabes, tu não podes compreender nada do tormento da minha vida!...
—«Ah, sim, um bom meio de me obrigar a calar, quando eu posso falar porque sou sua filha—respondeu brutalmente.
Manoela empalideceu; aos seus ouvidos soou uma zoeira congestiva e o seu coração quasi a sufocou na onda de sangue que lhe atirou á cara.
—«Sua mãe!? Está enganada, menina! Nem sequer é minha afilhada. Mandei-a criar e educar por dó, e é por dó que a tenho comigo.
Conhecendo o orgulho da filha, pagava essa afronta com afronta maior. Tambem ella se{250} sentia ferida; tambem ella tinha necessidade de revoltar-se contra a crueldade alheia. Tambem ella tinha um temperamento violento, que a extrema sensibilidade e o prematuro infortunio tinham enfraquecido mas não aniquilado.
—«Quer sahir?!—e o seu peito era sacudido por uma gargalhada nervosa, que tornava ásperas as palavras—quer sahir?! Pois sáia! Que me importa!? Recolhi-a por dó... não a obrigo a receber um beneficio que não merece.
Mas Christina, como todos os egoistas, tinha a covardia das resoluções rapidas. Diante da indignação da mãe, queria recuar, submetia-se, desejava tudo conciliar...
—«Sahir, minha senhora?! Mas para onde?
—«Para onde estiver melhor, para onde quizer. Que me importa a sua vida?! E é melhor fazê-lo já, já.
Manoela, com todos os nervos retesados numa crise dolorosa, tinha-se tornado duma palidez esverdeada, os beiços trémulos e descoloridos, o coração a afogá-la numa galopada infernal após uma como rapida suspensão de movimento.
Ante aquella ordem e o gesto de repulsa que a acompanhava, Christina não resistiu, dirigindo-se para a porta, de cabeça baixa, {251} contrafeita, unicamente arrependida de têr provocado uma cólera que a privava, dum instante para outro, de todo o bem-estar material a que se afizera.
A mãe olhava-a tristemente:—era afinal aquella a filha que tanto amara e tanto desejara!... Um resto de piedade venceu ainda a indignação e o desgosto.
—«Oiça—disse-lhe quando estava quasi ao fundo do dormitorio, fazendo-a voltar rapidamente a cabeça numa ânsia de esperançada.
—«Minha senhora, chamou?
—«Sim, venha cá.—E, sem a fitar, num repelão de magua que lhe causava a atitude tão diferente da filha, agora de cabeça baixa e ar hipocrita.—Custa-me abandoná-la para ahi, sem familia nem protéção... Vou pedir a meu irmão para a receber em sua casa, como afilhada... Se elle consentir, ficará contente?
—«Sim, minha senhora; seria uma felicidade para mim. Quanto lhe devo, madrinha!
—«Não, não me deve nada. Vá á sua vida, e tenha paciencia alguns dias mais.
—«Mas... eu queria pedir desculpa...
—«Não; não me ofendeu. Pode ir.
Tinha pressa de se encontrar só. Dizia bem: o seu coração não estava ofendido; estava despedaçado, calcado aos pés, por{252} aquella que tinha sido o encanto da sua existencia antes de a conhecer e depois não fôra senão motivo para desilusões e evocações pungentes.
O desespero da sua alma contrastava com a serenidade da lua, em crescente, que se erguia manso e manso num céo translucido, ainda tingido de oirenta púrpura no poente, e era como um alfange de oiro pronto a vibrar-lhe o último golpe.
Soluçava; já não podia mais.
Pela janela gradeada, os olhos nublados de lagrimas mal distinguiam as linhas dessa paisagem, revista em cada dia durante anos, e que umas vezes lhe parecia grandiosa no seu aspéto cenografico, outras banal e triste, conforme as impressões do seu espirito, tranquilo ou perturbado.
Sentia um agro prazer em chorar, e em soluçar como uma criança, numa desconsolação de abandôno e de desespero. O que fôra o seu passado? Apenas uma existencia sacrificada ao convencionalismo ou ao egoismo alheio. O presente era essa amargura de se sentir desamparada das suas proprias ilusões—as últimas companheiras dos que mais sofrem.
O futuro... Santo Deus! o que lhe traria o futuro se não lhe trouxesse o hábito de viver para si mesma?!...{253}
Madre Angelica, prevenida pela Ama-Rita que vigiava sempre a sua menina, veiu têr com ella, arrastando-se vagarosamente ao longo do dormitorio, como uma sombra que o luar fazia destacar.
—«Soror Manoela, o que tem, o que lhe fizeram para estar assim agoniada?!...
—«Ai, Madre Angelica!... Estava ahi? Ainda bem, ainda bem que a tenho junto de mim neste momento. Julguei-me olvidada de todos —até de Deus!...
—«Soror Manoela....—tornou a velha freira com severidade, adoçada pela sua muita estima á reclusa—veja o que diz, minha filha. Deus é pai e um pai não esquece nem aflige propositadamente os seus filhos. Elle ama os mais amargurados—e serão esses os que mais perto estarão da sua eterna gloria.
—«Ah, mas custa muito chegar até lá, pelo caminho da vida...
—«Tenha resignação, Soror Manoela; aprenda no exemplo dado pelo nosso Salvador: olhe para a sua santa imagem, coberta de chagas e coroada de espinhos! E tudo quanto sofreu, inocente e bom, foi para remir o mundo, para salvar aquelles que o flagelavam.
—«Tem razão... terá razão—soluçou Manoela, humilhada. Mas logo, numa revolta subitânea que toda a sua devoção não poude{254} evitar—mas elle era Deus, sofreu por sua vontade, e morreu logo!! O seu martirio não foi uma longa vida arrastada na dôr e no suplício! Mas eu que vivo, eu que tenho vivido anos e anos para sofrer em cada hora mais do que a morte...
—«Soror Manoela!...—reprimendou a freira.
—«Perdão, perdão! Meu Deus, se o sofrimento enlouquece!...
E de joelhos, aflita, soluçante, apavorada com a sua propria heresia, foi-se arrastando até ao crucifixo que se destacava no fundo, tremulamente alumiado por uma lampada de cobre, e ali ficou agarrada aos pés chagados da grande imagem, num choro convulsivamente desfeito e tragico.
Madre Angelica apiedou-se, ella que era o unico coração capaz de compreender e estimar a misera criatura, e tentou levantá-la com as suas poucas forças, e disse-lhe baixinho, numa voz que era uma consolação para essa alma torturada e desgraçada:
—«Vamos, Soror Manoela, diga-me o que assim a faz sofrer. Conte-me a sua magua—que verá como ella diminue...
—«Ai, Madre Angelica, morro de saüdades pela minha filha. Trocaram-ma. Não é esta! Como fui castigada, Santo Deus!{255}
E a freira, sinceramente surpreendida na sua credulidade ingenua:
—«O que me diz?! Então a Christina não é a sua filha?... Será possivel?!...
—«Não é!—volveu Manoela, sobreexcitada, não reparando sequer na dúvida da velha Madre.—Não é, não é a minha filha, que alimentei do meu proprio sangue, que sahiu do meu corpo como a flôr sai da planta. É uma estranha, é uma alma gelada, que não compreendo nem estimo. Veja-a, veja-a bem, Madre Angelica; veja-lhe bem os olhos frios e crueis, os seus olhos metalicos como os do outro! Veja-lhe o riso escarninho, que é delle... Consulte-lhe a alma soberba e impiedosa, como a da avó... Avalie a minha desgraça, Madre Angelica! Tenho uma filha que não tem nada, que não é nada de mim!... E despreza-me, a criaturinha!...—terminou num riso cascalhado, que era uma derivação do choro histérico que a tomara.
—«Socegue, minha irmã. Então!?... Isso não é proprio de si...
—«Sim, tem razão! Eu não devo sofrer assim, mas que fazer?! Não posso, não posso habituar-me a esta desolação; querer amar a minha filha tal como é e não como a sonhei, e não poder, não poder!...{256}