Relações Sociais e Ética
Doença dos nervos: o ser trabalhador como definidor da identidade psicológica
Doença dos nervos: o ser trabalhador
como definidor da identidade
psicológica 1
Maria da Graça Corrêa Jacques 2
UFRGS/PUCRS
O trabalho tem por objetivo propiciar uma reflexão sobre parte do cotidiano dos ambulatórios psiquiátricos, destacando a compreensão da doença dos nervos como uma queixa subjetiva que remete à identidade definitória do humano. O texto contempla uma análise a partir de três dimensões: associação trabalho/sofrimento presente na representação coletiva: os sintomas descritos por um trabalhador e a análise teórica com base na Psicanálise a partir dos trabalhos de Jurandir Freire Costa. A justaposição dessas três dimensões permite melhor articular e compreender o cotidiano dos ambulatórios que prestam serviços à classe trabalhadora.
A memória do trabalho é o sentido, é a justificação de toda uma
biografia. Quando o sr. Amadeo fecha a história de sua vida,
qual o conselho que dá? De tolerância para com os velhos,
tolerância mesmo com aqueles que se transviaram na
juventude: "Eles também trabalharam".3
A escolha deste trecho para introduzir estas reflexões tem o objetivo de assinalar o valor conferido à capacidade de trabalho e ao ser trabalhador como elementos definitórios de grande significação na construção da identidade psicológica e na configuração do psicopatológico.
A questão da identidade reporta a pergunta Quem és? O cotidiano da resposta não traz certezas sobre seu conteúdo. Ao contrário. O emprego popular do termo é tão variado e o contexto conceptual tão amplo que, ao contrário de certezas, aponta para imprecisões.
O mesmo em relação ao trabalho, vocábulo controvertido desde sua origem etimológica. Remete a diferentes representações que expressam uma dificuldade em defini-lo tanto pelo senso comum como pela bibliografia especializada.
Portanto, estas reflexões não se reportam a elaborações teóricas sobre identidade (especialmente no campo filosófico) ou sobre trabalho. Focam a associação entre sofrimento psíquico e exercício laboral a partir de um recorte teórico com base na Psicanálise. Importante assinalar os limites das teorias na compreensão dos fenômenos. Teorias que, se em parte ajudam a entender o real enquanto objeto da ciência, não dão conta do real como um todo, ou ainda, não dão conta de todos os componentes deste real. Essas considerações são necessárias para justificar os limites deste texto e relativizar qualquer tentativa de compreendê-lo como exaurindo a temática.
Procuram se reportar ao cotidiano dos ambulatórios psiquiátricos onde há um convívio diário com pacientes que se autodenominam doente dos nervos. Esta denominação, em geral, desconcerta os profissionais que laboram nestas instituições pois não se referem às classificações nosográficas tradicionais difundidas nos cursos de Medicina e Psicologia. Estes cursos privilegiam as teorias clássicas que subestimam as relações de trabalho na gênese do sofrimento psíquico.
Assim, por exemplo, não chama a atenção que se tenha produzido tão pouco no campo da Psicologia sobre trabalho. Codo (1985) encontrou apenas 10 páginas a respeito em um manual de 5 volumes que percorre todas as áreas da Psicologia. Dejours (1988) ao comentar o subdesenvolvimento da Psicopatologia do Trabalho o atribuiu ao superdesenvolvimento das disciplinas tradicionais que ocultam aquilo que não pode ser articulado dentro de suas propostas. Erikson (1972) refere à prática comum entre os profissionais do campo psíquico de alterar as ocupações dos sujeitos para evitar a identificação sem considerar essenciais os dados característicos dessas ocupações.
Se as teorias clássicas ignoram a relação entre o cotidiano de trabalho e o sofrimento psíquico, a representação coletiva expressa esta relação, inclusive através da produção artística:
Vai trabalhar, vagabundo/ Vai trabalhar, criatura?
Deus permite a todo o mundo/ uma loucura/
(...)
Pode esquecer a mulata/ Pode esquecer o bilhar/
Pode apertar a gravata/ Vai te enforcar!
Vai te entregar/ Vai te estragar/Vai trabalhar/
(...)
Vai terminar moribundo/ Com um pouco de paciência/
No fim da fila/ do Fundo da Previdência/
Parte tranquilo ó irmão/Descansa na paz de Deus/
Deixaste casa e pensão/ só para os teus/
(...)
Vai te entregar/ Vai te estragar/ Vai te enforcar/
Vai caducar/ Vai trabalhar/ Vai trabalhar...4
Os versos do poeta são uma entre as muitas expressões artísticas sobre a importância do tema trabalho no mundo contemporâneo. Embora cada artista interprete a seu modo, todos revelam, através de suas obras, uma representação coletiva que, ao mesmo tempo, aponta o valor positivo conferido ao trabalho e denuncia o sofrimento que lhe é associado. Sofrimento aceito e referendado a partir da consigna bíblica que imputa ao trabalho o castigo pela desobediência à ordem divina, mas que, também, confere ao humano sua distinção em relação à natureza e sua especificidade e centralidade no mundo natural.
Esta representação coletiva que se inscreve numa trama de significados elaborados socialmente emerge, também, através dos discursos em forma de queixas que cada trabalhador apresenta ao procurar os ambulatórios psiquiátricos. Representação que ao penetrar no psiquismo se articula com outros objetos presentes, acrescentando e sendo acrescentada de propriedades, transformando e sendo transformada (Lane, 1989, Moscovic, 1978).
O imbricamento entre o individual e o social, que a representação remete, se expressa no relato espontâneo de cada trabalhador que procura os ambulatórios psiquiátricos com queixa de sofrimento psíquico. Esta experiência cotidiana pode ser compreendida a partir de uma perspectiva teórica. É objetivo deste texto justapor estas
duas dimensões e, após, tecer algumas considerações a respeito. 5
Eu sou um homem trabalhador... Porque eu sou trabalhador!
Não é querer se gabar, mas não tem serviço que não vá! (...)
Agora eu estou muito arrebentado, já, né. Estou com 48 anos,
parece 50 e tantos. De tanto se judiar. (...) A nossa turma é uma
turma parelha, uns homens tudo trabalhador e tudo homem
bom. (Depoimento oral)
Para muitos desses homens ser bom trabalhador significa ser
bom pai, bom marido, bom filho, bom amigo, bom vizinho,
enfim, um bom homem pleno e realizado.
(...) É vadiação. Pessoa vadia que não quer trabalhar.(...) Que a
pessoa que não quer trabalhar, eu acho que é preguiçoso. Ou é
doente, uma coisa ela tem no corpo(...).
Nosso intuito é mostrar que o imenso relevo dado a sexualidade
diminui de importância quando deixamos o espaço cultural das
elites e entramos no universo da classe trabalhadora
masculina(...) Ao lado da heterossexualidade, o componente
capacidade de trabalho ou ser trabalhador também é um
elemento definitório de grande significação (p.27).
Boto 3500, 4000 peças que é para botar. Todo o dia, nas 8:45!
Acendo um cigarro atrás do outro. Pau e pau! Então a produção
sai todo o dia, né. O que pedem. A quantidade. Eu não me
preocupo (...) Se não tem inteligência, não tem noção. Eu sou
muito inteligente para máquina (...) Eu no serviço não prego
para trás não. Qualquer tipo de serviço.
A identidade psicológica diferencia-se dos demais sistemas
identificatórios por se apresentar ao sujeito como aquilo que
não é apenas o atributo do meu eu ou de algum eu. Em outras
palavras, é o sistema de representações que se mostra a
consciência do sujeito como um predicado universal e genérico
definidor por excelência do humano (p.22).
Quer dizer, tu só sai dali de cima da máquina que vai te
esquentando a cabeça. Não é fácil! (...) Agora, querer
esquentar a cabeça em cima de máquina, não.(...) Claro, tu
ficas nervoso.Aí já não dá certo. Aí tu já te ataca dos nervos. Aí,
começa a quebrar ferramenta, saltar peça (...). Aí vai, teus
olhos vão dispairando, aí tu sai dos nervos. Eu sou um que sou
nervoso. Como aparece não sei. Às vezes é de graça, assim de
varde. É de varde assim. É só não dar certo o serviço que te
ataca os nervos. É só gritar comigo. (...) Cachorro brabo se tu
conversar com ele se entende. Então, porque nós, que somos
pessoas adultas, batizadas. Se não fosse batizada tá bem. Nós
somos batizados. Chegar gritando...
Em contrapartida, sempre que pedíamos que procurassem falar
um pouco de suas vidas, o que emergia espontaneamente ao
relato era a trajetória profissional ou os percalços da vida
laborativa. A doença dos nervos estava sempre relacionada ao
trabalho (...) (p. 26).
(...) Eu tomei aquele veneno no quartel que eles deram. Eu
servi em 61. Deram água para tomar lá, eu fiquei bem louco dos
nervos. Eu estava servindo no tempo da Legalidade, não sei se
tu te lembras? Eles deram dois vidros de água assim para
tomar. Eu peguei para jogar fora. Não, tem que tomar na frente
do doutor e do coronel. Dois vidros. Para dar coragem. Aí
começa a tremer as carnes. Embola tudo, as veias aqui assim...
É só atacar os nervos. Aí tem que fazer massagem nos braços,
molhar as mãos para desenrolar as veias. A coisa mais ruim
(...). Não adianta, não descobrem o veneno para abater aquilo.
Habituados a pensar a neurose como um desequilíbrio cuja
psicogênese está nos conflitos familiares, afetivos ou sexuais,
originados num certo tipo de infância, o terapeuta pode se
desesperar quando se defronta com razões do tipo pancada na
cabeça; desgosto pelo filho ingrato e marginal; desgosto com a
filha que se perdeu; menstruação que não veio na hora, etc. (...)
A doença dos nervos reflete a consciência da doença que não
reproduz a ideia de causalidade hegemônica no imaginário
psicoterápico (p.21).
(...) Vou me aposentar, se Deus quiser! Um ano e pouco.
Insalubridade. A vida da gente é brava. A gente tremula
bastante para viver.
A vida operária não é nem mais nem menos verdadeiramente
próxima do inconsciente que a vida das elites e vice-versa.
(p.29).
A justaposição dos dois depoimentos permite tecer algumas considerações.
O discurso de João da Silva informa sobre uma realidade objetiva, mas enquanto experiência vivida informa, também, sobre o mundo mental; é um discurso individual enquanto específico e pessoal e é um discurso coletivo revelador de representações similares e complementares presentes de diferentes formas entre os indivíduos.
Refere-se a uma representação de trabalho que outorga sua exaltação máxima e seu caráter enquanto obrigação moral. Representação que associa trabalho/doença a tal ponto que a falta de trabalho torna-se em si sinônimo da doença. Estas mesmas representações estão presentes no poema de Chico Buarque.
Quando refere aos sintomas apresentados que agrupa e classifica como doença dos nervos, João aponta para as situações do cotidiano laboral (sempre que há risco de não cumprir a produtividade esperada). No entanto, busca desvinculá-los deste cotidiano justificando seu aparecimento ao acaso e buscando atribuição causal em outras circunstâncias — referidas por Jurandir Freire Costa (1989) como ausentes do imaginário psicoterápico. Mas, se ausentes na produção teórica, estão presentes na representação coletiva sobre doença e são apropriadas como explicações plausíveis e próprias de uma lógica diferenciada da racionalidade própria do conhecimento científico.
No caso específico de João da Silva, a justificativa causal é buscada em outro espaço, o quartel; espaço, por excelência, de valorização dos atributos masculinos embutidos na representação de ser trabalhador: ser inteligente para trabalhar com máquinas, ser homem bom, não ser vadio. Assim, a identidade do ser trabalhador se constitui associada a atributos de valorização presentes na representação coletiva do que é trabalho, conferindo dignidade ao seu portador. Dignidade ameaçada sempre que situações concretas bloqueiam sua expressão. Então a doença, os sintomas.
Doença que justifica o não trabalho uma vez que a representação coletiva contempla a associação doença/trabalho como na canção anteriormente referida ("Vai te estragar/ Vai te entregar/ Vai trabalhar") e como no depoimento de João da Silva ("Agora eu estou meio arrebentado (...) a gente tremula para viver"). Assim, esta representação justifica manter incólume a identidade do ser trabalhador.
Ainda, os estudos têm mostrado que os conflitos próprios da vida cotidiana associados ao trabalho, são vivenciados como conflitos internos pelos trabalhadores, como bem ilustra o depoimento do João. Portanto, justifica-se a busca de outras atribuições causais que eximem este cotidiano como causa do adoecimento. Justificativas que se inscrevem na perspectiva individualista e na ideologia do sucesso e do fracasso que lhe é associada a partir da qual os indivíduos são os responsáveis por suas ações e pela sua sorte, o que ilustra a imbricação da representação no ideário do capitalismo. Ideário presente no discurso oficial e no discurso do senso comum que atribuem os acidentes e doenças ocupacionais ou a uma questão de educação dos trabalhadores, qualificados como inseguros, indisciplinados e desleixados, ou a uma causa interna de caráter individual e geralmente de cunho orgânico.
Cunho orgânico que se expressa através das queixas presentes na doença dos nervos referendadas a um corpóreo: "veias que se embolam, olhos que vão despairando".
O objetivo deste texto foi o de propiciar uma reflexão a respeito do cotidiano dos ambulatórios psiquiátricos, destacando a necessária compreensão da doença dos nervos como uma queixa subjetiva que remete a uma essência de eu — enquanto ser trabalhador que se inscreve na representação coletiva de trabalho/sofrimento a partir da consigna bíblica e que inscreve o sujeito no mundo humano o diferenciando dos demais seres da natureza. Conforme Engels (s.d., p.269):
O trabalho (...) é a condição básica e fundamental de toda a
vida humana. E, em tal grau que, até certo ponto podemos
afirmar que o trabalho criou o próprio homem.
Tanto é que são comuns referências a um tratamento desumano nos ambientes laborais associadas ao surgimento de sintomas psicológicos. João se refere a sua distinção em relação aos animais enquanto "pessoa adulta e batizada" e comenta que o tratamento "animal" que lhe é dispensado o "ataca dos nervos".
Para encerrar. O poeta diz: "Vai trabalhar vagabundo!" (embora tu te entregues, te estragues te enforques); o trabalhador diz: "a nossa turma é uma turma parelha, uns homens tudo trabalhador e tudo homem bom" (quem não trabalha ou é "vadio ou é doente"); o pesquisador diz que "ao lado da heterossexualidade o componente capacidade de trabalho ou ser trabalhador aparece como elemento de grande significação" (predicado universal e genérico definidor do humano).
Importante e necessário, portanto, incluir toda uma reflexão junto àqueles que trabalham nos ambulatórios psiquiátricos sobre a doença e o sofrimento psicológico, desvinculando-os de fatores genéticos ou falhas de personalidade em função de uma vida familiar pregressa como fatores exclusivos, e, contemplando o cotidiano do trabalho cuja organização e condições degradantes propiciam sofrimento a todos que cumprem a norma identificatória do ser trabalhador.
Como diz João da Silva: "a gente tremula muito para viver".
Referências bibliográficas
CODO, Wanderley. Saúde mental e trabalho: uma urgência prática. Psicologia, Ciência e Profissão, Brasília: CFP, n.2, 1988.
COSTA, Jurandir Freire. Psicanálise e contexto cultural. Rio de Janeiro: Campus, 1989.
DEJOURS, Christophe. A loucura do trabalho. 3ª ed., São Paulo: Cortez:Oboré, 1988.
ERIKSON, Erik Identidade; juventude e crise. Rio de Janeiro: Zahar, 1972.
ENGELS, Friedrich. Sobre o papel do trabalho na transformação do macaco em homem. In: MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. Obras escolhidas. São Paulo: Ômega, s.d., n. 2, p.267-282. LANE, Silvia. O que é psicologia social. 15ª ed., São Paulo: Brasiliense, 1989.
MOSCOVICI, Serger. A representação social da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.
1 Trabalho premiado com Menção Honrosa no Concurso "Histórias de Trabalho", promovido pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre.
2 Psicóloga, professora da UFRGS e PUCRS.
3 Parágrafo final da obra de Ecléia Bosi "Lembranças de Velhos".
4 Fragmentos da música de Chico Buarque "Vai trabalhar vagabundo".
5 São aqui transcritos fragmentos do depoimento de um trabalhador nomeado João da Silva, colhidos pela psicóloga Carmen Grisci, Na transcrição procura-se manter em parte a linguagem oral com o objetivo de mais fielmente expressar a vivência relatada. O texto teórico se refere a obra de Jurandir Freire COSTA, Psicanálise e contexto cultural.