Reflexões que permanecem: uma compilação

Flávio Gikovate · Capítulo 2 de 12

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Reflexões que permanecem: uma compilação

Amor

 

[O amor] não deve ser pensado como fonte de grandes aventuras e prazeres que se renovam. Quem pensar assim estará sujeito a enormes frustrações, esperando

do amor o que ele não pode dar.1

* * *

Antes de buscarmos encontrar um bom parceiro, devemos estar em condições de

oferecer-lhe o que gostaríamos de receber.2

* * *

A depressão e a dor vivenciadas na separação dos amantes é dor de morte: é saber que estamos morrendo na consciência do outro. Morrendo no outro e matando-o dentro de nós. O tempo de recuperação é longo, e algumas pessoas talvez jamais venham a superar o que vivenciaram. Muitos casais reencontram-se anos – ou décadas – depois da ruptura e não conseguem se olhar com neutralidade. A “mágica” do amor transforma uma pessoa “neutra” em ímpar, única e indispensável. A ruptura deverá produzir a “mágica” inversa, a de trazer a pessoa especial de volta à condição de pessoa comum. O que nem sempre

acontece.3

* * *

O amor corresponde ao que sentimos por aquela pessoa que nos provoca a sensação de paz e aconchego que atenua a dor do desamparo e nos livra dos desconfortos físicos que o acompanham. O primeiro objeto do amor é, pois, nossa mãe. Os outros objetos, aqueles que continuamos a buscar ao longo de

todas as fases da vida adulta, serão substitutos do objeto original.4

* * *

O amor é essencial, assim como a saúde. Ambos são prazeres negativos. O amor nos tira do desconforto que sentimos quando estamos sozinhos. A presença da pessoa amada provoca em nós aconchego e menos desamparo. É, pois, um

fenômeno homeostático.5

* * *

[...] é preciso que as pessoas parem de fazer comparações com o mundo inanimado: o fato de polos magnéticos antagônicos se atraírem nada diz a

respeito da natureza das relações amorosas entre os humanos!6

* * *

A grande síntese que posso fazer, depois de acompanhar milhares de histórias de relacionamentos afetivos, consiste na afirmação de que existe em todos nós um enorme anseio pela fusão romântica e de que também existe em quase todos nós

um ingrediente interno que se opõe a esse desejo. [...]7

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Está claro [...] quanto o amor adulto tem de infantil. Isso vale inclusive para a paixão, tida como a mais emocionante das manifestações afetivas, aqui definida como amor associado a forte medo – o coração bate por causa do medo e não por

amor.8

* * *

É o início de uma nova era, de uma nova etapa da nossa história, na qual o casamento deixou de ser uma necessidade imperiosa para se transformar em uma opção de vida. Está deixando de ser vergonhoso pensar racionalmente sobre a

questão, que antes deveria ter uma solução meramente sentimental.9

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Enganam-se aqueles que acham que a razão não deve interferir nos assuntos do

coração. Ser sentimental não significa renunciar à reflexão; isso é ser tolo.10

* * *

Nos relacionamentos bem estruturados, os planos tornam-se parte da vida de ambos. Isso é verdadeiro mesmo quando cada um se atém a uma parcela diferente do projeto em comum. Conversam muito sobre suas atividades, que são de interesse mútuo em virtude do caráter societário da união. A glória de um é

também a do outro. Fracassos e dificuldades também são compartilhados.11

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[...] os grandes e renovados prazeres relacionados com o fenômeno amoroso são fortemente influenciados por sua instabilidade, pela construção de um elo que nos ata a outra pessoa ou coisa e por sua posterior destruição, à qual se seguirá

uma reconstrução.12

 

1 Uma nova visão do amor, p. 50.

2 Para ser feliz no amor, p. 26.

3 Uma história do amor... Com final feliz, p. 116.

4 Dá pra ser feliz... Apesar do medo, p. 50.

5 Dá pra ser feliz... Apesar do medo, p. 46.

6 Uma nova visão do amor, p. 107.

7 Uma nova visão do amor, p. 71.

8 Uma nova visão do amor, p. 80.

9 Uma nova visão do amor, p. 108.

10 Uma nova visão do amor, p. 158.

11 Uma nova visão do amor, p. 169.

12 Ensaios sobre o amor e a solidão, p. 27.