Quatro Novelas
Capítulo VIII
Christina, muito prática, muito á sua vontade, talhara para si um logar amplo na vida. A última carta do irmão de Manoela pedia-lha em casamento, e a della, que vinha junta, pedia, pró-forma, o consentimento da madrinha.
Manoela sorriu: era a sua vingança, uma como rehabilitação do seu sangue, da sua propria carne expulsa outróra como coisa imunda da casa e da familia.
Era a vida omnipotente readquirindo os seus direitos, a natureza triunfando dos preconceitos, que desprezava as convenções e entrava como senhora donde fôra expulsa como réproba.{266}
Christina, na sua cega e egoista caminhada para a vida, fôra a força invencivel da razão e da justiça, fôra a suprema e triunfante palavra do futuro.
A mãe, amoravel, generosa e submetida, dera a existencia aos pedaços para satisfazer as outras.
A filha, egoista e revoltada, e sem exageros de sentimentalidade que só provocam a dôr, recebia uma por uma transformadas em alegrias as lagrimas da mãe.
Manoela sorria: era a sua rehabilitação, era, saboreada com infinito gôsto—tão certo é que nenhum sacrificio se perde, aproveitando quasi sempre a quem menos o merece.{267}
VIII
Em toda a noite Manoela não pudera dormir, angustiada, sentindo sobre o peito um pêso esmagador, sufocada e aflita.
Com a manhã, que rompera radiosa empoeirando de oiro todo o campo e doirando as montanhas que se destacavam no fundo roseo do céo, serenava um pouco.
Sentia-se mais aliviada e quiz arrastar-se até á janela aonde se sentou na cadeira de braços, que era o seu poiso habitual. Olhava atenta a bandada de pombas brancas que sahia do pombal em vôos estonteados e incertos, embaraçando-se nos ramos das laranjeiras que floriam de branco e perfumavam delicadamente a atmosfera.
—«Ah, como era linda a natureza, sempre renovada e sempre a mesma,—e como era bom viver!...
E a pobre doente ouvia, num encanto de esperança, nunca extincta no coração humano, as palavras de consolação que a bôa Ama-Rita lhe ia dizendo.
—«Porque não iam passar uns tempos a casa do sr. Morgado?... Havia de fazer bem á senhora...{268}
—«Sim, iriam—concordava Manoela—mas não já, a primavera começara apenas, e a Ama-Rita bem sabia como eram ainda invernosos e frios esses mêses de primavera lá na terra.
Oh, se sabia! Quantas noites enregeladas passara acalentando nos braços a sua menina; quantos dias fechada em casa porque a neve e o frio não dava licença, até maio, de se sahir da lareira...
Manoela, sorrisonha ás recordações da bôa vélhota, prometia fazer essa viagem—em vindo o bom tempo.
—«E o menino, quando nascerá?—perguntava a Ama.
—«Já tens pressa de o chamar teu, não é assim?...
E comparava, com um certo sorriso ironico a aflorar-lhe aos labios descórados, a ansiosa espera em que se andava pela vinda do primeiro filho de Christina e os transes porque ella passara para que a mãe chegasse a este mundo, onde era agora uma triunfadora. Recordava... e recordar era tornar a sofrer as horas de desânimo e desespero que por milagre a não tinham atirado para um hospital de doidos ou para o cemiterio.
Tornava a vêr a casa em ruinas, onde a criança nascera como um animal bravio, que{269} anda a monte, para não ofender com os seus gritos de filho ilegal as consciencias socegadas...
Como isso já ia longe e como tudo tinha mudado! Quem lhe diria então que Christina, a sua filha, essa vergonha viva, essa nodoa na familia fidalga de que descendia, anos volvidos seria a senhora morgada a quem todos adivinhavam os desejos e amaciavam o caminho para que désse sem precalço o novo herdeiro da casa?!...
E tão desemelhante destino só porque uma tinha um pai que legalmente reivindicava os seus direitos, emquanto a outra era filha dum homem, que na sua inconsciencia de bruto apenas cuidara do prazer material e passageiro, com tanta mais perfidia quanto era maior o seu conhecimento da indulgencia da sociedade para com as leviandades do homem transformadas em crimes para as mulheres.
E Manoela, meditando e revendo toda a sua existencia naquella hora de passageiro repouso, que a doença lhe dera, pensava com amargurado remorso no que chamava agora a sua covardia:
—«Sim, Christina, no impulso do seu egoismo e da sua ânsia de viver, é quem estava na verdade!{270}
«A transigencia, a covardia, a fraqueza, mesmo quando são filhas do sentimento, acarretam consigo o triste premio da sua inferioridade. E assim, pela covardia a que tinham dado o bonito nome de bondade, ella ali estava sem familia, sem amigos, sem uma alegria que a prendesse á vida que a ia abandonando como fardo inutil, que já não presta para nada.
«Não, não se deve transigir, não se deve esconder uma áção que em nossa consciencia não é um crime, embora a sociedade na sua hipocrisia a mostre, ferozmente, como tal!
«A sociedade acostuma-se a respeitar os fortes e só pede contas severas aos fracos, aos que transigem, aos que a ella se não adaptam ou a não dominam, as duas unicas fórmas de a vencer.
«Christina tivera razão: ella não fôra uma bôa mãe, não soubera desempenhar o seu nobre papel, ferindo implacavel porque fôra ferida, cobrindo com a sua revolta o destino da criança que chamara a uma vida que lhe não pedira. Não tinha desculpa. Fôra necessario que a filha, no seu bom-senso de bastarda, soubesse encontrar a desforra no sacrificio do proprio corpo procurando nesse casamento sem amôr o nome que ella lhe negara.{271}
«E valia muito o amôr?... Ah, ella sorria, com dó de si mesma, recordando como se entregara toda inteira a esse sentimento, o corpo palpitante, a alma fremente, sem uma reserva, sem um pensamento mesquinho de dúvida, com a pureza duma criança, cuja alma não fôra maculada pela desconfiança—e o que lhe deram em troca?!...
«Pois bem, ia reparar a sua falta.
E, chamando a Ama, que dava uma certa ordem ao quarto, respeitando a sua meditação, Manoela pediu a escrevaninha portatil que estava sobre a mêsa de cabeceira, pegou num papel e ia a escrever...
Depois suspendeu-se, sorriu com amargura, e pôs a penna de parte. O que ia fazer com essa declaração a juntar ao testamento?!
Christina já não precisava do seu nome, mais amplamente coberta com o do marido que a tomara como filha de pais incognitos, e a sua declaração extemporanea apenas lhe traria vergonha inutil e dissabores...
Não a fazia—era já tarde para isso.
Recostando-se ás almofadas que a Ama-Rita lhe ageitava na cadeira, sentiu-se agoniada, pediu agua, depois fechou os olhos, franziu frouxamente os labios descórados, e a cabeça tombou-lhe para o lado sem vida.{272}
—«Deixou de sofrer!—dizia a velha, soluçando alto, para a criada e para a mulher do quinteiro que chamara aflita na primeira impressão de inevitavel surpresa. E alisava-lhe os cabelos sobre a fronte, juntava-lhe as mãos numa atitude de prece. Deixou de sofrer, coitadinha! Toda, toda a vida—uma sacrificada!...{273}
INDICE
Pag.
A Vinha 7
A Feiticeira 37
Diario duma criança 81
Sacrificada 181
{274}
{275}
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AMBIÇÕES (romance) 700
INFELIZES (historias vividas). Esgotado. A BEM DA PATRIA: Bibliotéca de propaganda educativa e
distribuição gratuita:
1.º As mães devem amamentar seus filhos. 2.º A educação da criança pela mulher.
BEM PRÉGA FREI THOMAZ (comedia) 300 TEATRO INFANTIL:
A comedia da Lili 200
Um sermão do Snr. Cura 60
A GARRETT. No seu primeiro centenario.—De colaboração
com Paulino de Oliveira 500
GARRETT NO PANTHEON.—De colaboração com Paulino de
Oliveira 50
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