Relações Sociais e Ética

Maria da Graça Correa Jacques · Capítulo 4 de 22

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Relações Sociais e Ética

Acerca da ética e da perspectiva interdisciplinar

Acerca da ética e da perspectiva

interdisciplinar

 

Tania Mara Galli Fonseca

UFRGS

Inicio minha participação nesta Mesa Redonda colocando duas observações: a primeira, referida à grata satisfação pelo convite que me foi formulado e, a segunda, que tal satisfação não me permitiu, à época, avaliar de modo menos apressado, o teor da comunicação desta Mesa. É preciso que lhes revele, que tal avaliação, estruturada durante a elaboração das ideias que passarei a colocar, posicionou-me, com dificuldades diante do tema, visto que falar de ética, desde uma posição leiga torna-se, hoje, fácil e usual, estimulante até para tomar contundentes nossos argumentos no campo das forças de poder que enfrentamos em nosso cotidiano. Ética tem sido evocada, de modo geral, como uma espécie de apelo que tentamos fazer para demonstrar quão virtuosa ou boa se mostra alguma prática social, algum posicionamento teórico, decisões políticas etc. Passou a fazer parte de nosso imaginário, como algo que sabemos o que é, quando se faz presente, que se acende juntamente com nossa indignação, incorporada ao nosso modo de ver e agir, eu diria, de forma tácita. Tal perspectiva, seguramente impõe dificuldades para colocá-la em palavras, ao nível da razão e o do pensamento. Falar, portanto, de ética, implica a meu ver, um esforço de tornar explícitos aqueles pressupostos que orientam a nossa ação concreta sobre o mundo, e que, enquanto reguladores, também criam a ilusão de nossa autonomia e de nossa liberdade. Falar de ética implica na busca daquilo que, sob a aparência de pessoal e individual, se inscreve como valores sociais estruturados historicamente que, com sua capacidade estruturante modelam os espíritos segundo seus conteúdos.

A tarefa, para os filósofos, certamente seria interpretada e abordada desde outras perspectivas, dentre as quais a da própria história da liberdade, das essências e aparências, do acidental e do essencial, do universal e do singular, provavelmente fundando seus argumentos na própria disciplina originária, a filosofia, em seus desdobramentos da Ética e da Estética.

Como psicóloga, inserida na tradição da Psicologia Social e, mais especificamente, na área do Trabalho, venho a este Encontro, concebendo o campo ético como uma espécie de continente modelador da subjetividade que, na modernidade, assume características de uma individualização orientada pelo narcisismo e pelo egoísmo.

A proposta desta Mesa Redonda, que não sendo redonda, em sua materialidade sensível, deve implicar em um significado coletivo a essa reflexão e daí, a pertinência do adjetivo, uma vez que ele sinaliza para a presença do Outro, para o próprio sentido da alteridade. A metodologia de mesa redonda, se constitui em si como proposta pedagógica, à medida em que estabelece normas e expectativas de funcionamento que superem as dicotomias do individual e do coletivo, do público e do privado, das meras convenções morais frente aos desafios da construção coletiva do mundo. Mundo este, talvez pequeno e efêmero, como o desta Mesa, marcado pela temporalidade, mas quiçá, capaz de objetivar inter-relações como suporte a alguma utopia, fundada tanto na solidariedade como na hibridez das formas e conteúdos. Talvez, tal como máquina, tal encontro e tal mesa possam se transformar em dispositivo social que, venha a se tomar capaz de aquecer as paixões, as vontades e as forças na direção de uma sociedade justa, capaz de conviver para além de seus interesses privativistas e individualistas.

Reconhecer a oportunidade desta Mesa Redonda, e deste Encontro como um todo, como prática social, desde já pedagogicamente orientada por critérios éticos, não se trata, pois, de mera especulação discursiva. Sabemos que se trata de um desafio.

Nós, que vivemos imersas preferencialmente no mundo do trabalho acadêmico, conhecemos, de sobra, as diversas formas pelas quais os valores éticos perpassam nossas relações, sejam internas, sejam com a sociedade em geral. A ciência, não sendo neutra, o conhecimento, não estando acima do bem e do mal, produz-se como forma de poder, podendo ser utilizado como um instrumento de dominação. Comparece ao espetáculo, como um dos asseguradores da capacidade humana de governar o mundo, dominá-lo e controlá-lo. O sujeito do conhecimento cria e manipula os objetos, tomando-se o próprio centro do processo, seu fim último, assegurando desta feita aquilo que a moral moderna celebra com força de glória: a autonomia do indivíduo, colocada aqui, como a mais decisiva característica do projeto da modernidade. A experiência do COGITO impõe-se como experiência absoluta, dispensando qualquer suporte que seja exterior ao homem. O individualismo, constitui-se, desta forma, como uma espécie de a priori, como pressuposto maior do projeto da modernidade, assegurando que seja concedida, ao homem, a ideia e a crença de dono do mundo. Pelo conhecimento, o homem passa a ser senhor do objeto e, por suas descobertas passa a controlá-lo e a dominá-lo. Associando-se a tal acepção do conhecimento, outra comparece para articular-se na consolidação do individualismo. Trata-se do deslocamento do campo da liberdade e de sua restrição à ideia de livre-arbítrio. Deslocada para o interior de cada humano, saindo portanto, tal como para os antigos, das esferas da política e da cidadania, a liberdade, como livre-arbítrio apresenta-se despolitizada, como moral interna, como divisão interior entre mim e mim mesma, entre meu querer bem e querer mal, delimitada pelas possibilidades colocadas pela própria culpabilidade. Não se trata mais, como para os antigos, de vencer o jugo dos tiranos e manter a plenitude da condição de cidadão, nem de dominar a tirania da carne e sim, de afirmar que o homem, pelo livre arbítrio, promove-se à condição de senhor — senhor de sua escolha.

O conhecimento e a liberdade, em tais concepções, emprestam à autonomia como que sua transparência. A liberdade interpretada como autonomia leva qualquer um de nós a repetir desprevenidamente que a minha liberdade começa onde termina a tua.

Oxigenada pela ideia de indivíduo autônomo e livre, erigindo subjetividades consonantes com tais valores, a modernidade toma problemática a ideia de valores éticos universais. Funda, igualmente, a dissociação entre ética e política, instituindo um contrato social, que se mostra como o drama das sociedades complexas atuais.

Se, cada indivíduo vem resguardado em sua própria autonomia, em que bases se pode estabelecer a vida social? Como conciliar o individualismo com as exigências da existência comunitária?

Ora, a produção das ciências não se dá no vácuo social. Ela se demarca, ao contrário, nos limites da geografia e da história. Nada mais correto, portanto, do que reconhecermos que, as ciências se encontram impregnadas do histórico-social e político, tendo mesmo sido gestadas no seu interior. Fruto do pensamento humano, o conhecimento científico não possui a unívoca direção de construir ou criar o mundo social. Ele se mostra, antes, como efeito desse mesmo mundo, colocando-se, paradoxalmente, enquanto procura e aprisionamento, buscando os desconhecidos, para que os possa domesticar, não sem antes ter-lhes auscultado e extraído, com bons métodos, as confissões e os soluços mais íntimos. Vontade de saber associada à vontade de poder. Construidor de objetos, o homem lhes dá igualmente os sentidos. Tais sentidos circulam, por sua vez, em torno de sua megalomania narcísica, devendo sustentá-lo em sua ilusão de sujeito livre, celebrá-lo como normal diante daquilo que ele mesmo construiu como patológico, devendo, afinal, instituí-lo como centro, para apagar-lhe da consciência a miserabilidade de sua própria condição de ser do mundo e do tempo.

A psicologia não se isenta, portanto, de tais apreciações e de tal funcionamento. Nossa intimidade com seu corpo teórico, permite revelar o quanto tem se constituído em uma produção a serviço da normatização do social.

Erigida a partir da vontade de constituir-se como ciência, revelou, desde seus primórdios, que estava disposta por sacrificar ao reducionismo seu próprio objeto, para que pudesse, no cenário das ciências de então, ser elevada ao estatuto científico. Demonstrou, desde aí, sua capacidade em dissociar meios e fins, adotando critérios que se fundamentam na expressão: os fins justificam os meios. Instalou-se, portanto, já dentro dos limites da modernidade, construindo concepções capazes de dizer que espécies o universo contém como as que ele não contém. Suas teorizações, que vieram a se tornar hegemônicas, têm sido, em geral, fundadas nos pressupostos do cultivo/cultura do individualismo. Apregoando a autonomia, a liberdade, a propriedade, como valores do sujeito moderno, a psicologia, como ciência e profissão tem se revelado como prática discursiva sintonizada com as ideologias de dominação, com a ânsia de padronização e homogeneização, como fonte legítima para instaurar o desvio e o desviante. Sua tradição reprodutora, aponta-a como depositária de ecos da conservação, como guardiã da moral vigente, a qual auxilia a inculcar nos sujeitos sociais, desde sua expansão e aplicação às práticas da socialização e da educação.

Nossa ciência e nossa profissão tem sido capazes de se reforçar mutuamente, colocando-se uma para outra, tal como em círculo vicioso, que busca em si mesmo a autoconfirmação. As perplexidades colocadas por nossa prática profissional, nem sempre têm sido suficientes para que permitam interrogações que, nos conduzam a uma ruptura com o consenso social, firmado em parâmetros orientados para que apenas construamos muros em tomo de nossas próprias casas, sem atentarmos para a própria cidade nas quais elas se inserem. A cidadania se transmuta em desfigurado apelo as nossas responsabilidades. Responsabilizamos a todos. Conseguimos, já, nos amortecer na posição de vítimas. Vítimas da violência e inépcia dos outros, restando-nos meramente a indignação quando vemos nossos interesses e patrimônios aviltados e perdidos. Conduta moral, de acordo com os códigos, convenções e leis; isto nós reclamamos para que a sociedade se faça possível. Não temos conseguido, contudo, para além de vislumbrar, nos orientar e sustentar pela visão de um outro plano, no qual se gestam as possibilidades de tais violências. Lutamos contra efeitos, nos armamos e nos protegemos, nos colocamos como legais e convencionais mas, em nossas práticas, e isso nós conhecemos bem, temos um convívio direto e concreto com toda a nossa maestria em transformar o injusto em legal, o sofrimento em culpabilidade individualizada, o verdadeiro infrator em vítima do imerecimento e da revolta alheia. Nossas práticas e o nosso saber se encontram maculados pela tendência em desconcretizar o humano, concebendo-o como entidade exclusivamente interiorizada, regulada por pulsões, que, tal como força da natureza, delimitam como naturais a bondade e a maldade humanas. Falamos sobre a construção do homem, mas nossa tendência, como sabemos, é julgá-lo como nascendo relativamente pronto, sendo que, em nossos silêncios, adotamos a visão discriminadora de que o bom e o mau já nascem feitos. Estranhamente, elegemos para o polo negativo de nossas avaliações, aqueles seres humanos que se mostram mais diferentes de nós: os negros, os pobres etc. Nossas interpretações e diagnósticos, no mais das vezes, precisariam de uma ação desveladora, como se uma mão forte lhes tirasse a máscara de Ciência, deixando a nu e ao cru, aquilo que vestido de legitimidade, mostra-se cozido na cultura ideologizada e individualista.

Sim, desde nossas posições como cientistas e como profissionais, estamos imersos na crise da modernidade. Crise que se revela por algumas destas caracterizações acima apontadas. Crise que foi capaz, por outro lado, de reconhecer a agonia de tais concepções e, revelá-las como presunções oriundas da necessidade de consolidar, frente a experiência da morte e da finitude, a noção de um eu-todo-poderoso e abstrato, que pudesse manter cativas a paixão, a ação, a emoção e a invenção.

O tema interdisciplinaridade parece materializar aspectos da mencionada crise. Embalando os atuais discursos das Ciências Humanas, colocando-se como ponta de lança para a criação de novos paradigmas, a interdisciplinaridade aparece, no meu entender, mais como grito de sobrevivência do que convicção epistemológica. Tomada desde seus desdobramentos práticos, constatamos que as ciências tratam agora de reunir o que antes fragmentaram, pela adoção de referenciais multidiscursivos, tomando por base a complexidade do objeto a ser estudado, como se a agregação de múltiplos se constituísse como suficiente para totalizar a visão/compreensão do objeto. Nada nos garante, contudo, que tal empreendimento possa vir a se constituir como pretensa evolução do refinamento das estratégias da captura.

Se a interdisciplinaridade, contudo, possa ser proposta e praticada à luz de uma nova ética, da qual seria representante concreta e exemplar, se apoiar-se não na simplificação do complexo, mas ao contrário, na complexificação do simples, se representar a difusão de interesses que cultivam os valores da solidariedade, se for construída a partir da noção não do eu-todo-poderoso, mas da alteridade, se se constituir em base para a criação de uma voz e vontade poderosa contra as injustiças sociais, se conseguir, transformar o sentido do INTER, para além das fronteiras disciplinares e acadêmicas, auxiliando a instaurar, nesses perigosos caminhos do Brasil, no lugar da esperança, a busca e a procura ativas, se conseguir explicar a fome, a vergonha do faminto e do desempregado, a patologia do exibicionismo, desde outras acepções que não aquelas vinculadas à meritocracia individualizante, então, sim, podemos pensar em dar as mãos.

Dormiremos mais tarde, porque nossos corações sentir-se-ão, então, acompanhados, não tão temerosos da noite, do tempo e da morte, não mais deslumbrados pelas luzes e pelas claridades, não mais cativos das ilusões da razão iluminada e, finalmente, não mais alocados como prováveis clandestinos no mundo.