Relações Sociais e Ética
Das crises e dos desafios
Nilza da Rosa Silva
No ponto em que nos encontramos, a definição provisória mais
englobante que eu proporia da subjetividade é: "o conjunto das
condições que torna possível que instâncias individuais e/ou
coletivas estejam em posição de emergir como território
existencial autorreferencial, em adjacência ou em relação de
delimitação com uma alteridade ela mesma subjetiva."
GUATTARI
A vida, como um elemento multicomponencial do real, se produz num processo que se faz entrelaçado à constituição do mundo e adjacente a esta. É o processo de objetivação copenetrado ao processo de subjetivação, em que a modificação da exterioridade e a modificação da interioridade se realizam ativa, simultânea e permanentemente sob as sínteses autopoiéticas do inconsciente. Torna-se, assim, tarefa inútil e impossível a demarcação da fronteira entre estas dimensões da subjetividade. Limite este elidido em todos os níveis, em todas as direções, em todos os sentidos, pelo desejo que, como fluxo mutante desterritorializante, tende a sair — do sujeito, da linha, do assunto, do codificado — a derivar, produzindo novos territórios.
Com tais considerações preliminares, apresento um resumo da análise de elos semióticos, que intercedem na dimensão processual da subjetividade, partindo do discurso e do repertório conceitual, perceptivo e afetivo de quatro pessoas aposentadas, com idades entre 56 a 69 anos, em Porto Alegre, no período de 1992 a 1993.
Utilizando o método cartográfico da esquizo-análise — cujo conjunto teórico provisório aproveita todas as oportunidades de fazer funcionar todo o acontecimento como desvelador do processo de subjetivação, de modo a tornar possível a reapropriação pelo desejo dos meios de produção da subjetividade — questionam-se: Com o que e como se conectam os acontecimentos para funcionarem? Quais pedagogias produzem os repertórios? Como se compõem as territorialidades histórico-geográfico existenciais? Que linhas e movimentos criam e/ou mobilizam os universos de referência existenciais/enunciativos/incorporais?
Fábio, Ester, Antônia e João, entre 1992 e 1993, participam de grupos diversificados que, enquanto agenciamentos (e por isso mesmo em conexão com outros agenciamentos), fazem uma espécie de organismo, de totalidade e que, simultaneamente, desfazem este mesmo organismo em multiplicidades.
Recorto aqui algumas experiências de vida, relatadas por cada um, como traços de intensidade que implicam num certo estado substantivo dos enunciados.
Do processo de subjetivação
O processo de subjetivação tem funcionamento rizomático — isto é, comparável a um rizoma — sob mais variadas funções, maneiras, extensão, componentes, movimentos, fluxos, sínteses.
Os elos semióticos — linguísticos, perceptivos, mímicos, gestuais, econômicos, urbanísticos, pedagógicos — as organizações de poder, as ocorrências científicas, as lutas sociais em conexão com a micropolítica do campo social (que me foram sendo desvelados por Fábio, Ester, Antônia e João) foram analisados sob quatro caracteres do funcionamento rizomático: 1) multiplicidade; 2) heterogeneidade; 3) cartografia e 4) ruptura assignificante.
Pela multiplicidade rizomática no processo de subjetivação, as linhas de fuga — as saídas realizadas — engrenando-se umas às outras, produzem dimensões, determinações e grandezas que mudam necessariamente de natureza à medida que aumentam suas conexões. Ao mesmo tempo, também se realizam linhas de segmentaridade (linhas de integração) pelas quais se efetuam as estratificações, a reterritorialização, a organização, a significação (que dá poder ao significante), as atribuições (que reconstituem um sujeito ou um objeto). Fábio, Ester, Antônia e João se inscrevem em diferentes relações de produção, formações de poder, disciplinas capilares e nem tanto, núcleos de parentesco, de aliança, de convivência, locais de moradia e de trabalho, cartografando o corpo pelo exterior. O universo referendal do corpo foi e continua sendo o trabalho. Através do trabalho acrescenta-se, alarga-se o território geográfico-histórico-existencial de cada um por desterritorialização, quebrando o instituído por linhas de fuga instituintes, mas, por segmentarização, estratificando e reterritorializando por linhas de integração. Mas sempre corpo-máquina.
Em Fábio, o corpo, conectado com a terra (um minifúndio), seus ciclos de produção, seus ritmos, sua sazonalidade, sua superfície de registro, seu consumo material e energético (que é também produção da produção), torna-se instrumento de produção/reprodução e objeto parcial de máquinas cada vez mais sofisticadas e precisas da indústria metalúrgica. Inicia seu devir-urbano, quando se processam simultaneamente quatro pedagogias principais: 1) fazer metalúrgico de uma linha de montagem; 2) trabalho assalariado; 3) língua portuguesa rebatida sobre o dialeto de origem; 4) vida conjugal e paternidade. Durante o processo de metropolização, que se faz há 43 anos, o corpo se torna suporte do desejo criador de máquinas simples, baratas, eficientes, engendradas durante as horas de lazer, nos diagramas que antecedem à montagem, desenhadas nas fibras nervosas do córtex cerebral e derramados sobre a mesa de desenho rudimentar. Máquinas submetidas aos maquinismos econômicos que as viabilizam ou não.
Em Ester, o corpo, disjunto da terra natal, acrescenta por desterritorialização outro território, ao qual se conecta na pedagogia do devir-imigrante naturalizado. Inicia, em Porto Alegre, seu processo de metropolização com, simultaneamente, seis pedagogias principais: 1) fazer de professora de rede pública de ensino; 2) burocracia estatal; (3) trabalho assalariado; (4) língua portuguesa rebatida sobre a língua de origem; (5) imigrante; (6) vida conjugal e maternidade. Corpo, instrumento de produção/reprodução e objeto parcial da burocracia do Poder Executivo e suporte do desejo criador de roteiros turísticos, traçados desde as fibras nervosas do córtex cerebral e estendidos sobre os mapas, os orçamentos, as programações e os procedimentos organizativos. Viagens submetidas aos maquinismos econômicos que os viabilizam ou não.
Em Antônia, o corpo, conectado à produção de consumo da terra (um latifúndio), torna-se instrumento de produção/reprodução e objeto parcial da burocracia do Poder Judiciário para a aplicação dos instrumentos legais às ações humanas. Seu processo de metropolização se faz há 39 anos, quando simultaneamente iniciam-se quatro pedagogias principais: 1) formação acadêmica; 2) exercício de profissão liberal; 3) burocracia estatal; 4) vida conjugal e maternidade. Corpo que se torna também suporte do desejo criador de versos enunciados desde as fibras nervosas do córtex cerebral e compostos sobre o papel, versos escritos primeiramente à mão. Enunciações cujas dimensões de alcance estão submetidas aos maquinismos econômicos que as viabilizam ou não.
Em João, o corpo, conectado à fábrica, seus ritmos, sua escalada de produzir por produzir (antiprodução), sua superfície de registro, seu consumo material e energético, torna-se instrumento de produção/reprodução e objeto parcial — como Fábio — de máquinas cada vez mais sofisticadas e precisas da indústria petroquímica. Nascido em Porto Alegre, seu processo de metropolização é simultâneo ao seu processo de vida, com as inúmeras pedagogias implicadas. Corpo também suporte do desejo criador de empresas comerciais, engendradas nas fibras nervosas do córtex cerebral e estruturadas através de dispositivos físicos, jurídicos e relacionais. Empreendimentos submetidos aos maquinismos econômicos que os viabilizam ou não.
Pela heterogeneidade rizomática no processo de subjetivação, os elos semióticos de qualquer natureza são conectados a modos de codificação muito diversos. Para essa multiplicidade de conexões, que informam a heterogênese das sínteses, concorrem também as línguas, os dialetos, as gírias, o jargão, com o que se produzem as falas, os discursos, os enunciados, as enunciações. O movimento, as velocidades, as trajetórias e os deslocamentos desses fluxos se realizam por imigração, êxodo rural, linhas rodoviárias, linhas ferroviárias, rotas turísticas, linhas fluviais, organizações de poder e midiáticas, lutas sociais, industrialização, linhas marítimas. Pulveriza-se assim, a ideia de domínio universal do significante e historiciza-se a hegemonia de uma língua, sua tomada de poder. A análise da linguagem carece, portanto, do seu descentramento sobre outras dimensões e outros registros. Neste processo, as linhas de fuga e/ou as linhas de integração se constroem permanentemente, sem fixar uma extremidade, uma ordem, já que qualquer ponto desse processo pode e deve estar conectado com qualquer outro ponto.
Em Fábio e Ester, o sotaque acentuado e/ou a miscigenação linguística constitui-se índices de resistência e/ou de despotencialização da língua de origem, pela tomada de poder da língua portuguesa.
Em Antônia e João, o jargão reterritorializa as relações de produção, de distribuição e de consumo, implicando na segmentarização e atribuições
Em todos eles, os elos semióticos cartografam a heterogeneidade do processo.
Pela cartografia rizomática, o processo de subjetivação traça um mapa aberto, conectável em todas as suas dimensões, todos os seus níveis, todas as suas direções e todos os seus sentidos, desmontável, transformável, inteiramente voltado sobre uma experimentação sobre o real.
Pode-se desenhá-lo sobre uma parede, concebê-lo como uma
obra de arte, construí-lo como uma ação política ou como uma
meditação. (Deleuze, Guattari, 1989, p. 20)
Este processo é estranho a toda a ideia de eixo genético (no qual se organizam os estágios sucessivos filo e ontogenéticos) e de estrutura profunda (no qual se invocam as essências que constituem a identidade e o sujeito), universalizados e unificados e, por isso, reproduzíveis ao infinito.
O devir-metropolitano, em Fábio, Ester, Antônia e João se produz numa dura e fascinante pedagogia, na qual a simultaneidade dos processos, a rapidez dos fluxos de produção, de distribuição e de consumo, a aridez dos processos de segmentarização imprimem à existência a marca do desgaste, da perda, da exaustão, da obsolescência (obsolescência programada da antiprodução?), vividas etapisticamente. Assim, o desejo é capturado pelas máquinas abstratas (maquinismos), as que são regidas pela lógica do capital, como superfície encantada de inscrição da produção, da vida, do mundo e como movimento objetivo aparente, gerador de todas as coisas, a quase-causa.
Fábio, Ester, Antônia e João funcionam dentro das atribuições matrizadas principalmente pelo gênero, classe, estrato socioeconômico, idade. É o estabelecimento da competência.
Pela ruptura assignificante rizomática, a aposentadoria de Fábio, Ester, Antônia e João concretiza a perda de consistência de vários agenciamentos, como a fábrica, a escola, o escritório, os colegas de trabalho, as organizações classistas, os sindicatos, o recorte e a estratificação das horas do dia e/ou da noite. São dentro desses agenciamentos que funcionam diretamente os agenciamentos coletivos de enunciação. Pela aposentadoria realiza-se a perda de consistência dos universos de referências públicos. Mobilizam-se novos universos de referência existenciais e/ou enunciativos e/ou incorporais, onde todos os campos de possíveis se abrem para o mundo privado. Fábio, Ester, Antônia e João executam ou não um movimento de resistência.
Fábio não se sente atraído pelo mundo privado e sobre o qual sua mulher exerce o pleno domínio. Correlação desvantajosa para ele que, no âmbito público, consegue relativa autonomia. Limitado por atribuições e estratificações, ele reterritorializa suas ações sobre o cultivo do quintal (uma horta), a reforma e ampliação da casa e a prestação de serviços aos filhos e ao neto. Mas é território de esgotamento rápido. Suas incursões sobre o espaço das atribuições ditas femininas produzem embates frequentes com a mulher que intensifica e amplia seu território privado o mais que pode, impulsionada pela perda de consistência do universo familiar, que se dá com a saída dos filhos para constituírem os seus próprios universos familiares. Território pequeno para o investimento de ambos. Zonas de atrito, de aprisionamento e de mágoas criam-se em torno de tarefas cotidianas, nas quais os excessos de economia, de desperdício, de cuidado, de esmero e de dedicação se sobrecodificam como mesquinharia, falta de zelo, perda de tempo e sufocamento.
Ester, resistindo a reterritorialização sobre a moradia e seu cotidiano de solidão, realiza linhas de fuga para o exterior da casa, para o interior do trabalho, para o interior da família ascendente (viagens, volta ao trabalho remunerado, visita a parentes), desinvestindo do seu âmbito particular.
Antônia oscila ainda entre os dois mundos, sobrecodifica-se avó, com todas as atribuições do cargo e o estende à esfera pública no eixo da caridade.
João, tal como Fábio, realiza um investimento fragmentado na esfera privada, na qual se sente intruso, mundo do qual esteve ausente grande parte do tempo. Revela-se inútil a tentativa de organização e de hierarquização desse espaço e seus fluxos à sua imagem e semelhança. Extraído de um universo de referência público, não consegue intervir no universo de referência privado, pleno dos filhos adolescentes e da mulher. E se mobilizam afetos de sofrimento.
Os desafios colocados às quatro pessoas — e nem sempre sustentados por elas — movimentam eixos imanentes entre si: 1) rupturas autonomizantes; 2) ressignificação da vida; 3) criação de novos universos de referência e novas modalidades de subjetivação singularizantes. Tais desafios estendidos também aos pesquisadores e/ou animadores de grupo — e nem sempre sustentados por eles — requerem a tenacidade e a delicadeza que a reinvenção do cotidiano exige.
Referências bibliográficas
DELEUZE, Gilles, GUATIARI, Félix. Mille Plateaux. Capitalisme et Schizophrénie. Paris: Les Éditions de Minuit, 1989.
____________. O Anti-Édipo. Capitalismo e Esquizofrenia. Lisboa: Assirio & Alvim, s.d.
GUATARRI, Félix. Caosmose. Um novo paradigma estético. Rio de Janeiro: Edições 34, 1992.