Relações Sociais e Ética

Maria da Graça Correa Jacques · Capítulo 13 de 22

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Relações Sociais e Ética

IURD: religião, poder e dominação

 

Fátima O. de Oliveira

PUCRS

Graziela C. Werba

PUCRS

 

Introdução

O tema deste estudo liga-se ao projeto de pesquisa "A palavra como dominação: o uso da comunicação — verbal e eletrônica — nas práticas de diversos grupos religiosos", do professor Pedrinho Guareschi, do qual somos bolsistas de iniciação científica.

A principal motivação em realizar este trabalho relaciona-se ao conceito "território de fantasia", que será discutido e analisado sob dois enfoques — psicossocial e psicanalítico. A interação entre estes dois campos não só mostrou-se possível, como necessária, para se começar a entender este fenômeno social que é o movimento religioso neopentecostal no Brasil, em particular, a IURD (Igreja Universal do Reino de Deus).

Entendemos que este estudo assume especial relevância num momento histórico em que vemos uma sociedade confusa, com paradigmas sociais, políticos, econômicos e religiosos contraditórios. É neste contexto histórico da pós-modernidade que iremos encontrar um crescimento da tensão social e um ambiente propício ao incremento de necessidades humanas diferentes e talvez por isso, um aumento do surgimento de instituições religiosas e místicas que tentam oferecer uma resposta a este espaço místico, a esta dimensão transcendental do ser humano.

Este estudo se compõe de três capítulos: I) Elementos históricos e metodológicos; II) Discussão de alguns elementos teóricos e III) Análise interpretativa dos dados.

 

I. Elementos históricos e metodológicos

É investigada a comunicação dos pastores da IURD nas igrejas e nos programas de TV por ela veiculados no canal 10, TV Bandeirantes, RS, Brasil. Privilegiamos, no estudo, a dimensão ideológica. Entendemos a ideologia como o uso de formas simbólicas para criar e manter relações de dominação (Thompson, 1990).

O trabalho a princípio, iria basear-se em entrevistas e aplicação de questionário tanto para os pastores quanto para os fiéis da IURD. No entanto, não foi possível concretizar tal plano, uma vez que ao chegarmos ao local das entrevistas, o pastor da IURD desprezou a carta de apresentação da Universidade, negou-se a responder e não permitiu que tivéssemos acesso aos fiéis dentro da igreja.

Diante desta dificuldade, usamos uma metodologia de estudo exploratório e observações participativas, seguindo uma abordagem qualitativa. A quantidade de observações que conseguimos, fruto do trabalho de mais de um ano, ajudou a esclarecer as seguintes questões norteadoras que formulamos, sem com isto esgotar este instigante estudo:

— Quais os mecanismos de comunicação usados para captar e

manter adeptos e se entre estes mecanismos é utilizado algum

tipo de persuasão no sentido de criar ou reproduzir a

dominação?

— De que forma a igreja penetra no "território de fantasia" do

ser humano e que uso é feito dele?

— O que a igreja entende por beneficio? Esta realidade

coincide com o que os fiéis esperam da instituição?

— Como é utilizado o processo de identificação, entendido

dentro do referencial psicanalítico?

— Qual a imagem que a igreja transmite de Deus? Esta

imagem é cerceadora ou incentivadora das qualidades criativas

e libertadoras do ser humano? Esta imagem é trabalhada em

um nível concreto e/ou simbólico?

Foram realizadas três observações participativas e entrevistas de caráter informal.

Foi feito também um acompanhamento diário do programa eletrônico — "O Despertar da Fé", da IURD, que foi registrado em fitas de vídeo cassete. A observação diária do referido programa, ocorreu do período de maio de 1992 até novembro de 1993.

O programa, de forma geral, se compunha de três partes, sendo desenvolvido por três comunicadores que se autodenominavam pastores. Antes da primeira parte, e depois da última, entrava uma vinheta com o logotipo do programa "O Despertar da Fé" com fundo musical específico.

A partir de setembro de 1992, houve uma mudança, na estrutura do programa. Foram introduzidas imagens dos cultos ao vivo. Eram flashes com depoimentos de fiéis, na própria igreja. Surgia um novo pastor que lia e respondia as cartas enviadas ao programa. Elas eram lidas, respondidas e o remetente convidado a ir até a igreja. Outro elemento novo introduzido foi o pedido do dízimo, que a partir destes programas passou a ser solicitado através de textos da Bíblia.

A primeira parte iniciava com um dos pastores dando o "bom dia" e falando sobre os sofrimentos humanos. Era escolhido um tema como por exemplo: problemas conjugais, doença, falta de dinheiro. O pastor iniciava então um "bombardeio verbal" e terminava apontando a IURD como a solução infalível para aquele determinado problema. A fala era rápida e sem pausa.

Na segunda parte do programa outro pastor era convidado pelo primeiro a entrevistar uma terceira pessoa que estava ali para dar o seu "testemunho da fé". Enquanto um pastor ia induzindo a pessoa a falar, ou melhor, a contar seus problemas revelando os mais' íntimos detalhes, o outro fazia intervenções.

Frases como "agora tenho Jesus no coração"; "agora sou feliz"; "tudo em minha vida mudou"; e o chavão "graças a Deus" eram ditas massivamente durante os 30 minutos do programa. Esta parte terminava com o pastor analisando a experiência do entrevistado, reforçando como a igreja fora a solução do problema e como a pessoa estava agora feliz.

A terceira parte do programa iniciava com um dos pastores segurando um copo de água e ao fundo imagens superpostas sucessivamente. Eram imagens de elementos da natureza em close. O pastor erguia o copo, fechava os olhos e começava uma oração. Este ritual devia ser repetido pelo telespectador e a água devia ser tomada ao final da oração. O pastor dizia: "beba desta água sagrada e diga graças a Deus", a água era milagrosa, segundo ele. Depois de tomar alguns goles da água, o pastor se despedia, convidando o telespectador a ir à igreja e a assistir ao próximo programa.

As pessoas chamadas a testemunhar nos programas, eram geralmente praticantes de outras religiões, que não a católica, que se tinham convertido à IURD. Em geral eram pessoas cujo histórico continha experiências com familiares próximos alcoolistas, com maus tratos, drogas, prostituição, dificuldades no relacionamento familiar, social, problemas econômicos e de saúde.

Em relação aos problemas de saúde, havia relatos de cura de câncer, epilepsia, depressão, drogas, infertilidade e até AIDS.

Quanto à comunicação não verbal, além das imagens, slides com elementos da natureza, é importante frisar que os pastores eram todos jovens, aparentando idade entre 30 e 40 anos, bem vestidos, estilo jovem executivo. As pessoas entrevistadas no programa, geralmente não fugiam a esta regra. Durante todo o programa piscava no vídeo o endereço e telefone das igrejas em Porto Alegre, Novo Hamburgo, Canoas, Sapiranga e S. Leopoldo. As vinhetas eram muito bem elaboradas e o logotipo frequentemente apresentado.

A comunicação verbal era explorada em vários aspectos: o ritmo das palavras dos pastores muito intenso, sem quase se perceber as pausas; as mensagens repetitivas e reiteradas; a linguagem simples e identificada com o público alvo — classe popular; a entonação de voz era de pregação.

Discutiremos a seguir no capítulo II, alguns conceitos teóricos que nos auxiliarão na análise interpretativa dos dados, que faremos no capítulo III.

 

II. Discussão de alguns elementos teóricos

Para melhor compreensão e interpretação dos dados, discutimos aqui alguns conceitos teóricos que se mostraram úteis e até necessários para esse empreendimento.

1. A Psicanálise e os grupos

Freud, (1959) em A Psicologia das Massas e Análise do Ego classifica a Igreja e o Exército como massa artificial. As massas artificiais são as que necessitam de coesão exterior. São duradouras e altamente organizadas. A coesão externa tem como objetivo preservar e evitar modificações na sua estrutura.

Para Freud, tanto a Igreja quanto o Exército têm em comum a ilusão da presença visível ou não de um chefe que ama a todos os membros do coletivo com o mesmo amor. Esta ilusão, seria a principal fonte de manutenção da massa, e não apenas a sugestão, como pensava Le Bon e outros autores anteriores a Freud. De acordo com Freud, o indivíduo dentro da massa, encontra-se unido duplamente por laços libidinosos: por amor ao chefe e por amor aos membros da coletividade.

Em A Massa e a Horda Primitiva (1959), Freud parte da hipótese de Darwin, da horda sob o domínio de um poderoso macho e tenta demonstrar que aquela organização primitiva deixou traços na história da humanidade. Seria desta horda com seu líder absolutista que iriam evoluir a religião e a moral, como as conhecemos hoje. Os indivíduos estariam ligados por laços libidinosos da mesma forma que hoje, mas o chefe estaria ligado sobretudo a si mesmo, de uma forma narcisista, amando aos outros apenas enquanto estes serviam para satisfação de suas necessidades. Enquanto os indivíduos da coletividade acreditam que o chefe ama igualmente a todos, o chefe, por sua, vez não precisa amar a ninguém e mantém-se narcisista. O narcisismo limita o amor e torna-se, então, um importante fator de civilização.

Baseado nestas ideias sobre a horda primitiva, Freud demonstra como ocorrem os fenômenos da hipnose e sugestão. A hipnose traria à tona um elemento reprimido, antigo e familiar, despojando o sujeito de sua vontade. Trata-se de uma força misteriosa que os primitivos acreditavam emanar dos chefes e representava um tabu. Para estes primitivos, o hipnotizador era um chefe dotado do poder de dominar através do olhar, da mesma forma que, o crente vê, mais tarde, a Deus.

Segundo esse autor, a hipnose pode ser provocada também por outros meios, inclusive pelo som. Na verdade, são processos que têm como objetivo, desviar e fixar a atenção consciente em alguém, no caso, o hipnotizador, com quem o hipnotizado entra em estado de transferência. A transferência, então, pode estabelecer-se de acordo com a "imagem do pai", como disse Jung (1984), ou com a imagem da mãe ou irmão, através de representações libidinais conscientes e inconscientes. Para Freud (1959), a transferência é um fenômeno que pode ocorrer tanto na psicanálise como fora dela, podendo, no último caso chegar até a submissão mais absoluta, demonstrando que este processo ocorre não por causa da psicanálise e sim em função da própria neurose.

Segundo Zimerman (1992), em qualquer grupo, seja terapêutico ou não, ocorrem manifestações transferênciais. Nas grupoterapias, o autor identifica quatro níveis desta manifestação; 1) transferência parental, de cada indivíduo para a figura do grupo terapeuta; 2) transferência grupal, do grupo como um todo em relação a figura central; 3) transferência fraternal, de cada individuo em relação a outro indivíduo; 4) transferência de pertença, de cada indivíduo em relação ao grupo como entidade abstrata. Os quatro níveis de transferência podem se processar simultaneamente, embora em alguns momentos um possa prevalecer com maior nitidez.

Ferenczi (in Freud, 1959), conclui que o hipnotizador ao ordenar que o hipnotizado durma, coloca-se no lugar dos pais deste. Outra ideia é que existem duas classes de hipnose; uma "acariciante, apaziguadora" que seria a maternal e outra "ameaçadora" que seria a hipnose paternal. Para Ferenczi, a ordem de dormir significa um convite para que o hipnotizado dirija seu interesse exclusivamente ao hipnotizador, desviando a atenção do mundo externo da mesma forma que ocorre com o sono, quando a pessoa desliga-se do mundo exterior. Desta maneira o hipnotizador desperta algo da herança arcaica do hipnotizado "relembrando-o" do pai onipotente para quem só poderia colocar-se em atitude passiva/masoquista.

Outro conceito importante para a compreensão do estudo em

questão, é o de catarse. 1 Freud, em Estudos sobre a Histeria, desenvolveu a teoria de que "os afetos que não conseguiram encontrar o caminho para a descarga ficam presos, exercendo então efeitos patogênicos"(Freud in Laplanche, 1992: 60-62). No princípio, o método catártico estava ligado à hipnose, reservando a catarse para uma classe de menor importância dentro da psicanálise. Porém, a catarse permanece um conceito significativo dentro da psicoterapia analítica, sendo utilizada inclusive por outras técnicas, como o psicodrama, na liberação dos conflitos interiores por meio da representação dramática.

2. A psicossociologia dos grupos

Em "Sociologia da Comunicação", Gabriel Cohn (1973) define o termo "massa" como "uma coletividade de grande extensão, heterogênea, quanto à origem social e geográfica dos seus membros e desestruturada socialmente" (Cohn, 1973 p 17).

Segundo ele, o fenômeno social "massa" passa a ser objeto de estudo no pensamento político conservador do sec. IX e como reação à Revolução Francesa, tendo assumido portanto uma conotação reacionária contrária ao conceito de massa utilizado por Marx: ao analisar o golpe de Luís Bonaparte. (1973: 19)

Em 1895, Gustave Le Bon, em sua obra "Psicologia das Massas" diz que

o mais singular dos fenômenos apresentados por uma massa

psicológica é o seguinte: quaisquer que sejam os indivíduos

que a compõem e por diversos ou semelhantes que possam ser

seus gêneros de vida, suas ocupações, seu caráter ou sua

inteligência, o fato exclusivo de se acharem transformados

numa multidão torna-os possuidores de uma espécie de alma

coletiva. Esta alma fá-los sentir, pensar e agir de uma maneira

inteiramente diferente de como sentiria cada um deles

isoladamente. (Le Bon in Freud, 1959: 8).

A análise de Le Bon apresenta a massa desprovida de racionalidade, dotada de impulsividade e atitudes regressivas. Le Bon utiliza os termos massa e multidão alternadamente não diferenciando especificamente nenhum agrupamento humano. A classificação de Le Bon refere-se a multidões heterogêneas e homogêneas. As heterogêneas podem ser anônimas (como agrupamentos de rua). Homogêneas, não anônimas, como júris, assembleias, seitas (políticas e religiosas), castas (militares e religiosas), trabalhadores e classes sociais.

Cohn faz uma distinção entre Freud e Le Bon no que se refere ao entendimento da massa. Le Bon apresenta a massa ou multidão propensa à explosão de impulsos associais contrariamente a Freud, que entende a massa como uma forma básica de constituição de vínculos sociais, o que em última análise, sustenta o aparecimento da cultura. Cohn diz ainda que a noção de cultura de Freud, construída sobre a coerção e renúncia dos impulsos individuais, antissociais e anticulturais, denota um matiz conservador cujo tema subjacente é a dominação.

3. O processo de identificação nos grupos

Para Freud, identificação seria um gênero de ligação afetiva que nos permite compreender o processo de fixação a um determinado objeto, mecanismo pelo qual os indivíduos se ligam a um chefe e entre si.

De acordo com Guareschi (1992:178)

(...) pode-se dizer que há na subjetividade de uma pessoa duas

dimensões. A dimensão individual, que se pode chamar de

egoideologia; e a dimensão social, que se poderia chamar de

alteroideologia. Assim a interpelação do sujeito se daria em

duas direções: interpelação com respeito à posição do sujeito

como tal, ao papel que ele desempenha: identidade,

consciência de si, ego-ideologia; e interpelação do sujeito com

respeito aos outros da posição: consciência social de classe,

altero ideologia.

A segunda dimensão refere-se a forma de perceber e relacionar-se com os outros, com outras identidades. E assim que se dão as relações de poder e dominação. Guareschi cita Freire: "os oprimidos introjetam a imagem do opressor" (Guareschi, 1992: 179), bem como seus valores, crenças e visão do mundo, inclusive sua identidade quanto ao modo de produção capitalista.

Segundo Oro (1992), uma prática usual na IURD é a identificação das pessoas que já foram de alguma forma agraciadas pela religião. É comum durante os cultos os pastores solicitarem que levantem a mão aqueles que já alcançaram alguma graça, e a maioria das pessoas se manifesta.

Segundo Zimerman (1992:88), a igreja foi utilizada por Freud como um modelo de liderança que se processa através do fenômeno introjetivo; de acordo com o autor, a palavra religião se forma a partir de "re" e "ligare", ou seja, como uma nova tentativa de ficar ligado, fundido com Deus, o que por sua vez, é uma fusão simbólica da mãe primitiva e do pai todo poderoso.

O líder carismático de uma massa primitiva corresponde a uma fase evolutiva muito regressiva, de natureza narcisista-simbiótica, em que ainda não se processou a diferenciação entre o eu e outro.

Bion, através de estudos, provou que qualquer grupo tem uma necessidade implícita de que haja uma liderança. Ele fundamentou a postulação de que o líder é um emergente do grupo, diferente de Freud, que considerava o grupo como um emergente do líder.

Diz Zimerman, que num sistema familiar, institucional ou social os grupos podem se comportar como uma estrutura onde ocorre uma distribuição de papéis e posições que se complementam. "Podemos dizer que em cada papel se condensam as expectativas, necessidades e crenças irracionais de cada um e que compõem a fantasia básica inconsciente comum ao grupo todo" (Zimerman, 1992:86).

Elliot Jaques, (1969) levanta a hipótese de que um dos elementos coesivos primários que reúnem pessoas em associações institucionalizadas, é o da defesa contra a ansiedade psicótica. Ocorre que os indivíduos projetam para o exterior os impulsos e objetos internos que de outra forma se transformariam em ansiedade psicótica e os associam à vida das instituições às quais se agregaram (Jaques in Melanie Klein et alii, 1969). Por isto é comum encontrar-se nas relações grupais manifestações e comportamentos desadaptados, da mesma forma que nos indivíduos se observam sintomas psicóticos. Desta maneira, os indivíduos usam as instituições e inconscientemente reforçam suas defesas contra a ansiedade e culpa; entre estes mecanismos destaca-se a dissociação, que permite ao indivíduo separar os bons objetos dos maus objetos em diferentes espaços.

4. A persuasão como técnica de dominação através da comunicação

Vivemos na era da persuasão. Os progressos da técnica tem favorecido esta forma de ação do homem sobre o homem. Bousquié (1961) diz que, há muito se tem estudado as formas de persuasão para satisfazer as exigências da arte da oratória, tão comumente usada por vendedores, advogados, políticos e religiosos. A persuasão pode ser uma arma formidável se bem empregada, além da conversação, conta ainda com a imprensa, rádio, TV que auxiliam na persuasão das massas. Para este autor, a informação é um domínio estéril se não for acompanhada da persuasão. Pode-se dizer que persuadir é o triunfo da palavra. A persuasão não utiliza somente a linguagem falada, mas esta é sua forma mais eficaz.

A persuasão não deve ser um meio de exercer pressão para enganar o indivíduo, embora às vezes seja mal empregada.

Porém, como dizia um antigo filósofo: Quando uma coisa pode

igualmente prejudicar e favorecer não deve-se considerá-la má,

e sim que sua bondade eu maldade depende do uso que dela

se faça (1961: 7).

Ainda conforme esse autor, deve-se distinguir a diferença entre convencer e persuadir. A convicção age sobre o entendimento; a persuasão sobre a vontade.

Ao tratar de comunicação, é necessário considerar três elementos:o emissor, a mensagem emitida e o receptor da mesma. Quanto ao emissor, deve-se considerar suas qualidades físicas, seus dons, seu carisma e seus gestos no momento da ação persuasiva, pois isto é fundamental para seduzir o receptor. Uma boa tática é o emissor falar de si mesmo e do próprio grupo que lhe escuta, assim surge o interesse, identificação e amor próprio, proporcionando um movimento voluntário de reflexão acerca do que se trata. O persuasor induz os demais a saírem do seu mundo fechado individual, para solidarizar-se com ele. Esta harmonia conseguida prepara uma imitação ativa.

Bousquié entende que a persuasão, como esforço de criação de um campo de influência, supõe três condições: 1) o conhecimento do espírito humano; 2) o que faz mover o homem (sentimento ou razão); 3) o conhecimento das diferentes formas de falar aos diferentes grupos. O pensamento deve ser exposto de maneira simples e acessível e se necessário recorrer a imagens ou gestos. Na prática da persuasão, alguns elementos físicos também devem ser considerados, por exemplo, a voz, os gestos e a aparência do persuasor. Quanto aos gestos, pode-se garantir que são tão importantes quanto a voz; estes por sua vez devem estar de acordo com as palavras.

Bousquié finaliza dizendo que a TV é um excelente meio para se persuadir. O telespectador geralmente se encontra comodamente sentado e passivo, e a cadência das imagens levam-no a um estado de relaxamento. Neste momento o telespectador, isto é, o receptor se concentra num espetáculo audiovisual e se deixa guiar. Quanto à mensagem, discutir-se-á mais adiante.

5. Ideologia e religião

Para Guareschi (1989), toda sociedade necessita garantir sua sobrevivência, permanência e reprodução. A produção garante a sobrevivência e os diversos aparelhos, ou instituições, são mecanismos que garantem a permanência e reprodução dessa sociedade. Os aparelhos de reprodução podem ser classificados em repressivos e ideológicos. Os aparelhos ideológicos são aqueles que na sua função de reprodução das relações numa sociedade, fazem uso da persuasão e da ideologia. Entre estes, pode-se citar: a escola, a família, as igrejas, os meios de comunicação e outros.

É importante, para compreender melhor o estudo a ser realizado, distinguir com precisão, poder e dominação (Guareschi, 1992: 56-59; 125129). Pode se definir poder como sendo a capacidade de uma pessoa, ou de um grupo, para executar qualquer ação ou exercer qualquer prática. Nesse sentido todos têm algum poder, à medida em que podem fazer alguma coisa. Já a dominação é definida como sendo uma relação entre pessoas ou grupos, onde alguém expropria, rouba, se apodera de algum poder de outro; ou, por extensão, onde alguém, a pretexto de o outro possuir determinadas qualidades ou características (como o fato de ser mulher, ser de outra raça, de outra etnia, etc.), se apropria de seus poderes (capacidades) e passa a tratá-lo de maneira desigual. Na dominação, portanto, existe sempre uma relação assimétrica e desigual.

Para se compreender como surge a dominação, é útil discutir um outro conceito importante: o conceito de Ideologia. Pode-se definir ideologia, como sendo o uso, o emprego de formas simbólicas para criar, sustentar e reproduzir determinados tipos de relações. Ideologia é o que vai dar sentido, significado às coisas, sua dimensão valorativa, podendo servir para criar e sustentar relações justas, éticas, de fraternidade, ou também para criar e sustentar relações assimétricas e injustas. Thompson (1990), usa o termo ideologia para designar apenas relações desiguais, injustas. É a acepção que também empregamos nesse estudo.

Guareschi (1985: 21-25 e 1985: 85-89), ao falar das igrejas como aparelhos ideológicos, situa os agentes religiosos (pastores, ministros, etc.), como situados num contexto histórico particular, mostrando a impossibilidade de neutralidade. Conforme este autor, há igrejas que muitas vezes servem aos interesses dos donos do poder e não denunciam a absolutização deste, não possuem uma postura critica diante do social e não mostram a dominação e repressão: são de tipo superestrutural, na conceituação de Enrique Dussel (1980). Neste caso, não causam incômodo a um regime dominador e é provável que estejam servindo a este. E no caso de igrejas que atribuem aos deuses a explicação do universo e a raiz de todos os males, ou colocam a solução de todos os problemas na entrega total a Jesus, deve-se questionar a quais interesses estes grupos estão servindo. (Dussel, 1980:86) Mas lembra também Guareschi (1989), que todos os aparelhos ideológicos, apresentam contradições: verifica-se através da história, igrejas a serviço do poder e a serviço da libertação.

6. O território de fantasia

Vimos a necessidade de buscar um outro conceito para poder explicar nossos dados. Decidimos chamá-lo de "território de fantasia", inspiradas numa crônica de Moacir Seliar (1991). Analisamos essa "realidade" em alguns autores.

Para Viktor Frankl (1987), encontrar um significado e um sentido de responsabilidade para a existência é imprescindível. O autor distingue várias formas de neurose e atribui algumas delas (as neuroses noogênicas) à incapacidade do indivíduo encontrar este sentido para a vida. Enquanto Freud acentua as frustrações da vida sexual; Frankl aponta a frustração do desejo de sentido e significado (1987: 8). Segundo ele, é necessário acreditar e carregar sempre alguém ou alguma coisa, sejam pessoas amadas, obras, sentimentos religiosos ou perspectivas de futuro para se vencer dificuldades. Ele cita várias vezes uma frase de Nietzsche: "quem tem por que viver pode suportar quase qualquer como". Acredita na capacidade humana de transcender sua situação difícil e descobrir uma adequada verdade orientadora (Frankl, 1987: 9-10). Afirma: "A liberdade interior do ser humano, a qual não se lhe pode tirar, permite-lhe até o último suspiro configurar a sua vida de modo que tenha sentido" (1987: 85). A angústia existencial, segundo ele, provém da preocupação da pessoa saber se sua vida tem ou não sentido, isto é, se vale a pena ser vivida. Para ele a vida realmente tem sentido quando conseguimos transformar criativamente os aspectos negativos em algo positivo. O ser humano não é alguém em busca da felicidade, mas sim alguém em busca de uma razão para ser feliz.

A busca de sentido pela vida deve partir de cada um; não se pode esperar que este sentido venha de fora para dentro, assim como a esperança, o amor e a fé não podem ser impostos ou exigidos.

Para Jung (1984), a religião constitui uma das expressões mais antigas e universais da alma por isso ao se estudar a estrutura psicológica da personalidade humana, deve-se considerar que a religião é um assunto importante para as pessoas, além de se tratar de um fenômeno sociológico e histórico. Segundo ele, a posição científica de um psicólogo não deve considerar o credo religioso como possuidor da verdade exclusiva e eterna, mas deve concentrar sua atenção no aspecto humano do problema religioso, abstraindo o que as confissões religiosas fizeram com ele.

Ainda segundo Jung (1984), o dogma constitui uma expressão da alma muito mais completa do que uma teoria científica, pois esta última só é formulada pela consciência, enquanto o dogma é como um sonho que reflete a atividade espontânea e autônoma da psique objetiva, isto é, do inconsciente. A religião que se instala na história de um povo, conforme Jung, é fruto da permissão deste, assim como do contexto sócio-histórico que este está inserido. A religião é uma relação voluntária ou involuntária com o valor supremo, seja ele positivo ou negativo, e esta relação pode estar em alguém que a tenha adotado consciente ou até mesmo inconscientemente.

Denominamos a essa realidade específica de "território de fantasia", um espaço que se mostra real e necessário na vida das pessoas e grupos. Nossa análise assume a existência desse espaço, quer mostrar como ele pode ser usado não para beneficio das pessoas, mas em seu prejuízo.

 

III. Análise interpretativa dos dados

Discutiremos, primeiramente, o programa televisivo "O Despertar da Fé", para depois fazer uma análise global dos dados.

1. Discussão do programa televisivo Despertar da Fé

O programa inicia com um dos pastores falando sobre os sofrimentos humanos, como por exemplo, problemas conjugais, doença, falta de dinheiro, em estilo de pregação e usando como base de seu discurso o processo de identificação no que se refere ao conteúdo e na forma da mensagem. Os problemas são levados ao grau máximo de tolerância e a IURD é apontada como a solução infalível para aquele determinado problema.

Nas entrevistas com fiéis, percebe-se que os pastores mantêm a fala do convidado dentro de um limiar de controle da ansiedade; se esta aumentar, ameaçando a eficácia da mensagem, um dos pastores intervém e retoma a comunicação, desviando-a ou modificando-a conforme a situação.

Quanto ao público alvo do programa, a IURD busca invariavelmente atingir e sensibilizar pessoas praticantes das religiões afro-brasileiras. A tática usada é o reconhecimento da existência dos elementos destas religiões, como por exemplo: pomba-gira, espíritos malignos, pai de santo, macumba, e muitos outros, associados ao diabo. Com esta tática, os pastores permitem ao público uma identificação com toda uma linguagem muito familiar, "afrouxando" desta forma suas defesas, através de um pseudorreconhecimento de seus simbolismos, para sensibilizar a pessoa e cooptá-la para a igreja.

Uma técnica facilmente observável é o bombardeio exaustivo, quase que uma lavagem cerebral na pessoa, de que a crença praticada anteriormente é falsa e errada, pois nela a pessoa não prosperou. Fica implícito, nesta mensagem, que o sucesso financeiro de uma pessoa está diretamente vinculado à religião que pratica.

A comunicação é feita com um tom de intimidade, como se todos fossem conhecidos, pastores e telespectadores: "meu amigo, minha amiga, você que está em casa agora, deprimida..." O estilo de comunicação é de programa de entrevista popular, mesclado com marketing comercial e sensacionalismo.

Os aspectos psicológicos estão presentes em toda a estrutura do programa, desde a vinheta de abertura até o final. Há um clima de mistério, imagens cósmicas, visual atraente, música de fundo, apelo ao místico. Os comunicadores parecem ter recebido um treinamento específico para atuarem, pois todos trabalham da mesma forma, usando a mesma entonação de voz, o mesmo discurso. A própria estrutura do programa, muito bem elaborada e organizada, indica uma preocupação com o aspecto psicológico.

No desenvolvimento do programa, inicia-se com a pregação, depois passa para o momento de maior ansiedade, onde ocorre o processo de identificação do telespectador com o entrevistado. Ao final da entrevista há uma "devolução" com a "solução" do problema. A finalização do programa acontece com um salmo, que tem sua

locução feita pelo jornalista Cid Moreira, 2 ficando sempre como última imagem uma mensagem positiva. Pode-se perceber aqui alguma semelhança com a técnica utilizada pela seita Seicho-No-Iê.

Pelas observações realizadas na IURD, foi possível constatar que o público frequentador é na sua maioria de nível educacional baixo, sem uma definição política clara. Estas características, por vezes acrescidas de um baixo rendimento intelectivo, produzem a vítima fácil das igrejas eletrônicas. De uma forma geral, observa-se por parte dos frequentadores da IURD, um comportamento ligado a ideias onipotentes e todo um pensamento mágico.

2. Análise geral da investigação

Os elementos teóricos dão-nos uma base suficientemente sólida para iniciar uma discussão, sem entretanto pretender esgotar um tema tão complexo. Uma das características do ser humano é sua dimensão transcendental, sua abertura ao mistério. A espécie humana tem, comprovadamente, uma necessidade psicobiológica de um espaço em sua vida mental que chamamos de "território de fantasia". Desde que se reconhece como ser vivo, o homem expressa, de alguma maneira, seu sentimento, sua espiritualidade ou religiosidade. Esta capacidade de transcendência dota a humanidade de uma característica criativa. Da caverna ao mais moderno conjunto arquitetônico, a história faz o registro do encontro do homem com seu misticismo.

A sociologia, antropologia, psicologia e a medicina demonstram que o ser humano precisa, em algum momento, ceder à racionalidade e deixarse perder em algum paraíso misterioso, em um território de fantasia. Esta necessidade tão humana de fantasiar, crer e ter fé está profundamente vinculada ao sentimento religioso das pessoas. Alguns têm fé em totens, como no início da história da humanidade, outros têm fé em ideias e há aqueles que incondicionalmente devotam-se à crença no lucro econômico.

A questão que se coloca a partir do conjunto destes elementos é de que forma o homem trabalha seu território de fantasia? Que recursos internos e externos utiliza para alcançá-lo?

A fé e o sonho, contudo, tão importantes na manutenção da saúde física e mental, precisam da companhia da consciência política. Sem estas ferramentas, a pessoa passa a ser objeto de manipulação, pois deixa de exercer seu poder. Neste momento começa a ocorrer a dominação. Quando dominado, o homem torna-se infeliz, pois deixou de se pertencer. Esta desapropriação, esta alienação da consciência ao outro, também é uma patologia, é uma doença social.

Em um país politicamente desestruturado, economicamente desestabilizado, ideológica e eticamente deturpado, encontra-se um terreno fértil para a alienação. É neste contexto que constatamos a proliferação de uma forma especial de dominação: a exercida pelas igrejas neopentecostais. Após dois anos de pesquisa diária, seja através da observação dos programas eletrônicos, como indo a campo colhendo dados e materiais (enxofre, sal grosso, água e material gráfico), seja através da revisão bibliográfica, pretendemos aprofundar à luz da psicologia social, o fenômeno das igrejas neopentecostais, especificamente a IURD.

Em O Futuro de uma Ilusão, Freud afirma:

Admite-se que até agora, a ciência ainda não conseguiu muita

coisa, mas mesmo que progredisse mais, não bastaria para o

homem. Este possui necessidades imperiosas de outro tipo,

que jamais poderiam ser satisfeitas pela frígida ciência sendo

muito estranho na verdade, o auge da incoerência, que um

psicólogo que sempre insistiu em que a inteligência, quando

comparada à vida dos instintos, desempenha apenas um papel

de menor vulto nos assuntos humanos, tente agora despojar a

humanidade de uma preciosa realização e proponha

compensá-la disso com um alimento intelectual (1927-1931:

48).

Podemos depreender destas palavras, que o pai da psicanálise já havia percebido no ser humano a necessidade de alguma coisa que a ciência não pode explicar. Através da poesia, das artes, em geral, e também da psicanálise, encontramos a expressão deste desejo, deste anseio por um espaço místico. Perguntamo-nos anteriormente, de que forma a igreja penetra no território de fantasia do ser humano e se o uso que faz deste território é direcionado para a saúde, enquanto espaço de liberdade e criatividade, ou para reforçar a alienação em seus vários sentidos.

Muitos elementos nos indicam que a resposta para a interrogação que levantamos, caminha no sentido de que o território de fantasia é direcionado, pela IURD, para reforçar a alienação, em seus vários sentidos. Apoiadas no material teórico levantado, iniciando pela psicanálise, encontramos no estudo desses grupos sociais, formados por pessoas desfavorecidas, mas dentro de uma instituição forte e organizada, a compreensão de determinados fenômenos grupais que nos permitiram entender a dinâmica das relações coletivas, onde ocorre um fenômeno que consideramos fundamental para o entendimento destas relações: trata-se do mecanismo de identificação, através do qual pode-se visualizar grande parte do processo e da história dos grupos dentro da IURD.

Diz Freud que o indivíduo, duplamente ligado à massa por laços afetivos, carece de liberdade. Entendemos que a liberdade à qual Freud se refere, é aquela liberdade de que goza o homem em seu território de fantasia. Ao assistirmos aos cultos, pudemos perceber com clareza a total falta de iniciativa e autonomia do público fiel. Na observação realizada numa reunião-culto chamada "Corrente da Família", por exemplo, vimos um grupo de mulheres que passa 50 minutos, aproximadamente, repetindo exclusivamente a palavra "Amém". Em outras observações, chama a atenção, o fato das pessoas se manterem limitadas em sua linguagem, ao ponto de ficarem apenas repetindo as frases, palavras e gestos dos pastores. Os movimentos são mecânicos e também repetitivos.

Consideramos que o exercício da iniciativa, autonomia e criatividade, são funções essenciais à realização do ser humano. Isso é impedido nas práticas da IURD e direcionado no sentido de captar e manter fiéis dentro dos limites "territoriais" por ela definidos. De forma geral, em nossas observações, não detectamos nenhum elemento que apontasse participação e crescimento dos fiéis. Por outro lado, a IURD tem demonstrado "prosperidade", palavra usada massivamente pelos pastores quando se preparam para pedir o dízimo. Comparando a estagnação dos fiéis com o desenvolvimento da IURD, verificamos a existência de uma relação assimétrica de poder, o que de acordo com Guareschi (1992), configura a dominação de uma pessoa ou grupo sobre outra pessoa ou grupo.

Os dados colhidos sugerem que a tendência geral das práticas da IURD é penetrar no território de fantasia da pessoa através da persuasão para dominar e explorar seus fiéis em seus conteúdos psicológicos, políticos e econômicos. A persuasão demonstrou ser uma das técnicas de dominação mais usadas pela IURD. A atitude primordial do persuasor é atrair, captar, sugerir e entusiasmar. Estes elementos estão claramente configurados na relação do pastor com seus fiéis nas observações que realizamos.

Destacamos de uma observação, alguns trechos em que a mulher do pastor (MP) fala ao grupo:

(...) Então fale com Deus agora, não perquem (sic) esta

oportunidade. Deus te trouxe aqui. Deus te trouxe aqui, por que

ele não quer que nenhum mar afogue a tua família (...). Fale

comigo: Meu Deus (Meu Deus), eu já sou (eu já sou), uma

benção (uma benção). Levante as mãos para o céu. Meu Deus

(Meu Deus) eu já sou (eu já sou), e aonde (e aonde) eu colocar

meus pés (eu colocar meus pés), o senhor é comigo, (segue

em eco). O senhor é com minha família, o senhor é com meus

filhos. Em nome de Jesus (3x). E uma salva de palmas para o

Espírito-Santo (todo mundo bate palmas). Amém pessoal

(Amém!)

Nesse trecho, MP convida as pessoas a falar junto com ela, o que está entre parênteses é o "eco" das mulheres. Este texto foi falado com um tom cada vez mais elevado de voz, até que ao final já estavam gritando. Percebe-se que o líder do culto faz uso desta técnica para manter os fiéis. No exemplo citado acima, fica evidente o entusiasmo provocado por este.

A interação do pastor com o grupo baseia-se fundamentalmente na prioridade dos sentimentos sobre a razão. Dentro desta perspectiva, ele consegue manter um canal de comunicação que de forma direta vem satisfazer às necessidades destas pessoas. O discurso dos líderes da IURD é de apelo sentimental. De todas as observações de campo e dos programas de TV, percebemos que o alvo deles é a família, a solidão, o desemprego e os relacionamentos. Parecem aproveitar-se da susceptibilidade que estes temas oferecem e infiltram-se na intimidade de cada um, provocando um estado de sensibilidade vulnerável, onde o discurso é desprovido de qualquer conteúdo racional, lógico ou coerente. Por exemplo:

(...) Quando Jesus, ele tava naquele barco, (...) ora, levantou-se

grande temporal de vento e as ondas se arremataram contra o

barco de modo que o mesmo já estava enchendo d'água.

Talvez na sua casa deva estar enchendo de "poblema", de olho

grande, de inveja, de macumba, de briga, de de vício, de

doença, de mal tratos, de solidão.(...) E esta água hoje na tua

casa, não precisa ser água de beber (...) água de "poblema",

mesmo.

O persuasor é uma pessoa de espírito penetrante e cria a melhor forma de agir. Uma boa tática é o emissor falar de si mesmo e do próprio grupo que escuta, fazendo desta forma surgir o interesse, ou seja, identificação. Na corrente da família, a oradora diz: "quando o meu marido chega em casa, ele gosta de me ver sorridente e bem animada e o de vocês hein, gente? Amém?".

Os pastores são mestres na arte da persuasão e usam com perspicácia o processo de identificação para atingir seus objetivos. A palavra é o instrumento mais utilizado, mas também elementos físicos (voz, gestos, apresentação) citados por Bousquié, são maciçamente utilizados. A entonação de voz dos pastores segue um mesmo padrão, e a plasticidade desta é por demais explorada. Como podemos observar nos dois cultos da corrente da família, MP consegue passar do choro ao riso em pequenos intervalos de tempo.

Os gestos são também utilizados, inclusive de maneira teatral, interpretando por exemplo as letras das músicas. Estes são repetidos pelos fiéis, que não criam seus próprios movimentos, apenas reproduzem enquanto cantam. A MP diz para colocarem a mão no coração — música: "eu vim buscar minha felicidade (...) só Jesus me satisfaz (...) eu quero mais do seu poder (...)", depois manda erguerem os braços para segurarem nas mãos de Deus enquanto cantam: "(...) se as águas do mar da vida, quiserem te afogar, segura nas mãos de Deus e vai (...) pois elas, elas te sustentará (...)". Todas as pessoas obedecem as solicitações e colocam a mão no coração e após erguem os braços (inclusive nós).

No que diz respeito à apresentação, seguem o padrão indicado por Bousquié, ou seja, nem muito rebuscado e tão pouco negligente. A simpatia e o carisma são outras armas utilizadas, a postura de bem-estar do pastor e sua descontração atraem e envolvem o público, deixando-o à vontade e livre de tensão, parecendo entorpecido por este ser "iluminado" que lhes fala.

Os pastores têm o desempenho dos animadores de programa de showmen. Desta forma conduzem o culto dando várias ordens ao público como: "de pé gente", digam "Amém", "sentem", "levantem, caminhem até aqui", "levantem as mãos"; "levantem o saquinho de sal com a mão direita"; "mostrem a mão aberta" etc.

Estas ordens são obedecidas prontamente, sem questionamento e com uma alegria patética. Também é patético o modo como os fiéis são induzidos a pagar o dízimo, depois de aproximadamente 60 minutos de culto, com vários movimentos que vão desde o relaxamento até a exaltação, terminando em catarse coletiva.

Podemos distinguir cinco níveis diferentes da comunicação verbal nos cultos da IURD

— entre os membros do grupo (apenas antes de iniciar e na

saída);

— entre o líder e o grupo;

— entre o líder e os obreiros;

— entre os membros do grupo e Deus (solilóquio);

— e em um último nível que se expressa pelo imaginário, que

consiste na mediação que o pastor faz entre o grupo e Deus.

A comunicação utilizada pelos pastores ocorre em sentido unidirecional, ou seja, o orador fala e o grupo (receptor) apenas responde aos estímulos dados por este. "Vocês estão felizes aqui gente? Amém pessoal?". Todos respondem: "Amém"

As respostas limitam-se a "sim" ou "Amém" e as perguntas são direcionadas e induzidas, como por exemplo: "sentiram a presença de Deus?", "Sim", responde o grupo.

Oro (1992) salienta que esta é uma prática comum na IURD, ou seja, a identificação das pessoas que já foram de alguma forma "agraciadas" pela religião, o que, em psicanálise, significa induzir à identificação em grupo. Percebe-se que com esta situação, além da identificação, há um exercício de dominação, pois todas as respostas sutilmente induzi das pelos pastores, reforçam o poder da igreja como instituição divina.

Os discursos dos líderes da IURD são também carregados de sentido ideológico, uma vez que identificam os problemas das pessoas e atribuem sua origem e solução a uma explicação transcendental. Isto vem ao encontro da definição de Enrique Dussel (1980) de religião superestrutural, pois serve aos interesses do poder, sem ter uma postura crítica diante do social, e atribuindo todas as explicações e soluções dos males, aos deuses. É assim que a IURD se comporta. Todas as respostas estão na fé, tanto a cura, como a felicidade e até mesmo o dinheiro. Qualquer necessidade espiritual ou material pode ser suprida com a fé e a entrega ao Espírito Santo. Esta mensagem de conformismo e falta de incentivo ao espírito crítico, configura um tipo de dominação, pois mantém seu público resignado à vontade divina.

O discurso dos pastores é também desprovido de lógica. Muitas vezes há dificuldade de entender o significado de determinadas palavras ditas com eloquência, mas o público permanece preso ao discurso do pastor, respondendo a seus clamores com uma subserviência total. Em nenhum dos cinco níveis mencionados se verifica o uso do diálogo. Esse movimento unidirecional na comunicação revela uma relação de dominação subjacente, onde quem detém a comunicação termina por apropriar-se da identidade do grupo. Neste caso, o receptor da mensagem, é desapropriado de sua ego e altero-ideologia, e fica exposto à dominação que se dá em nível psicológico e ideológico.

A técnica da persuasão auxilia na compreensão do fenômeno da identificação, talvez o mais importante de todos os que se dão nas relações da IURD com seus fiéis. Já em nossas primeiras observações informais, indagávamo-nos sobre como o processo de identificação, entendido psicanaliticamente era usado como meio de manipulação. Parecia ser difícil demonstrar empiricamente como os pastores se apropriavam de um processo mental espontâneo em nossa vida psíquica, para captar e condicionar fiéis.

Para nossa surpresa, não foi difícil constatar o que Freud, já dizia: "identificação é a manifestação mais precoce de uma ligação afetiva a outra pessoa, desempenha um papel importante na pré-história do complexo de Édipo"(1959:47). Verificamos em nossas observações, que o processo de identificação está sempre e massivamente presente.

Os pastores têm uma capacidade de comunicação, sedução e persuasão que não deixam dúvida quanto às suas qualidades carismáticas. Estas características são comuns aos pastores e são observadas tanto nos cultos, como no programa "O Despertar da Fé", sendo que nos cultos os pastores são mais eloquentes e exuberantes que nos programas de TV. Constata-se que a IURD promove algum tipo de preparação para seus pastores, pois eles agem e atuam de forma idêntica, atingindo com extrema competência seus alvos. Sua capacidade de absorver a atenção do público é tão grande que somos levados a pensar na hipótese de Freud sobre a hipnose. Não basta o conceito de duplo laço afetivo entre o indivíduo e a massa para dar conta da relação dos pastores da IURD e seus fiéis.

Parece evidente que forças mais profundas do que o convencimento puro e simples são invocadas. Se fossemos crentes, poderíamos pensar que são "forças demoníacas". Mas como estudantes de psicologia, procuramos buscar nas contribuições de Freud sobre a hipnose e sugestão, bem como sobre a transferência, uma explicação dessas práticas. Freud descreve o fenômeno da hipnose em sua obra A Psicologia das Massas e Análise do Ego (1959), e afirma que a transferência pode ocorrer fora da psicanálise, não por causa dela e sim pela neurose. Através das observações, verificamos fenômenos que podem ser relacionados com hipnose e transferência nos cultos da IURD. Na "corrente da família", por exemplo obedecendo à ordem da oradora: "falem com Deus agora" as mulheres se concentram e começam a falar com Deus. Inicia-se uma cena impressionante, onde em transe hipnótico falam com Deus ou com Jesus, contando e confessando seus dramas. Algumas murmuram, outras gritam, todas choram. Uma das mulheres se ajoelha no chão e chora com a cabeça debruçada no banco de madeira. A oradora inicia então o retorno do grupo ao estado anterior, usando a mesma técnica: o canto de músicas religiosas. É assim que se iniciam e terminam as sessões de catarse do grupo.

De igual modo o uso da música, conduz à mesma "sintonia". Todos são colocados em um mesmo nível de concentração e relaxamento. Numa ocasião, logo após o canto, a MP, no papel de mediadora de Deus, faz suas pregações e proporciona um espaço para o grupo realizar sua catarse, ficar em estado de alívio e também de vulnerabilidade. Segue-se sempre outra música, que tira o grupo desse estado e o traz a uma nova "sintonia".

Em nossas observações, percebemos que invariavelmente os cultos iniciam com esta técnica grupal de descontração através da música. Em todos os nossos registros se pode verificar o uso de som desde os mais suaves (para relaxamento) até os mais empolgantes (momento da catarse). Com a utilização de música, linguagem verbal e não verbal, o público vai sendo induzido pelo pastor a um estado de hipnose. Como já foi dito, não se observa nenhuma manifestação espontânea ou criativa do público. Apenas verificamos gestos e linguagem repetitiva.

Gostaríamos de retomar ao tema do "território de fantasia". Muitos outros escritores, psicanalistas, músicos e poetas, trazem em suas obras, ideias que nos remetem a este território. Porém, é em Viktor Frankl que vamos encontrar as palavras mais adequadas para conceituar o território de fantasia; quando diz que é importante

acreditar e carregar sempre alguém ou alguma coisa, seja

pessoas amadas, uma obra, um sentimento religioso ou uma

perspectiva de futuro para se vencer dificuldades, fome,

humilhações, injustiças ou outro obstáculo que a vida pode

apresentar (1987:9).

Diz ainda que acredita na capacidade humana de transcendência em um momento difícil e a partir daí descobrir uma adequada verdade orientadora (1987:10). São precisamente tais capacidades, ao nosso ver, que parecem faltar aos fiéis da IURD.

Paradoxalmente, lhes é oferecido como um objeto de consumo, um mundo interior que está sendo roubado.

Para Frankl, "a liberdade interior do ser humano, a qual não se lhe pode tirar, permite-lhe até o último suspiro configurar a sua vida de modo que tenha sentido"(1987: 85). Constatamos situações em que a liberdade interior, de que fala Frankl, infelizmente pode ser retirada de uma pessoa. Quando existe uma relação de dominação econômica, ainda pode restar ao dominado, uma consciência que lhe permita compreender sua condição e agir sobre ela a fim de transformá-la. Mas quando falamos de dominação psicológica, falamos de desapropriação do "território de fantasia". Neste caso, a consciência está alienada de tal forma que sonhar passa a ser um ato subversivo Nas práticas da IURD, o que sonha é alguém com "espírito maligno", que deve e precisa ser exorcizado. Frankl afirma que a vida só tem sentido se conseguimos transformar criativamente os aspectos negativos em algo positivo. Transformar e criar são palavras chave da saúde mental humana. Para ele, a busca de sentido da vida deve ser uma ação livre e baseada em motivos internos, não externos; a esperança,. o amor e a fé não podem ser impostos ou exigidos.

É impressionante observar a forma como os elementos acima referidos são utilizados pela IURD, para reforçar a dependência dos fiéis à igreja. A IURD surge no Brasil exatamente em 1977, ironicamente no "Bairro da Abolição", no Rio de Janeiro, em plena ditadura militar. O pensamento político sufocado, reprimido e torturado. A classe operária, bem longe do "paraíso". A educação em franca decadência. Infelizmente, muito pouco se alterou neste cenário, e realmente só "prosperaram" desde então, aqueles que de alguma forma se beneficiaram com a situação do país. Foi neste contexto, que a IURD cresceu e proliferou enormemente. É difícil compreender como uma instituição que se diz a serviço do povo, em nome de "Jesus", pode ir tão bem quando seus fiéis vão tão mal.

Guareschi afirma que "quando um grupo, religioso não causa incômodo à um regime dominador, é provável que esteja servindo a este regime"(1989: 86). É a impressão que temos da prática exercida por essa igreja. Enquanto os fiéis ficam na IURD realizando intermináveis rituais para resolver seus problemas, suas vidas permanecem estagnadas, paralisadas social, psicológica e politicamente, deixando adormecido o poder de transformação, que cada ser humano guarda em seu "território de fantasia". A IURD ensina seus fiéis a buscar no além o que eles encontrariam na busca da cidadania.

Podemos ainda perguntar: que benefícios a IURD traz a seu fiéis? A partir das nossas observações e estudos de materiais já existentes sobre a IURD, constatamos que os benefícios prestados por esta instituição são principalmente de cura de doenças (dor de estômago, cefaleia, câncer, AIDS), alcoolismo, homossexualismo, conduta antissocial e o exorcismo. Os depoimentos de curas que constam nos livros do "bispo" Edir Macedo são, no mínimo suspeitos, e os prestados no programa "O Despertar da Fé" não merecem confiança, pois pode-se duvidar da sinceridade dos mesmos. As situações em que um fiel oferece o dízimo em proporção ao que deseja receber de Jesus, ou Deus, ocorrem com muita frequência em função de um forte apelo da IURD. Nos programas de TV, temos vários exemplos de "testemunhas" contando as graças recebidas após terem "ofertado o dizimo". Segundo Oro (1992), a principal motivação para a doação financeira é a ideia de que o dinheiro é o bem mais significativo para selar uma aliança com Deus. E partindo do pressuposto de que nada é de graça, no mundo sobrenatural não seria diferente, a oferta força a divindade a atender sua demanda.

Gostaríamos de discutir, finalmente, uma questão levantada ao início de nossa pesquisa: que tipo de imagem a IURD passa de Deus? Simbólica ou concreta? Incentivadora ou cerceadora? Encontramos em Freud (1959) a hipótese do poderoso macho, líder absolutista, um pai primitivo que não permitia a satisfação sexual dos filhos, exigindo destes abstinência e submissão. Os filhos, por sua vez, temiam e idealizavam o pai (Freud, 1959, p.34). Ferenczi (in Freud, 1959, p.74) demonstra a submissão do hipnotizado em relação ao hipnotizador, representante do pai primitivo onipotente, relação que só permite ao hipnotizado colocar-se em atitude passiva masoquista. É em situações semelhantes que encontramos o público da IURD. A passividade e o conformismo patéticos podem ser entendidos por nós como uma postura masoquista dos fiéis em relação ao sadismo disfarçado de religiosidade dos pastores.

Como já dissemos, não registramos em nenhuma de nossas observações, qualquer atitude que indicasse iniciativa, criatividade e espontaneidade dos fiéis. Com base nestes dados entendemos que a imagem de Deus, transmitida aos fiéis da IURD, é uma imagem concreta, totêmica e cerceadora. O material gráfico coletado é um bom exemplo desta imagem, pois estabelece uma hierarquia entre Deus e as pessoas. Nesta hierarquia temos então um primeiro nível, Deus, abaixo dele o marido, depois a mulher e por último os filhos. A comunicação se estabelece nesta ordem linear e rígida. Deus só se comunica, na verdade com o homem, e a mulher poderá falar com Deus através deste.

Esta situação é bastante contraditória pois acontece exatamente na "corrente da família", que é conduzida pela mulher do pastor. Ela diz ao grupo de mulheres: "agora podem falar com Deus, ele já está te ouvindo". No caso, ela anunciava que a "ligação direta para Deus" havia se completando através de sua própria pessoa. Esta é apenas uma amostra da comunicação baseada na dupla mensagem, que a IURD estabelece com os fiéis.

Poder-se-ia finalmente perguntar por que as crianças não têm ascendência na comunicação com Deus? Seria porque as crianças não produzem, não ganham salários e não pagam o dízimo? Os dados parecem sugerir uma resposta positiva.

 

Considerações finais

Foi com muita dedicação, prazer e algum sofrimento, que realizamos este trabalho. Desta pequena, mas importante experiência, chegamos a algumas conclusões, que julgamos relativamente justificadas:

É função também do psicólogo procurar entender o fenômeno religioso, uma vez que se chega a compreender que a religiosidade é uma necessidade psicológica do ser humano. Não é mais possível, como já pensava Freud, fazer "vistas grossas" a isto, agarrando-se a um ceticismo estéril, enquanto a sociedade cada vez mais absorve este produto. Parecenos que a questão da relação IURD/fiéis, deve ser analisada e trabalhada no campo da psicologia social.

Fica evidente a necessidade humana de um espaço mental livre da objetividade. Esta imperiosa demanda se expressa de inúmeras formas, seja através da arte, da criatividade, do misticismo, religiosidade, etc. Denominamos a isso "território de fantasia".

Parece que a forma como é usado este território tem estreita relação com a condição social da pessoa. Assim, o consumismo pode preencher esse espaço. Em populações pobres e exploradas, o "território de fantasia" pode ser apropriado e usado pela alienação, exploração e dominação.

Historicamente, a classe menos favorecida, constituída em sua maioria por trabalhadores informais e operários, tem buscado conforto nas religiões não católicas como espiritismo e religiões afro-brasileiras.

A Igreja Católica tradicional, enquanto aparelho ideológico de estado, cumpriu seu papel permanecendo fiel as estratificações sociais, não questionando o modo de produção, nem a ausência da classe operária em suas igrejas. Esta, por sua vez, ansiosa por dar vazão a sua subjetividade e preencher seu território de fantasia com algum alimento emocional, já que muito pouco lhe resta a almejar na área do capital, foi em busca de alguma instituição. As Igrejas Neopentecostais, especialmente a IURD, se organizaram e estão aí. Captaram perfeitamente este anseio e carência social, oferecendo para aquela faixa da população um bem de consumo espiritual alienante. Dentro desta lógica, é fácil entender a proliferação destas igrejas.

O que se questiona e se pretende alertar, é a forma como esta relação está se dando. O território de fantasia está sendo ilegitimamente "ocupado" pela IURD, com a finalidade de dominar e explorar seus fiéis. Conclui-se que, de modo geral, a IURD é uma instituição ideológica que tem por objetivo dominar através da persuasão, para explorar economicamente seus fiéis. A dominação se dá através da invasão e apropriação do território de fantasia. A postura até certo ponto paranoide, institucionalizada na IURD, refletiu-se em vários momentos de nosso trabalho, confirmando nossa hipótese inicial de que aquela instituição legitima relações de dominação e exploração com seus fiéis.

Dar conta de nossa proposta inicial foi um trabalho bastante pesado, mas a cada linha escrita, outra ia brotando, florescendo pensamentos. Na verdade pesquisamos muito mais do que a ideologia de uma religião: pesquisamos nosso próprio "território de fantasia", de onde certamente garimpamos as ideias que resultaram neste trabalho. Afinal, aprendemos mais do que nunca que sonhar é preciso e que a utopia é o primeiro passo no caminho da liberdade, passaporte do território de fantasia.

 

Referências bibliográficas

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1 O termo Catharsis vem do grego e significa purificação, purgação. Foi usado por Aristóteles para designar o efeito produzido pela tragédia.

2 Um dos principais locutores da Rede Globo de Televisão, do Brasil.