Reflexões que permanecem: uma compilação
Apresentação
“É detestável essa avareza espiritual que têm os que, sabendo algo,
não procuram a transmissão desses conhecimentos.”
Miguel De Unamuno
Num mundo em que o individualismo, a competição e a ganância vicejam, raros são os intelectuais que dividem seu conhecimento com quem estiver disposto a ouvir. Flávio Gikovate era uma dessas criaturas.
Médico psiquiatra, desde o início da carreira optou pela psicoterapia como
profissão. Em 50 anos de trabalho, atendeu quase dez mil pacientes, fazendo enorme diferença na vida e na psique dessas pessoas.
Gikovate se interessava por todos os assuntos relativos ao ser humano: amor,
sexo, relacionamentos, generosidade, ciúme, felicidade, finitude, vaidade. Usava como fonte os grandes pensadores, mas sobretudo sua prática clínica. Após a publicação de seu primeiro livro, em 1975, dedicou-se com ainda mais afinco aos temas que nos tocam. Foram 35 obras publicadas e mais de um milhão de exemplares vendidos, além de versões para o inglês e o espanhol.
O fato de não se filiar a nenhuma corrente da psicologia custou-lhe alguns
inimigos, mas gerou infinitos admiradores. Gikovate gostava de falar partindo daquilo que acolhia diariamente em seu consultório. Era um trabalhador incansável, um homem sempre disposto a ouvir. Tratava com delicadeza e humildade a todos aqueles com quem convivia, da secretária a grandes empresários, da editora exigente à senhora humilde que lhe pedia um conselho.
Ainda na década de 1980, participou de vários programas de televisão,
dirimindo dúvidas do público. Na mesma época, aceitou um convite que gerou polêmica: em plena era da democracia corintiana, encarou o desafio de comandar o time psicologicamente.
Palestrante de sucesso, falava a diversos públicos: jovens, idosos, gays,
héteros, donas de casa, professores, profissionais liberais. A clareza de seu discurso encantava – tanto que seu programa na rádio CBN, “No divã do Gikovate”, que foi ao ar entre 2007 e 2016, tinha enorme audiência. Uma vez por mês, era gravado ao vivo no Teatro Eva Herz, da Livraria Cultura, e seus seguidores lotavam os 150 lugares disponíveis.
Em 2005, Gikovate deu início, com a MG Editores, a um novo projeto:
escrever obras atuais sobre a condição humana e reeditar os livros que permaneciam pertinentes. Desde então, foram 15 títulos, quase um por ano. O mais recente deles, Para ser feliz no amor, ganhou o coração da crítica e do público.
Em 13 de setembro de 2016, no lançamento desse livro, Gikovate fez mais
uma de suas palestras no auditório abarrotado. Embora estivesse lutando contra um câncer de pâncreas desde abril, não se deixou abater: mostrou o mesmo espírito incansável e curioso. Ao fim da palestra, autografou centenas de livros e confessou que já estava pensando no próximo título, relacionado com a serenidade. Disse que aquele momento de sua vida parecia propício para escrever sobre a arte de encarar adversidades sem perder a esperança. Exatamente um mês depois, ele se foi, deixando a todos aturdidos.
Esta obra, distribuída gratuitamente, é uma homenagem a Flávio Gikovate.
Para seus admiradores, trata-se de um compêndio de suas ideias a respeito dos temas que mais prezava. Para os que ainda não o conhecem, constitui uma boa introdução ao seu pensamento.
Os editores