Quatro Novelas

Ana de Castro Osório · Capítulo 7 de 13

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Quatro Novelas

Capítulo II

O irmão cedeu, instado pela mãe, ansiosa por vêr o caso liquidado como entendia sêr melhor, sem mais desasocegos e desgostos.

Os outros dois irmãos, não tendo entrado na confidencia, admiraram um pouco a subita vocação de Manoela, mas como lhes não desagradava inteiramente, pois ficavam assim mais á vontade, —visto que a mãe, afóra as horas de comer, raro sahia do quarto, a não sêr para a capela—aprovaram a resolução com toda a bôa vontade.{191}

 

II

 

Desde que obteve a certeza de que as suas condições eram acatadas, Manoela ficou apática e indiferente para tudo.

Deixava-se levar sem resistencia para onde a mãe queria que fôsse. No seu espirito não havia senão ruinas e desmantelos.

Sempre melancolica, sem raiz que a prendesse á vida, parecia nem sequer se preocupar com a filha que tanto a sobresaltara de princípio e deixava especialmente entregue aos cuidados da ama.

—«Adeus Ama-Rita,—dizia-lhe na última hora—estima a minha filha como me estimaste a mim, e que Deus a faça mais feliz do que a sua triste mãe! Até... um dia—em que nos havemos de encontrar.

Mas quando esse dia?... Não sabia, não via nada claro no seu futuro.

Encostada á varanda do quarto onde tanto sonhara e tanto sofria agora, passeava os olhos amortecidos por toda a montanha que limita o horizonte, e naquella ocasião, em que a primavera tudo cobria com o seu verde manto, se afofava em cambiantes de pelucia cara.{192}

Ao seu lado, a pobre mulher abafava os soluços que a sufocavam e limpava as lagrimas á ponta do avental.

Seguira-se a viagem, a cavalo, atravessando terras desconhecidas, onde gente espantada as seguia com a vista pelos caminhos poeirentos e pedregosos, deixando-lhe tal confusão no espirito que nunca saberia dizer por onde passara nem o que vira.

Logo á chegada, a mãe conferenciou com Soror Gertrudes, tia do marido, agora superiora do convento, que a pouco e pouco iria acabando pela morte das últimas freiras, e onde Manoela foi recebida em festa por todas essas tristonhas almas encarceradas precocemente envelhecidas.

A mãe partiu, socegada emfim, sem saüdades que a fôssem mortificar ou distrahir dos seus austeros deveres de bôa católica.

Tambem a filha as não sofreu, porque nunca se tinham compreendido nem estimado aquellas almas, que ninguem diria tão estreitos laços uniam, tal a dessemelhança que involuntariamente as separava.

Manoela parece que vinha, inteiramente, do pai, de quem se lembrava vagamente, fazendo-a saltar nos joelhos, rindo e chalaçando com todos, enchendo a casa de vida e satisfação. E um dia, subitamente, estando{193} sentado á mêsa, do rompimento duma aneurisma morrera.

Quasi se não lembrava do facto em toda a sua nitidez, tão longinqua era essa recordação, que ficara apenas na sua alma infantil como sensação dolorosa, a primeira tristeza na sua vida tão cheia dellas.

Agora vinha encontrar, na tia, o mesmo caráter, essa amizade confiante que lhe faltara, essa alegria que tão bem fazia á sua alma dolorida.

Sentia-se envolver naquella atmosfera de paz, que nunca tinha respirado, e sentia-se bem naquelle esquecimento de tudo quanto a fizera padecer.

Os dias sucediam-se aos dias, de quando em vez cortados por noticias de casa, que recebia indiferente; o tempo ia correndo sempre igual, com as mesmas festas aos mesmos santos, as mesmas rezas, as mesmas infantis preocupações de vestidos a bordar para o menino Jesus tal ou para a Senhora de invocação diversa, o presepe no Natal, o dôce para a venda, a mesma comida sempre ás mesmas e invariaveis horas.

Mas um dia Soror Gertrudes morreu.

Manoela tinha então vinte anos. Era uma criança pela simplicidade do espirito, que ficara ingenuo e ignorante do mal, apesar de tudo,{194} mas era uma verdadeira mulher pela reflexão e pela dôr.

Os últimos quatro anos passados naquella casa conventual tinham decorrido num meio sonho vago, que nem chegava a compreender bem.

Depois da catastrofe que lhe angustiara a existencia, a alma tinha-se-lhe afundado num como branco nevoeiro, que a deixava viver inconsciente e passiva essa vida comum sem que nella tomasse verdadeiramente parte.

Dir-se-ia um meio estado sonâmbulo de que a morte da tia, a bôa Soror Gertrudes, a vinha acordar dolorosamente.

Como ia sentir a falta dessa querida vélhinha, que lhe dera um aféto todo maternal na solidão em que a austeridade da verdadeira mãe lhe deixara o coração!

Logo ao entrar, passados os primeiros dias de surpresa, as palavras de conforto da bôa vélhinha tinham sido um grande bem para o seu espirito.

—Aconselhava-a a têr esperança—o futuro traz surpresas que não podemos prevêr.... E ella era tão nova, santo Deus, como desesperar?! Socegasse, estava entre bôas criaturas que a amavam, e ella como tia a teria sempre junto de si. Ainda que o não fôsse,{195} estimá-la-ia na mesma, bastava sêr uma criança que a desgraça lhe tinha tão tragicamente arremessado aos braços...

Tinha razão Soror Gertrudes—Manoela era bem digna de piedade. Entrada apenas na vida, era della expulsa com vergonha, e a sua mocidade, que mal desabrochara, iria fenecer entre as paredes frias dum convento. Quebrados todos os laços que a prendiam ao mundo exterior, o que ficava dessa pobre rapariga tão admiravelmente feita para amar e sêr amada?

Sentia-se cahir pesadamente num abismo. Fechando os olhos, estendeu os braços em busca dum apoio, e encontrou a mão trémula, o sorriso alegre na sua bôca desdentada, e a face macerada da freira, que para ella teria carinhos inegualaveis.

Bem sentia ella o cancro brutal, que a ia corroendo lentamente, mas nada dizia para não afligir a sobrinha.

Sorria dolorosamente quando uma picada mais aguda a fazia levar a mão ao seio esquerdo, num gesto mecânico, quasi involuntario.

Manoela sobresaltou-se quando as dôres começaram a sêr mais amiudadas, lembrando-se da terrivel molestia que de quando em quando assaltava a sua familia paterna.{196}

A tia socegava-a:—era um nascido que tinha havia muitos anos, não seria coisa de morte...

Mas nos últimos três mêses a doença agravara-se caminhando rapidamente para o fim.

O cancro rebentara, vermelho, luzidio, enorme, deformando horrivelmente o pequenino seio esteril, branco como o marfim—esse seio que guardara com tanto recato durante sessenta anos e se mostrava agora na sua infermidade horrivel.

Quando Manoela o viu pela primeira vez, perdeu a côr, vacilou e só se conteve por um esforço de vontade, que se manifestava nella com a revolta natural contra mais esse golpe do destino.

Dahi para diante nunca mais abandonou a tia, assistindo-lhe a todo o martirisante fim, sentindo, por assim dizer, na sua alma todas as dôres que ella ia sofrendo no seu magro corpo esfacelado.

Foi-lhe infermeira solícita, disfarçando a repugnancia que lhe inspirava a ferida, que se ia arroxeando, com laivos azuis, quasi negros, numa aparencia ascorosa de podridão. Em volta a péle retesada do peito ia-se abrindo e esfarelando.

Manoela tinha sempre diante dos olhos a ferida horrivel que tão cuidadosamente tratava,{197} e que era o fim—ella sabia-o—dessa existencia tão querida.

Por fim Soror Gertrudes nem sequer se podia assentar na cama, e ella assistiu-lhe á agonia, que durou dois longos dias,—lento quebrar de cadeias que se tinham enferrujado mas não carcomido.

Quando a superiora declarou que chamassem Soror Angelica para a substituir, porque já se não podia levantar e a morte não tardava, toda a comunidade acudiu em pranto:—era pois certo que Soror Gertrudes as ia deixar para todo o sempre?!

Foi-se prevenir o capelão, que a confessou rapidamente, tal era a inocencia dessa alma imaculada, e quando voltou com a comunhão todas as freiras e recolhidas ajoelhadas em volta do leito choravam silenciosamente, com os véos negros cahidos sobre os seus rostos de cerusa.

Manoela encostara-se á cama, e a tremura do seu corpo fazia estremecer esse leito onde a morte já se instalara triunfante.

A ceremonia prolongou-se com o perdão que a moribunda foi pedindo a uma por uma das suas companheiras, numa voz que era já um éco de outra existencia passada.

Quiz a sobrinha sempre ali, e consolava-a com a esperança dum futuro melhor. Deixava-lhe{198} o Menino Jesus do Milagre, que fôra o seu companheiro de longos anos, desde que uma senhora freira do convento do Paraizo ali morrera e lho deixara por lembrança. E deixava-lhe tudo mais que propriamente possuia, e bem pouco era, naquella vida estreita de renúncia.

Dirigindo-se a Soror Angelica entregou-lhe a sobrinha e pediu-lhe para ella todo o seu amôr e carinhosa solicitude.

Custava-lhe muito deixá-la. Deus mandara-lhe ao fim da vida aquella suprema provação, que fôra afinal a maior felicidade de toda a sua existencia. Quando ella já se sentia cahir na cova, com tão egoista alegria, vinha aquelle aféto imenso prendê-la á terra com laços tão fortes que ao parti-los metade da alma lhe ficava cá.

Fechou os olhos: imaginaram-na morta e já os soluços se ouviam mais altos. Mas não, era apenas um dormir de extenuamento que breve durou. Ao acordar já a voz lhe estava prêsa no estertor, que causava calafrios a todas as assistentes.

Fazia esforços para falar, queria talvez dizer coisas que a sua alma, já quasi desprendida do mundo, via como nunca tinha visto emquanto a materia a segurava á terra.{199}

Os seus olhos, dum azul pálido, como desbotado pelos anos, voltavam-se para a sobrinha numa ânsia derradeira.

Choravam todas por a vêr assim, implorando a morte que a viesse libertar do incomportavel martirio.

Manoela escondia a cabeça na roupa, soluçando e gemendo apavorada; teria fugido áquelle espétáculo superior ás suas forças, se a moribunda lhe não tivesse agarrado desesperadamente as mãos como última ancora...

A situação prolongava-se pela noite fóra, e tão pungitiva que todas se entreolhavam em pânico.

Era alta noite quando uma criada, vinda do campo havia pouco, se propôs pôr termo áquelle martirio, voltando a senhora. E explicava, muito sabida e vista nessas coisas:—que era o demonio que estava ali, não deixando morrer a senhora, emquanto estivesse deitada sobre o lado esquerdo. Vingava-se assim de não lhe poder levar a alma, que era de Deus, pela muita bondade da Madre-Superiora.

Todas acreditaram piamente na explicação da rapariga; não estava o Livro da fundação cheio de factos que comprovavam as tentações e maleficios do eterno inimigo das esposas do Senhor, especialmente dirigidos contra as piedosas{200} irmãs daquella santa casa tão rica em milagres e indulgencias?!...

Aceite o alvitre, voltaram o corpo pesado, que a morte já quasi gelava completamente, deixando-lhe apenas aquelle imenso sofrimento como despedida duma existencia de que não conhecera senão as tristezas.

Mal lhe tocaram, despediu num suspiro o último lampejo de vida, tal como aquelles cadaveres conservados intactos por anos e anos nos seus tumulos socegados e logo que se lhes toca, trazendo-os ao ar, se desfazem em pó.{201}