Relações Sociais e Ética

Maria da Graça Correa Jacques · Capítulo 21 de 22

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Relações Sociais e Ética

Anotações sobre ética, movimentos sociais, pesquisas

Anotações sobre ética, movimentos

sociais, pesquisas

 

Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva

UFSCar

O interesse de pesquisadores pelos movimentos sociais tem sido despertado pela busca de compreensão das ações humanas na construção das sociedades, pela simpatia por lutas destes movimentos, pelo engajamento em algumas delas. O curso de suas investigações é marcado, entre outras determinações e decisões, pela postura dos investigadores frente ao objeto de estudos, bem como aos integrantes dos grupos que criam condições para que possam decifrar o processo de enfrentamento entre sociedade e movimento social. Sobre esta problemática, pretendo, com algumas anotações, participar da discussão de tão importante questão de ordem ética.

Os movimentos sociais surgem de necessidades humanas não atendidas: terra, moradia, saúde, educação, respeito, cidadania. Todos eles lutam pela dignidade dos seres humanos, considerados, estes, nas suas diferenças, que são definidas por características étnicas, culturais, físicas, de comportamentos, de costumes, de escolhas, de participação na produção de bens. Lutam para que todos tenham liberdade de viver e de agir. Suas determinações, metas e ações assinalam que a liberdade buscada se constrói nas relações entre indivíduos, grupos e classe sociais, no interior da sociedade que os classifica conforme critérios e interesses ditados pelos que detêm o poder de governar.

Na luta vão tomando mais clara a consciência da realidade em que vivem. Dizendo de outra forma, com suas ações explicitam sua situação na sociedade, e esta com suas respostas indica o lugar que lhes reserva, como os situa. Assim, os índios reivindicam a posse das terras que tiveram usurpadas; os descendentes de africanos combatem o racismo e exigem reconhecimentos da decisiva participação dos seus antepassados escravizados e da sua própria na construção da nação brasileira; os camponeses destituídos de suas terras e os sem-teto nas zonas urbanas fazem propostas e exigências; os homossexuais exigem reconhecimento às suas escolhas sexuais; todos afirmam a importância de serem respeitados enquanto seres humanos, que reivindicam direito a uma cidadania negada.

Diante das ações dos movimentos sociais, a sociedade reage, deixando, quase sempre mais evidente o lugar que destina aos por eles defendidos: à margem, fora do alcance dos direitos civis. A sociedade reconhece que são diferentes do que ela elegeu considerar humano, correto, bom e designa-lhes, numa atitude discriminatória, como povo, marginalizados, negros, pobres, primitivos, incapazes, doentes, portadores de desvios de comportamentos. Faz-lhes concessões, restrições, julgando na maior parte das oportunidades suas ações como inconvenientes.

A sociedade os exclui, os vê como estranhos, os humilha, ultraja e, desta forma, os impede de usufruir plenamente de seus direitos de cidadãos.

A exclusão que a sociedade faz dos grupos considerados minoritários, embora até mesmo sejam maioria numérica — é o caso, por exemplo, das mulheres que compõem mais de 50% da população brasileira e dos pretos e pardos que constituem em torno de 60% desta população — aproxima os movimentos sociais em sua luta, embora o motivo primeiro de cada um difira. Fundamentalmente todos tem em mira justiça, equidade, respeito. Todos rejeitam a opressão, querem ser reconhecidos por seus méritos e não pelas carências, que, diga-se de passagem, eles próprios não cultivam. Todos, com suas ações, mostram que o relacionar-se com o outro, é sempre um momento ético.

Isto faz com que a sociedade seja obrigada a encará-los como outro, vivo, ativo. No entanto, teima em simplesmente tolerar sua presença, já que não pode eliminá-los, embora não deixe de tentar fazê-lo — lembremos as reiteradas tentativas de extermínio que sofrem as populações índia e negra, da chegada dos europeus, no século XVI, aos nossos dias — e busca acordos para acalmá-los, ou absorve algumas de suas produções, traços de suas culturas. É claro que a absorção de dados das culturas das classes que marginaliza, se dá também pelo fato de que grupos culturais diferentes ao se encontrarem, seja numa situação de diálogo ou de opressão, recebem sempre influência um do outro.

A sociedade não busca, pois, compreendê-los como seres humanos distintos (Dussel, s.d.), tolera-os já que as tentativas de eliminá-los não têm sucesso absoluto, reduzindo-os à cor da pele, à condição social. É a partir destas reduções que a sociedade mostra o entendimento que tem dos participantes dos movimentos sociais e daqueles cujos direitos visam a defender. Os significados a eles atribuídos vêm informado por preconceitos e por ideologias como as do racismo, do machismo, da incapacidade dos pobres, que produzem palavras, atitudes, posturas estereotipadas, instrumentos eficazes de violência explícita ou simbólica.

Esta violência é fruto, entre outras coisas, do que Sylvia Winter (1992) denomina distorção cognitiva, isto é, ignorância do que o outro realmente é, melhor dizendo, do que os outros realmente são, pois o outro são muitos, não apenas numericamente, mas em diversidade étnica, de classe, de gênero e também de situação dentro do seu próprio grupo social. É sabido que os grupos sociais não são monolíticos e que, em muitas circunstâncias, vivenciam também nas relações mantidas entre os pares aquelas que suportam no confronto com a sociedade mais ampla. Silva (1990) nos mostra isto, ao discorrer sobre as relações de mulheres negras letradas e não letradas, pertencentes à classe média e classe pobre no interior dos grupos do movimento negro ou do movimento de mulheres descendentes de africanos.

Os movimentos sociais não estão unicamente em busca de bens socioeconômicos. Ao desencadear suas reivindicações pressionam, para que todos, cidadão brasileiros, assumamos nossa história coletiva que tem mais de uma faceta; melhor dizendo, foi e é vivida a partir de diferentes pontos de vista. Pensemos na não coincidência de significados que têm para as classes poderosas, bem como para as desprezadas e sacrificadas, por exemplo, a escravidão, a abolição da escravatura, a colonização europeia e a asiática, as lutas designadas messiânicas como a de Canudos, dos Condestados, dos Mukers. Assim sendo, ao assumir nossa história estaremos criando condições para exercer nossa liberdade, o que implica engajamento na situação em que se encontram nossos grupos étnicos, nossa classe social, os grupos sociais a que nos integramos. Implica, pois, engajamento na ação.

Não engajamento aparente, simplesmente, no caso dos pesquisadores, para fazer nossos estudos. Trata-se de um engajamento que faz ver o outro, melhor dizendo, os outros, não com compaixão, pena, como pessoas a quem vamos caridosamente ajudar, tirar de uma situação de pobreza, humilhação. Trata-se de engajamento em que o outro distinto, na medida do nosso esforço para compreendê-lo, vai mostrando-nos:

— o que investigar, valendo-nos de critérios que não abrangem unicamente nosso próprio interesse;

— como fazê-lo, para que não deixe de ser respeitada a dignidade, as especificidades dos grupos e das pessoas, todas elas, inclusive as do pesquisador;

— como e para quem devem ser encaminhados os resultados dos estudos que conjuntamente fazemos; ou que fazemos com a sua aquiescência.

Pesquisa seja nos meios populares, seja com grupos populares, entre eles os ligados a movimentos sociais, requer respeito às pessoas com quem trabalhamos, que se manifesta também quando suas posturas, entendimentos, avaliações não coincidem com os nossos. Não se trata de adotarmos suas ideias, opções, iniciativas, ou de concordarmos com tudo o que pensam ou fazem, como também não se trata de adotarem os nossos ou de com eles concordarem.

Então, pesquisadores realizamos trabalhos com e/ou sobre grupos dos movimentos sociais não a partir de representações que deles fazemos previamente, mas de trocas, em que cada um de nós tem a sua palavra a dizer e sua ação a executar.

Mas as questões éticas que surgem do encontro entre pesquisadores e movimentos sociais, com objetivos de investigação, não se restringem ao campo das relações entre pesquisador e pesquisados, entre pesquisador e objeto de investigação. Há outras esferas, dentre as quais gostaria de apontar: a da impregnação da linguagem científica por categorias do interesse dos movimentos sociais e a da globalização das culturas.

Ladriére (1977) assinala que:

hoje, a ciência não é mais simplesmente um método de

conhecimento, tampouco apenas um corpo de saberes, é um

fenômeno sociocultural de uma imensa amplitude que domina

completamente o destino das sociedades modernas.

Interpretando suas palavras, podemos reconhecer que o produzido pelas ciências, entre outros reflexos, constitui-se em fonte de poder daqueles que têm acesso a esta produção. Ora, se os resultados de estudos relativos a grupos sociais são organizados, ignorando as peculiaridades ou desprezando-as, como poderão ser tomadas medidas que visem a realmente suprimir desigualdades que têm gerado a organização dos movimentos sociais? Cada vez se tem mais clareza da importância das categorias classe social, gênero, etnia nas ciências humanas. Quais outras serão do interesse dos movimentos sociais em geral e em particular? Nada mais do que pesquisas, num projeto conjunto com grupos dos movimentos sociais para situá-las e expressá-las.

Esta última afirmativa pode ensejar o entendimento de contraposição aos que entendem serem válidos os resultados de investigações somente se permitirem generalizações, bem como ao que se vem denominando mundialização das culturas, da vida diária. De um lado, isto sim, em se tratando de grupos dos movimentos sociais generalizações precisam ser cuidadosamente questionadas antes de qualquer aplicação. De outro lado, sem desconhecer os efeitos da globalização da economia, tampouco da agilização das comunicações no modo de pensar, de organizar a vida de povos e grupos sociais, convém ressaltar, como pondera Ortiz (1994), a existência cada vez mais difundida de uma cultural internacional não significa abolição das particularidades.

Com estes apontamentos, espero contribuir para que se continuem aprofundando o pensamento, as discussões, as escolhas, os critérios de análise, as motivações que engendram pesquisas junto a grupos dos movimentos sociais.

 

Referências bibliográficas

DUSSEL, E. Para uma Ética da Libertação Latino-Americana. São Paulo: Loyola; Piracicaba: UNIMEP, s.d.

LADRIÈRE, J. Les enjeux de la rationalité. Paris: Aubier-Montainge/UNESCO,1977.

ORTIZ, R. Mundialização da Cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994.

SILVA, P.B.G. e. Organização da Mulheres Negras, Hoje. Revista de Cultura Vozes, Petrópolis, Vozes, 84(2): 220-26.

WINTER, S. Do not call us negros. San Jose, CA: Basic Books, 1992.