Quatro Novelas

Ana de Castro Osório · Capítulo 10 de 13

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Quatro Novelas

Capítulo V

—«Infeliz mulher! E depois?

—«Depois, abandonada de todos, aceitou este pobre refugio, apesar de não sêr professa da nossa Ordem. É desde então que Madre Claudea sofre as crises aflitivas que Soror Manoela conhece... Pobre Madre Claudea! Não soube conformar-se, e não foi por isso mais feliz fugindo á obediencia filial...{231}

—«Oh, Madre Angelica, sempre o peor é ter nascido mulher! Terá sido sempre assim? Será eternamente a mesma coisa?!...

—«Quem o sabe?!...

—«Que grande culpa a minha em têr dado vida a uma criatura que hade, como nós, sêr uma sacrificada!...—E Manoela torcia as mãos chorando numa crise de nervos, que a velha freira tentava aplacar.

—«Tenha esperança, minha filha; quem sabe o que será o futuro?!... Houve sempre mulheres que escaparam ao destino comum e fôram felizes.{232}

 

V

 

Manoela foi-se resignando a esperar, cedendo sempre, adiando de mês para mês a realisação do projéto que acariciava no seu coração, e que importava o áto público de rebeldia, que Madre Angelica tanto condenava.

Os anos fôram decorrendo e ella assistindo, com o espirito dolorido e a vontade embotada, áquelle fim miserando de vidas que se iam extinguindo, num bater de azas lugubres que enregelava.

O convento ia-se despovoando a pouco e pouco, como que tornando-se maior, á medida que as vélhinhas, uma a uma, iam sahindo, para não mais voltar, a tomar o seu modesto logar no cemiterio público.

Manoela era agora a cabeça que por todos pensava, a alma e a energia que sustentava aquelle resto de vida conventual, dando-lhe uma aparencia de cohesão, que não tinha.

Sentia-se apossada de todo esse vasto casarão, que parecia crescer a cada nova baixa que a morte marcava, com a sua fatalidade cega de força inconsciente, na comunidade já tão diminuida.{233}

Era a herdeira natural e incontestada dos santos que lhe iam deixando as pobres vélhinhas, como recordação, e na vaga esperança de que assim viveriam mais na sua memoria, unico abrigo ás suas almas exauridas.

Das freiras que ao entrar a tinham enchido de blandicias e amimalhado como mães carinhosas, já poucas existiam. Iam-se mirrando e fenecendo, seguidamente umas atraz das outras, quasi sem doença e sem sofrimento, num descahir e murchar de vontade que nenhum ideal sustenta.

Apenas três ou quatro vélhinhas entorpecidas pelos anos, Madre Angelica ainda energica apesar da sua idade e da sua dolorida existencia, e Madre Claudea cada vez mais dificil de aturar, fugindo endoidecida do convivio dos outros, seguindo apenas automaticamente as devoções obrigatorias do côro, que eram como que um farrapo de lucidez a alvejar no seu triste espirito entenebrecido. Chorava dias inteiros, com gritos dilacerantes, os pecados do mundo, que queria carregar sobre os seus miseraveis hombros, mais do que os dos outros pecadores, sem esperança de perdão. Tinha visões que assustavam as meninas do côro, e apavorava as criadas narrando-lhes: como na igreja do convento fôra uma vez enterrado um grande fidalgo da cidade cuja{234} alma em pena o diabo veiu buscar com medonho barulho. Ella não se lembrava, Soror Claudea não era desse tempo; mas ouvira contar bastas vezes ás santas freirinhas que tinham assistido a essa luta homerica do diabo, querendo levar uma alma abrigada pelas paredes santas daquella virtuosa casa. O fidalgo durante toda a vida não tivera uma palavra de justiça nem de piedade para ninguem, nem se lembrava de minorar a miseria alheia, a não sêr por orgulho e fama. Assim, logo que morreu e que o trouxeram com pompas principescas ao carneiro de familia, feito na igreja por deferencia especial a quem muito protegera a comunidade, um verdadeiro e espesso nevoeiro se levantou logo do chão escurecendo a vista ás freiras, que nem podiam distinguir o padre oficiando no altar. E, á noite, o ruido era tanto pela nave magestosa, que as freiras atemorisadas deixaram de abrir as grades do côro para as rezas noturnas. Era impossivel resistir ao pânico que se apoderou daquelle rancho de mulheres, que viam e ouviam tudo quanto diziam vêr e ouvir por um fenomeno vulgar de sugestão, que tanto milagre tem feito no mundo.

Madre Claudea descrevia e pormenorisava, então, a festa do exorcismo que fôra feita por santos monges arrabidos auxiliados por{235} todas as outras comunidades dos arredores, que de cruz alçada entraram na igreja. Aberta a sepultura e aspergido o cadaver, uma nuvem negra sahiu da cova espalhando-se pela igreja e sahindo pela porta entre-aberta com fragôr. Depois tudo cahira no silencio, tudo se pacificara, ouvindo-se apenas as orações dos frades prostrados de joelhos num santo respeito por tão grande castigo.

E quando fôram vêr a cova... não continha mais do que um punhado de cinza!

Madre Claudea benzia-se murmurando exorcismos e orações, e as ouvintes entre-olhavam-se sentindo pela espinha um arrepio de pavôr.

E não era só isto o que ella sabia. Uma ocasião—isso já fôra talvez ha seculos, mas o Livro da fundação lá o tinha escrito— aparecera um rapazinho trazendo um feixe de varas resequidas que ofereceu á irmã rodeira para plantar na cerca. Se ella as plantasse veria como dum instante para o outro, por milagre do Senhor, cresceriam logo e se tornariam em belas e frondosas arvores. A irmã rodeira ralhou com o garoto e despediu-o; mas como nessa ocasião passasse uma noviça, criança e amiga de brincar, disse-lhe com empenho:—deixe-me experimentar, irmã rodeira; não faz mal nenhum e sempre a gente se rirá da lembrança do rapazinho.{236}

Assim foi. Pegou numa das varas e foi a correr enterrá-la na cerca, seguida por outras noviças em recreio.

Imediatamente—Santo Deus, os maleficios que faz o mafarrico!— a vara engrossou e cresceu desproporcionadamente e tornando-se numa arvore magnifica encheu de assombro as pobres noviças, que viam, sobre ella, uma multidão de macacos fazendo-lhes negaças. Foi o inferno na casa! Todas as que olhavam a arvore maldita ficavam possuidas do espirito imundo e faziam os maiores desacertos e gritarias. Como toda a comunidade corria a vêr a causa de tal alvoroço, toda ella sofreu do mesmo mal, e têr-se-iam perdido todas, certamente, se não fôsse a Madre Superiora, que, antes de mais nada, mandara chamar pela moça de recados os senhores capelães e confessores para pôr termo áquelle inferno com as suas preces e esconjuros.

Madre Claudea sabia mais e mais, mas já se não lembrava bem e a sua memoria fraquejava ao recordar tantas coisas idas... Apertava a cabeça com as mãos e chorava, num chôro desfeito e infantil que enchia de lagrimas todos os olhos.

Só Manoela podia apaziguá-la e por assim dizer chamá-la á realidade e, com a sua voz persuasiva e grave, fazê-la socegar e adormecer{237} confiada como uma pobre inocente. E olhando-a esqualida e apenas com os ossos cobertos por uma péle resequida e empergaminhada, Manoela pensava com amargura na linda rapariga que ella fôra, segundo lhe contara Madre Angelica, amada com paixão, amando com loucura, vítima de interesses e preconceitos alheios, um dia rebelde e desvairada rompendo com todas as peias, logo humilhada e cheia de remorsos, entrepondo-se voluntariamente á vida que engeitara, num terror atavico de escravo que não sabe o que hade fazer á liberdade, com sacrificios heroicos.

Tambem Manoela teve um dia, e quando menos a esperava, depois de tantos anos de sujeição, a sua alforria, e tambem, como ella, a não soube usar, porque a sua vontade longamente oprimida não se fortalecera e definira.

Ao princípio, quando chegou, a noticia da morte repentina da mãe, não se compenetrou bem do que essa morte representava para a sua existencia e apenas se sentiu surpreendida—não tendo a pretensão de querer sofrer, por costume, o que de facto não sentia, por aféto.

Mas, relendo melhor as cartas do irmão e da Ama-Rita, compreendeu por fim que{238} era rica e senhora absoluta da sua pessôa. Isto não lhe podia de pronto dar a sensação da liberdade que por vezes pensara deveria sentir, porque o hábito lhe dera uma nova servidão, que os timidos e os prisioneiros conhecem.

Mas, a pouco e pouco apossando-se de si mesma, resolveu fazer prontamente o que havia tanto desejava com ânsia: mandar buscar a filha, reconhecê-la como tal, e conservá-la junto do seu coração e até á morte, triplicando em carinhos os anos de amargurada saüdade em que a tinham conservado.

Foi têr com Madre Angelica, que era ainda a Superiora venerada e querida, que anos antes a acolhera no seu coração maternal.

Parecia outra, galgando lestamente as escadarias e correndo pelos corredores que levavam até á céla da Superiora, que já quasi nunca sahia do seu cantinho cheio de sol. Com os seus trinta e quatro anos vividos numa vida quasi vegetativa, os traços finos do seu rosto, que fôra duma formosura discreta de morena, conservavam, apesar de tudo, a delicadeza e a graça ingenua que fôram o grande encanto da sua mocidade, quando a tinham trazido para ali.

Nos momentos—raros momentos que elles fôram!—de perfeita felicidade para o seu{239} coração, toda a sua pessôa irradiava uma alegria confiante, que a tornavam singularmente encantadora.

Quando Madre Angelica levantou os olhos do livro de orações para dar a licença que ella lhe pedia á porta, foi já com o assombro que causa uma grande mudança numa pessôa querida, porque a propria voz da recolhida era outra—um novo timbre de alegria a fazia desconhecivel.

—«O que é, Soror Manoela?!... Alguma novidade lá por baixo?

—«Não, Madre Angelica, a novidade é só minha... é uma coisa que eu pensei e que lhe venho participar...

E Manoela explanou, diante da pobre freira sobresaltada, o projéto, que tão simples se lhe afigurara.

—«A sua filha para aqui, Soror Manoela, pensou isso?!...— perguntou apavorada.

—« Sim, para aqui, então não hade sêr para aqui?!

—«Oh, meu Deus, meu Deus! Para que estou eu guardada, santo Deus?!—lamentava a Superiora.

—«Mas eu não compreendo o seu espanto, Madre Angelica! Então não sabia o motivo porque estou aqui ha dezoito anos? Não foi a Madre Angelica que me levou á obediencia{240} a minha mãe adiando até agora a realisação do meu desejo?!...

—«Sempre imaginei morrer antes de vêr esse escandalo!... Meu Deus, meu Deus! Então a minha filha quer dar a essas meninas o público espétáculo da sua antiga culpa?!... Quer sêr o riso e a fabula de toda a cidade?! O que dirão de nós?! Com tanta má vontade contra as casas religiosas, com tanta calúnia que se tem levantado, se Soror Manoela vai agora apresentar publicamente a sua filha, o que não dirão?!...

—«E que me importa tudo isso?!—não sou eu livre porventura?!

—«Oh, livre, livre!... Ninguem é livre de alardear os seus pecados —respondeu a freira, impacientada.

—«Não é isso o que nos diz a nossa religião, Madre Superiora. Esconder um pecado ou culpa é uma prova de orgulho que Deus condena.

—«Mas não neste caso, em que a sua publicação trará descrédito e vergonha para a nossa santa casa. O que dirão, sabe, Soror Angelica?... Dirão que nesta casa a imoralidade chegou ao ponto de se apresentarem publicamente as filhas das freiras!...

—«Dirão uma mentira, que eu propria desfarei contando a verdade. Bem sabe, Madre{241} Angelica, que se não fiz isto ha muitos anos foi por seguir os seus conselhos, nos quais me mostrou que devia obediencia a minha mãe. Por ella, por esse respeito de que me falou para com uma pessôa que me afastou da casa de meu pai, que me expulsou como a uma criminosa, sofri dezoito anos dum silencio que considero uma covardia hôje... Ah, dezoito anos de saüdades por uma filha que se não conhece e pela qual se morre de amôr!... Ah, Madre Angelica, como fôram crueis comigo! A culpa, se a houve, se uma criança, como eu era, a pode têr por se deixar iludir por um homem da sua casta, um amigo de seu irmão... essa culpa bem a tenho lavado com lagrimas de um coração ansioso por conhecer a sua propria filha. Ah, a Madre Superiora é cruel: foi-o comigo, quando me fez recuar ante a minha justa vontade; é-o agora ainda, porque não compreende este meu sentir!... Mas agora sou livre; quero a minha filha—e heide tê-la!...

Manoela, sempre tão delicada no dizer e tão submissa, chegava nesse momento á voluptuosidade das almas sacrificadas quando uma vez chegam á consolação de poderem articular a verdade, que lhe sahia em palavras que pareciam golfadas, num atropêlo de quem{242} esteve encarcerado largos anos e vê por acaso uma porta escancarada.

—«E seus irmãos, o que dirão elles desse áto?—arriscou a Superiora tentando dissuadi-la.

—«Meus irmãos!?... Que lhes devo eu, Madre Superiora? Ha dezoito anos que me viram partir de casa, um amaldiçoando-me, os outros nem perguntando a causa dessa sahida, e só agora me escrevem porque apesar de tudo a lei me confere o direito de partilhar com elles a herança de nossos pais. Meus irmãos!? Quasi os não conheço... Nem lhes devo amizade, nem respeito. Á minha filha, sim, a essa devo todo o meu amôr, todos os momentos do resto da minha existencia.

—«Soror Manoela, pense bem. Será um escandalo! O que dirão essas meninas do côro, as criadas, as senhoras que nos protegem e nos dão a sua amizade?!... Para que estava eu guardada, Senhor!?—E a freira levantava as mãos e os olhos ao céo, num gesto implorativo, murmurando:—Ah, se Madre Gertrudes fôsse viva!...

—«Sim,—volveu a outra com vivacidade, tão pouco do seu costume—tem razão! Se minha tia fôsse viva, ella seria a primeira a chamar a si essa pobre criança que tem sido escorraçada de todos como um cão tinhoso.{243} E já que a não posso trazer para esta casa que me foi abrigo nas horas tristes da vida, sahirei daqui. Irei viver com minha filha livremente...

—«O que diz, Soror Manoela, deixar-nos!? Quer deixar-nos agora que estamos com os pés para a cova, e é a unica pessôa que aqui temos para nos ajudar a bem morrer, acabando em paz na nossa santa casa?!...

Os soluços sufocaram-na. Tambem ella sofria com a dôr da sua pupila; tambem dos seus olhos, que já deveriam estar esgotados, por tanto terem chorado, cahiram lagrimas que Manoela recolheu no coração angustiado.

Soror Angelica abriu-lhe os braços, e por largo tempo ficaram chorando juntas o desespero dessa primeira desinteligencia em tantos anos de confiada e dôce amizade. Foi a freira que quebrou o silencio:

—«Soror Manoela, mande vir a menina; mas, se lhe merecem alguma consideração as suas velhas companheiras, não a reconheça desde já publicamente. Deixe que a morte feche as portas do nosso convento, e então será completamente livre para fazer a sua vontade.

—«Mas que nome dará á amizade por uma criança que tão empenhadamente mando vir para junto de mim?{244}

—«Não poderá sêr uma afilhada?...

—«Afilhada?!....—Manoela hesitava, pesando-lhe muito aquella fraqueza como uma verdadeira covardia. Mas as velhas companheiras de toda a sua existencia de expulsa mereciam alguma consideração... Cederia.