Relações Sociais e Ética

Maria da Graça Correa Jacques · Capítulo 20 de 22

Páginas do PDF

Relações Sociais e Ética

Ser mulher, ser homem: significações construídas por crianças de classes populares

Ser mulher, ser homem: significações

construídas por crianças de classes

populares

 

Nara M.G. Bernardes

PUCRS

Helena Beatriz Scarparo

PUCRS

Ana Helena P. do Amarante

PUCRS

Volnei S. Matias

PUCRS

 

Introdução

Este trabalho1 examina aspectos das imagens de ser mulher/ser homem construídas por crianças negras e não negras de classes populares, focalizando-as na perspectiva das relações de gênero.

O gênero, como um conceito teórico, tenta dar conta da construção social do sexo, apontando para o caráter relacional e histórico desse processo (Joan Scott, 1990). Ele questiona a naturalização das características definidas sócio-culturalmente como femininas ou masculinas e coloca novos desafios para o estudo de temas da Psicologia Social que aparentemente já estariam esgotados em sua compreensão, como por exemplo, as imagens sobre mulheres e homens presentes em nossa realidade social. Não se trata apenas de identificar semelhanças ou diferenças entre homens e mulheres mas de entendê-las como produtos das relações de desigualdade (gênero, raça/etnia, classe social, idade) que constituem a sociedade (Nara Bernardes, 1993).

Constituído por e constituinte de relações sociais, o gênero manifesta-se nos símbolos culturais, nos conceitos normativos, na política, nas instituições e organizações sociais e nas identidades subjetivas (Joan Scott, 1990).

As subjetividades femininas ou masculinas entendidas como o modo próprio de o ser humano se pôr e se expressar no mundo (Hanna Arendt, 1989) apresentam configurações múltiplas numa mesma sociedade. Isto porque o desenvolvimento do gênero de homens e mulheres é um processo que envolve não só recepção passiva mas também resposta ativa às situações conflituosas (Jean Anyon, 1990). Ao se defrontarem com expectativas sociais e culturais que são divergentes, opostas, mulheres e homens são capazes de aceitar, de adaptar-se ou de negar, de transformar, são, portanto, capazes de acomodações e de resistências em diferentes planos (subjetivo, intersubjetivo e coletivo). As construções de sujeitos masculinos e femininos "se fazem de acordo com diferentes modelos, ideais, imagens que têm as diferentes classes sociais, raças, religiões, etc. sobre mulher e sobre homem" (Dagmar Meyer, Guacira Louro, 1993, p.3).

O presente estudo buscou compreender como se mostravam as imagens de ser mulher/ser homem em crianças (de 9 a 12 anos de idade) negras e não negras, pertencentes a segmentos das classes populares que habitam a periferia urbana da região metropolitana de Porto Alegre (RS). Essas crianças pertenciam a grupos familiares que se organizavam de forma diversificada: família conjugal, família conjugal recomposta e família chefiada por mulher. Eram moradores da mesma vila e frequentavam a mesma escola de primeiro grau (na terceira e quarta série).

Tendo como ponto de partida empírico a experiência vivida desses sujeitos foram estudadas, por meio de uma análise compreensiva de base fenomenológica, as vivências e significações de um grupo de 28 crianças, bem como de adultos significativos que fazem parte de seu mundo da vida (mãe, pai, outros familiares, professoras). Os dados foram coletados em 1987.

 

Desvelamento das imagens

A análise das vivências e significações permitiu captar imagens do ser mulher/ser homem que estão sendo construídas por essas crianças e que envolvem múltiplas esferas de experiência: família, trabalho no espaço doméstico, trabalho e movimento em outros espaços.

Família

A família foi focalizada pelas crianças no âmbito da relação conjugal, entendida como uma situação de convivência mais permanente, independentemente de existirem vínculos legais entre os cônjuges. Ela implica relações de poder e relações de amor.

A maioria das crianças considera que o esposo e a esposa devem obediência mútua, de forma idêntica. A obediência, contudo, não é incondicional mas depende de a ação ser considerada correta.

Algumas das ações que são avaliadas como corretas são:

– quando um dos cônjuges ausenta-se da casa deve avisar ao outro para evitar preocupações, embora não seja necessário pedir autorização para fazê-lo;

– se a esposa discorda de decisões do esposo está dispensada de seguir suas determinações;

– a esposa deve exigir que o esposo se responsabilize pelo sustento da casa mesmo que este não queira trabalhar e deseje que ela assuma tal responsabilidade;

– o esposo deve insistir para que sua esposa exerça um trabalho remunerado quando isto for necessário, mesmo que ela não o deseje;

– a esposa deve exigir que o esposo realize suas obrigações nos serviços da casa.

– o esposo deve chamar atenção de sua esposa quando esta realiza ações inconvenientes, tais como fazer compras supérfluas;

– o esposo deve obedecer sua esposa porque ela também possui autoridade na família;

– os desejos da esposa durante a gravidez devem ser atendidos;

Entre as ações do esposo que são consideradas incorretas e que, portanto, não devem ser obedecidas destacam-se:

– não permitir que a esposa conviva com pessoas externas à família como amigas, parentes, exigindo que ela permaneça em casa;

– mandar excessivamente na esposa como se fosse seu pai;

– determinar que a esposa faça algo para o qual ela julga-se inepta;

– não permitir que a esposa trabalhe fora de casa;

– cercear a circulação da esposa em outros espaços que não o doméstico;

– determinar uma carga excessiva de serviços da casa para a esposa executar.

Algumas meninas, entretanto, acentuam que, em geral, a autoridade do esposo é mais saliente uma vez que nem todos os homens aceitam obedecer à mulher. Além disso, quando a esposa faz alguma ação avaliada como errada, o esposo julga-se no direito de chamar-lhe atenção.

A ideia da ação correta também aparece na reciprocidade do exercício do poder entre os cônjuges. Um menino não negro de família chefiada por mulher, por exemplo, considera que a esposa só deve aceitar determinações do esposo que ela julgar corretas e que este, por sua vez, deve também obedecê-la nas mesmas condições.

Divergindo desses sujeitos que consideram que a obediência na relação conjugal deve ser mútua, poucas crianças não negras afirmam que o esposo deve possuir maior poder e exercer maior autoridade do que sua esposa. Esta ideia mostra-se acompanhada das seguintes explicações:

– o esposo deve ter mais liberdade e não pode admitir a interferência de sua esposa a não ser quando se trata de alguma ação que venha a prejudicá-lo;

– o esposo tem mais competência para mandar em virtude de ser pai e dono da casa;

– a esposa deve obedecer para evitar o conflito;

– a esposa deve cumprir as determinações de seu esposo em relação aos serviços domésticos, uma vez que permanece mais tempo em casa do que ele;

Entre essas crianças não negras que consideram que a posse do poder e o exercício da autoridade são próprios do esposo, os meninos apresentam certa ambiguidade ao mencionarem algumas possibilidades eventuais de a esposa também compartilhar de tais atributos:

– em assuntos nos quais ela tem razão;

– no que concerne ao cuidado das crianças;

– para evitar que o esposo tenha prejuízos econômico-financeiros.

Numa posição diferente das anteriores, as crianças pertencentes a famílias chefiadas por mulher, por sua vez, acham que nem a esposa nem o esposo devem obediência mútua uma vez que são pessoas independentes e nenhum tem poder sobre o/a outro/a.

Essas significações mostram que as relações de poder entre homens e mulheres quando visualizadas na situação de uma união (legal ou consensual) mais permanente, são percebidas pela grande maioria das crianças (independentemente do gênero, raça ou tipo de família) como sendo igualitárias. Raras crianças consideram legítima a assimetria entre os gêneros, atribuindo maior poder/autoridade ao homem.

No que tange às relações de amor na família, algumas crianças não negras consideram que a convivência entre os cônjuges deve caracterizar-se pelo amor e pelo carinho. Outras crianças não negras bem como os meninos e as meninas negros/as agregam o respeito ao amor e ao carinho. Este se define pela negatividade e se expressa em ações que são comuns a ambos os cônjuges: não brigar, não se irritar, não maltratar, não repreender, não envolver-se com outro homem ou outra mulher. Aparece apenas uma ação específica do esposo: não beber. A necessidade do respeito, portanto, mostra padrão semelhante para a mulher e o homem pois inclui a negação de ações relativas à agressividade, à violência, ao controle e à infidelidade. O padrão masculino de respeito inclui, também, a negação do alcoolismo que parece ser mais comum à conduta dos homens.

Um menino de família conjugal recomposta acentua que o tratamento carinhoso e respeitoso da esposa em relação ao seu esposo requer reciprocidade.

Atributos associados à família colocam o homem em posição de vantagem quando este é avaliado comparativamente à mulher. Algumas crianças (meninas e meninos) não negras destacam que o homem:

– é mais capaz de cuidar da mulher e dos filhos;

– representa um valor muito significativo para seus filhos, sua esposa e sua própria mãe.

Ao contrário, outros meninos não negros assim como meninas negras e não negras apontam vantagens da mulher:

– garante a reprodução dos homens e das mulheres;

–é capaz de assumir o cuidado e a educação das crianças.

A este respeito, um dos meninos (de família conjugal recomposta) chama atenção também para uma desvantagem da mulher que consiste na possibilidade de engravidar e ter de assumir sozinha a responsabilidade pelo/a filho/a no caso de o pai da criança não permanecer junto a ela.

Trabalho no espaço doméstico

Entendemos por trabalho no espaço doméstico atividades que se realizam de modo gratuito e isolado na privacidade da casa para manter a vida e promover o bem estar da família. Para as crianças, a responsabilidade por esse trabalho que engloba as atividades consideradas serviço da casa (limpeza, arrumação do espaço interior da casa ou do pátio, alimentação e higiene pessoal do membros da família) é essencialmente atribuída à mulher. Tal significação, contudo, não impede que a participação dos homens nessas tarefas, particularmente dos meninos, seja vista como adequada à conduta masculina. Apenas poucos meninos não negros de família conjugal entendem que tais tarefas são impróprias para os homens executarem.

De modo geral, as crianças valorizam a competência do homem para realizar tarefas atribuídas à mulher, especialmente em situações em que esta (adulta, adolescente ou criança) encontra-se ausente porque exerce um trabalho remunerado fora de casa; ou ainda, em situações emergenciais, por exemplo, devido à doença da mulher, ao puerpério. No cotidiano dessas famílias de classes populares não se encontra a figura da empregada doméstica que executa e, às vezes, até se responsabiliza por tais tarefas.

Para as crianças, a responsabilidade pelo trabalho no espaço doméstico passa a ser atribuição do homem quando se trata de tarefas que se destinam à conservação da casa e/ ou de seus equipamentos por meio de consertos diversos; ela se revela de modo especial em relação à construção da casa. Tais atividades são percebidas como um trabalho que foge da rotina e requer habilidades culturalmente consideradas como masculinas, inclusive porque algumas exigem mais força física.

Um dos trabalhos no espaço doméstico que raramente pode ser fracionado ou postergado — cuidar das crianças e dos idosos é considerado uma atribuição mais específica da mulher, seja ela adulta, adolescente ou criança. Nas sociedades capitalistas operou-se uma distinção mais nítida entre a produção de bens materiais e a reprodução de seres humanos. Os vínculos imediatos e diretos que a maternidade estabelece com os cuidados indispensáveis à sobrevivência do bebê são pensados como sendo naturais. Tais vínculos ampliam-se de forma a englobar tarefas que se destinam à manutenção (física e psicológica) e à educação das crianças durante seu desenvolvimento posterior. A atribuição histórica e cultural de tais tarefas ao gênero feminino perpassa raças e classes sociais, quer as próprias mulheres tenham gerado as crianças, quer estejam com as crianças por delegação de que as gerou.

Trabalho em outros espaços

O trabalho em outros espaços inclui o trabalho remunerado e realizações. As significações apresentadas pelas crianças demonstram uniformidades mas também ambiguidades.

A maioria das crianças aponta o trabalho remunerado como um dos valores mais relevantes na vida do homem e, também, da mulher. No caso do homem, esta valorização parece ser tácita uma vez que essas crianças não se preocupam em justificá-la. Em se tratando da mulher, contudo, algumas meninas e alguns meninos oferecem explicações:

– garante maior consumo para os filhos;

– permite um cuidado melhor da saúde dos filhos;

– permite buscar o atendimento dos interesses da mulher bem como a conquista do que deseja;

– garante a sobrevivência da família. Esta ideia foi expressada por uma menina e um menino cujas famílias são mantidas, basicamente, por meio do trabalho assalariado da mãe.

Tais significações, contudo, não impedem que, de modo geral, o trabalho remunerado da mulher seja concebido pelas crianças como sendo essencialmente uma ajuda ou colaboração prestada ao homem na sua função de responsável pela manutenção econômico-financeira da casa e da família.

Atributos concernentes ao trabalho em outros espaços colocam o homem em posição de vantagem em relação à mulher, conforme as significações construídas por crianças não negras (meninas e meninos) bem como por meninos negros:

– saber e saber fazer;

– ter acesso mais fácil ao mercado de trabalho à medida que é capaz de fazer trabalhos mais diversificados;

– não sofrer restrições no trabalho em decorrência da maternidade;

– poder ter uma profissão;

– trabalhar menos do que a mulher porque esta trabalha também em casa;

– trabalhar menos porque pode mandar outros executarem as tarefas;

– saber mandar;

– ser mais capaz de construir e inventar objetos;

– ter maior acesso a cargos de poder tanto políticos como profissionais.

Por outro lado, algumas crianças negras e não negras salientam atributos também concernentes ao trabalho em outros espaços os quais favorecem à mulher:

– ser mais esperta que o homem;

– saber pensar e argumentar melhor que o homem;

– ser mais capaz e ter mais habilidades do que o homem porque realiza atividades mais diversificadas (trabalha fora de casa, faz os serviços domésticos, cuida de crianças);

– poder ter uma profissão e trabalhar;

– realizar trabalhos mais leves e que exigem menos esforço.

Movimento em outros espaços

O movimento em outros espaços que não o doméstico consiste em sair dos limites da casa para circular, em lugares variados de trabalho e lazer, sem estar sob controle de outros.

Alguns meninos (família conjugal recomposta ou chefiada por mulher) bem como algumas meninas de família conjugal assinalam atributos ligados ao movimento em outros espaços, os quais colocam a mulher em posição de vantagem ou, pelo menos, de igualdade em relação ao homem:

– a mulher é independente e não necessita do homem para realizar seus desejos;

– corre menor risco de criar problemas para si, praticando ações socialmente indesejáveis;

– é capaz de se defender;

– tanto quanto o homem, a mulher possui liberdade.

Uma das meninas, por exemplo, enfatiza como um dos valores mais significativos na vida da mulher sua capacidade para defender-se e tomar conta de si, mesmo quando sozinha.

Ao contrário, outros meninos negros e não negros assim como outras meninas não negras chamam a atenção para condições que colocam o homem em posição de vantagem em relação à mulher:

– sabe defender-se melhor quando agredido na rua;

– pode ser mais independente em espaços diversos;

– sofre menor controle da família para movimentar-se em espaços que não o doméstico para atender a seus interesses;

– tem maior acesso ao lúdico fora do espaço doméstico;

– não necessita da permissão da mulher para fazer o que deseja;

– tem maiores possibilidades de satisfazer seus desejos;

– pode namorar mais precocemente e com mais intensidade;

Para algumas meninas, inclusive, a liberdade de movimentar-se em espaços diversos, sua capacidade para se defender no mundo e para afastarse de casa sem precisar de ajuda consistem em valores muito significativos na vida dos homens.

Ao mesmo tempo, alguns desses meninos e essas meninas consideram a mulher mais incompetente, irresponsável ou sujeita a correr riscos quando está fora de sua casa. Uma das meninas, por exemplo, aponta a necessidade de a mulher cuidar-se e não se envolver com pessoas estranhas.

Representam exceções os poucos meninos para os quais tanto a mulher quanto o homem têm as mesmas possibilidades de ser livres no seu movimento em quaisquer espaços.

 

Identificação com o gênero

As meninas negras e poucas meninas não negras expressaram uma valorização muito nítida da mulher e foram enfáticas ao afirmarem o desejo de permanecerem mulher quando confrontadas com a possibilidade imaginária de nascerem novamente. Essa valorização diz respeito à esfera do trabalho no espaço doméstico e em outros espaços, como o do trabalho remunerado, à sua inteligência e competência para cuidar de si e às suas possibilidades de movimentar-se em espaços diversos.

Juntamente com os meninos negros e algumas crianças não negras, essas meninas negras repudiam qualquer relação de dominação entre homens e mulheres. Por outro lado, a concepção de ser mulher/ser homem dos meninos negros não se revela tão polarizada como em outras crianças, principalmente, em outros meninos.

Os meninos negros pertencem a famílias chefiadas por mulher. Esta modalidade de organização familiar não é restrita, mas faz parte do modo de as pessoas negras se constituírem como grupo social. Entre as famílias chefiadas por mulher aparece a família formada por pessoas agregadas que, às vezes, não possuem laços de parentesco ou este parentesco é distante. Nesta pesquisa, as famílias negras chefiadas por mulher caracterizavam-se por serem formadas por duas mulheres adultas e por incluírem pessoas sem laços de parentesco com elas, como adolescentes ou crianças adotadas (mesmo que por meios informais). Apesar de viverem em condições financeiras precárias (renda familiar mensal inferior a dois salários mínimos), essas mulheres exibiam um sentimento muito forte de solidariedade e de responsabilidade em relação a crianças que não foram geradas por elas. Neste aspecto diferem das famílias chefiadas por mulher não negras cujo modo de organização resultou da separação do casal ou da viuvez e que, embora morando na mesma casa ou no mesmo terreno do pai ou do sogro, entendem que sua família é formada por ela e seus filhos ou filhas.

Entre as crianças negras deste estudo, portanto, a figura feminina mostra uma presença marcante e se constitui num ponto de referência.

A maioria das meninas não negras mostrou uma postura oposta à das outras meninas não negras bem como das meninas negras que desejam permanecer mulher. Confrontadas com o ser mulher/ser homem que se constituem de modo assimétrico no sentido da valorização do homem, a maioria das meninas não negras manifestou o desejo de nascer homem caso isso pudesse ocorrer novamente. O cerne desta valorização, que se apresenta ou de forma muito explícita ou carregada de ambiguidades, diz respeito às possibilidades, à competência e à legitimidade para sair dos limites do espaço doméstico para outros espaços, por exemplo, para o mundo da rua. Essas meninas que desejariam mudar de gênero, mesmo que imaginariamente, visualizam o homem como alguém que possui maior liberdade e independência do que a mulher para movimentar-se em quaisquer espaços.

Tomando como referência, igualmente, as significações que atribuem ao ser homem uma valorização mais positiva do que ao ser mulher em diferentes esferas de experiência, os meninos, sem exceção, preferem continuar sendo homens. Explicitam, assim, uma identificação menos ambígua com seu gênero ao mesmo tempo em que assinalam claramente as assimetrias entre homens e mulheres.

Em suma, o desvelamento das imagens do ser mulher/ser homem de crianças negras e não negras de classes populares, sujeitos desta investigação, revela um universo complexo e múltiplo de significações que formam uma rede na qual aparecem uniformidades e consistências mas também variações e ambiguidades. A construção dessas subjetividades não se dá como um processo linear e homogêneo que pode ser generalizado de modo essencialista em identidade de homem ou de mulher. Ao contrário, tais imagens apontam múltiplas possibilidades de tecer significações que constituem subjetividades singulares nas diferentes articulações do gênero, da raça/etnia e da classe social.

 

Referências bibliográficas

ANYON, Jean. Intersecções de gênero e classe: acomodação e resistência de mulheres e meninas às ideologias de papéis sexuais. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, n. 73, p. 25-47, maio 1990.

ARENDT, Hanna. A condição humana. 4ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1989.

BERNARDES, Nara M. G. Autonomia/submissão do sujeito e identidade de gênero. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, n.85, p. 43-53, maio 1993.

MEYER, Dagmar, LOURO, Guacira A escolarização do doméstico. A construção de uma escola técnica feminina (1946-1970). [1993]. Mimeo gr.

SCOTT, Joan. Gênero, uma categoria útil de análise histórica. Educação & Realidade. Porto Alegre, v.16, n.2, p. 5-22, jul./dez 1990.

1 Este trabalho foi desenvolvido pelo Grupo de Estudo de Educação, Subjetividade e Gênero, coordenado pela Profa. Nara M. G. Bernardes, o qual tem recebido apoio do CNPq, da FAPERGS e da PUCRS.