Reflexões que permanecem: uma compilação

Flávio Gikovate · Capítulo 4 de 12

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Reflexões que permanecem: uma compilação

Egoísmo versus generosidade

 

Na prática, individualismo significa o fim do egoísmo. Com isso todos estariam de acordo, não fosse o fato de que muitos veem no individualismo exatamente a exaltação do egoísmo – o que, a meu ver, é um grave equívoco. Se entendermos egoísmo como necessidade ou gosto de se apropriar do que não é seu, veremos que ele se funda num tipo de elo que facilite esse tipo de abuso de outros. Ora, num mundo povoado por individualistas, os egoístas não terão essa oportunidade porque ninguém estará disposto a lhes conceder vantagens indevidas, e então

cada um terá de encontrar em si os recursos para a autossuficiência.20

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O justo não é generoso nem egoísta, tampouco pretende a transcendência ao se beneficiar do esforço de terceiros; não quer se destacar em virtude de sua competência para a renúncia aos prazeres nem por ter mais bens e poder do que as outras pessoas; o que ele quer é trocar, dar e receber na mesma medida, cuidar

de seus direitos, que são idênticos aos das outras pessoas.21

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Esse tipo de relacionamento [generoso e egoísta] costuma durar o suficiente para desembocar em casamento; compõe-se uma “aliança diabólica” na qual todos perdem. Não é um relacionamento evolutivo, pois não existem grandes avanços

emocionais. O jeito de ser de cada um só se acentua com o passar do tempo.22

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O jogo de interesses e de poder entre esses dois personagens [generoso e egoísta] é bem pesado. [...] não há como não pensar na generosidade como uma arbitrariedade moral tão atroz quanto o egoísmo. Estabelece-se entre eles o que tenho chamado de “trama”, em que reina a maldade, explícita ou disfarçada. A

felicidade sentimental não passa por aí.23

 

20 Para ser feliz no amor, p. 164.

21 A liberdade possível, p. 226.

22 Uma história do amor... Com final feliz, p. 70.

23 Uma história do amor... Com final feliz, p. 82