Quatro Novelas
Capítulo VII
Falou longo tempo, num soluçar entrecortado que a esfrangalhava e halucinava, e só muito tarde, conseguindo levá-la para a sua céla, onde estavam mais á vontade, Madre Angelica lhe poude insuflar um pouco de coragem e resignação para vencer aquella crise dolorosissima.{257}
VII
O irmão de Manoela respondeu afirmativamente á carta muito digna que ella lhe escrevera, consentindo em receber Christina como se fôsse uma filha.
A morte da mãe deixara-lhe um vacuo imenso no grande casarão, onde só de quando em quando os irmãos, já casados e cada um em sua terra, o visitavam por ceremonia.
«Christina pode vir—dizia na sua carta á irmã—quando quizer, e na certeza de que já a estimo como filha.
Sentia-se só, e estava na idade em que uma nova amizade é um pouco de vida nova que se insufla na alma amortecida.
«Manoela, que fôsse tambem; dezenove anos de penitencia teriam por certo depurado toda a mácula...»
Esquecia o passado; talvez um pouco de inconfessado remorso o estivesse a maguar, agora que se sentia tão só e inclinado á vida serena duma familia a refazer.
Mas a irmã não ia; agradecia-lhe muito, tanto a prontidão da resposta como a aquiescencia ao seu pedido e o desejo de a revêr... {258} Mas não iria. Tinha ali uma triste missão a cumprir; não abandonaria, no fim da vida, as companheiras de tantos anos de angustia.
Christina partiu alegre, numa ansiedade de prisioneira que reentra no mundo por que tem suspirado durante longos dias inresignados.
Manoela ficava sem saüdades dessa filha que fôra durante anos a sua razão de viver; antes sentia, ao despedir-se, uma vaga sensação de alívio, não isenta de cavada amargura.
—«Adeus, Christina,—disse-lhe na hora da despedida—diga a meu irmão que resolvi fazer o meu testamento deixando-a herdeira do que me pertence. Elle que administre a casa nesse sentido, pois só quero dispôr do usofruto por causa destas pobres criaturas que me rodeiam.
—«Deixe-me agradecer-lhe, madrinha...—e tentava beijar-lhe a mão.
—«Para quê?...—respondeu sorrindo com ironia e encolhendo os hombros á sincera alegria de Christina.
Era com um profundo desdem que atirava essa fortuna, que lhe era indiferente, para o poder da filha que não a soubera amar nem reconhecera o presente inestimavel que lhe dera antes, tendo-lhe dado o seu amôr.
Partiu, acompanhada de Ama-Rita, que apenas levava o encargo de a entregar ao tio{259} e voltar logo, pois essa é que, decididamente, não abandonaria mais a sua menina.
Para ella a menina era Manoela, que nunca deixava de revêr como fôra: a filha adótiva do seu coração, a estranha que tomara na sua alma o verdadeiro logar da filha morta á nascença.
Mas bastante mudara nos últimos tempos, apesar della se não querer convencer do que via: a mulher que pouco tempo antes ella encontrara, senão a linda rapariga que vira partir, lavada em lagrimas, crucificada de dôres, pelo menos uma mocidade ainda florescente, estendendo-se por um outôno que se anunciava formosissimo.
Em poucos mêses Manoela fez uma diferença que saltava aos olhos e afligia toda a comunidade, que só nella fundava as suas esperanças e as suas alegrias. O cabelo embranquecia-lhe nas fontes; a péle amarelecida, enrugava-se impercétivelmente a princípio, mas visivelmente nos últimos dias em que umas olheiras inchadas lhe davam no rosto o aspéto desolador da doença que lhe fizera do coração uma pobre maquina sem regulamento.
Podia dizer-se que ia morrendo aos poucos, das feridas incuraveis que nelle sentira, durante toda essa existencia de eterna sacrificada, em{260} que a alma se lhe esfacelara pelos agudos e impiedosos espinhos do egoismo alheio.
Com a doença de Manoela, entrou o desânimo em todas as almas e a morte encontrou facil caminho entre aquelles organismos depauperados e sem resistencia moral.
Todos os mêses havia mortes no convento: ora as freiras, ora as velhas criadas e recolhidas, lá se iam, umas atraz das outras, em debandada desoladora. E para ella, a morte que rodeava agora como companheira inseparavel a velha casa conventual, tão suavemente serena e risonha, era um aflar de azas sinistro que lhe deixava na alma o luto de toda essa querida familia espiritual, a unica que verdadeiramente estimava agora.
O convento acabava dia a dia, hora a hora,—sentia-se, numa halucinação de presentimentos e presagios tetricos, avisos sobrenaturais e factos estranhos que causavam a perturbação e o pânico de todas aquellas criaturas enfraquecidas e mais ou menos doentes, senão do corpo pelo menos da alma.
Assim, a sineta que no claustro de cima apenas era tocada quando alguem na casa entrava na agonia, para que as almas se recolhessem com Deus e na sua ânsia de bem merecer auxiliassem a que estava para partir, a desligar-se, sem pena nem pecado, desta{261} vida defeituosa e amarga, começara uma tarde, á hora calma do Angelus, a tocar freneticamente conclamando toda a comunidade, que se olhava espavorida e convicta do tragico aviso. —Era certo: aquella sineta, que uma só vez tocara assim, segundo constava, anunciando a morte de duas freiras em cheiro de santidade, anunciava agora a morte, o fim da santa casa que fôra abrigo de tanta pobre alma de mulher revoltada ou submissa, mas todas crentes numa eternidade de venturas de que não tinham tido na terra a compensação.
E todas ellas, velhas e novas, míseras sombras duma outra idade ou raparigas que a educação conservara afastadas do tempo em que vieram ao mundo, todas curvaram a cabeça á convicção de que a campa as chamava, de que era a morte que as libertaria em breve. Sim, ellas estavam prontas, mas quanta tristeza nesse fim de existencias que já mal se arrastavam, numa vida que não compreendiam já!...
Outro dia era um reboliço enorme nas casas deshabitadas, que as fazia tremer de apavorante susto, pensando nas irmãs mortas ultimamente e em tantas que descansavam sob as lages frias do claustro.
E eram vozes misteriosas vindas da terra, perfumes deliciosos e estranhos que se espalhavam{262} pelos casarões vasios, fantasmas silenciosos de freiras mortas havia seculos e que deslisavam sorridentes como que a animarem as pobres irmãs que assistiam ao fim da sua casa tão amada!...
Manoela, apesar de todo o seu bom-senso, não resistia ao contágio e, como as outras, vivia numa atmosfera de prodigios e de mêdos que mais activava o progresso do mal que a consumia.
Mas não abandonava por esse motivo as velhas companheiras, que só nella achavam conforto para bem morrerem.
Foi Soror Claudea a última a deixar a vida, que tão dolorida lhe fôra; foi ella, a pobre louca, quem fechou, como um ponto final simbolico, mais um periodo de historia feminina, tecida de sacrificios e servidões e ilusões profundas, e sem um fecundo e nobre e belo ideal de vida!
Ali ou na familia, no claustro ou no mundo, a existencia feminina pouco diferia; pouco mais era que esse decorrer estirado de anos partilhados entre pequenos deveres, insignificantes trabalhos, apagadas alegrias e supliciantes sacrificios a que ninguem prestava atenção, tão naturais são aos servos e aos inferiores...
Morta Madre Claudea, e participado o caso ás autoridades, teve Manoela que aceitar{263} o depósito da casa para fazer a entrega legal.
Acabada a clausura e o convento, por assim dizer franqueado ao público, começou um novo martirio para Manoela, que se não podia furtar á indelicada e faminta curiosidade de toda a gente da cidade, que já depois fazia da visita ao convento uma distráção a quebrar a monotonia da vida provinciana.
A querida casa tão recatada e fechada a todos os olhares indiscretos, foi uma coisa pública escancarada e esquadrinhada por todos os indiferentes, uns sob a capa amavel da simpatia e da piedade, outros rancorosos ou hostis, desrespeitando as suas crenças ingenuas ou troçando com as suas alardeadas superioridades as infantis preocupações daquelles sêres inuteis...
Manoela afétava uma serenidade que lhe custava anos de vida, não querendo dar aos indiferentes o espétáculo duma dôr que era apenas sua e das suas pobres companheiras, as recolhidas, as meninas do côro e as criadas, que em breve seriam arremessadas para o mundo como folhas inertes e sem vida, e dispersadas ao sabôr do acaso, que as levaria sabe Deus a que dôres e a que miserias!—tão mal preparadas como estavam para a luta de cá fóra, quasi todas pobres e{264} sem amigos ou familia que as tivesse como suas...
Já que não podia furtar a casa e as coisas á profanação dos olhos estranhos, fechava a sua alma num silencio orgulhoso que a tornava respeitada, e conservava uma certa distinção naquelle acabar de comunidade que sem ella seria um levantar de feira sem grandeza nem simpatia.
O inventario feito, a pilhagem executada por ordem superior, viu com profunda amargura os preciosos Grão-Vascos desprendidos das paredes seguirem, com os azulejos hispano-arabes que foi possivel arrancar, a pouca mobilia rica que havia, os livros e as tapeçarias de valôr, encaixotados, segundo diziam, para os museus de Lisbôa... Eram livros velhos aos cantos, pelos corredores, bahus e caixões devassados e esvasiados...
E ainda lhe foi preciso assistir, sem que a desligassem do triste encargo de testamenteira, á invasão dos operarios que vinham transformar a casa, para novo destino mais em harmonia com a época.
Portas escancaradas, divisões deitadas abaixo, montes de caliça pelos pateos e claustros, deslocadas as fontes murmurosas, mortas as plantas que eram o seu encanto—aquilo afigurava-se-lhe uma ruina completa, um desabar{265} de todo um passado que morria sem têr criado raizes, como morre sem seiva, inutilisada, a planta nascida em terreno pobre e rochoso.
Libertada, porfim, foi acabar de viver para uma pequena casa de campo que a Ama-Rita descobriu escondida entre tufos de verdura tenra e uma dôce paz idilica a rodeá-la.
Sentia-se de mal a peor, e sem esforço deixava-se morrer, desligada da vida, sem afeições ou deveres que a prendessem.
Álêm do amôr humilde da simples camponeza que a criara e a cumulava de carinhos e ternuras na morte, como a rodeara na infancia, nada lhe restava.