Quatro Novelas
IV Sacrificada
IV
Sacrificada
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SACRIFICADA
I
Quando Manoela entrou para o convento, todas as freiras e recolhidas correram apressadas á grade do côro para conhecerem a nova companheira, de que a superiora, Soror Gertrudes, ha muito anunciara a vinda.
Falavam a um tempo, riam satisfeitas com aquella diversão, que desmonotonisava a vida fastienta de todos os dias, emquanto que ella, nervosa e pálida, as olhava assustada, como quem entrevê, sem o compreender, um mundo estranho.
Sentia-se abandonada no mundo, sem um aféto ou uma ilusão que lhe devesse dar o desejo e a alegria de{180} viver, mas, apesar disso, aos seus dezeseis anos encantadores não sorria positivamente a ideia da prisão.
Era tão dôce o sorriso triste que lhe errava nos labios, e a sua voz, ligeiramente cantada, com o sotaque provinciano, era tão fresca e cariciosa, que as bôas freiras a consideraram desde logo um anjo do Senhor, mandado para as consolar naquelle triste fim da sua casa religiosa.
Encheram-na de presentes: uma trazia-lhe uns bentinhos, outra uma lâmina ingenua, salpicada de papelinhos doirados; rendas finas, outrora feitas na casa; dôces, especialidade do convento; coisas insignificantes, que eram no entanto toda a sua fortuna.
E ella sentiu-se assim prêsa pelo reconhecimento, integrando-se numa vida que em breve seria tambem a sua.
A mãe perguntou-lhe: se queria entrar desde logo para o convento ou ficar alguns dias fóra, para vêr a cidade.
—Não; se tinha que entrar ali, então que fôsse já. Vêr a cidade para quê?! Que lhe importava a alegria, o movimento, a luz,—aquilo que era a existencia da outra gente?
Não estava ella perdida, morta para o mundo, despedaçado tudo que tinha feito o encanto da sua propria existencia, que era{181} agora uma coisa áparte, fóra da normalidade?!...
A mãe aprovou, contente com aquella resolução; ansiava por a vêr entregue aos cuidados da bôa tia, Soror Gertrudes, que a recebeu soluçando de contentamento e magua—alegria de têr a sobrinha junto de si, fundo desgosto pela sua imensa desgraça.
Porque era uma historia um pouco triste, a dessa rapariga, que assim vinha esconder a sua vida em flôr no silencio dos longos corredores cheios de sombra, adormentar o espirito nessa vida que já pertencia ao passado.
Manoela ficara, muito nova, sem pai, e por isso quasi inteiramente abandonada a si mesma, visto que a mãe, duma devoção estreita e dum caráter frio e áspero, entregava-se por completo á prática das suas muitas rezas e orações e deixava os filhos em plena liberdade.
A pequena, que era uma natureza delicada e emotiva, assim foi crescendo sem um carinho que lhe afagasse e dulcificasse a existencia, retrahindo-se numa aparencia de frieza melancolica.
Os irmãos, três rapazes, viviam alegremente, sem cuidados nem canseiras, caçando pelas serras, comendo e bebendo á tripa-fôrra com os companheiros, jogando o pau pelas romarias{182} e feiras— senhores morgados de aldeia que todas as raparigas disputavam para seus pares, e dos quais todos os homens tinham como honra a convivencia.
O mais velho, bom rapaz, bronco e ingenuo apesar da sua aparencia de gosador, fôra para Coimbra por sua alta recreação, segundo o costume tradicional dos morgados beirões, e por lá se ia formando aos solavancos: R R daqui, guitarradas dali, ceias e patuscadas com os amigos, sempre alegre e satisfeito comsigo e com os outros.
Ora uma vez, a pretexto de caçadas que se faziam melhores que em parte alguma pelos matagais cerrados das suas serranias, levou, para passar umas férias na aldeia, o seu mais íntimo amigo e companheiro mais certo das suas noitadas e troupes em vesperas de feriado.
Cavalgando os possantes cavalos que os criados lhes levaram com tempo, juntaram-se á caravana dos mais rapazes da região e seguiram, como era costume, atravessando vilas e aldeias ao som marcial das cornetas, como um verdadeiro batalhão, que ia diminuindo, não pela morte, mas pela alegria dos que primeiro encontravam as suas casas e se despediam dos companheiros até ao fim das férias.
Fôram elles os últimos a chegar ao vasto casarão de provincia, onde a adega estava{183} sempre aberta, as espingardas carregadas atraz da porta, e a matilha impaciente tudo invadia, roubando na cosinha, sujando as salas e quartos, batida pelas criadas em desespero, afagada pelos amos que riam das suas partidas e se sentiam muito á vontade no meio daquella desordem.
Manoela era um verdadeiro milagre de graça e pureza num meio tão vulgar e rude.
O rapaz, ao vê-la assomar ao alpendre, mal sentira a tropeada dos cavalos e descer correndo os degraus de pedra que davam acesso exterior para o andar nobre da casa, para abraçar o irmão, ficara deveras impressionado. Tanto mais que não contava encontrar, numa irmã do seu herculeo companheiro de estúrdia, tanto mimo e graciosidade de linhas, uma tal delicadeza e aristocracia nativa de porte.
Á primeira impressão de agradavel surpresa seguiu-se o desejo da posse e o projéto da conquista.
Para que essa criança, ignorante e ingenua, se prendesse a um homem que lhe falava a dulçorosa e enganadora linguagem de vulgar D. João, que para ella representava a verdade, a honra, o ideal supremo porque tantas outras têm, como ella, sofrido, não era preciso muito.{184}
Um homem honesto ter-se-ia cautelosamente afastado, receoso de despertar uma alma tão confiada e crente, na sua ignorancia infantil; mas elle, conquistador sem escrupulos, de palidez sentimental e cabeleira romantica, cantando ao luar fados chorosos que falam de amôres infelizes com tremuras na voz e fundos ais arrastados, dedilhando a guitarra que soluça baixinho caricias de beijos gritando alto paixões estridulas... Elle, sem alma nem consciencia, viu apenas a flôr que se abria á vida e que as suas mãos brutais podiam desfolhar e arremessar depois como coisa inutil e sem importancia.
Representou, mais uma vez, a vulgarissima comedia do amôr-paixão, em que ella, a pobresita, acreditou, exatamente porque era ingenua e pura, deixando-se arrastar, sem que houvesse mão amiga que a fizesse parar a tempo na descida perigosa.
Acabadas as férias, promessas feitas e juradas, elle partiu alegre e triunfante, ella ficou abismada na mais desesperadora tristeza.
A saüdade, fustigando barbaramente a sua pobre alma mal preparada para o sofrimento, punha-lhe nas faces a palidez da morte e nos olhos arroxeamentos de incuravel doença.
Os dias fôram passando, os mêses decorreram lentos e monotonos, e o desespero ia-lhe{185} tomando o coração avassaladoramente, visto que elle, o ingrato, nem uma unica palavra lhe enviara a encorajá-la e a dar-lhe esperanças. Confiando da Ama-Rita o seu segredo, conseguiu da pobre mulher—que a amava, mais do que aos proprios filhos, porque a criara com o seu leite—a promessa de receber e mandar as cartas para o namorado.
Enviou muitas, muitas, mas respostas nunca as recebeu, porque nunca elle lhas mandou.
Sentindo-se abandonada, quando mais necessario se lhe tornava o auxilio moral do homem que a enganara vilmente, e não podendo esconder por mais tempo o seu estado, foi têr com a mãe implorando protéção e piedade.
Contou tudo, por entre soluços e lagrimas, nem tentando sequer atenuar com uma desculpa a grandeza do delito, como se tivesse um prazer estranho em se torturar e deprimir, num princípio de expiação.
Quando a mãe compreendeu o verdadeiro sentido das suas palavras, possuiu-se dum desespero louco. Levantando os braços e os olhos ao céo, tomava-o como testemunha da sua ignorancia e inocencia em tão grande crime, como se o esperasse vêr cahir sobre a cabeça da pecadora que soluçava a seus pés.
Mas como do céo não baixou nenhum sinal indicador da colera divina, ella afastou-se{186} brutalmente, prohibindo-a de sahir mais do quarto.
Escreveu então ao filho, contando-lhe em poucas palavras o que se passava e encarregando-o de procurar o amigo, e—prometendo um bom dote a Manoela—fazer com que casassem imediatamente.
Essa carta, mandada pela Ama-Rita para Manoela vêr, deixou-lhe no coração um vislumbre de esperança, naquelle desejo que todos nós temos de nos agarrar ao menor luzeiro que prediga felicidade.
Mas a resposta não podia sêr mais cruelmente aniquiladora:—o namorado de Manoela tinha casado, pouco tempo antes, com uma prima muito rica, e nunca mais pensara na criança que ia começar a expiação duma culpa que era só delle.
Não havia pois maneira de legalisar ao pequenino ente que vivia já da vida da infeliz mãe, a entrada no mundo e na familia.
Tratou-se então de esconder um facto—que seria a vergonha para todos.
Levaram-na para uma casa meio arruinada, numa propriedade distante; e foi ali, entre rochedos desolados e na visinhança lugubre dos lobos que uivavam a sua fome pelos matagais, que Manoela, entregue aos unicos cuidados e carinhos da ama, teve uma filha. {187}
Com que dulcido encanto, depois do martirio de algumas horas, em que as velhas paredes repercutiram os seus gritos lancinantes, ella acalentou nos braços o corpinho fragil, que era uma parte do seu proprio sêr, e premia sob os seus labios febris a carnesinha arroxeada e setinea da pequenina face!
Nos olhos, que mal se abriam á luz, queria ella lêr um infinito de ternura; da boquinha, que ainda não sabia sorrir e já sabia chorar, esperava talvez ouvir palavras de justiça e consolação...
E as lagrimas iam correndo serenamente pelas suas faces desbotadas, lagrimas que eram ainda uma felicidade, que em breve deixaria de possuir.
A Ama-Rita chorava tambem, sem coragem para de pronto lhe arrancar a criança, como lhe fôra ordenado, na impotencia de todas as bôas almas para despedaçar uma ilusão alheia, principalmente quando toda uma existencia está suspensa dum sorriso de criança.
Foi ainda a mãe que a veiu arrancar desse passageiro sonho, anunciando-lhe como coisa decidida a sua entrada para o convento onde Soror Gertrudes já a esperava.
Manoela revoltou-se:—o convento, a prisão para ella, que apenas fôra uma vitima!?... Pois era tamanha a sua culpa, santo Deus!?... {188}
—Era, sim, tão grande que já coisa alguma poderia lavar essa mancha do seu nome, recahindo sobre toda a familia. Apenas o silencio e a ausencia poderiam atenuar o mal fazendo-o ignorar do público!...
Soluçava baixinho, num grande aniquilamento de toda a vontade, escutando as palavras que sahiam frias e ásperas da bôca da mãe.
—«Bem, irei!—disse por fim Manoela, resignada—mas ao menos quero levar a certeza do seu perdão, minha mãe!...
—«O meu perdão?! Não, nunca poderei perdoar á senhora que assim desce ao nivel de qualquer camponia sem principios...
Então, sentindo-se ferida, mais pelo tom do que pelas palavras, que representavam apenas o seu orgulho de casta, a alma de Manoela levantou-se tambem com altivez.
Uma revolta surda a tomava toda, partidos definitivamente os laços que a prendiam a essa mãe que a repelia sem encontrar uma atenuante á sua culpa, sem um lampejo de piedade pela sua existencia tão cêdo anulada.
Embora! Se não lhe perdoavam os outros, absolvia-se ella a si mesma. Não conhecia o mundo; mas a sua consciencia presentia vagamente que não eram justos acusando-a duma falta que se baseava apenas no preconceito{189} social, que entre dois cumplices escolhe, para imolar como vítima expiatoria no altar da hipocrisia, aquelle que pela inocencia e ignorancia menor responsabilidade apresenta.
Avaliando bem—agora que a vida se lhe antolhava tal qual é: cheia de deveres e responsabilidades para os fracos, livre e tolerante para os fortes e cinicos...—a perversidade moral do homem que amara, uma grande repulsa, um grande desprezo lhe invadiu o espirito por tal criatura.
Vieram então novas cartas de Coimbra nas quais o irmão, numa furia brava, contava como procurara o sedutor para o matar, como costumava matar os lobos que lhe ameaçavam os rebanhos, e não o podera encontrar.
«Apenas lhe souberam dizer: que fôra com a mulher passar a lua de mel, não lhe quizeram indicar para onde. Oh, mas havia de encontrá-lo, fôsse onde fôsse, fôsse como fôsse. Quanto á irmã, que desaparecesse—não a queria mais vêr!
Manoela sorriu, já conformada.
Tambem ella não tinha vontade de viver mais com uma familia que tão levianamente a abandonara e era agora tão cruel na condenação.
—Sim, iria para o convento o mais depressa possivel.{190}
Mas duas condições punha á sua completa submissão: saberia onde ficava a filha, que não queria deixar entregue ao acaso, como sêr desprezivel que não merece a esmola dum afago; e fariam prometer ao irmão que não continuaria a perseguir o sedutor. Para quê?! Matá-lo era forçarem-na a lamentá-lo, quando era apenas desprezo e asco o que sentia por tanta abjéção.
Esquecessem-nos a ambos... Ella entraria desde já para o convento, sem nenhuma relutancia.