Quatro Novelas
Capítulo IV
Num inverno humido e triste em que o claustro, a igreja e o palratorio chegaram a sofrer uma inundação que muito assustou a comunidade, Manoela tremia arrepiada sob o mantéo curto das recolhidas, e pensava com horror no frio que arroxearia as pequeninas mãos da filha que se aninharia ao canto da lareira fumarenta da miseravel casa onde se criava, por essa invernia inclemente que tudo abafava sob a nevada deslumbrante.
Sentia o pavôr da sua almasinha trémula, quando os lobos esfomeados rondassem o povoado, acossados da montanha pela neve, e as ovelhitas timidas se aconchegassem no curral balando tristemente.
Ah, ella não podia acostumar-se á ideia de que a filha, a sua querida filha, viveria assim eternamente sem conforto nem os mimos que para ella sonhava.
Já por vezes tinha tentado convencer a mãe, levá-la ao esquecimento e á tolerancia pelas suas humildes súplicas, mas nada até ahi a tinha demovido do seu proposito de conservar em misterio a existencia daquella criança que{219} a seu vêr não era do mesmo sangue que das suas veias tinha passado ás da filha, e da filha á neta, na continuidade fatal da natureza.
Manoela insistia, pedia ainda; mas a força instintiva do amôr maternal, que a impulsionava agora, começava a fazê-la admitir a revolta contra esse poder que a natureza naturalmente afrouxa, porque assim o acha necessario para a conservação da especie, embora os homens o tenham querido fortalecer com as suas leis e costumes antinaturais.
Soror Angelica, como superiora e como amiga, continha-a e aconselhava-a a conformar-se com a vontade de Deus...
—«Depois,—dizia-lhe ella, um dia, aspirando deliciada a flôr perfumosa duma angelica que se abria num vaso colocado na varanda da sua céla de superiora, mimo gracioso duma das suas amigas da cidade—depois, Soror Manoela, de que lhe serve ir contra a vontade de sua mãe?!... Não é ella a senhora da casa?... Não é ella que tem só o poder do dinheiro?»
—«É a senhora, porque nós, os filhos, assim o queremos; mas não sabe, Madre Angelica, que temos direito a puxar pela herança de meu pai e exigirmos a nossa{220} parte?... Por pouco que seja, dar-me-ha o bastante para viver com a minha filha...
Por menos que Manoela soubesse das leis que governam os homens, sabia o bastante, pelas relações mundanas entretidas entre o convento e a sociedade, para conhecer o direito que a tornava senhora da sua pessôa e da sua fortuna.
—«Revoltar-se, Soror Manoela, cuida que isso lhe daria felicidade?!... Santo Deus! Os pais representam na terra a autoridade divina. Triste daquelle que no pecado procura a coragem bastante para lhe fugir!...
—«No pecado?...—murmurou Manoela, limpando as lagrimas.—E não será maior pecado o meu se deixar morrer ao abandôno a minha filha, esse pobre anjo que não tem culpa nenhuma de têr sido chamada á vida?!...
—«Sim, é uma grande culpa que sua mãe levará ao tribunal supremo, mas quanto maior não seria a sua, minha pobre filha, se levasse a de rebeldia e de orgulho filial!... Não chore! Tenha resignação; se soubesse quantas lagrimas têm chorado outros que... que... que por fim se resignaram a não viver senão com a esperança na morte!...
E Soror Angelica desviou-se um pouco, abafando no lenço um soluço que não poude vencer.{221}
—«Madre Angelica?!...—interrogou ansiosa a recolhida.—Porque chora? Tambem, como eu, sabe o que é sofrer o pêso duma vontade alheia, que esmaga o coração?
—«Ah, minha filha, se sei!... Não queira, Soror Manoela, sofrer como eu sofri... como nós sofremos... a tirania duma ordem, que despedaçou duas existencias!...
A freira, que tinha sido uma das últimas professas, não era ainda muito velha, mas o seu rosto, amargurado agora pela recordação, evocava um tal passado de dôres e sacrificios, que Manoela, inconscientemente, curvou-se para lhe beijar as mãos, que juntava num gesto de imploração extrema, numa prece em que ia toda a sua alma de mistica e de sofredora.
Depois, mais socegada, sentando-se junto da mêsa de trabalho, convidou a recolhida a sentar-se num pequeno escabelo e disse:
—«Soror Manoela, o que lhe vou dizer julgava-o para sempre sepultado no fundo da alma, tão esquecido e longinquo como se o lêra duma outra infeliz, num desses livros da nossa santa casa. Mas Deus Nosso Senhor inspirou-me a ideia de lho contar para que nesse exemplo Soror Manoela encontre força para resistir á tentação diabolica que a impele á revolta contra a vontade de sua mãe. Soror{222} Manoela, houve numa terra linda do Alemtejo uma familia que juntava aos seus pergaminhos de fidalguia uma grande fortuna em terras e dinheiro. Era pai e filho no tempo em que... em que os conheci. O pai era o tipo acabado da nobreza altiva e autoritaria; o filho a bondade, a inteligencia e a docilidade numa só criatura humana reunidas. Em pequenino ficara orfão de mãe, entregue aos cuidados duma velha parenta que o educara e cuidara como um perfeito cavalheiro.
O seu gosto e a sua alegria estavam só nos livros que folheava sem descanso e na penna com que se servia para versejar... ás escondidas. Só uma pessôa sabia do seu crime, como elle lhe chamava, a rir...—e Soror Angelica sorriu tristemente para esse fantasma saudoso da mocidade.—Era uma pupila, do pai, orfã e morgada como elle. Oh, Soror Manoela, se soubesse como se compreendiam e se amavam aquellas duas almas que o destino parecia impelir uma para a outra!... Ambos novos, ambos sem um coração de mãe que lhe tivesse sido refugio e consolação, ambos ricos, ambos filhos unicos e ambos sentindo os mesmos prazeres, e tendo os mesmos gostos simples e modestos. Oh! deixassem-nos lêr as lindas historias de cavalaria que a velha prima alinhava com amôr na{223} bibliotéca do seu quarto; deixassem que elle lhe recitasse as suas poesias emquanto ella matisava um bordado, sob a protéção carinhosa da vélhinha, que lhes queria como a filhos gemios do seu coração... e eram felizes. O que lhes faltava? Apenas a idade para que o pai consentisse no casamento, que via tambem com olhos complacentes.
—«E casaram?...—perguntou Manoela, seguindo com vivo interesse a linda historia de amôr que lhe rasava os olhos de lagrimas, a ella que do amôr tivera apenas uma fugaz e mentida visão.
—«Não, não casaram—respondeu a freira, sorrindo, apesar da dolorosa contráção da sua face marfinea.—Não lhe disse que o morgado era um homem ainda novo e belo, apesar dos seus quarenta anos? Pois era... Ao contrario do filho, montava com garbo um cavalo andaluz, que ninguem domaria como elle, só com a pressão dos joelhos e a firmeza da sua mão de rédea; sabia aprumar-se numa sala diante dos cavalheiros e curvar-se, como ninguem, num requinte de gentileza, diante das senhoras; jogava como um verdadeiro fidalgo, sem que ninguem podesse perceber-lhe no rosto se perdia ou ganhava... emfim era querido e procurado por todos e convidado com o maior empenho pelas familias aristocraticas{224} da provincia e da capital. A quantas formosas raparigas não teria sorrido a ideia de o têrem por marido e quantos pais o não teriam desejado para genro? Elle ria-se dessas pretensões e estava bem convencido de que o seu destino estava traçado em vêr a felicidade do filho e receber os netos para herdeiros e continuadores do seu nome. Mas, um dia, o morgado viu uma senhora que se apoderou do seu coração, e desde logo deixou de se pertencer. Era uma mulher formosissima e igualmente rica, mas dum orgulho que nada havia que podesse igualar. Apaixonou-se tão loucamente que desde a hora em que a viu até que a morte o levou nunca mais teve vontade nem pensamento que não fôsse a della ou por ella inspirado. Apresentou-se como pretendente á mão da orgulhosa fidalga, e, apesar da sua idade e da concorrencia de muitos outros candidatos, foi aceite.
A ambiciosa calculava o valôr das fortunas reunidas e optara pela pretensão do morgado, que lhe dava margem a viver na opulencia e grandeza que sonhara. Mas... o morgado tinha um filho, o herdeiro da casa, o futuro morgado e senhor, que mais tarde, morto o pai, a esbulharia dos seus direitos de posse, nada deixando para os filhos que podesse vir a têr.{225}
—«O que fez então?
—«Oh, a desventurada sabia bem conciliar as coisas; só não soube conciliar a felicidade propria com a dos outros!...
—«Casou com o filho?
—«Não, que horror! Pôs como condição para o casamento com o morgado que o filho... se fizesse padre.
—«Oh, que sacrilegio! E o morgado aceitou?!
—«Assim foi. Em vão o filho e a pupila lhe pediram, de joelhos, que os deixasse casar; em vão elle ofereceu a sua desistencia ao morgadio. Ricos seriam os dois—com o seu trabalho e a fortuna de... da pupila do pai. Tudo debalde! Elle foi implacavel, porque ella o foi tambem. A lei só lhe garantia a posse do morgadio para os filhos se o verdadeiro morgado fôsse frade ou padre...
—«Que desespero! Que mulher tão má! E depois, Madre Angelica?...
—«Depois... elle foi padre!
—«Oh!... E ella?
—«A noiva?
—«Sim, a noiva do rapaz.
—«Essa cuidou morrer de desgosto, mas deu-lhe o Senhor coragem para resistir á doença do corpo e á da alma e... professou tambem.{226}
—«Freira? Resignada, resignados ambos?... Que almas eleitas, meu Deus? Mas... morreram?
—«Elle morreu. Dorme ha muito na paz de Deus. O seu corpo ficou, a seu pedido, no claustro do convento que fundou quando ficou herdeiro da fortuna...
—«Como?! Então sempre foi morgado?
—«Sim. A maior dôr foi essa!...
Soror Angelica encostou a cabeça á mão e as lagrimas escorregaram-lhe por entre os dedos, uma a uma.
—«Mas porque não fugiram? Para que se sujeitaram a essa lei odiosa?!
—«Porque elle era o pai. E os filhos não podem ir contra as suas ordens terminantes. Sugeitou-se, sacrificou-se, pela felicidade paterna. Mas... pouco tempo depois a nova morgada, apesar de rica, autoritaria e feliz, não poude resistir á fatalidade. Logo ao dar á luz o primeiro filho morreu, cheia de pavôr do castigo, consolada e amparada pelo homem que sacrificara ao seu orgulho e ambição. Mêses depois, o filhito que ficara o herdeiro da fortuna morreu tambem deixando o pai consumido de remorsos, envelhecido e triste, e herdeiro de toda a casa. E aqui tem porque, sendo padre o filho mais velho, sempre este ficou o infeliz herdeiro de toda essa fortuna maldita.{227}
—«Então não acha, Madre Superiora, que foi absurda, que foi até um crime essa obediencia que destruiu duas vidas?
—«Soror Manoela—e a voz da freira tinha uma entoação grave, que nunca lhe conhecera, como se fôsse o éco apenas duma alma pairando muito alto—esse absurdo não deixou remorsos nas almas que se irmanavam e se amavam até ao infinito. Elle morreu sorrindo e perdoando; ella... vive na esperança duma vida melhor, sem que— graças a Deus!—tivesse sentido ainda a dôr amarga de ter causado o mal alheio.
—«Amarem-se dessa maneira, têrem diante de si a vida, e matarem por suas proprias mãos toda a esperança de felicidade, Senhor! Como tiveram coragem? Eram decerto duas almas santas —não se podem tomar como exemplo... E não posso, não posso seguir o seu conselho, Madre Superiora! Se os velhos são egoistas e impiedosos, os novos têm direito a reclamar a sua parte de felicidade na terra.
—«Faça o que entender, minha filha. Mas fique certa que, volvidos tantos anos e choradas tantas lagrimas, ainda não trocaria a paz da consciencia e a dôce consolação da minha saüdade por uma alegria construida sobre as ruinas doutra existencia...
—«Pois era a Madre Superiora?!...{228}
—«Eu, sim, que não tive nenhum merito, porque elle e só elle foi o inspirador da nossa conduta, elle o filho heroico que sacrificou, sem um protesto, a felicidade propria á felicidade de alguns anos de seu pai!...
As duas calaram-se, entristecidas e como que suspensas, ouvindo uns gritos lancinantes que vinham da outra extremidade do corredor.
—«Pobre Soror Claudea!...—lamentou Manoela—Anda agora tão louquinha!
—«Ahi tem, Soror Manoela, uma que se não poude resignar de bôamente...
—«O quê? Ella não foi sempre assim?
—«Oh, não! Era a mais alegre, a mais encantadora, a mais viva de quantas têm vindo a esta casa procurar o repouso e a felicidade... que nunca poude encontrar entre nós. Se a visse!... Soror Claudea nunca teve vocação para freira e nunca pensou que o poderia sêr. Se entrou para o Convento das Bernardas foi na ideia de que de lá seria facil fugir á tirania do pai, que a queria fazer professa a todo o transe.
—«Meu Deus! Mas porquê?!
—«Porque a fortuna da casa era pequena e era preciso que ficasse toda reunida nas mãos do filho mais velho, o representante da familia.
«As irmãs e irmãos de Madre Claudea espalharam-se, resignadamente, por varios conventos{229} e fôram homens e senhoras muito respeitados na religião. Ella é que se revoltou sempre, porque, para seu castigo, desde pequenina que queria, com um amôr profano e intenso, a um moço de modestos recursos, filho segundo como ella, que se desesperava por a não poder furtar ao poder despotico do pai.
«Começava nesse tempo a falar-se nos liberais que se juntavam no desterro para conspirar, os quais, dizia-se, eram recebidos de braços abertos pelo imperador, desde que mostrassem sêr homens de valia e de coragem. Se a causa liberal triunfasse, dizia-se, esses ficariam ricos e cheios de dignidades. Na esperança de por esse meio conquistar a fortuna que lhe asseguraria a felicidade sonhada, o rapaz emigrou e voltou mais tarde com as tropas liberais pondo em todos os átos de coragem da sua brilhante carreira militar o unico fito de libertar a mulher que amava, prêsa num convento e obrigada a professar, embora protestasse sempre e chorasse sem descanso durante toda a ceremonia.
—«Assistiu a essa cêna, sem lagrimas, Madre Angelica?»
—«Felizmente não foi no nosso convento que a fizeram professar, mas, embora as freiras chorassem e a lamentassem, o que lhe podiam ellas fazer?... O sr. bispo era parente da{230} familia, e o sr. bispo é que aprovou a profissão.
—«Pobre mulher!...
—«E bem desditosa! Quando o namorado chegou a Portugal soube da sua profissão violentada, mas não desanimou. Combinou as coisas de modo que se poude corresponder com ella e... combinaram a fuga.
—«Soror Claudea fugiu?
—«Sim, chegou a sahir do convento, descendo por uma corda da altura dum segundo andar. Quando chegou á rua onde elle a esperava tinha as mãos em carne viva, tão feridas que ainda hôje conserva as cicatrizes e ficou com as articulações prêsas...
—«Sim, já tinha reparado que mal pode trabalhar com desembaraço...
—«Fugiram... mas na guerra não ha felicidade possivel. A morte foi tão cruel para o sacrílego como a familia o tinha sido para a desditosa...